Idiotas vinculados

10 Missão, ou pelo menos um inicio


Notas iniciais
Ok, agora vão mudar umas coisinhas na história, nada demais :3 Boa leitura.

O domingo antes da missão tinha sido bem sem graça, não aconteceu nada de importante e Henry, Mari e eu quase não nos falamos ainda mais sobre o assunto. Quando o toque de recolher soou e corri para o chalé, distraída. Trombei com James — literalmente — no caminho e ele me segurou pelos ombros.

– Calma, calma... — James disse. — Você ainda tem uns minutos antes das Harpias chegarem.

– Ah, sim, é que o líder do meu chalé não gosta que atrasemos. — falei. Ele ainda me segurava pelos ombros.

– Ele tem razão nisso. — James parecia bem sério. Ele olhava além de mim, para as estátuas do pátio entre os chalés.

Eu já descrevi o James? Não? Bom pra começar James Horton é filho de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, então já da para imaginar que ele é bonito, né? Tem os cabelos negros e a pele branca, é tão alto quanto Kyle, mas com um sorriso simpático ao invés de travesso. Mas o que mais chama atenção em James é a sua simpatia (o que o faz ser bem diferente dos seus irmãos) e o sorriso, portanto vê-lo sério é raridade.

– Tome cuidado com quem vocês encontrarem no caminho, nem mesmo os deuses são totalmente confiáveis. — ele piscou para mim e sorriu. — Boa noite e... Boa sorte na missão.

Agradeci e James saiu apressado para chalé de Afrodite (ou casa da Barbie de tamanho real). Não sei por que ele disse aquilo, acredito que ele ainda esteja abalado pela morte do antigo líder do seu chalé, Peter Blackwood, já que foi somente há poucos semanas atrás, resolvi não dar muita importância ao que ele disse. Corri para o chalé de Ares, pois eu estava bem atrasada. Infelizmente minha última noite no acampamento seria bem longa. Senti um arrepio quando passei pelas estátuas, mas ignorei isso ai também.

Cheguei ao chalé 5 junto com outros campistas atrasados, mas para não perder o costume Buther, o valentão ridículo líder do chalé, tinha que implicar somente comigo. Me irritar tinha se tornado o passatempo favorito de Buther e devo admitir que ele o fazia com maestria.

– Tá atrasada orfãzinha. — Buther concluiu com um sorriso torto. Claro que eu não era a única órfã do acampamento e acredito que do chalé também, mas ele só chamava assim a mim. Não era a pior coisa que ele podia me chamar já me chamaram de coisas piores, mesmo assim ele me irritava.

– Nossa descobriu isso sozinho. — murmurei enquanto passava por ele ignorando-o. Ele fez careta como se não tivesse certeza se tinha ouvido algo.

Buther era grande (do tipo que usa armadura GG), ruivo, feio e tinha a cara cheia de pintinhas enferrujadas, mas você se engana se resolver subestimar o cara, seu esporte favorito era Rúgbi (porque ele podia derrubar os oponentes facilmente devido ao seu tamanho) e ele era quase mortal com seu machado estilo viking nada pequeno, e podia esganar alguém pequeno com facilidade com aquelas mãos grandes, tinha conseguido o posto de Líder do chalé de Ares porque era (até o momento que eu o derrotei na minha primeira caça a bandeira) o filho mais forte de Ares.

Passei minha vida inteira ou fugindo ou sendo trocada de escolas e internatos, em matéria de valentões acredito que posso dizer que tiro nota A. Já que em cada um deles tive que enfrentar pelo menos um desses idiotas metidos a fortões tive tempo de perceber que esse tipo se comporta como cães, só correm atrás de você se você correr deles.

O que eu posso dizer... Ser órfã não ganha como categoria Premium de vida feliz, mas eu me acostumei a não dar tanta importância, depois de um tempo você se acostuma, aprendi a me defender antes mesmo de conhecer as pessoas de verdade. Isso me fez parecer um tanto... Rude. Sempre pareceu o jeito mais fácil. Na maioria das vezes eu nem quero ser assim, só é a maneira que encontrei de me manter protegida. Aprendi que eu não sentisse nada, que se eu não demonstrasse ou ignorasse não sentia que podia fazer coisas realmente ruins contra as pessoas e elas me deixariam e paz por um tempo.

O acampamento tinha sido até agora o primeiro lugar onde eu não me sentia excluída. Até as aulas eram mais fáceis. E tinha o Henry, ele era legal, tínhamos nos dado bem porque éramos parecidos, sempre arranjávamos confusão, mudávamos de escola com frequência, víamos coisas estranhas... Henry de certa forma me inspirava confiança. Pensava a mesma coisa, da Katherine e do Kyle mesmo os dois últimos sendo filhos do deus dos ladrões e tudo mais. Acho que esse é o motivo pelo qual eu me sinto bem no chalé 11. Mari também não me odiava nem era tão arrogante como eu pensei a principio era uma garota bem legal apenas não gostava de se conversar com frequência com as pessoas.

Eu não sou o tipo de pessoa que todo mundo gosta, que faz amizade com facilidade, como eu disse, não confio muito nas pessoas, e elas parece ter uma espécie de aversão a mim. Geralmente quando alguém se aproxima já posso até imaginar que isso vai terminar com alguns arranhões e narizes quebrados. Devo confessar que a melhor noticia que eu tinha recebido nos últimos tempos era que talvez pudesse conhecer um dos meus pais, foi o que eu pensei de inicio. Agora já não estava tão certa disso.

Não culpava as outras pessoas pelas coisas anormais que aconteciam normalmente comigo, não tinha nem ideia de como tinha sido a minha mãe, mas não conseguia deixar de culpar Ares por tudo. Só conseguia pensar que ele era o culpado e por isso não gostava do chalé e dos meus "irmãos".

Desviei da bola que Buther jogou na minha direção e fui direto para meu beliche no fim do chalé, não era a melhor cama, mas era melhor que dormir no chão, embora eu trocasse a cama do chalé 5 pelo chão do 11 sem pensar duas vezes. Nem todos os meus "irmãos" eram ruins como Buther, mas como todos tinham medo dele e a maldade parece ser natural para nós eles então eram maus comigo também. Tropecei no pé de alguém, cai e bati o rosto em um elmo propositalmente jogado no chão.

Me levantei em meio a gargalhada dos campistas de Ares e levei a mão a boca, com certeza de manhã pareceria que eu tinha levado um soco, engoli a saliva junto com todo o ódio que eu estava sentindo e com o gosto de sangue de um corte nos lábios me virei e sorri, tenho certeza que meu sorriso saiu bem assustador porque vários campistas pararam de rir instantaneamente. Vários rostos ficaram sérios outros desviaram o olhar como se não fosse com eles.

Buther não era realmente mau. Só mais um completo idiota com complexo de superioridade e, infelizmente para mim e para muitos outros campistas, agraciado pelos deuses com uma força que alguns exageradamente comparavam com a de Hércules. Claro que com tantos músculos ele tinha um cérebro de passarinho. Por isso desde que eu conseguisse ficar longe dos seus punhos eu não tinha com que se preocupar de verdade com as brincadeiras infantis dele.

O problema é que eu não conseguia realmente ignorá-lo por muito tempo. O que eu achava péssimo.

Desde que comecei a ter mais contato com Ares e seus filhos parecia que não conseguia controlar meu ódio e irritação e tudo isso que eu detestava em mim se convertia em brigas e mais brigas. Nenhum de nós é muito parecido fisicamente, tirando os ombros largos e o porte forte, alguns são altos, outros musculosos, atléticos ou apenas carrancudos. Mas é fácil de distinguir um filho de Ares, os olhos são cheios de malicia e maldade, além da constante mania de puxar briga. Digamos que em dez brigas oito foi algum filho de Ares que causou e têm algum outro envolvido nas outras duas.

Fui em direção ao armário e peguei uma mochila preta e vermelha, não sabia bem o que pegar por isso enfiei na mochila um par de meias, uma camiseta laranja com a inscrição do acampamento, uma calça jeans, uma jaqueta, uma caixinha de band-aids (normalmente eu ando com uns desses no bolso), peguei um saco de dormir bem fino e por fim um cantil para água, uns dracmas que eu achei por ai e um pequeno kit de primeiros socorros.

Tateei os bolsos a procura do meu isqueiro até encontrá-lo. Era uma das poucas lembranças do meu primeiro orfanato e eu raramente o mostrava a alguém, era pequeno de ouro com um desenho desgastado que mais parecia uma caveira ou uma coruja (podia ser uma poça de lama também) de um lado e uma lança do outro, embaixo tinha uma inscrição e um "F" gravado. Não encontra-lo era a única coisa que me deixava realmente em pânico. Sempre achei que fosse dos meus pais, mas não podia ter certeza.

Outra bola veio voando bateu na minha mão e fez minha mochila cair no chão. Buther e mais três outros meninos começaram a rir novamente. A raiva explodiu em meu peito, não conseguia me controlar mais.

Invoquei uma espada com um aceno de mão. Alguns campistas recuaram não por medo, mas simplesmente para observar o espetáculo. Buther deu passo à frente e pegou seu machado. Alguns podem achar injusto um machado contra uma espada, mas eu não me importava mais.

A melhor coisa que tinha acontecido comigo no chalé 5 foi eu conseguir controlar esse meu "poder" de fazer qualquer tipo de arma aparecer quando eu preciso, não no chão ou perto de mim como antes, agora eu só preciso pensar no tipo de arma e ela aparece na minha mão e as vezes desaparece quando eu quero.

É difícil explicar como realmente isso acontece e eu não controlo totalmente isso, elas ainda aparecem nos meus bolsos quando eu me descontrolo ou tenho alguma reviravolta emocional (quanto fico chateada ou com raiva, principalmente com raiva), mas já é bem útil elas aparecerem quando eu quero. Apesar de ser um pouco assustador já que meus instintos são um pouco psicopatas.

– Se vocês vão fazer isso façam SEM as armas. — uma campista se precipitou. — Vocês querem destruir o chalé? Pelos deuses.

– Por mim pode ser, não vai fazer nenhuma diferença mesmo. — Buther jogou o machado no chão.

Os outros campistas se aglomeraram envolta de nós, fiquei pensando que se Kyle estivesse aqui agora estaria comandando um negócio de apostas. Dei um passo à frente em direção ao imbecil do meu "irmão" e senti uma mão forte segurar o meu braço. Era Lenna, ela me empurrou de volta e eu dei uns passos forçados para trás.

Lenna era uma das minhas irmãs embora eu não conseguisse entender como esse negócio de irmão funciona de verdade, por aqui é apenas uma questão de parente olimpiano comum. Ela quase não se parecia com os outros irmãos. Quase boa demais para ser filha de Ares, tirando o fato é claro e que era excelente e cruel com uma lança em mãos. Fosse o que fosse era minha irmã favorita.

– Não embaça Lenna. — Buther gritou do outro lado. — Me deixa mostrar pra ela que é que manda aqui.

– Já passa do horário do toque de recolher. – seu tom era firme e rude. — Se pegarem a gente fora da cama é banho gelado pra todo mundo. — ela olhou para os campistas ao redor.

Muitos campistas foram para suas camas mostrando que o espetáculo tinha acabado. Eu sabia por experiência própria que eles não gostariam de enfrenta-la. Na minha primeira aula de luta greco-romana, que era ministrada pelo chalé de Ares, apanhei tanto que minhas costas ainda se lembram da dor quando eu faço o caminho para a arena. Lenna se virou para mim.

– Melhor colocar gelo nisso ai. — ela apontou com o queixo o meu machucado. — Se não amanhã vai estar inchado.

– To legal. — sorri para ela. — Não foi nada de mais, de manhã vai estar melhor. — Lenna deu de ombros como quem queria dizer "Você é quem sabe." E se afastou, nem um minuto depois ela apareceu com uma bolsa de gelo e colocou no meu rosto com a sutilidade de um cavalo dando coice.

– Auuuu... – Reclamei baixinho. Ela apenas colocou uma mão em meu ombro e se inclinou um pouco para falar.

– Poucos dias antes de eu vir para o acampamento eu cheguei em casa com o nariz quebrado e a camisa cheia de sangue. Minha avó começou a cuidar dos meus machucados. Minha mãe faz parte do exercito, nunca esta em casa. Meu avô se limitou a me olhar. Um olhar duro. – percebi um olhar triste. – Ele disse depois que minha avó terminou: “Lenna, se voce não se controlar vai acabar achando seu destino na ponta de uma faca”. Eu não entendi. Até chegar ao acampamento. — depois disso ela murmurou um “tome cuidado” e foi em direção a sua cama.

Fechei a mochila e joguei no canto da cama enquanto me deitava, não demorei muito para cair no sono ainda segurando a bolsa de gelo e pensando no que ela tinha dito. Tive o mesmo sonho estranho pela terceira vez nas ultimas quatro semanas.

Eu estava no meio do mar, estava escuro e eu não podia respirar nem me mexer, de repente um vulto enorme passou por mim, eu quis gritar mesmo sendo inútil dentro d'água, tentei conjurar uma lança (que era a primeira arma que me vinha em mente quando eu me sentia ameaçada), mas nada aconteceu, tentei uma arma menor, uma faca e mesmo assim nada, comecei a entrar em pânico odiava qualquer coisa relacionada ao mar e suas criaturas e agora nem mesmo minhas armas eu podia conjurar? Isso é injusto!

Me sentia inútil ali esperando a morte e com medo. Patético! Era nessa hora que eu ouvia a voz. Era forte como um motor de moto roncando, sempre dizendo: "Vamos lá. Quem você pensa que é para desistir agora? Mostre-me que eu não me enganei com você, Jessie!". Então o vulto atacou e meu primeiro instinto foi me jogar para o lado. O sonho acabou quando eu bati no chão caindo da cama. Ainda estava muito escuro lá fora, o relógio do chalé marcava 01:35 eu não tinha dormido nem duas horas e meia. Mesmo correndo o risco de ter outro sonho ruim minha opção era de voltar a dormir. Deitei novamente e fechei os olhos o sono não demorou a chegar o outro pesadelo também não.

Sonhei que estava no meio de uma floresta. Havia uma neblina muito densa e eu mal conseguia enxergar a mim mesma. Dei alguns passos incertos para frente até ver uma mulher encostada em uma árvore. Ela era morena e carregava uma expressão nada amigável. Usava botas e calças pretas e uma jaqueta de couro vermelha e trazia algo nas mãos depois de observar vi que era uma roda de brinquedo que ela girava de um lado pro outro. Vi também que na roda faltava um pedaço. Dei mais uns passos e percebi que havia alguém encostado em uma parede, quando abaixou o capuz pude ver os cabelos ruivos de Mari. Estava prestes a chegar mais perto quando a mulher começou a falar, embora ela não abrisse a boca eu podia ouvir a sua voz. Sua expressão mudou para pena enquanto falava:

– Se ao menos eu pudesse... Equilibrar as coisas para ela.

Tudo se dissolveu em névoa assim que ela terminou de falar. Acordei novamente dessa vez me sentindo zonza e angustiada por algum motivo. Fiquei deitada na cama olhando para o teto por longos minutos pensando sobre a missão e se esses sonhos doidos tinham a ver com ela, me incomodava a parte da Guerra, só me levantei quando estava quase amanhecendo, fui ao vestiário, precisava de um banho depois daqueles pesadelos e antes de encarar o mundo lá fora. Acho que não era um bom começo de dia para uma missão, mas só tinha a opção de ir.

Coloquei uma camiseta do acampamento, minha calça de militar cheia de bolsos, que eu tinha ganhado no primeiro dia no chalé 5, peguei a mochila e joguei no ombro e parei na porta olhando os outros campistas dormindo antes de sair do chalé, meus olhos pararam em Buther e levei a mão ao queixo dolorido, imediatamente senti o ódio subir pela minha garganta. Empinei o queixo e sai do chalé pensando em como seria ótimo uns dias sem ter que me preocupar em me controlar para não tentar quebrar a cara do idiota.

Henry e Mari já estavam me esperando perto das estátuas que ficavam no meio do pátio entre os chalés. Henry usava uma calça jeans azul, camiseta do acampamento e casaco cinza, tinha uma mochila cinza nas costas. Mari estava toda vestida de preto a não ser pela camiseta laranja do acampamento e tinha uma mochila jeans no chão perto dela.

– Será que eu peguei tudo que tinha que levar pra essa missão? — Henry olhava em direção a praia enquanto falava. — Acho que sim, roupas extras, um par de meias limpas, talvez devesse ter pego o peitoral da minha armadura? Ei! — ele chamou — Jessie, Bom dia! — disse sorrindo. — O que é isso?

– Você levou um soco? — Mari perguntou.

– Se você levar a armadura vai pesar e você vai ficar cansado muito cedo. — respondi sem dar muita importância ao assunto.

– Ela ta viajando de novo. — Mari disse revirado os olhos. — Será que da pra você voltar pra Terra? — ela beliscou meu braço.

– Ai! — reclamei.

– Será que da pra você se concentrar até que voltemos vivos dessa missão sem sentido? — Mari parecia apreensiva.

Tínhamos concordado silenciosamente em não conversar sobre essa missão, que muitos consideravam suicidas para três crianças que tinham acabado de chegar ao acampamento e em que Quiron tinha nos metido.

Claro que aquele treinamento intensivo todo tinha um propósito escondido, mas sair do acampamento estava bem longe do que eu podia imaginar ou queria fazer nos próximos dias eu ainda nem tinha digerido o que tinha acontecido para termos chegado até aqui, além do que, Quiron não nos deu nem ao menos uma explicação sobre o porquê de termos que realizar essa missão e ainda estava todo nervoso e falando em salvar o Olimpo e o mundo. Na minha opinião? Tinha mais coisa envolvida do que eles queriam nos contar.

– Tudo bem. — disse emburrada finalmente prestando atenção.

Tenho TDAH level expert então mesmo quando eu quero é difícil me concentrar em alguma coisa que as pessoas dizem. É quase como viver em um mundo próprio e muitas vezes o que eu vejo não é nem um pouco parecido com o que as outras pessoas veem (portanto se você quiser uma segunda opinião sobre os acontecimentos a seguir pergunte aos meus amigos).

– Tá, então o que sabemos até agora? — Henry falava enquanto chegava mais perto ainda encarando meu rosto.

– Quiron nos mandou numa missão para algum lugar ao oeste e... Tudo que sabemos sobre ela é o que foi dito naquela profecia aterrorizante que não sabemos decifrar, ou seja, não sabemos quase nada. — disse com um sorriso no fim.

– Alguém se lembra da profecia? — Henry perguntou franzindo a testa.

– Três sairão em busca do pomo. — Mari começou a recitar a profecia com os olhos fechados. — Longe ao oeste encontrarão o dono. Terão que caminhar por céu, água e terra. – ela respirou fundo antes de recitar o ultimo verso e por um momento senti um leve calafrio a nuca. — A Morte, o Oceano e a Guerra.

Vi Henry se arrepiar e esfregar os braços. Ver a oráculo recitando esses mesmos versos á noite tinha sido quase uma prova de coragem (e olha que eu me considero uma pessoa corajosa) acho que foi porque eu tinha levado um susto com a noticia da missão ou porque Bellatriz tinha começado a flutuar, falado em uma voz muito sinistra de alienígena de filme de invasão e tinha começado a sair luzes verdes dela. Seja como for Mari deu um ar de mistério e obscuridade aquela profecia (talvez fosse porque ela era uma pessoa obscura, que amava roupas pretas e aparecia do nada), mas ali, no alvorecer e sozinhos, aquilo pareceu bem sinistro.

– Por que alguém sairia em busca de um pombo? — Henry perguntou com a mesma cara de confusão que ele fazia quando tentava entender miologia ou grego antigo ou qualquer matéria do colégio. Ele é um pouco desligado às vezes.

– Não é pombo, é Pomo. Vê se presta atenção. — Mari e suas palavras amáveis para com Henry.

– E o que é esse Pomo? Oh espertinha.

– Eu já ouvi falar antes, alguma coisa a ver com Hércules, não sei direito.

– São as maçãs douradas das Hespérides. — respondi olhando distraída para as estátuas. — E foi um dos Doze trabalhos de Hércules, parece que ele teve que roubar uma dessas maçãs, mas ele não tinha como saber onde elas se escondiam então pediu ajuda para Atlas, o titã que segura o céu, Hércules fez um trato com ele, seguraria o céu enquanto o titã pegava a maçã. Não sei dos detalhes, só sei que no fim ele conseguiu. Também são chamadas Pomos da Discórdia e tem a ver com a Guerra de Tróia, mas não me lembro da história.

Henry e Mari se olharam e depois olharam para mim, achei que fossem fazer a mesma pergunta que todos fazem quando eu demonstro algum tipo de conhecimento então me apressei em falar:

– Que foi? Eu gosto de mitologia grega.

– Hã... Tudo bem. O que mais você sabe sobre essas Hespérides? — Henry perguntou nervoso.

– Deixa eu pensar... São quatro ninfas, viviam numa ilha e a árvore do Pomo guardada por um dragão, eu acho... São filhas de Atlas... — Henry olhou para Mari, achei aquilo muito suspeito então resolvi investigar. — Por que? — Dei um passo à frente e Henry recuou um.

– É que... Na noite em que chegamos... — Henry começou a contar meio nervoso, mas Mari o cortou.

– Na noite em que chegamos aqui eu sai pra mandar uma mensagem de Íris para meu irmão e encontrei com esse idiota aqui me bisbilhotando na floresta — Mari olhou com raiva para Henry e ele fez um biquinho e olhou para o outro lado — Então nós fomos atacados por uma Harpia e fomos parar na Casa Grande, Quiron nos encontrou e tivemos uma conversa estranha. Isso foi antes de sermos reclamadas.

– Quando estávamos saindo ouvi Quiron e o Sr. D conversando sobre alguma coisa séria e ouvi o nome das Hespérides. — Henry disse. — Tinha alguma coisa a ver com o Olimpo, com três pessoas e com guerra e morte também, eles deviam estar falando sobre a profecia. — Henry olhou diretamente para mim, sua postura era de quem queria sair correndo.

– Hã... Então vocês tiveram uma aventurasinha noturna e não me chamaram? — disse ofendida enfiando as mãos nos bolsos da calça, pude sentir por entre os dedos o cabo de uma pequena adaga de peito se formando isso sempre acontece quando eu tenho oscilações de humor.

– Foi por acidente. — Henry levantou os braços em sua defesa.

– Alguma coisa útil que possamos usar na missão? — perguntei meio irritada. Eu queria bater em uma mulher-pássaro.

– Não. Foi só isso mesmo. — dessa vez foi Mari quem respondeu.

Ficamos um tempo ali parados apenas observando o amanhecer, já que não tínhamos experiência nenhuma em missões e nem mesmo um destino certo, estávamos de certa forma perdidos. Pouco depois vimos Kat sair do chalé 11, ela usava apenas jeans, all star e a camiseta do acampamento, seu cabelo cacheado estava molhado e por isso parecia mais escuro do que era, ela veio caminhando rápido até nós.

– Oi gente. — Ela disse com um sorriso simples.

O que eu mais gostava na Katherine era que ela sempre estava animada e feliz, e mesmo quando ela se concentrava de verdade seus olhos azuis pareciam estar sempre sorrindo de maneira curiosa e divertida.

Nós três demos um "Oi" meio triste.

– Fiquei feliz de vocês não terem ido ainda, queria desejar boa sorte. — ela disse envergonhada.

Nosso sorriso foi instantâneo, dissemos "Obrigado", ela sorriu e foi em direção à casa grande. A imensa construção azul que era a sede dos lideres do acampamento.

Continuamos ali. Apenas observando o acampamento despertar. Os campos de morangos com frutos tão grandes e tão gostosos prontos para serem colhidos ou simplesmente consumidos ali mesmo, do outro lado, a praia lançava uma leve brisa do mar e o cheiro de água salgada se misturava com o cítrico do morango em uma combinação perfeita de paz que conseguia chegar até ali durante a noite, coisa que não tínhamos tempo de apreciar durante o dia.

Ao longe, no topo da colina o imenso pinheiro que demarcava o portão de entrada do acampamento uma massa dourada soltava fumaça pelas narinas, o dragão dormia tranquilamente sob o galho mais baixo da árvore onde velocino de ouro se encontrava, ajudando a fortalecer a barreira mágica que protegia o acampamento de monstros e nos escondia dos olhos de possíveis mortais curiosos.

Toda vez que olhava para o pinheiro pensava em quantas batalhas e vidas tinham sido perdidas quando o acampamento não tinha suas barreiras mágicas ainda. Será que os espíritos vagavam na fronteira? Ou ajudavam a espantar os monstros enquanto todos nós dormíamos tranquilos à noite?

– Não estou mesmo gostando dessa missão antes mesmo dela começar, afinal por que deveríamos ir atas de uma maça idiota? — Henry bufou.

– Porque é isso que os heróis fazem. — disse.

– Mas eles não acabam sempre se dando mal? — Mari perguntou.

– O pior é que estamos por nossa conta em risco nessa missão suicida. — Henry disse irritado. — Os heróis pelo menos têm ajuda.

Olhei para as estátuas dos deuses e lembrei-me do que James havia dito na noite anterior sobre nem mesmo os deuses serem confiáveis e nesse caso achei melhor não termos muita ajuda.

– Infelizmente sim, Sr. Clawd. — Quiron surgiu atrás de mim com o mesmo ar sério de quando nos contou sobre a missão. — Bom dia semideuses, estão prontos?

Nós acenamos sem muita animação.

– Só queria saber por que tão de manha. — resmunguei e ele sorriu.

Quiron era de longe o melhor professor/treinador que eu já tinha tido na vida. Era mandão e sempre parecia aceitar apenas o melhor de todos do acampamento, mas mesmo assim conseguia ser gentil e acolhedor, sem falar que o cara era um centauro, homem da cintura para cima, cavalo da cintura para baixo, o que lhe dava pontos extras. Sempre gostei de criaturas mitológicas, claro, desde que elas não estão tentando arrancar a minha cabeça.

– O que é isso no seu rosto Srta. Ferraro? — ele realmente parecia preocupado. Tive vontade de contar que tinha sido os meninos do chalé, mas me contive isso era um problema meu.

– Nada demais, eu caí da cama e bati. — respondi mexendo no cabelo.

Quiron ainda parecia curioso, mas assentiu.

– Quiron, estive pensando se podemos usar os nossos pégasos na missão, pelo menos até parte do caminho. — Mari tinha que olhar para cima quando falava com ele por isso eu ri e recebi uma careta em troca.

– Bem... Acho que... — Quiron hesitou em aceitar o pedido.

– A profecia diz que temos que viajar por céu e não temos dinheiro pra pagar um voo por isso pensei nos pégasos. — Ela se explicou.

Quiron trocou o peso das... Patas? Cascos? Olhou para o céu pensativo. Pelo que eu tinha percebido Mari não era muito fã de altura e nem de água, isso tinha a feito ganhar uns pontinhos comigo já que eu também detestava os dois. Quiron ponderou por uns instantes e por fim concordou. Nos encaminhamos para o estábulo em um silencio quase mortal, Henry foi na frente com Quiron por que ele fazia a bizarrice muito legal de falar com os pégasos.

– Eles são ainda bem novos, portanto não poderão ir longe com eles. Snow pode guiá-los de volta ao acampamento, mas não os cansem muito. — Quiron instruía com severidade, porém seu olhar era de compaixão para conosco.

Pude ver alguns sátiros correndo atrás de ninfas na floresta, eles corriam meio sonolentos e de repente a ninfa se transformava em árvore e eles davam de cara com ela ou se jogavam no rio e os sátiros tomavam um banho gelado pela manha enquanto elas soltavam risinhos e faziam tudo de novo. Outros sátiros mastigavam alguns objetos de metais diferentes, latinhas, moedas e até alguns pedaços de armas. Admito que sentia inveja dos espíritos livres. Sem nada para se preocupar, vivendo em paz...

– Nós podíamos ao menos tomar o café da manha. — falei distraída, ouvi risos sendo abafados.

– Vocês tem que partir imediatamente Srta. Ferraro. — Quiron respondeu.

Argo, Capa Negra e Snow não pareciam nada felizes em acordar tão cedo, principalmente Argo. Minha linda e nem um pouco amigável a primeira vista pégaso quase rasgou os bolsos da minha calça a procura de maçãs, imaginei que Argo enlouqueceria se soubesse que estávamos indo em busca de uma maçã dourada.

– Calma menina. – falei. – Não tá feliz em apenas me ver? – brinquei enquanto acariciava seu focinho e Argo relinchou quase como se fosse um gato ronronando.

Depois de Henry explicar a eles sobre a missão nós montamos. Quiron se aproximou de Mari e lhe entregou em cantil com néctar e uma pequena bolsa com Ambrosia e se despediu de nós. Podia ver que ele estava de certa forma abalado o que me fez novamente pensar se essa missão era somente pelas Hespérides. Eu estava particularmente pensando na parte da Guerra e da Morte.

– Alguém sabe pra que lado fica o Oeste? – Perguntei.

Notas finais
E ai, gostou de conhecer mais a Jessie?