Idiotas vinculados
1 Entre a Vida e a Morte
Notas iniciais
Henry
Coisas estranhas acontecem à minha volta, coisas que eu não posso explicar. Até mesmo vozes que apenas eu escuto. Ás vezes acho que sou louco.
Meu nome é Henry Clawd, tenho 13 anos de idade, sou bem magro tenho pele clara e olhos castanhos mel. Moro no Brooklyn, em Nova York.
Digamos assim que eu sou um menino que não conversa com muitas pessoas, portanto não tenho muitos amigos. Isso é porque sou meio tímido e tenho certeza de que as pessoas me acham maluco, sempre que me veem respondendo às vozes. Além disso, eu tenho um problema chamado déficit de atenção e hiperatividade. Isso não ajuda a atrair amigos, sabe?
Eu estava em minha casa pronto para levantar e ir para a escola, em um Domingo, não estava muito animado por disso, minha mãe, Lucy, me chamava na porta do meu quarto.
– Filho, está na hora de levantar para ir pra escola! – chamou ela calmamente.
– Já to indo, mãe. – disse desanimado. Só não virei de lado e voltei a dormir porque hoje a escola nos levaria no Bronx Zoo, Manhattan.
A escola só podia nos levar a passeios ao domingo, pois no meio da semana não teria como, por ter uma carga horaria de estudo muito apertada e muito conteúdo para ser ensinado.
Eu estava como dores no corpo, por causa de um passeio no Central Park com minha colega Jessie Ferraro, que conheci há pouco tempo, desde quando eu mudei de escola pela quarta vez no ano. O fato interessante aqui é que ela estava mudando de escola pela quinta vez no ano. Pelo que ela me contou, parece que sempre rolam umas brigas, e por mais que ela tente evitar, ela acaba envolvida.
Depois de levantar da cama fui ao banheiro tomar um banho. Era estranho, porque todas as vezes que eu não estou bem, eu só preciso tomar um banho para me curar. Dores passam e fico novo em folha – às vezes era muito bom – mas em certos momentos eu achava que era o meu psicológico abalado. Mais um problema pessoal pra minha lista de esquisitices.
Saí do banho com uma toalha azul enrolada na cintura, minha mãe estava se arrumando para ir trabalhar. Ela era advogada, então tinha que manter uma boa aparência. Quando estava indo para o meu quarto trombei com ela no corredor, ela usava saia social preta até os joelhos e uma camisa azul-claro, colar de perolas e brincos combinando. A roupa era simples, mas para mim ela ficava linda de qualquer jeito. E eu adoro azul, então isso contou como um ponto a mais pra ela.
– Bom Dia, filho! Dormiu bem? – perguntou minha mãe com um sorriso delicado.
– Bom dia mãe! Dormi sim, mas tive um sonho estranho. Eu estava numa floresta, onde tinha um lago enorme, um refeitório com uma grande fogueira no meio dela e com campos enormes de morango.
– Ah, querido! – lamentou ela – você vai entender esses seus sonhos. Em breve, você vai ver- Fiquei meio confuso sobre isso. Como ela poderia saber de algo vindo de um sonho?
Ela pegou a bolsa, me deu um abraço de despedida e correu para a porta. Parou no batente, e me dando um último aceno de mão, se foi.
Se eu soubesse que ficaria algumas semanas sem poder abraça-la novamente, teria a feito se atrasar, de tão longo seria meu abraço.
Terminei de me arrumar, estava com uma roupa simples — calça jeans e camiseta azul peguei minha corrente de prata com um pingente que tinha um objeto estranho estampado em uma ferradura – Me lembrava dum grande garfo, muito esquisito com três pontas ligadas a ferradura – Aquilo me lembrava algo que eu vi em minha escola alguma coisa sobre mitologia — mas nunca tive empenho para tenta descobrir. Minha mãe disse que foi presente do meu pai, e por mais que eu tenha raiva dele, eu me sentia seguro quando usava este presente.
Minha mãe conta que eles se apaixonaram na universidade, fizeram planos para o futuro e chegaram a ter um noivado, que só durou uma semana. Ela o contou que estava grávida e depois disso ele foi embora, alegando ter coisas importantes a tratar – problemas de família, ele disse. Deixou para trás apenas aquela corrente e algum dinheiro para minha mãe.
Várias vezes eu perguntei o nome dele e no que ele trabalhava, mas ela mudava sempre de assunto e ficava um pouco triste – acho que ela ainda tinha saudades dele, apesar de tudo.
Fui caminhando para escola, pois eu morava bem perto. Sempre ficava esperando Jessie no portão na escola, já que ela odiava o interior da escola. Alguns alunos maldosos sempre fazem comentários maldosos sobre seus ombros largos e sua altura.
Quando ela chegou, estava de cara fechada – medo! – Jessie não é o tipo de pessoa que você gostaria de irritar. Quando fica nervosa, ela é capaz de coisas absurdas, como no dia em que ela arranjou um machado – não sei de onde – e começou a ameaçar alguns garotos sem noção na praça em frente ao colégio.
Me aproximei aos poucos e perguntei se estava tudo bem. O medo provavelmente estava estampado na minha cara, já que a resposta dela foi um tanto irônica:
– O que você tem? – Deu um sorriso maléfico – Você parece assustado.
– Ah, não é nada. – Menti – Aconteceu alguma coisa?
– Não! – Ela respondeu, rápido demais pro meu gosto.
– Então tá, né? – disse revirando os olhos.
Entramos no colégio Midwood e nos deparamos com alguns alunos que não iam muito com nossa cara, mas tudo bem. Já estávamos acostumados com esse tipo de coisa.
Dentro do ônibus, todos os bancos da frente estavam ocupados. Decidimos ir para os bancos dos fundos, aonde, no banco mais próximo à janela, vimos uma garota vestida completamente de preto, a única exceção eram os fios do fone de ouvido, que eram brancos. Seu rosto estava oculto pelo gorro de sua jaqueta. Por um momento, tive a impressão de que ela não estava respirando. Parecia uma estátua.
Jessie também ficou encarando ela. Decidiu se sentar um banco depois do dela, não me deixando escolha além de me sentar entre as duas – estátua gótica de um lado, pavio curto do outro. Bem legal.
Quando pensei em dar uma última olhada na estátua gótica, senti arrepios na espinha, como nunca tinha sentido na vida. Era como a presença da morte em um dos meus frequentes pesadelos.
– É impressão minha ou ficou mais frio de repente? – Perguntei à Jessie.
– Estão fazendo 26°C. Não é o maior calor que essa cidade já sentiu, mas também não pode se dizer que eu esteja passando frio. – Ela respondeu com impaciência.
– Não sei como, mas eu estou com frio! – disse esfregando os braços.
– Acho que porque você é magricela demais, não tem gordura o suficiente pra aquecer seu corpo – disse Jessie rindo de mim.
– Não precisava jogar na cara.
O ônibus começou a se movimentar depois que o nosso professor, Felix Jordan, explicou as regras. Ele era baixo, dono de uma feição oriental e cabelos arrepiados. Só usava roupa social e muitos alunos riam do modo como ele mancava, devido a um incidente de infância. Jessie sempre o achou um “cara suspeito”. Nunca entendo o porquê.
Chegamos ao zoo na entrada principal se encontrava a estatua de um gorila acenando.
– Um gorila acenando? Qual é o sentido disso? – perguntou Jessie franzindo a testa.
– Deve ser a atração principal – disse.
Entramos e fomos passando pelas jaulas de jacarés, hipopótamos, panteras e aves exóticas. Nosso professor falava alguma coisa sobre eles, mas pra variar eu estava em outro planeta. Depois de um tempo fizemos uma pausa em frente ao borboletário. Havia um bebedouro próximo à entrada, onde formou-se uma fila que parecia que nunca teria fim. Eu não tinha percebido, mas a menina-estátua-gótica estava ali por perto, ainda escutando música. Não parecia sequer se interessar pelo que o professor tinha a dizer. Observei que, apesar de estar usando uma roupa completamente escura, nos pés ela trazia um par de All Star coloridos. Achei estranho, mas resolvi ignorar. Ela com certeza faria o mesmo em relação a qualquer pessoa.
Foi quando ela se aproximou. Fiquei a encarando, mas ela apenas revirou os olhos como se eu a estivesse irritando só por existir. Ela encostou as costas e a cabeça na parede e fechou os olhos. Desviei o olhar dela porque comecei sentir os mesmos calafrios que senti no ônibus.
O professor Felix olhou para nós bem no momento que eu estava desviando o olhar da garota. Ele olhou para Jessie mexendo no cabelo e depois para mim com uma expressão solidária, se aproximou e disse:
– Então vocês três já se conhecem? — Ele mantinha um sorriso estampado no rosto.
– Na verda... – Fui interrompido.
– Aquela ali? – Jessie apontou com o queixo — Não mesmo.
– Jessie... – Eu disse, em um tom reprovador.
– Poxa, me desculpe o engano, Srta. Ferraro. Mas socializar poderia lhe fazer bem.
– Vai ser difícil ela socializar com a gente – disse Jessie irritada – Ela não conversa com ninguém. Pelo menos eu converso com o Henry.
– Deixa disso. Venham, eu vou apresentar vocês. – disse o professor nos puxando pelo braço.
– Pessoal? Essa é Marine Catta...
– Mari, professor. – Ela o cortou
– Hm, essa é a Mari Cattane, – repetiu o professor desconfortavelmente. – Sra. Cattane, estes são Henry Clawd e Jessie Ferraro.
Marine nos encarou, fechou os olhos e voltou ouvir as musicas dela.
– Bom... Vou deixar vocês se conhecendo – Felix disse, ainda desconfortável, e foi apressar o pessoal que estava bebendo água.
Eu e Jessie ficamos olhando para Marine esperando ela pelo menos dizer um “Oi”, mas nada aconteceu. Ela manteve os olhos fechados, até que Jessie ficou irritada e começou a sair de perto, mas eu a segurei.
– Espere! – disse olhando para Jessie. Me aproximei da Mari e tirei o fone do ouvido esquerdo dela.
– Ei, quem você pensa que é? – disse ela abrindo os olhos, que pareciam ser capazes de me matar sozinhos.
– Calma! – disse com medo de levar um soco – nos só queremos conversar.
– Conversar? – ela me encarou como se eu fosse de outro mundo. – vocês não são normais, são? – Ela se soltou da parede, deu as costas e foi saindo. Isso me deixou nervoso.
Passei meus 13 anos de vida aguentando gente que me humilhava e tirava sarro de mim, mas nunca fora ignorado. A única pessoa que me ignorou na vida foi meu pai, e isso me deixa tão nervoso quanto se pode ficar.
Senti a raiva crescer dentro de mim, mas quando estava no ponto mais alto do ódio, prestes a chamar aquela menina de volta e dizê-la poucas e boas. Ouvi um estrondo e, quando dei por mim, percebi que havia acontecido algo que eu jamais vira acontecer assim, sem nenhuma explicação.
O bebedouro explodiu, e a água do poço dos Jacarés se expandiu para todos os lados, como se alguém tivesse dado um mergulho estilo “Bala de canhão” para nadar com os jacarés. Ouvi gritos e pessoas correndo pelo zoo. A fila do bebedouro se extinguira. Jessie estava paralisada, Marine havia se virado para a nossa direção como por reflexo, e pelo canto dos olhos pude ver o professor Felix correndo em nossa direção. Ele me encarou como se a culpa daquilo ter acontecido pudesse, de alguma forma ser minha. Percebi que a desconfiança só poderia ser por um motivo: ao meu redor, todos estavam encharcados, enquanto eu estava completamente seco.
Jessie estava sentada no chão, completamente molhada, me olhando com os olhos arregalados. Marine estava ainda em pé, a parede próxima a ela totalmente molhada, assim como ela, da cabeça aos pés, até o cabelo ruivo – ruivo? – que antes se escondia debaixo do gorro, agora estavam completamente encharcados. Estava boquiaberta, em choque.
Senti uma mão no meu ombro, olhei para o lado e vi o professor Felix com uma expressão preocupada.
– Agora já era, precisamos sair daqui, senão eles te pegam – disse ele me encarando – isso que você fez vai chamar a atenção deles.
– Deles? Deles quem? – perguntei.
– Não há tempo para explicações. Temos que ir logo para o acampamento.
– Acampamento? Que acampamento?
– Não dá pra explicar agora. Jessie e Mari, vocês vêm junto. – Ele estendeu uma mão pra Jessie, que ainda estava sentada, e deu um aceno de mão chamando a Mari para perto de nós.
– Mas para onde vamos? – perguntei
– Vamos para Long Island – disse o professor Felix tentando fazer Marine voltar a si. Quando isso deu certo, ela me olhou enfurecida.
– O QUE VOCÊ FEZ? – gritou ela.
– E como eu poderia ter feito isso? Não sei o que aconteceu, simplesmente... – eu não sabia o que dizer, eu estava tão confuso quanto ela, precisava de explicações.
– Só eu achei isso legal gente? – Jessie perguntou animada. – Tá, a gente ficou meio molhado, mas foi muito legal.
Saímos do zoo, as pessoas que estavam presentes na hora do acontecimento não pareciam perceber nossa correria. Eu poderia jurar que escutei o professor Felix xingando as próprias calças e sapatos, mas eu prefiro não confiar na minha mente. Na saída do zoológico encontramos uma van prateada estacionada. Entramos nela e percebi que ela estava cheia de latinhas de refrigerante vazia e de lixo reciclável. Preferi ignorar esse pequeno fato. Sente-me atrás do motorista, Jessie ao meu lado. Marine, se recusando a sentar perto de nós, isolou-se na última fileira de bancos. Garota estranha.
O professor pisou fundo e seguimos por uma rodovia. Fiquei olhando pela janela, tentando decorar o caminho para casa no caso do professor ser um psicopata que quer nos esquartejar vivos. Um silêncio mortal se instalou dentro da van. Jessie e eu nos entreolhamos algumas vezes, sem saber o que dizer. Até que chegamos a uma estrada cercada por fazendas e plantações que eu nunca tinha visto antes. Olhando para o professor através do retrovisor interno, perguntei:
– Ta bom, o que diacho está acontecendo aqui? – disse sem pensar.
Jessie se movimentou no banco traseiro, esticando as costas de forma a chegar perto do banco do motorista, na intenção de escutar melhor a resposta do professor. Tudo o que eu vi foi ela arregalar os olhos e seu vulto de volta ao banco de trás, tamanha foi a velocidade com a qual ela se movimentou.
– Credo, professor! Toma vergonha na sua cara, tem duas meninas dentro dessa van, sabia?
Por curiosidade me estiquei para ver o que estava acontecendo. Para minha surpresa o professor estava tirando as calças. Enquanto dirigia. Por um momento procurei alguma coisa pontiaguda pra atacar o psicopata, mas então pude ver que suas pernas não eram pernas normais. Eram mais torneadas e possuíam muitos pelos, e esses pelos eram extremamente grossos, como pelos de animal. Então, ele parou o carro no acostamento para completar a tarefa e tirar os sapados. Minha surpresa não poderia ser maior ao notar que, ao invés de pés, ele tinha cascos.
– Você é um homem bode?! – Gritei, enquanto nós três pulávamos da van.
– Homem bode? – Jessie se aproximou novamente e segurou o riso – como assim homem bo... Olha, uma adaga! – Jessie pegou a adaga dourada no chão e segurou à altura dos olhos.
– Onde é que você arrumou isso, menina? – perguntou o professor nervoso.
– Não é sua? — perguntou Jessie enquanto olhava.
– Não, não é minha. – ele tomou a adaga da mão de Jessie que Gritou “Ei!” – Estranho, nunca vi esse tipo de adaga. Essa é das antigas, e é de bronze celestial... Não posso deixar que você fique com ela por enquanto, mas irei guarda-la para você.
– Aaaah! – lamentou Jessie.
– Deixa eu me explicar. Sim, vocês sabem alguma coisa sobre mitologia grega?
Jessie e Marine deram um pequeno aceno com a cabeça. Eu me lembrei de algumas aulas que tive e livros que li, e acenei também.
– Bom, então devem saber sobre os 12 olimpianos, os titãs e os primordiais, certo?
– Sim, assim como também sabemos que nada disso realmente existiu. Eram apenas histórias e poemas criados para explicar os fenômenos que na época não podiam ser explicados pela ciência. – Disse Jessie, de certa forma um pouco irritada.
– Você que pensa meu bem. – disse ele lançando um sorriso. Virou-se então para mim — Você acha que foi natural o que você fez no zoológico?
– Mas... eu não fiz nada daquilo.
– Ah, meu caro. Acredite em mim, você fez.
Olhei para trás, Marine estava ouvindo com atenção dessa vez. Jessie olhava intrigada, como se tentasse imaginas aonde ela se encaixava nessa história.
– Mesmo que eu tenha feito, onde que entra toda essa história de deuses? – Perguntei.
– Você é filho de um deles, oras! – Ele disse, como se fosse óbvio. — De qual eu não sei, mas depois do que eu vi no zoo desconfio que seja de algum deus relacionado à água ou à natureza. – disse ele todo contente. – Garoto, aquilo foi demais! Mas não conta lá no acampamento que eu disse isso, ok?
– Mas... hein? Eu, filho de um deus? Não, deixa eu te explicar: meu pai é um ser humano comum com pouquíssimo senso de paternidade que fez faculdade junto com a minha mãe. Só isso.
– Ele pode até ter feito faculdade com a sua mãe e ter uma falta de senso de paternidade, mas ele jamais será um ser humano comum.
Fiquei tentando absorver a mensagem por uns segundos, e então ouvi Jessie dar voz aos seus questionamentos:
– Tá, mas aonde eu e a obscura ali entramos, no meio dessa história?
– Vocês também são filhas de deuses ou deusas. – Notando o olhar de descrença no rosto das duas, ele continuou: — Vai me dizer que vocês nunca fizeram nada que vocês achassem muito estranho?
Antes que alguma delas pudesse responder, eu interferi:
– A Jessie vive encontrando todos os tipos de arma, como ela acabou de fazer.
Jessie deu um meio sorriso e seus olhos brilharam com uma emoção que eu nunca tinha visto presente nela.
– Isso quer dizer que eu tenho um Pai? – Ela perguntou.
– Ou uma mãe! – Felix respondeu animado.
– Sério? Sempre quis conhecer meus pais. No orfanato me diziam que meus pais eram policiais que morreram a serviço.
– Pois em breve você poderá conhecer um deles. Nós só precisamos chegar ao acampamento.
– E porque devemos confiar em você? – Levei um susto no momento que eu ouvi Marine falar se aproximando devagar.
– Se olhar para as minhas pernas não for o suficiente para você, não tenho mais o que fazer. Mas devo alertá-la: você está muito longe da cidade para voltar sozinha, e agora que vocês foram expostos, ficar sem a proteção do acampamento pode te custar a sua vida.
Ela pareceu enfurecida. Olhou para mim com ódio no olhar novamente, e disse:
– Muito obrigada por nos “expor”, me deixando sem escolhas.
Eu ia protestar, mas Jessie colocou uma mão no meu ombro e me olhou como se dissesse que era melhor evitar a fadiga. Marine se virou para o professor e perguntou:
– Posso ao menos avisar ao meu irmão? O idiota ali estragou meu celular, homem-bode.
– Lá no acampamento nos temos um modo... diferente de se comunicar com os de fora, você poderá aproveitá-lo. Quando à parte do “homem-bode”, o termo correto é sátiro, e eu sou o protetor de vocês. No acampamento vocês vão enten... – Um tremor de terra o interrompeu. Ele estalou os olhos. – Corram! Para dentro da van!
– Terremoto? – perguntei apavorado, enquanto fechava a porta traseira após a entrada das meninas.
– Não, algo bem pior. Eles sentiram a nossa presença. Temos que ir embora.
Entretanto, para completar a nossa sorte, a van se recusava a ligar. Olhei pelo retrovisor e vi uma forma enorme, escura e com quatro patas vindo em nossa direção.
– Crianças, teremos que ir correndo. Não temos escolha. Vão na frente, eu afastarei o cão infernal.
Cão infernal? – Fiz uma nota mental para perguntar sobre eles mais tarde. Estávamos quase na metade do caminho quando escutamos um grito. Olhamos para trás e vimos Felix jogado ao chão, inconsciente. Me virei com a intenção de voltar para ajudar, mas Jessie me segurou.
– Henry! Vamos, temos que ir ou morreremos.
Eu queria ajudas o sátiro, mesmo sabendo que eu poderia não sair dessa vivo. O sentimento de inutilidade me trouxe uma fúria maior do que aquela que senti no zoológico. Senti um calor imenso ao redor do meu pescoço, vi Jessie me soltar e começar a se afastar. Olhei para baixo e percebi que o calor vinha de minha corrente, que agora brilhava como se o sol estivesse retido nela. Pela primeira vez na minha vida, as vozes na minha cabeça disseram alguma coisa de útil: empunhe a espada, elas ficavam repetindo. Por instinto, puxei meu colar pelo pingente e sua corrente de prata se transformou em uma lâmina de bronze de dois gumes, enquanto o pingente de ferradura se transformou no punho de uma espada, encaixando assim na lâmina. A ferradura e o “garfo” cravados no punho, combinando assim com uma perola muito branca logo abaixo, cravado no final do punhal, era incrível, mas eu consegui sentir de alguma maneira uma brisa muito fresca manando daquela perola, como se eu estivesse novamente na praia das férias de verão com a minha mãe, me fazendo me sentir muito a vontade. Mesmo eu sendo magricela, a espada era leve em minha mão. Ela tinha do tamanho do meu braço e reluzia um tom de bronze.
Jessie e Marine me olhavam surpresas quando o chão tremeu novamente e eu pude ver o cão infernal a poucos metros de mim. Coloquei o medo no bolso e encarei o tal “cão infernal”. Sua pata com garras enormes passou a milímetros da minha cabeça, mas eu desviei com um reflexo tão rápido que nem eu acreditei. Ele tentou me abocanhar, mas eu girei e investi com a espada contra o seu focinho, – que de “inho” não tinha nada- causando um ferimento pelo qual escorreu uma espécie de líquido viscoso dourado. Aquilo era uma espécie de sangue?
Superestimei-me e tentei um golpe perto de suas costas, mas usando sua cauda como proteção, ele me arremessou para longe. Parei apenas quando bati as costas contra uma árvore. Uma dor sufocante atingiu meus pulmões, minha visão ficou turva e eu achei que iria morrer ali, pisoteado por um buldogue de 5 toneladas.
Ouvi um grito, parecia a voz de uma das meninas dando instruções para a outra, mas não consegui diferir a qual das duas o tom pertencia. Abri os olhos aos poucos e pude ver Jessie jogando uma adaga para Marine, – de onde aquilo surgiu, mesmo? – que a pegou no ar. Jessie já tinha uma lança em mãos, e sem pensar elas simplesmente voaram em cima da criatura. Com três pulos bem impulsionados, Jessie conseguiu subir nas costas do cão, porém na terceira investida contra a nuca, ela foi derrubada pela cauda. Marine surgiu por trás e atacou as patas traseiras do animal enquanto ele estava ocupado tirando Jessie de suas costas. Aonde elas acertavam o líquido dourado escorria.
Consegui recuperar meu fôlego e corri para ajudá-las. O cão não percebeu minha presença. Pulei e cravei minha espada na garganta do animal enquanto Jessie mantinha as patas da frente ocupadas. O bicho deu um urro alto e se desfez em pó. Caí de joelhos, a mão direita segurando a espada, e esquerda pressionando as costelas. Jessie me ajudou a me levantar, Marine simplesmente deu um aceno de agradecimento e se afastou novamente. Olhei para o céu e me deparei com o pôr-do-sol. Marine apontou para um pinheiro solitário no alto do morro. Ao seu lado podíamos ver uma espécie de arco.
– Lá – Ela disse. – Aquela deve ser a entrada do acampamento. Temos que subir o morro antes que aconteça mais alguma coisa. – Ela me olhou, apoiado em Jessie. – Consegue andar sozinho?
Soltei-me de Jessie por um segundo. Dei dois passos, e a dor foi tão grande que achei que ia desmaiar de novo.
– Acho que não.
– Ok, então eu vou apressar o passo, vocês dois façam o seu ritmo. Preciso chamar alguém que possa ajudar aquele sátiro.
Subimos o monte, eu ainda com espada em mãos. Marine ia alguns passos a nossa frente, num ritmo mais acelerado, porém ainda podíamos vê-la. A cada passo que eu dava tinha um pressentimento de que mais ossos de minhas costelas estavam quebrando, pois doía muito mais subindo um monte. Pouco depois de perdermos Marine de vista, vimos três sátiros com armaduras descendo o morro. Provavelmente um resgate ao Felix.
Chegando ao topo do monte, vimos pessoas correndo ao encontro de nós, uns tinham armaduras, outros só com armas, todos estavam com cara de preocupação. Marine estava parada perto da entrada, conversando com uma menina de armadura. Quando nos viu, ela apontou e disse alguma coisa. Quando percebi, havia muitos jovens em volta de nós tentando nos socorrer e oferecer ajuda, até que se ouviu:
– Quem esta aí? – perguntou o tipo de voz que é carregada de sabedoria.
Todo mundo ficou em silencio profundo, a multidão de jovens abriu espaço para a passagem do dono da voz. Tive a impressão de que quem se aproximava era um ser humano até a cintura, a daí para baixo era um cavalo, porém minha vista estava ficando embaçada, e a última coisa que eu ouvi foi sua voz ordenando que nos levassem à enfermaria.
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