Idiotas vinculados
3 As Harpias Assassinas
Notas iniciais
Estava caminhando até o lago, quando eu vi uma luz brilhante, acho que era de uma lanterna, e uma voz muito seria e aguda falava, me aproximei e me escondi atrás de uma arvore, quando eu olhei estritamente para luz da lanterna vi quem era, fiquei muito surpreso de ver a pessoa que esta naquele local.
Era a Mari e ela estava mandando uma mensagem de Íris para alguém, posso dizer que ela não parece ser uma daquelas pessoas que gosta de conviver em grupos familiares, ela parecia que gostava de estar sempre sozinha. E também parecia não gostar de ter amigos.
Quando chegamos ao acampamento, a pessoa que ajudou Mari a enviar alguém para socorrer o Felix foi a Katherine. Ela era uma pessoa legal. Ela fazia caretas engraçadas em quanto conversava com agente ou quando se surpreendia com alguma coisa e às vezes ela pensava muito antes de falar, acho que era para não dar uma má impressão para nós.
Quanto ao Kyle, ele foi extremamente acolhedor com a gente. Foi ele quem mostrou o chalé 11 para ela e para a Jessie. Quíron explicou tudo a elas sobre as razões porque o Olimpo agora se localiza nos Estados Unidos e sobre seus pais. Elas ainda não sabiam quem eles eram, mas pude ver que Quíron já tem suas suspeitas em relação ao pai/mãe da Jessie.
Depois de ter pensado sobre isso tudo, olhei de espreita de novo para a luz da lanterna e vi uma imagem de um menino que estava com a cabeça entre os braços com jeito de preocupado, depois ouvi uma vozinha.
– Psiu! – Chamou Mari. O menino na imagem levantou a cabeça, olhando ao redor. Quando viu Mari, em menos de um segundo, sua expressão foi da confusão ao alívio, e então ao desespero.
– Mari, é você?! – Ele perguntou, saltando do banquinho. Seus olhos estavam vermelhos e ele parecia perturbado. – Mas... como?
– Calma, calma. – Tranquilizou Mari, acho que com um movimento com as mãos, pois não conseguia vê-la direito. – Isso é uma mensagem de Íris, eu não estou em casa. Não de verdade.
Ele pareceu relaxar um pouco.
– Quando criança escutava a mamãe falar sobre essas mensagens. Apesar disso, nunca pensei que elas fossem ser tão reais. – Sua expressão amenizou, e pude ver uma solidão em seus olhos. – Mas como você...
Ela o cortou antes que ele tivesse a chance de terminar a pergunta.
– Estou no acampamento meio-sangue agora. Não vou poder ficar muito tempo falando com você. Aqui eles tem uma espécie de toque de recolher macabro que envolve bichos assassinos chamados harpias... o que quer que elas sejam, não quero encontra-las.
– Acampamento... – Ele parecia estar digerindo a história. – Mamãe me disse que esse dia ia chegar. Nunca me preparei pra isso, apesar de tudo. Como você foi parar aí?
– Ah, uma longa história. Mas inclui um idiota borrifador de água, – Eí!, Pensei. — e uma menina que serve de ímã pra armas brancas e um professor – o senhor Jordan, sabe? – que é um homem-bode.
Isso pareceu o divertir.
– Homem-bode? – Ele perguntou com descrença.
– O termo correto seria sátiro. Mas essa não é a pior parte. O cara deveria nos proteger, mas desmaiou no meio da missão e nos deixou sozinhos pra derrotar um cão infernal... – Seu irmão saltou à menção da fera.
– C-cão infernal?! – Ele gaguejou. – Vocês viram um desse? Ta tudo bem com você? O que ele te fez?
– Calma, mano, ta tudo bem. Por que o susto? – Perguntou ela. – Por acaso você conhece algum cão infernal?
– Já encontramos um, mamãe e eu. Você ainda não havia nascido, e quase não teve a chance de nascer devido a uma dessas feras. Parece que eles têm um motivo particular pra não gostar da gente devido a quem é seu... – Ele hesitou, incerto se deveria continuar.
– Devido ao meu pai, certo? – Completou Mari, num tom de desanimo. – Por que nunca me contou sobre ele?
– Mamãe disse que você não deveria saber até que fosse a hora certa. Isso colocaria a todos nós em risco.
– Você sabe qual deles ele é?
Seu irmão balançou a cabeça negativamente, desviando o olhar.
– Não, ele nunca me contou sua verdadeira identidade. Me diziam que seu nome era Arthur, e só a mamãe sabia quem ele realmente era. Mas pelo modo como se portava, posso garantir que ele não era o deus mais iluminado. Existe algum deus da noite?
– Deusa. O nome é Nyx.
– Então essa possibilidade pode ser descartada. – Ele deu uma risada, e dessa vez por incrível que pareça fez Mari rir junto. A descontração durou pouco, pois logo ele a olhou com olhos cansados. – Só de pensar nos perigos que você pode correr daqui em diante, me dá um desespero.
– Então não pense. – Rebateu Mari. – Vai ser melhor assim.
A imagem tremeluziu e pude ver a lanterna começar a falhar.
– Tenho que ir, estou ficando sem um arco-íris e ainda corro o risco de ser pega fora da cama após o toque de recolher, se eu não andar logo.
– Vá, mas tome cuidado. Os perigos pelos quais mamãe e eu passamos podem acabar não sendo nada comparados aos perigos que você vai passar daqui em diante.
– Eu serei cuidadosa. E você também, se cuida, hein?
– Cuido sim. Agora vá dormir, boa noite. Ah, e... Mari?
– Sim?
– Confiar nas pessoas nem sempre é um erro, lembre-se disso. Agora boa noite.
Achei legal oque ele disse, mas ele não parecia ser um cara de palavras profundas. Mesmo assim, Mari respondeu:
– Boa noite, e obrigada pelo conselho.
Vi a mão de Mari passar na imagem à frente dela e se dissipou como névoa. Um par de segundos depois, a lanterna se apagou de vez, deixando apenas a lua para iluminar o caminho entre o lago e o chalé 11.
Mari se levantou de onde ela estava sentada e começou a caminhar, tentei mudar de lugar para ela não me ver, mas fiz uma burrada, pisei em um galho. – droga! Sussurrei.
– Quem esta aí? – disse a voz de Mari um tanto amedrontada. – Quem está aí!? – Perguntou de novo ela estava se aproximando. Tentei ficar quieto, mas não deu muito certo, pisei em outro galho. Desisti e saí de traz das arvore.
– Oi? – Disse um pouco envergonhado e com medo. – Eu é...
– Você!? – disse ela, não consegui ver sua expressão porque estava escuro, mas acho que era de muita raiva. – Espera... Primeiro você joga água em mim. Segundo, graças a você quase fui morta por um cão enorme que eu pensava que não existia, me traz pra este fim de mundo e fica me vigiando? Quem você pensa que é? O que você...
– Calma, calma! – tentei acalma-la. – Eu só pensei em vir até o lago para pensar em tudo que eu passei hoje, eu não sabia que tinha alguém aqui.
– Há, bela desculpa. – disse ela cruzando os braços. – O quanto você ouviu?
– O suficiente... – Disse tentando não mostrar nervosismo. – Mas foi sem querer eu juro pelo tridente de Poseidon.
– HÁ-HÁ-HÁ engraçadinho – disse ela num tom irônico. – Você é um idiota mesmo...
De repente ela foi interrompida por um ruído, um pouco a nossa frente havia uma figura em cima de uma pedra, eu e Mari nos entreolhamos e depois olhamos para imagem em cima da pedra em silêncio. Parecia uma galinha gigante com rosto e corpo de mulher. O bicho olhou pra mim e depois para Mari, seus olhos brilhavam em um amarelo muito intenso com a luz do luar, e veio com calma em nossa direção. Achei que fosse amigável, até o momento em que ela abriu as asas e mostrou-nos as garras nos pés – de galinha, por sinal – e voou em disparada para cima de nós. Sem sabermos o que fazer, corremos sem direção.
Tão sem direção que não podia ser maior nossa surpresa quando nos deparamos de frente à Casa Grande. Tal surpresa fez com que Mari tropeçasse na raiz protuberante de uma árvore próxima. A mulher-galinha já estava quase em cima de nós.
– O que fazemos? – Perguntei a Mari que estava tentando se levantar.
– Não sei. — Disse ela numa voz de raiva. – Você tem uma espada, idiota, use-a.
– Há! É verdade. – Puxei minha corrente e logo ali estava a minha espada. A Harpia que estava a um metro próximo de nós tentava se aproximar mais, mas eu sempre brandia a espada tentando afasta-la.
Sem esperanças, ataquei a mulher-galinha que deu um grande salto, mas eu fui mais rápido e consegui acertar uma de suas pernas, ela deu um grande berro e vi sua perna cair a minha frente e virar pó instantaneamente, a mesma que estava mais a nossa frente nos berros começou a virar pó lentamente. Quando eu olhei para traz para ver onde estava Mari vi que ela estava olhando pra traz de mim com uma expressão vazia e de repente.
– Cuidado! – Berrou Mari.
Quando me virei vi mais uma Harpia ainda maior voando em minha direção. Ela veio tão rápido que acertou suas duas patas com garras afiadas eu meu peito, onde me fez voar para perto de Mari e minha espada ser lançada dos metros longe de min, olhei meio zonzo no local onde a Harpia me atacou e pude ver ela dando a volta no ar para mais um ataque, sem ideia nenhuma do que fazer me encolhi no chão e Mari faz o mesmo, ela estendeu as mãos em frente ao corpo numa tentativa de proteção – como se fosse adiantar alguma coisa – e, ali no chão, esperei pelo ataque.
Um ataque que nunca veio.
Após alguns segundos encolhidos, resolvemos olhar para o bicho, mas tudo o que encontramos, entretanto, foi uma enorme parede de terra erguida entre nós e o lugar de onde o bicho vinha. – de onde surgiu aquilo?
– Uau! Porque você não disse que podia fazer isso? – Disse esfregando o peito, por causa dos cortes das garras da Harpia.
– Eu não... Eu... Eu não sei como eu fiz isso, talvez nem tenha sido eu. – Retrucou ela.
Andamos alguns passos e vimos que, do outro lado daquela parede, se encontrava a Harpia, desmaiada. Me deu desespero, meu coração acelerou. Eu tinha acabado de escapar da morte pela segunda vez no mesmo dia.
Ouvi barulhos de cascos à minha direita. Olhei em direção à Casa Grande e pude ver Quíron parado ao pé da escada da sacada de braços cruzados. Pela cara que ele estava fazendo, soube que estávamos encrencados.
– C-como isso a...aconteceu? – Perguntou Mari confusa a Quíron, eu também queria saber, comecei a suspeitar que ele fosse o responsável pelo aparecimento repentino da parede de terra. O movimento de sua sobrancelha me disse que eu estava errado.
– Eu é que te pergunto minha cara. – Disse ele olhando para Mari. — Assim como te pergunto por que é que vocês estão fora da cama após o toque de recolher.
Ah, droga! Eu acabei me distraído e não percebi o tempo passar.
– Desculpa, eu estava... eu estava falando com meu irmão e... quando eu voltei eu vi... – Ela me olhou com cara de “Você vai se ver comigo” – Eu vi Henry e depois a Harpia e nós achamos que fosse amigável... – Ela não conseguia encontrar as palavras pra explicar – mas aí ela nos atacou.
– E Você senhor Clawd, o que esta fazendo a essa hora fora do Chalé 3?
– Eu estava tentando entender o que aconteceu comigo hoje, então pensei em ir ao lago pra tomar um ar fresco e digerir a situação então... – Olhei para Mari e ela mexeu a cabeça negativamente tentando disfarçar – Então foi quando eu me distrai com meu pensamento e encontrei Mari vindo direto do lago. E aí que fomos atacados. – Algumas partes desta explicação foi mentira, mas foi uma das melhores maneiras de se safar da encrenca.
Quíron olhou nos olhou com desconfiança e então pediu pra que nós entrássemos na casa grande. Nos deixou em uma sala estranha e disse que voltava logo. A sala possuía vários quadros nas paredes, algumas poltronas e uma mesa de sinuca bem no centro.
Quando voltou, trouxe o senhor gorducho de camisa extravagante que se senta na mesa grande na hora do jantar. Seu pijama não era menos extravagante que sua camisa. Sr. D, era assim que Brandon o chamava. Ele olhou para Mari com uma sobrancelha erguida e apontou para a janela.
– Então, foi você que fez aquele estrago ali fora, hein mocinha?
– Dionísio! — Quíron o repreendeu.
– Ah, ok, ok, eu pego leve com ela. – Sr. D disse levantando os olhos em sinal de rendição, então se voltou pra ela. – Você já tinha feito algo desse tipo, Srta. Castanho?
– É Cattane. – Corrigi-o, e pude vê-lo dando de ombros, tentei segurar o riso. – E não, eu nunca fiz nada disso, assim como não fiz aquilo ali fora.
– Problema resolvido, então. – ele abriu um imenso sorriso e deu as costas, apenas para se deparar com Quíron bloqueando a saída. Murmurando alguma coisa sobre “velho insuportável”, ele se sentou em uma das poltronas. Quíron veio em nossa direção e encarou Mari preocupado.
– Senhorita Marine... – Ele foi interrompido.
– Mari – Ela o cortou.
– Mari, então. Nós só queremos ajudar, então precisamos que você se esforce e tente se lembrar. Alguma vez você já teve alguma conexão com a terra, de alguma maneira?
Ela ficou pensativa, ela parecia estar levando a serio, e então mexeu a cabeça negativamente.
Quíron e Sr. D se entreolharam com preocupação. Troquei meu peso de uma perna pra outra, enquanto Quíron mexia as patas de trás nervosamente. Isso era estranho. Então ele se abaixou pra ficar a altura dela e perguntou num tom mais baixo.
– E... e com a morte?
Seus olhos se arregalaram. Sua expressão era de “Como ele sabia?” e depois ficou pensativa, acho que se lembrou do que seu irmão lhe disse, sobre confiar nas pessoas.
– Mais ou menos. Há algum tempo, pouco antes de minha tia morrer. Eu sabia que ia acontecer, antes mesmo dela adoecer. E tem minha mãe. De alguma forma eu sei... eu sei que ela não está mais morta. Sei que ela reencarnou há uns 4 anos.
Sr. D enrijeceu na poltrona. Quíron ficou ainda mais inquieto.
– Muito obrigado, senhorita Cattane. Você pode voltar ao chalé agora. – Gesticulou Quíron.
– Mas do que se tratam essas perguntas que me fizeram? Qual a importância da minha ligação com essas coisas? – Perguntou ela impaciente, eu também estava ficando curioso, me esforçando ao máximo pra prestar atenção em cada palavra.
– Isso não é algo que lhe possa ser revelado por enquanto. Peço que vocês não comentem com seus colegas sobre o que aconteceu essa noite, sim? Boa noite, senhorita Cattane.
Ela pareceu querer protestar e tentar saber o que estava acontecendo, mas a prudência a impediu. Com um boa noite, nos despedimos.
Ao me virar para ir até a saída com Mari Quíron me chamou:
– Sr. Clawd, venha até aqui, por favor? – Parei um tanto nervoso e virei e vi Quíron com um gesto de mão me chamava, olhei de novo para saída e Mari me encarou com a cara de “tá, eu te espero” e revirando os olhos. Fui até ele. – Temos que cuidar desses ferimentos.
– Tudo bem – concordei.
Em nem me lembrava de mais de estar ferido, mas quando o Sr. Quíron falou sobre, a ferida começou a queimar. Levou alguns minutos até ele terminar de examinar a ferida em quanto o Sr. D não para de me encarar e ele disse:
– Você foi muito corajoso enfrentado aquelas Harpias, acho que se a garota estivesse sozinha a primeira Harpia tinha trucidado ela – Disse Sr. D olhando meus ferimentos. Quando do nada eu lembrei “minha espada!” Passei a mão em meu pescoço e vi que minha corrente estava lá, então me tranquilizei, minha espada sempre voltava em forma de corrente para o meu pescoço quando eu a perdia ou mesmo quando eu estava em casa, esquecia de colocara e do nada ele estava no meu pescoço, era muito legal isso.
– Dionísio! – brigou Quíron novamente.
– Ué, só estou dizendo a verdade! – Quíron bufou e depois disse.
– Olha Sr. Clawd seu ferimento não é muito grave, mas eu vou te dar uma coisa que logo de manha vai estar bem melhor, a dor vai atrapalhar seu sono um pouco, mas você vai ficar bem. – Ele foi até um armário ali perto e tirou de uma gaveta uma bolsa de couro que dentro estava cheio de ambrosia e ele me deu um pedaço. – Coma!
Coloquei na boca e eu me surpreendi com o gosto, era exatamente o mesmo gosto do pudim que minha mãe fazia todo final de semana. Engoli, então Quíron disse:
– Agora, trate de ir direto ao seu chalé, e tente dormir porque amanhas começa as atividades do acampamento.
– Tudo bem – disse – Há... Boa noite e muito o obrigado.
– Boa Noite! — Responderam os dois diretores.
Entretanto, ao sair da casa, pude ouvi-los conversando pela janela. Não queria escutar, mas a curiosidade venceu a paciência, então eu Mari, que também estava curiosa, ficamos para escutar.
– E se for ela? Nós temos dois filhos de Poseidon nesse acampamento, e um deles chegou junto com ela e a Srta. Ferraro. Isso pode ser a profecia se realizando. – Quíron falava baixo e com cautela.
– E se não for? – Sr. D quase gritou – E se eu fizer um alarde no Olimpo à toa? E se eu acabar dando esperanças vazias às Hespérides?
– Pode ser melhor do que ter as crianças certas nas mãos e não prepara-las para o que pode vir.
– Se ao menos pudéssemos apresenta-la ao Oráculo...
– Não antes de prepara-los! – Quíron interrompeu agora um pouco alterado – E nós ainda temos que saber quem seria “a Guerra” na profecia. Pode ser um filho de Atena ou Ares. Félix me disse algo interessante a respeito das habilidades da Srta. Ferraro...
Ouvi os cascos que Quíron se aproximando da janela e saímos de lá o mais rápido que pudemos.
No caminho para os Chalés, Mari por incrível que pareça contou alguma coisa sobre sua vida e família. Contou sobre sua mãe que faleceu com câncer de pele, por ficar muito exposta ao sol, então conclui que ela odiava o sol, me falou também sobre ter sido crida pelo seu irmão e tudo mais.
Chegando à área dos chalés, nos despedimos e pedi desculpas pelo o ocorrido de prestar atenção na conversa dela com seu irmão, ela revirou os olhos aceitando as minhas desculpas com um “ta, ta bom” e se retirando para o chalé 11.
No Chalé 3, Brandon estava dormindo. Encontrei meu beliche no escuro e me deitei também, me esqueci totalmente de trocar a camiseta rasgada, mas achando que o sono viria rapidamente, fiquei pensando em todas as coisas que tinham acontecido hoje. Era coisa demais pra uma pessoa só.
Três, pensei, três pessoas.
Quando consegui dormir, sonhei com um lugar no meio da floresta. Uma neblina tão densa que mal se podia enxergar o próprio nariz. Vi uma mulher encostada em uma árvore. Ela era morena e carregava uma expressão nada amigável. Usava botas e calças pretas e uma jaqueta de couro vermelha. Nas mãos, uma roda de brinquedo que ela girava de um lado pro outro. Pude observar que a roda era defeituosa – faltava um pedaço, como uma pizza sem uma fatia. Vi também uma garota baixa e encostada em uma parede de cabelos ruivos, ela parecia não enxergar a mulher que estava a alguns metros longe dela.
Quando ouviu meus passos, seus olhos se ergueram e ela me olhou. Sua expressão mudou para uma de pena. Seus lábios não se moviam, mas ouvi sua voz:
– Oh, pobre criança. Se ao menos eu pudesse... equilibrar as coisas pra ela.
Dei uma olhada para a garota e logo reconheci quem era – Mari?
Acordei assustado e como peito doendo. Ainda estava escuro lá fora, mas meu sono havia sumido. Decidi ficar acordado até o nascer do sol. Talvez fosse melhor evitar mais pesadelos. Mas passando alguns minutos não aguentei e voltei a dormir.
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