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11 "Acidentalmente" explodimos um Mc Donalds
Notas iniciais
Sobrevoamos Manhattan tentando convencer Henry que de jeito nenhum a mãe dele o deixaria ir embora se fossemos visitá-la, que seria bem complicado pousar cavalos voadores no prédio onde ele morava sem ter que dar nenhuma explicação a ninguém além de que, tínhamos que realizar uma missão.
Depois de algumas horas de voo com uma Mari meio depressiva — acho que ela também queria visitar o irmão — e um Henry emburrado, nossos amiguinhos alados começaram a dar sinal de cansaço. Procuramos um lugar seguro de mortais e pousamos perto de uma cidade no meio do eu achava ser o estado de Ohio para que eles comessem e descansassem antes de voltarem
– Pra onde agora? Alguém conhece essa cidade? — Mari perguntou enquanto descansávamos sentados na grama.
– Não sei. Talvez tenha uma estação de ônibus aqui por perto. — Henry disse meio desanimado.
Ficamos em silencio por alguns segundos. Acho que ainda estávamos desconfortáveis uns com os outros e com toda essa história de missão.
– Tem uma linha de trem que vai de Chicago a Okland, se formos até Chicago poderíamos pegar esse trem. — disse depois de um tempo.
– Acho que não temos dinheiro para pegarmos o trem. — Mari acabou com a minha ideia. — E ainda temos que atravessar um estado.
– Bom não temos outra ideia então acho que não custa tentar, não é mesmo? — retruquei. — Não seria a primeira vez que eu entro num trem clandestinamente. — sorri.
– Tudo bem, andar clandestinamente de trem não me parece correto, mas é melhor que ir andando até lá, então... Vamos andando? — Henry levantou o que fez Mari e eu o seguirmos.
– Espera vocês não estão falando sério, não é? Vocês estão mesmo pensando em atravessar um estado caminhando? — Mari nos olhava incrédula.
– Você tem outro plano? — perguntei ironicamente.
– Sim. Vamos até a cidade e pegamos um ônibus até lá como pessoas civilizadas. — ela retrucou no mesmo tom. — Acho que as passagens não devem ser tão caras, posso pagar por nós três.
Não gostei muito da ideia dela pagar as passagens. Não gosto de dever nada a ninguém, mas ela tinha razão demoraríamos uma eternidade se fossemos andando, sei que é possível atravessar um estado caminhando (já fiz isso) apesar de ser exaustivo e os riscos de encontrarmos monstros no caminho eram bem maiores.
Resolvemos que era hora de dizer tchau aos pégasos que vierem bem animados depois de um assovio, pareciam bem alimentados e mais dispostos que quando chegamos. Argo como sempre procurou maçãs nos meus bolsos antes de fazer pose de indignada. Ela era linda, caramelo bem clarinho com a crina, a calda e as asas brancas, eu achava que ela tinha um porte bem atlético, para um cavalo voador. Abracei Argo pelo pescoço e acho que me demorei no abraço, pois nem vi Henry se aproximar.
– Ela disse que se você precisar é só chamá-la com um assovio que não importa onde você esteja ela te mandará ajuda.
– Awnn. — Afaguei o focinho dela. Tínhamos nos afeiçoado. Apesar de ela ter me derrubado e quase me matado na minha primeira aula de equitação com pégasos, tínhamos aprendido a nos respeitar e gostávamos muito uma da outra depois que eu finalmente consegui domá-la, depois de muitas quedas e mordidas.
– Também disse que se não trouxer maçãs pra ela, ela vai te jogar do Grand Cânion. — Henry sorriu. — sua pégaso é sinistra.
– É eu não duvido nada que ela me jogue do Grand Cânion. — disse para Henry. — Tudo bem garota eu te trago maçãs, um saco cheio, que tal? — Argo pareceu amar a ideia.
– Vamos. — Mari chamou já longe, dei mais um ultimo afago no focinho de Argo e corri para acompanhá-los.
Não pousamos longe da cidade por isso levamos menos de vinte minutos para chegar até lá. Henry e eu esperamos do lado de fora da estação enquanto Mari comprava as passagens.
– E então? Conseguiu? — Henry perguntou assim que ela chegou perto de nós.
– Sim. O ônibus sai as 21:00.
– Hmm, acho que podemos dar uma olhada na cidade então.
– Seria melhor não chamar muita atenção para nós. — não sabia se ela estava com preguiça ou não tinha gostado da cidade.
Eu não estava prestando cem por cento de atenção na conversa dos dois e sim na dupla de pombinhas brigando pelos galhos das árvores na praça da cidade. Meu estomago resolveu entrar na conversa e roncou. Quando percebi acredito que não tinha sido a primeira vez porque meus amigos me olhavam com sorrisos bestas nos lábios — até mesmo Mari que quase não sorri.
– Vamos procurar alguma coisa pra comer. — anunciou Henry. Meu estomago respondeu por mim com mais um ronco. Dessa vez ele não se aguentou e começou a gargalhar.
– Seu estomago concorda. — Mari acompanhou Henry na gargalhada.
Fechei a cara para os dois me recusando a respondê-los o que só fez eles darem mais risadas. Me irritei de vez. Enfiei as mão nos bolsos da minha calça, dei mais uma olhada feia para os dois, virei de costas e sai andando sem rumo sozinha pela cidade.
Ouvi eles me chamarem de longe. Não dei importância. Não admitia que rissem de mim. Não importava quem fossem. Sempre riram de mim por diversos motivos isso conseguia tirar a minha calma tão rápido quanto um raio corta o céu.
Quando era criança sempre que algo assim acontecia meu primeiro instinto era pular em quem quer que fosse a pessoa que estava me provocando, simplesmente não conseguia me controlar e aquilo me parecia a coisa certa a fazer, com o tempo aprendi que essa não era a melhor opção e que sempre gerava consequências nada boas para mim, mesmo assim muitas vezes tinha que pensar muito e respirar bem fundo, ir contra tudo que estava sentindo e querendo para não sair dos limites de civilidade com alguém.
Olhe eu não gosto de brigar (geralmente só de assustar ao ponto de eles pararem), mas há tipos e tipos. Embora eu ache completamente ridículo da parte dele, Henry ás vezes demonstra ter medo de mim — não um medo real, só cautela, eu acho -, mas ele seria o tipo que você intimida e ele te deixa em paz, o meu maior problema no chalé de Ares é que eles são do tipo que não se pode intimidar, se você os ignora não param, se você bate de frente eles batem de volta — nesse ultimo quesito acho que são até parecidos comigo, (credo to me tornando um deles) – simplesmente não da para chegar num acordo com eles, mas com o tempo acredito que você consegue seu espaço e seu respeito.
Sei que eles não fizeram por mau, mas mesmo assim tive que sair de perto para não acabar com a missão ali mesmo. Nem sempre consigo me controlar e quando dou por mim já estou envolvida na briga. É eu adoro ser filha do deus da guerra! Pensei. Fiquei magoada com aquilo o que me deixou irritada — normalmente esses sentimentos andam juntos quando se trata de mim.
Andei pela cidade até os comércios virarem casas e as casas virarem comércio novamente, não sei por quanto tempo andei nem onde fui realmente. Apenas andei para esquecer a raiva. Fui mais atraída pelo cheiro do que pelo nome até o Mc Donald"s da cidade. Parei em frente a loja e tentei ler o menu, como esperado não consegui. Minha dislexia piora quando fico com raiva — o que é quase sempre — na verdade tudo piora quando fico com raiva.
Entrei na lanchonete e olhei ao redor apenas por costume, pois raramente estava prestando atenção no que via ainda mais em momentos em que eu me sentia mal. Cheguei a balcão e pedi um cheeseburguer e uma coca. Peguei meu pedido e sentei numa mesa livre, logo Mari entrou na lanchonete seguida de Henry, os dois pediram no balcão, pegaram e sentaram na minha mesa.
– Jessie, desculpe pel... — Henry começou a dizer.
– Deixa pra lá. — respondi impaciente ainda de cara fechada para os dois.
Mari parecia ignorar o assunto enquanto comia seu hambúrguer. Estávamos de certa forma indo bem quando vi um cara estranho entrar na loja.
Ele devia ter uns dois metros de altura ou mais (sou péssima com medidas) usava uma camiseta sem mangas e calça larga como se estivesse acabado de sair da academia de musculação, era feio de fazer bebes chorarem e tinha o corpo todo tatuado. Não pude desviar o olhar desde o momento em que ele passou pela porta, fiquei atenta como se um radar ligasse automaticamente dentro de mim.
– Eu já pedi desculpas, não precisa me olhar assim. — não olhei exatamente para Henry, mas pude perceber que ele parecia ofendido.
– Reze aos deuses pra visão de calor não ser um dos poderes dos filhos de Ares se não você ta perdido. — senti Mari enrijecer a postura assim que ela terminou de falar, ela devia ter percebido para onde eu estava olhando.
O cara tinha acabado de fazer o pedido no balcão e olhou para nossa mesa, nossos olhares se cruzaram por um segundo antes de eu desviar o olhar e juro que vi seus olhos brilharem de maneira diabólica. Desviei o olhar para meu copo, Mari se mexeu ao meu lado um tanto desconfortável.
– Você acha que...? — Mari perguntou incerta.
– Tenho quase certeza. — respondi.
– Por que vocês ficaram estranhas de repente? — Henry ainda não tinha percebido. — Jessie nunca te vi tão concentrada. E Mari... Você tá me dando calafrios. — ele esfregou os braços. E o que vocês estão olhando?
Henry apoiou as mãos na mesa e finalmente olhou na direção do cara e logo virou para nós com uma das mãos na corrente que ele carregava no pescoço. Demos uma olhada entre nós e concordamos de maneira silenciosa que o gigante tatuado era um monstro. Henry mexeu os lábios em um "Vamos embora" e mais uma vez concordamos.
Não tivemos tempo de reagir, pois em menos de um segundo o grandão veio em direção a nossa mesa e se sentou.
Um clima tenso se instalou na mesa e por uns cinco minutos tudo o que fizemos foi olhar enquanto o gigante devorava uma bandeja com mais de uma dúzia de cheeseburgueres triplos. Minha mente e meu corpo estavam em alerta como quando eu lutava só que agora eu não sentia euforia como em uma caça a bandeira ou nas aulas de esgrima. O grandão deu um arroto e olhou fixamente para cada um de nós por alguns segundos antes de começar a falar.
– Então o que três crianças estão fazendo sozinhos por aqui? — perguntou enquanto enfiava outro lanche na boca. Sua voz parecia mais um rugido rouco.
– Estamos de passagem. De férias com nossos pais. — Henry respondeu.
– Vocês não parecem irmãos. — ele retrucou.
– Somos primos. — Mari respondeu.
– Ah, sim claro. E onde estão seus pais? — o gigante tinha um sorriso divertido nada amistoso.
– Na oficina. Já estávamos indo encontrá-los na verdade. — Mari fez menção de se levantar e Henry se mexeu inquieto.
Não sei o porquê, mas comecei a pensar na história do João e o Pé de Feijão e em competições de comilança de cachorro quente. Como eu disse meu cérebro funciona de uma maneira diferente.
– Você deve estar mesmo com fome. — conclui de forma nada inteligente enquanto o gigante engolia mais um cheeseburguer com um grande gole de refrigerante.
– Sim, você não imagina o quanto. — retrucou depois de uma gargalhada. — Ainda mais de semideuses.
Eu quase pulei em cima da mesa quando ouvi a palavra semideus, Henry levou a mão ao pescoço, à corrente que se transformava em espada e Mari levou as mãos as costas onde ficava escondida sua bainha de facas.
Uma espécie de radar ligou dentro da minha cabeça e eu comecei a pensar em possíveis saídas, o gigante estava entre nós e a porta de entrada, não havia janelas a não ser possivelmente a da cozinha atrás do balcão, mas essa saída também poderia ser bloqueada por ele se tentássemos passar pelo corredor, a única opção era as paredes de vidro do lado direito da mesa em que estávamos o que não era bem uma opção.
– É melhor vocês não fazerem isso.
– E por que não? — Mari o desfiou.
– Bem... — Ele comeu mais um sanduíche. — porque seu amiguinho aqui não pode fugir tão fácil de mim quanto ele pensa. E não seria bom machucar essas pessoas inocentes em volta não é mesmo?
Enquanto ele falava tive a impressão que ficava mais forte e mais alto, agora seu braço era quase da mesma largura que Henry, suas mãos podiam esmagar nossos crânios como se fossem baratinhas e sua cor oscilava entre cor de pele normal e um verde musgo.
– Agora garotinha vá buscar mais um copo pra mim, sim? — ele levantou uma nota para Mari.
Mari o olhou como se pudesse transformá-lo em pó só com o olhar, mas pegou a nota e foi em direção ao balcão. Me ajeitei no banco e olhei ao redor realmente tinha muitas pessoas no local, o monstro olhava Mari enquanto isso Henry e eu nos comunicávamos sem som. "Você consegue pular sobre a mesa?" perguntei, "Talvez" ele respondeu, "Quando estiver mais vazio" disse e ele concordou com um aceno.
– Então quem é você? — perguntei tentando ganhar tempo. Me sentei mais ao meio do banco de forma que Mari pudesse se levantar mais depressa.
– Sou Zé Mané.
– E o que é você? — Henry perguntou. O gigante sorriu.
– Um gigante lestrigão, é claro. — Zé Mané respondeu todo orgulhoso de si como se estivesse mostrando seu Oscar ou Premio Nobel.
– Ah, é claro. — Henry murmurou impaciente.
– Faz tempo que eu não como carne de herói sabiam? Vocês realmente são difíceis de pegar, devo admitir. Então me deixe ver o que temos aqui.
O gigante respirou fundo.
– Dois filhos dos três grandes. O menino é de Poseidon, a garotinha... De Hades, eles são bem raros, e a outra... — ele olhou diretamente para mim. — Ares.
Tive vontade de perguntar se ele trabalhava disfarçado como cão farejador para a policia, mas achei que era imprudente.
– E o que faz você pensar que nos capturou? — Henry me olhava ansioso. — Nós somos três você é só um.
– Mas eu sou um gigante. — ele respondeu olhando para Mari e gargalhou. — Além do mais filhote de Poseidon vocês não vão querer que essas pessoas se machuquem, não é mesmo?
Henry estava prestes a pular na garganta do monstro e transformá-lo em uma pilha de cinzas de gigante bem ali. Pelo jeito o lestrigão tinha razão, bom, pelo menos se referindo a ele, pois eu só estava esperando uma distração. Olhei ao redor novamente e para minha sorte o lugar estava com apenas umas quatro ou cinco pessoas e eu só via um atendente.
– Eu não contaria com o meu heroísmo. — invoquei uma faca e comecei a rodá-la na mesa com um sorriso de lado e o olhar fixo nele. O monstro ergueu uma sobrancelha para mim como se perguntando de onde aquilo havia saído.
Percebi que uma de suas tatuagens estava escrito fofinha e resolvi questioná-lo sobre isso.
– Quem é Fofinha? — precisava ganhar tempo até Mari voltar.
– Ah, sim. — ele parecia sonhador. — Acho que devo levar um de vocês pra Fofinha. É, ela vai gostar de cozinhar um de vocês para o jantar. – ele engoliu mais um hambúrguer. – Senti o cheiro de vocês em vários lugares da cidade. Vocês não sabem ser discretos.
Provavelmente o cheiro se espalhou quando eu estava vagando pela cidade e meus amigos a minha procura.
– Resolveram passear? Sabe pode ser perigoso para crianças como vocês. – ele riu como se fosse a piada mais engraçado do mundo. – Felizmente eu sou o único aqui. Felizmente pra mim que vou me banquetear de vocês.
Ótimo, se matarmos esse ai não temos que nos preocupar com outros na nossa cola. Informação útil. Se matarmos ele.
Henry estava realmente impaciente ele apoiou as mãos na mesa para provavelmente ver onde Mari estava. Ela voltava a nossa mesa com um copo grande de refrigerante em cada mão. Sem muita enrolação joguei a faca no chão a frente de onde ela vinha caminhando apressada e furiosamente. Mari escorregou na faca e os copos de refrigerante que ela trazia voaram no rosto do monstro o cegando momentaneamente.
Henry aproveitou a deixa e pulou sobre a mesa para a mesa mais próxima atrás de mim. Cortei o braço do lestrigão quando este tentou agarrá-lo. Mari correu de volta em direção ao balcão, pulei do banco para o corredor com a faca em mãos. Onde eu o havia cortado escoria uma fina camada de uma espécie de sangue dourado.
O gigante bateu com a mão direita na mesa que se transformou em uma pilha de madeira chamuscada. Olhou ao redor furioso e por uns instantes achei que ele tinha invocado uma bola de basquete.
– Colocando a vida de mortais em perigo? Nada heroico. — Ele a lançou na direção das mesas do outro lado da lanchonete e não sobrou quase nada da mesa atingida. Os clientes que estavam na loja se jogaram no chão agacharam embaixo de outra mesa.
De repente uma rajada de facas vindas de trás do balcão atingiu o peito e as costas do monstro conforme ele se virava para se defender. Outra bola foi lançada e o balcão e a maquina de milk-shakes explodiram em uma chuva sorvete e farpas.
Tenho que dizer que era impressionante como Mari conseguia acertar sempre o alvo, não importava o quão distante ou o angulo que ela lançava. Imaginei o que os mortais estariam vendo. Um terrorista com uma granada e Mari com uma pistola, talvez. Eu via claramente isso, era como enxergar entre dois mundos.
Tentei um ataque direto quando ele se distraiu, mas ele colocou um dos braços na frente e com uns golpes rápidos só consegui fazer alguns cortes em seu braço. Desviei quando ele tentou me atingir com um soco e pulei para longe (por algum motivo desconhecido sou muito boa com pulos). Mari lançou mais uma rajada de flechas e uma acertou bem acima de um de seus olhos deixando outro corte dourado.
Pulei em cima de uma mesa para ter uma melhor visão e formei um arco em minhas mãos e lance algumas flechas não tão precisas, mas mesmo assim consegui distraí-lo enquanto os clientes se afastavam correndo e gritando que eu tinha uma espingarda. Por um momento meu arco mudou de forma para uma espingarda Mosseberg camuflada calibre 12 semi automática antes de voltar a ser um arco de madeira com flechas de ponta e haste em bronze celestial.
Henry aproveitou e iniciou um contra ataque, pulou na frente do lestrigão com sua espada e investiu vários golpes no peito, nos braços e nas pernas do gigante, que apesar de ser bom e rápido só o deixou mais irritado.
Uma bola foi lançada em sua direção, Henry a desviou com a espada e pulou para trás, pude ver que na verdade a bola de basquete era uma coisa um pouco mais mortal quando uma bola voadora de metal pegando fogo passou voando na minha direção ao lado da minha cabeça e atingiu a mesa ao meu lado. O gigante lançou outra bola essa dessas vez acertou Henry no estomago e ele voou até o fundo da lanchonete e parou só quando bateu forte com as costas na parede.
– Sabe eu melhorei um pouco essas belezinhas depois do ultimo filho de Poseidon que enfrentei. — Ele formou algumas bolas e jogou em varias direções só que desta vez as bolas tinham pequenos espinhos como um ouriço do mar, elas bateram na parede, nas mesas, no balcão e destruíram o que restava do vidro da lanchonete e boa parte da cozinha.
Outra bola atingiu a mesa que eu estava em cima poucos segundos depois de eu pular para o chão e rolar para longe. Me escondi atrás de uma mesa caída enquanto pensava em como sair dessa sem virar churrasco de semideus. Olhei ao redor procurando não sei exatamente o que, Henry ainda estava caído no chão, felizmente longe do monstro que parecia estar ignorando ele. Bom. Mari estava escondida em algum lugar do outro lado, mas com um bom angulo para disparos. Bom. Uma bola de fogo explodiu na parede a minha frente meio metro acima de mim. Nada bom.
Rolei mais para o lado esquerdo, vi por debaixo das mesas que Mari se aproximava para um ataque direto enquanto o sem noção do lestrigão jogava bolas onde achava que estávamos era um bom plano se ela tivesse uma distração....
Uma das bolas explodiu bem perto das pernas dela o que a fez recuar um pouco, resolvi ajudar. Me arrastei por debaixo das mesas e invoquei duas espadas curtas gregas e ataquei. Eu era boa com qualquer tipo de arma o que não significa que o lestrigão seja ruim. Depois de vários golpes desviando ele pegou outra bola e começou a desviar as laminas com ela enquanto eu o atacava com fúria. Uma estocada perfurou o lado do seu corpo outro se juntou a varias marcas de cortes e facas no seu braço abrindo um rasgo.
Um golpe estilo soco com a bola e riscos na pele do meu ombro e parte das costas ficaram vermelhos. Mas eu já tinha conseguido o que eu queria. Pulei pelas mesas até uma distancia segura e troquei as espadas por um pilo, sabia que não era uma arma grega e sim romana, mas foi a primeira que me veio à mente e as mãos quando pensei em um tipo de lança.
Corri para frente, pulei da mesa a usando como impulso girei no ar até ter a posição certa e lancei o pilo na direção do monstro. O pilo o atravessou na altura da coxa o fazendo ajoelhar de dor, o mantendo no mesmo lugar e o distraindo com a dor tempo suficiente enquanto Mari vinha por trás pulava em suas costas e cortava sua garganta com um corte rápido, fiquei olhando enquanto o gigante se desmanchava em uma nuvem e pó deixando para trás apenas um rastro dourado e a pilha de pó.
Henry gemeu no fundo da lanchonete, sua cara era de quem iria vomitar o sanduíche a qualquer momento ele se levantou cambaleando.
– E os Jets vencem a partida! — gritei. Ouvi Mari murmurar algo como "Sem noção" e revirar os olhos. — Tudo bem com vocês? — perguntei.
Fui em direção ao Henry e coloquei uma mão em seu ombro.
– Sim. Ele consegue andar? — ela parecia cansada.
– Eu to bem, eu consigo. — Henry estava curvado com a mão na barriga.
Ouvimos sirenes ao longe e o volume aumentava depressa, logo estariam fazendo centenas de perguntas do tipo onde estão seus pais, o que estão fazendo na cidade ou como três crianças conseguiram por fogo em uma lanchonete inteira.
– Consegue correr? — perguntei para Henry e recebi uma careta em resposta.
Passei por sobre umas únicas mesas que ainda estavam inteiras, peguei minha bolsa e a de Henry no chão e pulei para fora por onde antes havia o vidro da loja. Ainda não tinha curiosos tão perto, apenas algumas pessoas do outro lado da rua.
– Pra que lado é a rodoviária?
– Por ali. — Mari apontou. — Umas três quadras pra cima e umas sete á esquerda.
– Tão perto. — ironizei. — A que horas sai o ônibus? — o carro dos bombeiros dobrou a rua e me assustei. — Ok. A gente vê isso depois.
Mari começou a correr antes mesmo de dar uma resposta. Corremos por uns seis quarteirões. Antes de pararmos para respirar um pouco.
Fiquei aliviada em saber que faltava apenas dez minutos para o ônibus sair quando chegamos à rodoviária. O tempo como sempre tinha passado tão rápido que eu não percebi que já era noite. Pegamos um ônibus para Chicago com algumas paradas. Mari e eu sentamos uma do lado da outra, o que era melhor já que eu ainda estava chateada com os dois e ela conversava bem pouco, mesmo assim nós conversamos um pouco sobre mitologia e como as coisas tinham ficado loucas desde o Zoo.
Quase não saímos do ônibus durante as paradas até Chicago só ocasionalmente um de nós saia para buscar comida e comíamos ali dentro mesmo ou às vezes do lado de fora, mas sempre sem sair muito de perto um do outro e do ônibus.
Percebi depois de um tempo que Henry parecia chateado consigo mesmo, provavelmente por ter sido derrotado pelo monstro. Não o questionei sobre o assunto, não se pode ganhar todas, mas ele tem que aprender isso sozinho.
Depois de muitas horas dentro do ônibus não consegui mais me conter.
– Então... Não vamos mesmo falar sobre essa missão? — Perguntei baixinho.
Estávamos no fundo do ônibus, era noite e a maioria dos passageiros estava dormindo a essa hora, então tínhamos certa privacidade.
– E o que devíamos falar? — Henry se aproximou.
– Não sei. — falei sinceramente.
– Devíamos fazer um plano. — Mari sugeriu.
– Seria mais fácil se soubéssemos mais. — Henry sussurrou.
– Mas não sabemos. — quase rosnei baixinho frustrada.
– É uma loucura, né? Essa história de deuses e monstros... — ele soltou depois de pensar por um tempo.
– Devíamos dormir agora, não sabemos o que vai acontecer quando chegarmos. — Mari apenas esperou que concordássemos para virar para o lado e dormir.
Eu queria pelo menos uma noite de sono sem sonhos ruins. Não precisava nem mesmo ter sonhos. Só queria dormir. Mas como a vida de um semideus é complicada e a minha é pior eu tive um pesadelo.
Uma chuva fina caia na cidade, no beco onde eu me encontrava o cheiro de pão quentinho fazia meu estomago roncar e doer como se quisesse comer a si mesmo. Eu me mantinha encolhida no beco atrás de umas latas de lixo vazias. Me escondendo não sei do que, mas eu sabia que devia me esconder e que eu devia esperar.
Do nada o sonho mudou e eu estava no banco de algum carro de policia, a parte de trás onde eu estava tinha grade e por isso eu não conseguia ver o motorista nem o passageiro na parte da frente, somente silhuetas humanoides e o cheiro forte como se eu estivesse na jaula dos répteis.
Então o sonho mudou de novo dessa vez eu ainda estava sob a chuva, mas dessa vez correndo desesperada em um uma montanha. De um lado um precipício de rochas escorregadias dava para o mar revolto que batia na parede com a violência de um tsunami, esguichando água como um gêiser vários metros acima. Esmagando qualquer esperança de uma fuga pelo mar. Do outro lado da rua imensas arvores jogavam um cheiro de eucalipto no ar. Mas algo me dizia que coisa muito pior estava escondida ali. No topo a tempestade parecia ser sugada pela montanha, as nuvens rodavam pelo céu sem ter fim lançando sombras negras e vultos de monstros na luz do fim do dia. Uma onda de tosse me atacou fazendo meu corpo tremer e lançando uma dor aguda pelo meu peito e pulmões.
Acordei com o ônibus sacudindo na entrada da rodoviária. Ainda sentia a água fria pesando as minhas roupas, mas o pior era a certeza de que meu sonho era uma lembrança e a sensação de que eu estava indo direto para a tempestade. Isso fazia meu corpo recuar. Não de medo, mas de precaução. Como aquela vozinha que te diz pra não fazer uma coisa estúpida quando voce pensa em fazer uma coisa estúpida.
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