Identity Crisis
34 C33. A rough day
Notas iniciais
1ª parte: Visita rápida, o Conselho Estudantil
Era o segundo horário dos clubes, que geralmente duravam entre 13h e 16h. O clima estava ameno. Um dos poucos dias em que não se vê os alunos usando os cachecóis.
Ele espiou pelo vidro da porta enquanto acompanhava Grand, o capitão no clube de futebol, tentando ser o mais discreto possível.
Seus olhos então captaram o Presidente, tão popular como sempre, cercado dos outros membros, papéis e sorrisos iludidos. Sieghart estava tentando cumprir seu acordo com a Diretora Erudon e por isso todo o Conselho Estudantil estava já há uma hora em uma reunião excepcional. Aparentemente estavam finalizando, já que eles precisavam ser liberados para o almoço.
— Ai, merda! A Èclair está lá dentro também, Dio. – Grand choramingou, se escondendo atrás do italiano e apertando seus ombros, espiando na mesma direção com uma face desgostosa.
E para quem não conhece a breve história dos dois, Èclair Soleil et Luneoscur é não menos que a rival de nascença de Gran Dunkel Schwarzeklinge. Nascidos em duas famílias protagonistas de uma rixa histórica nunca resolvida, ambos acabaram desenvolvendo mútuo ódio sem nem mesmo saber o motivo. Graças a esse infortúnio, desde a infância, a disputa familiar os afetou diretamente em tudo o que faziam, tornando-os nêmesis.
Para o resto do colégio os dois eram claramente almas gêmeas e viviam em uma peça trágica de Shakespeare.
— E qual o problema com isso? – Dio indagou, puxando o rapaz de olhos verdes para seu lado novamente.
Dio voltou a olhar para dentro da sala e nesse momento o Fiammeggianti se deparou com sentimentos conflituosos. A mão suave de uma garota de longos cabelos brancos e olhos rosados intensos, tocando a de Ercnard. Ele sorria para ela, sem retirar a mão afrontosa.
Uma das coisas que assolou o rapaz foi um pensamento primitivo de reagir, ao qual ele quase cedeu, mas sua vontade de entrar na sala e puxar o moreno para si morreu logo ao imaginar o sermão de Sieghart. O ciúme não era um sentimento que ele já tinha sentido antes e experimentá-lo agora não era nem fácil e com certeza nenhum pouco agradável.
Grand, notando sua agitação, cutucou-o.
— Fiammeggianti, você vai entrar ou não? Faz esse favor para seu veterano? Esse aviso tem que ser entregue diretamente ao Conselho Estudantil. E você sabe que eu não posso ver a Èclair agora.
A voz do colega o fez tirar seu olhar possesso da menina de cabelos brancos e o obrigou voltar à razão.
— Me entrega a sua pilha.
A face de Grand se iluminou enquanto entregava toda a propaganda da final do campeonato, mas logo seu sorriso de alívio sumiu com as próximas palavras do italiano.
— Eu falo, mas você vai entrar comigo. – Dio sentenciou, já batendo na porta e puxando o capitão pelo pulso.
— Não, Dio, espera!
— Com licença!
Ao passo que o italiano já entrava se anunciando, os olhos de todos se fixaram nele, mas Dio só conseguiu assistir a cena que Sieghart arregalava os olhos e terminava todo o contato físico com a menina.
Os olhos prateados brilharam ao vê-lo, mas também se desviaram cheios de hesitação. Os dentes mordendo levemente o lábio avermelhado, as maçãs ganhando uma cor levemente rosada. As reações do moreno nunca o deixariam entediado, ele pensou.
— Papelada para o Sr. Presidente. – falou o italiano, caminhando até a mesa principal ao fundo, lançando um breve olhar para a garota, esperando que ela sentisse seu puro desdém.
Èclair era distinta. Usava um arquinho preto básico que segurava uniformemente seu cabelo longo para trás. Usava a camisa na medida tradicional, saia midi até a panturrilha, busto comportado, gravata longa masculina, não a curta que as meninas costumavam usar, e meias compridas na cor nude. Também tinha postura ereta e hábitos que deduravam sua trajetória no balé.
Era a senhora perfeitinha do colégio. Dio conseguia ver o porquê de ela e Grand serem tão opostos. Em comparação, o rapaz era vívido, agitado e brincalhão. Eram Yin e Yang.
— Fiammeggianti. – ela disse, em seu tom neutro e olhar ácido. – Quem diria que algum dia veria você aqui na sala do conselho.
Dio sorriu, fitando-a.
— Que estranho. Nunca houve motivos para eu não vir aqui, Srta. Èclair. Certo, Presidente? – retrucou o maior, estendendo os papéis para o moreno.
Sieghart o encarou, tentando manter uma expressão neutra. A face do companheiro tão próxima e o cheiro tocando-o docemente quase o hipnotizavam, mas se manteve firme.
— É verdade que você nunca apareceu por aqui antes. O que é isso tudo? – Sieghart indagou, olhando os papéis com a sobrancelha arqueada.
Ela permanecia ao lado de Sieghart, que pegava os papéis de seus braços. Suas mãos tocando momentaneamente, parecendo que os dois estavam se queimando em lava. Dio lambeu o lábio por dentro, contendo o desejo de acariciar a mão dele enquanto se afastava.
— Publicidade para o campeonato. – Dio respondeu e, só para provocar a menina, ele apontou para Grand, que ainda se escondia atrás de si (inutilmente). – A verdade é que estou sendo um bom calouro e ajudando o capitão.
Pôde-se ver a pele da menina eriçada ao encarar o arqui-inimigo. Com isso, Dio conseguiu desviar a atenção dela e, rapidamente, trocar um olhar com o companheiro e lhe dar uma piscadela. Sutil, sexy e convidativo.
Sieghart corou de novo, mas ignorou-o, sentando-se e fingindo analisar os papéis.
— Isso vai estar pronto até a noite. Podem ficar tranquilos.
— Tem certeza que vai dar certo Sieghart? Não esqueça que é importante que o time forme uma boa torcida esse ano. Tivemos muitas dificuldades com esse assunto já, você sabe. — Grand adicionou rapidamente, evitando olhar para Èclair.
O moreno encarou o veterano com seriedade, contudo, todos sabiam que aquilo não significava que Sieghart estava bravo. Sieghart nunca era rude por mais que merecessem. Além de ser o estudante modelo do Colégio Vermécia, não era dele ser assim. Talvez sarcástico, mas nunca rude.
— Eu dou conta até a noite. – Sieghart confirmou, esperando para ver se o capitão falava algo mais. — Se tivermos qualquer contratempo eu assumo a responsabilidade.
— Certo. Estou contando com você então! Muito obrigado!
Grand aproveitou sua deixa para agradecer a equipe e sair (e fugir de Èclair), se esquecendo de Dio. Não que ele se importasse. Ele ficou mesmo, pois queria discutir sobre esse trabalho extra. O fato de Sieghart ficar ocupado por outra noite seguida não o agradava, já que havia dias que eles não se viam por sua culpa, por causa da empresa. Ele também não se sentia mais no direito de atrapalhar o moreno quando estava nas atividades extras ou estudando, por mais que quisesse.
— Podemos conversar? – Dio se apoiou na mesa, ignorando o olhar mortal da secretária.
— Fiammeggianti. Você sabe como o Presidente está muito ocupado. – Èclair ainda tentou atravessar sua frente para ficar mais próxima do moreno.
Dio a encarou, a intrometida.
— Por isso que cabe a você cobri-lo quando ele não puder cumprir sozinho todas as tarefas, Sra. Secretária. Não acha que ele está ficando tempo demais fazendo o seu trabalho?
A menina corou, fechando as mãos em profunda indignação.
— O que você di-,
— Parem com isso. – Sieghart se levantou, guardando sua caneta e seu planner. Ele fitou a menina. — Não o leve a mal. Por ser meu colega de quarto ele tem ficado bastante preocupado comigo. Mas eu já estou acostumado a essa rotina. Não é nada que eu não consiga lidar.
— Me desculpe, Sr. Sieghart. Não era minha intenção te sobrecarregar...
Dio segurou o bufo, mas cruzou os braços e esperou.
— Sobre o que você quer conversar? – Sieghart o fitou por uns segundos, parecendo levemente irritado.
Dio entendia que era difícil para o moreno agir como sempre na frente dos outros. Era óbvio que eles não queriam o colégio inteiro falando sobre como os dois de repente eram “super amigos”.
— Sobre o jogo. – ele murmurou, ator profissional como sempre. Dio era um mestre da mentira. Provavelmente todos ali acreditariam se a desculpa fosse o futebol. Para todos era bem plausível que a dupla artilheira do time tivesse reuniões frequentes.
Sieghart olhou de canto para os membros do conselho que assistiam à interação com interesse discreto e passou os dedos na têmpora.
— Eu volto em 10 minutos, pessoal. – Sieghart se levantou, para o espanto de Èclair e dos outros.
NADA fazia Sieghart sair fora de horário, não depois do sermão que ele levou da Diretora Erudon. Mas ele manteve a pose e se retirou, com Dio em seu encalço.
De alguma forma, conseguiram se esquivar de vários conhecidos e encontrar um local afastado.
A primeira coisa que Sieghart fez foi cruzar os braços e manter aquele olhar distante que ele colocava quando não queria que os outros soubessem o que estava pensando.
O mais alto estava nervoso e carente, mas não podia esperar que o moreno fosse ceder a algum carinho seu nesse momento delicado do semestre.
— Você tem estudado ultimamente, Fiammeggianti?
O maior arqueou a sobrancelha. Esse não era o tipo de conversa que ele esperava ter nesse momento, mas pelo menos o namorado tinha começado, ou seja, não estava completamente contra a ideia de conversar.
— Sim. O mesmo de sempre.
— Hm...
A pausa e o olhar sério diziam que tinha algo errado. Apesar de o movimento dos lábios o distraírem, ele não deixou sua mente vagar em como suas mãos queriam estar na cintura de Sieghart.
— Por que a pergunta?
O canto do olho do moreno mexeu-se de forma mínima, mas ele provavelmente segurou um comentário direto no fundo da mente.
— Porque eu não te vejo estudar aqui nas aulas nos últimos dias. Nem no dormitório.
— Ah...
— E nem em lugar algum. — Sieghart comentou rígido, deixando de certa forma claro que o problema não era sua preocupação com a rotina de estudos de Dio. — As provas estão aí e logo mais o campeonato.
Dio abaixou o olhar um pouco, sem saber realmente o que dizer nessa hora. Porque o que estava sentindo definitivamente era um daqueles sentimentos que ele não era acostumado. Algo como nervosismo. Um leve medo.
— Hm. Eu estou ocupado durante esses dias na verdade. Coisas de família. — Dio gesticulou, tomando cuidado com seu tom ao ver os olhos penetrantes do moreno. Ele já tinha entendido o recado, mas não podia sair falando sobre o negócio sujo que ele precisava lidar.
Sieghart só faltou virar os olhos. O “tch” que soltou estalou fortemente no ambiente sem nenhuma vontade de fingir que estava satisfeito com a resposta.
— Entendi. — Sieghart se aproximou do maior, tocando sua gravata de forma casual.
A proximidade fez com que ambas a faísca do querer e o aperto na garganta paralisassem o mais novo. De perto era possível ver a pupila aumentando e sua respiração parando por um instante, apenas para aspirar o cheiro do moreno. Mas ele soube pelos olhos prateados que ele estava zangado.
— E o que você precisa de tão urgente?
Dio por outro momento arregalou os olhos sem saber o que fazer.
Inicialmente, Grand tinha aparecido no dormitório dizendo que iria à sala do Conselho Estudantil e precisaria de ajuda. E por acaso Dio tinha acabado de voltar da filial, aliviado por ter terminado toda a papelada, e estava mais do que disposto a dar toda sua atenção para o namorado. É só juntar um mais um que já sabe no que vai dar.
Dio só não imaginava que sua presença ia incomodar tanto. Claro, era compreensível que o moreno estivesse ocupado, mas cinco minutos não iam fazer mal certo?
Ele limpou a garganta rapidamente, um nervosismo estrangulado desconhecido.
— Bem, nós não estamos conseguindo passar um tempo sozinhos esses dias… E eu terminei tudo o que eu precisava fazer na empresa. — Dio gesticulou gentilmente, tocando a mão do moreno em sua gravata.
Sieghart não soube o porquê, mas ele não estava a fim disso naquele momento. Sua cabeça doía só de pensar que o italiano nem imaginava qual o motivo de sua irritação. Na face do mais novo não havia nenhum sinal de preocupação. Aquilo subiu em seus nervos.
O moreno retirou sua mão num movimento, não rude, mas com intenção. E Dio soube, fazendo seu rosto se contorcer em surpresa.
Houve um breve silêncio.
— Aconteceu alguma coisa? — o maior perguntou, olhos fixos e um pouco de ferida em seu olhar. Ele estava com medo, mas também não tinha feito algo para ser recebido com aquela atitude.
Sieghart o fitou por um tempo e soltou as mãos, ao lado do corpo, uma na cintura.
— Não aconteceu nada.
O outro fez um som neutro, curioso para saber qual era o problema. Dio pensou em como o moreno conseguia ser complicado e que ele era teimoso desde que o conheceu, então… ele teria que lidar com isso.
— Okay. Mas se algo estiver te incomodando você pode me dizer, certo?
— Hm.
Depois de mais uns segundos de silêncio e de Sieghart com a testa franzida, Dio suspirou.
— Acho melhor eu ir indo. Não quero atrapalhar seu trabalho.
A ruga na testa do moreno aliviou um pouco e eles se olharam diretamente. Sieghart abriu os lábios e suspirou também.
— Você não atrapalha okay? Eu só estou um pouco estressado.
Dio sorriu, sentindo um pouco de alívio.
— Tudo bem. A gente se vê mais tarde então?
Sieghart o olhou um pouco desconfiado. Ele falava isso todos os dias, mas pelo menos hoje ele veio vê-lo.
— Certo.
2ª parte: Almoço em débito, frente a frente com Rosewood
Apesar de toda a conversa, Sieghart não estava ainda convencido. Os dois tinham tido um início bem agitado e aquilo deveria ser uma das maiores loucuras da sua vida. Ele tinha muito a perder com aquela relação. Mas ele sabia que aquele cara tinha algo de especial... ele sentia coisas intensas, nunca antes sentidas. Por isso ele não cansava de pensar que havia algum motivo obscuro por trás daquele segredo que Dio guardava.
“Se vamos mesmo ficar juntos, em algum momento ele vai precisar me dizer.” Pensou ele, inquieto.
Percebendo sua distração, Èclair tentou mantê-lo focado com algumas novidades publicadas no jornal da escola, mas mesmo que ele conseguisse discutir sobre o assunto normalmente, sua mente não permanecia completamente ali. Mesmo tentando nada dava certo. Já que estava óbvio que nada funcionava, em certo momento a garota se deu por vencida e ofereceu um intervalo maior para o moreno ir almoçar e aproveitar para colocar seus pensamentos no lugar, vendo que ele não abria espaço algum para uma conversa íntima.
Sieghart saiu da sala, mãos nos bolsos, e caminhou até a cantina. Passos lentos e sobrepensativo. Foi só quando um calor e um aroma familiar muito conhecidos o envolveram pelas costas que ele saiu de sua mente.
— Sieg!
Ele sentiu o peso de Elesis em seus ombros e a voz energética da menina o alcançou bem no ouvido.A prima largou seu abraço e animada veio ficar ao seu lado.
— Elesis! Cadê a Lire? — ele perguntou já olhando ao redor, esperando ver a loira a qualquer momento.
Mas a ruiva apenas fez um bico e deu de ombros.
— Ela já viajou para casa. Ela te mandou um abraço. Foi esse abraço que acabei de te dar, aliás.
— Ah tá, entendi. — ele sorriu, cotovelando a prima de leve. — Mas ela foi para casa ou para França?
A ruiva passou os dedos arrumando seu cabelo, que nos últimos dias usava solto. Hoje especificamente ela estava usando um grampo de guitarra, preso no final de uma trança lateral. Ver isso o fazia se convencer de que ela estava se conectando com seu lado feminino cada vez mais e permitindo-se divertir. E era tudo graças à Lire.
— França. Vai voltar semana que vem. Você está indo comer é?
Ela puxou seu braço, acompanhando-o preguiçosamente pelo caminho.
— É, estou no intervalo do conselho. Depois vou para o treino e de lá estou indo para casa.
Com isso, ele recebeu um olhar preocupado. Os olhos rubis faziam-no ficar mais relaxado, mas nada poderia melhorar seu humor em relação àquele jantar. Ele parou momentaneamente, fitando seus sapatos sociais castanhos, a barra de seu uniforme azul royal. Sua voz saiu como um fio, alta o suficiente para apenas a ruiva ouvir:
— Mari provavelmente vai contar tudo hoje à noite, Elesis. Meu pai já tinha me avisado que se algo desse errado eu ia arcar com as consequências.
— O tio é tão cruel... Ele ainda está com aquela ideia de te mandar para um instituto militar?
— Ele vai ter que me mandar amarrado. Eu vou para Oxford esse ano.
Elesis piscou surpresa ao vê-lo decidido. Seus dedos apertaram-se um pouco mais em seu bíceps.
— Você decidiu finalmente o que vai fazer, Sieg?
Ele a fitou com um aceno e foi para falar alguma coisa, mas uma lembrança passou por sua mente, levando-o a olhar seu relógio, constatando que ele tinha um tempo limitado para o almoço.
— Eu lembrei de uma coisa muito importante agora, Elesis. É urgente. — ele anunciou, seu tom corrido, já separando-se dela.
Claro que a menina não ficou feliz de ser dispensada tão rápido, mas ela estava bem mais tolerante e não tinha mais problemas com seus ataques de paranoia. O rapaz deixou-a no corredor principal e se esgueirou pelas pessoas com toda a gentileza possível, acenando quando o chamavam para conversar.
Quando chegou à porta da cantina, ele tomou o celular e chamou rapidamente o número em alguma conversa perdida. Com sorte, o rapaz atendeu e, depois de algumas palavras, ele conseguiu marcar o encontro.
— No fim, isso vai servir para minha vantagem. — ele sorriu, aliviado, entrando e varrendo os olhos pelo local para não encontrar nenhum amigo próximo, por sorte.
Sieghart sentou-se numa mesa mais privada, junto às janelas e subindo um grande deck, onde ele pôde olhar o pátio gigantesco do colégio enquanto esperava seu convidado.
Não havia realmente uma divisão de castas ou uma hierarquia na Academia Real, entretanto, ele conseguia ver como a sua presença, ou pessoas como Lupus, Grand e outros que tinham famílias extremamente poderosas, influenciava todos os arredores. Por exemplo, no instante em que sentara, todos no deck decidiram abandonar o local aos poucos. Embora no deck houvesse cerca de trinta mesas, tanto um casal de amigos, quanto um grupo de primeiranistas e todos os que estavam espalhados decidiram deixar, pouco a pouco, o belo e privilegiado ambiente.
Era sempre assim.
As pessoas sempre saíam do ambiente como se ele fosse o dono do lugar. Todas às vezes ele sentia como se os holofotes estivessem virados para si. Então ele se lembrava de novo como sentia que sua vida era um retrato desse cenário: um grande teatro. Ele não conseguia se sentir real num lugar assim. Parecia que estava vivendo a vida pelos olhos do outros.
Mas ele não pode divagar muito mais, não quando a figura esguia passou despercebida, com passos leves e silenciosos, e suas duas mãos espertas tocaram seus ombros de forma totalmente íntima, causando-lhe um desconforto estranho.
— Sieghart! — Rosewood exclamou, em sua voz uma grande animação por vê-lo, fazendo Sieghart torcer o nariz com o sobrenome.
O garoto dos cabelos róseos tinha intenção em seus dedos, mas Sieghart fingiu descaso. Seu sorriso empresarial tomou o ambiente e ele se levantou, escapando daqueles dedos, oferecendo com a mão esquerda a cadeira à frente.
— Desculpe por ter ligado assim de repente, Maya. Eu estou bem ocupado esses meses.
O primeiranista sorriu de volta, negou com a cabeça, já se sentando enquanto segurava a mão de Sieghart, a qual ele teve que suportar.
— Está tudo bem, Sr. Presidente. — ele disse, adoçando sua voz, já acomodado. Ele abandonou a mão do moreno e colocou um de seus pequenos fios ondulados atrás da orelh, ajeitando sua gravata e retirando o paletó.
O alemão então realizou-se de que aquela conversa demoraria mais do que imaginava, logo, ele pediu licença apenas para contatar Ryan, quem seria seu porta voz, e relaxou, olhando o cardápio.
— Como prometi, o almoço é por minha conta.
Os olhos do menino brilharam e eles iniciaram algum assunto aleatório e puramente, você pode dizer, profissional.
Vinte minutos se passaram entre assuntos variados, alguns introdutórios, como suas famílias e seus gostos, e mais gerais como a escola e a cidade. Eles até trocaram algumas opiniões políticas e compartilharam hobbies mais modestos. Tudo isso enquanto desfrutavam do excelente menu da academia, elaborado por um chefe profissional.
Maya Rosewood se mostrou um garoto esperto e bem informado, porém, Sieghart conhecia diversos personagens como ele. Desde o início ele já tinha desconfiança da forma que o garoto o tinha ajudado com Mari. E seguindo o conselho de Ryan, que tinha ouvidos por todos os lados, ele seguiu a pista e descobriu como o bolsista estava fazendo de tudo para escalar a ladeira social.
Sem julgamentos em relação aos meios que o Rosewood utilizava. Sieghart sabia bem o quão rico era e os privilégios que apenas o dinheiro proporcionava. Entretanto, uma lição importante dentro desse mundo é que se você entra no jogo, tem que saber brincar. E no jogo sempre tem um perdedor e um vencedor.
— Se você me permite, Sieghart. — ele iniciou, limpando os lábios no guardanapo e segurando o garfo com uma almôndega no ar. O mais velho apertou a língua nos dentes, evitando qualquer face desgostosa. A falsidade o fazia querer desistir da ideia e nunca mais olhar para aquela cara de santo do pau oco. — É um rumor que corre por aí, mas todos evitam a todo custo falar em voz alta. Você sabe, se alguém importante ouvisse seria o mesmo que correr o risco de expulsão.
Sieghart levantou uma sobrancelha, parando de comer e observando o molho da almôndega alheia pingando no prato.
— E que tipo de rumor é esse que causaria uma expulsão? Isso não é um pouco exagerado? — indagou, voltando a comer em paz, sabendo que o momento se aproximava. Alguém como o Rosewood não deixaria escapar sua única oportunidade de ter ganhos. Sieghart já havia deixado claro que ele estava extremamente ocupado, assim ele tinha deixado o primeiranista sem nenhuma outra chance.
O rosado sorriu de um lado ao outro e fez uma concha com a mão. Sinceramente, ninguém os escutaria porque eles estavam completamente isolados.
— A Princesa espalhou um rumor sobre você, Sr. Presidente. — ele murmurou, com uma acidez que fez Sieghart usar todo seu autocontrole para não demonstrar reação.
Os olhos verdes riam para ele, como se já soubessem de todos os seus segredos.
Sieghart parou uns segundos, fazendo uma face de tonto. Como se fosse automático entrar no personagem.
— Eh? Sobre mim? — ele indagou confuso. Sua voz embargada.
Maya assentiu, direcionando seu garfo para o prato e girando-o alguns segundos, amassando a carne lentamente. Com a outra ele segurava uma parte de seu cabelo que ficava caindo no rosto.
— Como eu disse, é algo que vale até uma expulsão ou até mais. Os alunos daqui já descobriram quem a Lady Ming na verdade é. Acharam que ia ser fácil enganar os estudantes, mas tinha alguém nesse colégio que já sabia quem ela era e deu com a língua nos dentes hahaha~
Sieghart terminou seu prato e tomou um gole d’água, mantendo sua postura o tempo todo, seriedade tomando sua face. Ele sabia desde o início que esse garoto iria chegar com todas as pedras. Ele tinha que considerar a possibilidade de que o colégio talvez já soubesse absolutamente tudo. Mas ainda assim, mesmo que sua vida inteira estivesse desmoronando, Sieghart não tinha medo mais.
Maya olhou para ele com um ar de pena. Seus lábios angelicais tocaram a taça e ele continuou com suas palavras interesseiras.
— Sieghart, você sabe como é. Famílias como a sua e como a dela conseguem destruir vidas inteiras com apenas um estalar de dedos.
O moreno fechou os olhos e tomou ar levemente, preparando-se para seu jogo.
— O que você está me dizendo é que existe um rumor por aí, porém, eu não estou sabendo de nada ainda. Eu sou uma pessoa muito importante, Rosewood. Já estive envolvido em centenas de rumores antes mesmo de eu ter nascido.
O rosado riu de novo, inocente, e se ajeitou na cadeira novamente.
— Você tem um ponto aí. Ainda assim, eu não senti necessidade de ter prova alguma para te mostrar. Quer saber por quê?
Sieghart franziu o cenho, analisando com qual petulância aquele garoto vinha até ele. Algo dentro de si escureceu. Sua voz parecendo de outro alguém.
— Me ilumine. Porém, você mesmo acabou de dizer: famílias como a minha acabam com vidas em um estalar de dedos. — ele murmurou, fitando-o como uma lâmina, sem impedimentos em tornar palavras em realidade.
O rosado mudou a expressão convencida por um instante, mas ele manteve seu riso irritante, sabendo que ia ganhar.
— Marie Ming Onette, a princesa de Liechtenstein. Sua noiva. — o garoto o fitou, muito sério agora. sua comida foi por fim abandonada e ele cruzou os braços sobre a mesa. — Eu não sei com que coragem ela teve de dizer isso, mas ela estava furiosa depois de a diretora Karina chamá-la para conversar. Ela espalhou para as colegas de classe que ela fez de tudo para vir à Inglaterra para conhecer o noivo dos sonhos dela, apenas para encontrar você, quem estava sendo infiel desde o início.
O moreno inspirou ar com tranquilidade, sendo cutucado pelo perigo daquelas palavras. O seu medo de ser descoberto era grande e ele tentava mentalmente se tranquilizar, se convencendo de que saberia agir não importando o cenário. Caso descobrissem, ele teria que lidar. Não havia outra saída.
— E é isso? Uma garota paranoica que viveu isolada dentro de um castelo sonhando com o príncipe encantado foi rejeitada. Qual a novidade nessa história? Hoje em dia nós temos o direito de ficarmos com quem quisermos.
O garoto à frente lhe deu um olhar de quem conseguia ler sua mente.
— E só por coincidência a pessoa que você quer é um homem.
O silêncio de Sieghart foi o que o Rosewood recebeu como confirmação. Mesmo porque o moreno não conseguiria negar um fato tão real como aquele, não depois de ter assumido o compromisso com Dio.
Sieghart então abaixou os olhos para a água dentro da taça, vendo seu próprio reflexo. Naquele instante ele pensou. Quem ele era e como sua vida tinha sido moldada nas mãos de sua família bem do jeito que eles queriam. Como Dio apareceu, bem a tempo, e o fez olhar para um lado seu que desconhecia. O fez ser ruim. O fez sentir como se quisesse ser mau, destruir tudo, ir contra todos. Parar de ser o senhor perfeitinho. Parar de fingir ser um rebelde e ser o próprio caos.
Mais do que nunca, queria ser a ovelha negra. Ele tinha desistido da aprovação de seus pais e parentes. Ele nunca a teria mesmo, até o fim da vida. Ainda mais agora.
O filho primogênito. O único verdadeiro herdeiro da fortuna dos Sieghart.
Gay.
Foda-se todo mundo.
— Esse é o motivo de você ter vindo sem provas? — ele perguntou, nada impressionado.
Maya soltou um estalido com a língua, já cansado de dar voltas no assunto e nunca chegar às reações que tanto queria.
— É exatamente isso. Você não tem medo de que esse rumor chegue às pessoas erradas?! Hein, Sieghart?! — ele rosnou, como um rato faminto por qualquer pedaço que conseguisse furtar.
O moreno nada respondeu, mantendo-se firme. Aquele cão só ladrava. Ele ainda não tinha mencionado nenhum nome, não tinha fotos e nem gravações. Ele saberia caso esse rumor fosse real. As pessoas tinham uma imaginação muito fértil. Podiam desconfiar dele e de Fiammeggianti por causa de sua proximidade nos treinos, porém, era fácil confundir toda a intimidade com amizade e contato masculino, muito comuns no esporte.
— Eu sei com quem você está saindo. Quem entra e sai de sua casa quando seus pais não estão vendo. Você também não quer que isso chegue ao seu pai, quer? O Sr. Sieghart. Todos sabem como o Presidente do Conselho Estudantil é devotado à família e faz tudo como mandado. Um pequeno deslize já é o suficiente para se dar mal, não é?
— Rosewood, você parece bem informado de tudo o que acontece entre minha família. Mas eu duvido que a Marie te contou todas essas coisas. Você é muito tolo mesmo.
— Como é?!
— Você acha que é tão esperto, se envolvendo comigo achando que eu não sei nada sobre você.
Sieghart então tirou do bolso uma foto.
O rapaz abriu a boca, apontando-lhe o dedo e sem palavras.
— Você é muito ingênuo em vir me ameaçar sem nenhuma moeda de troca. — Sieghart suspirou, jogando-lhe a fotografia que encerraria aquela conversa.
O garoto ficou absorto na imagem, incapaz de gerar palavras.
A fotografia nada mais era do que um print de uma câmera, gravada no quarto de Sieghart, dentro da mansão. Algo que tinha acontecido há muitos meses atrás, quando ele ainda estava se recuperando do término com a ex-namorada.
— Só para sua informação. Eu tenho toda a gravação do ocorrido. Não é algo que seria bom vir à público para nenhum de nós, mas para a outra parte certamente resultaria em passar bons anos atrás das grades.
— Como...
Maya sentou-se largado na cadeira, ainda incorformado.
— Os Sieghart sabem de tudo. Quem são seus empregados, quem são seus irmãos, tios, primos, namorados... Nós temos o controle absoluto de quem pisa na nossa casa. — Sieghart murmurou, seu tom estagnado, seus olhos na foto.
— Seu maldito. Você ficou guardando isso por quanto tempo? O que planeja fazer com ela?
Sieghart deu de ombros e contou a história.
— Eu já tinha desconfiado quando ouvi o seu nome. Você deu muito azar dessa vez, pois se não fosse por causa dela eu nunca saberia de onde você veio, Maya Rosewood. Minha empregada Estela tem um afeto por mim muito grande e sempre contava da vida pessoal para me entreter. Nós nos conhecemos há bastante tempo aliás. Ela deve ter esquecido, mas ela me contava do irmão mais novo que ela tomava conta. Um dia meu pai discutiu sobre ela estar sendo muito íntima com o mestre da casa e para manter-se profissional. Ela nunca mais falou nada depois desse dia. Tudo o que tínhamos eram cumprimentos.
Sieghart bebeu o final da água, relembrando das inúmeras coisas que haviam acontecido naquela mansão.
— A Estela é uma moça muito simpática e me ajudou muito quando precisei. A verdade é que eu nunca esperaria isso dela. Foi chocante, mas eu e minha mãe conversamos com ela e tudo ficou bem, ela se arrependeu.
Maya passava a mão na cabeça, parecendo cada vez mais incrédulo em ver sua irmã mais velha, na câmera, claramente sobre um Sieghart mais novo, beijando-o e tocando-o durante a noite.
— ... Estela!
— Eu também sei que sua irmã não tem nada a ver com seus planos. Ela deve ter comentado o que viu dentro da minha casa, só que ela também não tem nenhuma prova, muito menos você. Pelo contrário, eu tenho todo o material que garante que ela cometeu assédio contra um jovem de 16 anos, um menor. Parece pouca coisa, mas eu não tenho medo de expor isso para a polícia.
Maya o encarou, rangendo os dentes de ódio, porém, sem direito a mais nenhuma palavra.
— Eu também não tenho medo de exporem que eu estou com um homem, Maya.
— !
O garoto se levantou com violência, limpando os olhos.
— E agora? Depois de tudo o que eu disse o que pretende, Sieghart? Eu perdi. — o orgulho nos olhos verdes crepitava, ele mordia os lábios. Ele não parecia mais um menino angelical e inocente, mas sim um deliquente vindo das piores ruas. Seu tom grave nada contido.
Sieghart se levantou também, dando a volta na mesa e pondo-se de frente com o rosado. Ele tirou do paletó um envelope.
— Sr. Sieghart para você, Maya. Se quiser que nossas vidas continuem na maior tranquilidade, entregue isso para a Onette. Você vai querer fazer isso até hoje à noite. — indicou o moreno, inserindo o papel no paletó do menor e batendo levemente em seu ombro. — Você é esperto, Maya, mais do que a Estela. Como você sabe, permitimos que ela continue na mansão, recebendo uma boa quantia e lutando para te manter no melhor colégio do país. Ela errou e aprendeu com seu erro. Espero que você pense bem nisso, para não cometer o mesmo deslize que ela.
Sieghart por fim afastou-se, vendo o rapaz sentar-se de volta, olhando para a mesa.
3ª parte: A amargura de um passado oculto
Apesar de toda a intensidade da conversa, ele estava se sentindo um pouco melhor. Sieghart nunca esperava que seu dia fosse ser tão problemático e, considerando que havia muito mais por vir, ele precisaria comer uma boa sobremesa, ou ele podia perder controle de sua atuação bem mais rápido.
Ao passo que caminhava para uma das cafeterias mais requintadas do colégio, sua preferida, ele avistou quem mais o preocupava no momento.
— Lupus! — chamou audivelmente, se aproximando do colega, que o fitou meio cabisbaixo e o esperou.
O mais velho estava sozinho, como sempre. Ele sempre fora enigmático, mas hoje em especial, sua face estava inchada, os olhos fundos de quem não havia dormido. Sieghart lembrou da face perturbada do amigo na noite anterior.
— Oi, Sieg. Desculpa, eu saí hoje de manhã e não falei nada...
— Que isso, cara. — Sieghart balançou a cabeça, tocando-o no ombro e os aproximando. — Que bom que você está aqui agora. Quer me acompanhar num café?
O outro lhe deu um sorriso pequeno, confortável e assentiu rapidamente. Ambos se dirigiram para a cafeteria e se acomodaram sem nenhuma demora.
— Como você está?
— Melhor. Algumas coisas mexeram com a minha cabeça... eu ainda estou pensando em tudo. Talvez seja melhor você nem saber.
Sieghart tinha decidido pedir algo diferente desta vez. Um capuccino, uma bebida mais doce, algo que não era do seu feitio, mas por algum motivo parecia ser a escolha certa para a tarde. Ele fitou o amigo, vendo-o com seus olhos vinho muito distantes.
— E você? — Lupus indagou, tentando aliviar seu ar pesado.
Sieghart sorriu para ele.
— Estou bem. Tem um punhado de coisas acontecendo como sempre... Você sabe. O conselho, a Mari, minha familia... — ele esperou o garçom dispor seus pedidos e observou como Lupus se conteve em pedir apenas um café indiano. — E o Dio.
O loiro levantou brevemente os olhos para si com a palavra mágica. Sieghart riu com aquilo.
— Depois daqui eu vou voltar ao conselho e depois vamos para o treino.
— E depois?
Sieghart suspirou.
— E depois eu preciso ir pra casa dos meus pais... Hoje à noite vamos ter um jantar com boa parte da família. E sócios. — comentou, seus lábios acomodando o chantily e a doçura que o fez fechar os olhos.
Lupus estendeu um guardanapo para ele, deixando seu sorriso tomar melhor sua face. Quando os dois estavam juntos era sempre assim. Parecia que não tinha medo e nem hesitação em falar sobre qualquer coisa. Havia uma liberdade muito grande e confortável entre eles.
— Quer que eu te escolte? — perguntou com um tom brincalhão. — Seu pai ficou bem mais suave quando eu fui com você nos almoços.
Sieghart negou com a cabeça e o olhou com tom provocativo.
— Ele só te respeita porque o melhor amigo dele é o Sr. Regis. Além disso, eu tenho um namorado pra me escoltar.
Lupus arregalou os olhos com a brincadeira, mas riu também.
— Você está bem mais sério sobre isso hein? Até piadinha. Já entendi que vou ser a segunda opção agora.
Sieghart deu de ombros, continuando o ar leve, e começou a repartir seu petit gateau.
— Eu pretendo ir ao jantar e depois ir para o clube, Lupus. Você deveria ir também para melhorar esse seu humor.
O mais alto o fitou surpreso, roubando um pedaço do sorvete de creme do outro.
— Você tem certeza? Esse jantar não é para discutir sobre... — Lupus pausou, sinalizando com os olhos o “noivado”.
— Isso mesmo. E é exatamente por isso que eu vou precisar sair depois... E para me desculpar por ter ignorado vocês. Nós devíamos voltar a fazer nossos encontros também. Não esqueci da minha promessa, Lupus.
Parecia que o mais velho tinha ganhado uma dose de energia ao ouvir isso.
— Eu já avisei o Ryan. Ele está encarregado de tudo. Logo mais ele vai falar no nosso grupo.
— E o Jin? — Lupus indagou, roubando um pedaço de seu doce. Sieghart interceptou-o com seu garfo.
— Vou ter que pedir outro mesmo? Pede o seu, Lupus.
— Eu não quero um inteiro.
— Ahh, enfim... O Jin também. Nós conversamos. Pusemos os pontos nos is. Estou dando o espaço que ele quer, então se ele estiver confortável ele vai aparecer.
O outro assentiu com a cabeça, conseguindo furtar mais um pedaço e parou de importunar o moreno, focando em sua xícara.
Ambos ficaram em silêncio alguns segundos até o Wilde decidir abrir o coração.
— Posso te contar uma coisa, Sieg?
Sieghart o fitou, sentindo-o muito sério. Ele conhecia a história dos Wilde, conhecia a um nível íntimo. Ele sabia de sua mãe, sabia de seu pai. Sabia da tragédia dos Wilde. Mas ele nunca havia ouvido a história da boca de Lupus. O pior, ele pressentia que Lupus, assim como ele, tinha passado por episódios em sua infância que o tornaram rígido e fechado dessa forma. Sieghart se enxergava nele. Ambos respeitavam a distância. Ninguém perguntava do passado. Eles viviam perfeitamente bem assim.
— Claro.
Lupus olhou para seus dedos, parecendo que estava num confessionário. Ele soltou os ombros, como se o peso de alguma culpa estivesse deixando-o nesse instante.
— Nos conhecemos há bastante tempo até, mas nunca comentei. Eu nunca contei para ninguém, poucos sabem, nem a imprensa tem informação sobre isso, já que meu pai garante o absoluto sigilo da empresa e da família. É algo importante. Para mim.
Sieghart franziu a sobrancelha, abandonando sua comida. Algo de tal importância confiada a ele... Ele não era uma pessoa tão importante assim. Teve coisas que ele nunca disse a Lupus.
— Na realidade, eu não sou o único filho da família. Nem o primeiro. — Lupus comentou, seus olhos alternando entre os pratas dos olhos de seu melhor amigo e a xícara de líquido escuro à sua frente.
O moreno piscou, levemente confuso. Ele não tinha ideia do que poderia ser tão importante e tão sigiloso para deixar Lupus tão aflito em revelar, mas nada como isso. Ele esperava algo um pouco mais crítico do que um ou dois irmãos perdidos.
— Eu tenho um irmão bem mais velho, que deixou a casa quando eu era bem pequeno. Eu era extremamente apegado a ele, mas não lembro de seu rosto mais. Só lembro que meu pai o excluiu da família e proibiu de tocarmos no nome dele. Eu era bem pequeno, só um bebê, quando minha mãe começou a ser muito protetiva comigo.
Sieghart assentia, não conseguindo imaginar onde aquela história chegaria, porém, ele conseguia pereceber... Lupus não era o mesmo de sempre. Parecia uma outra pessoa, uma face distinta da qual ele conhecia. Aquilo, por um momento, o assustou.
— Eu não vou saber dizer o que foi que aconteceu durante vários anos em casa. Minha mãe estava infeliz e brigava o tempo todo com meu pai. Brigas constantes. Mas comigo, ela era um anjo, ela me amava demais. Então, certo dia, meu pai entrou em casa com outro menino, mais novo que eu, completamente diferente de mim. E ele disse que íamos viver juntos e que era meu irmão. Você sabe... Eu era pequeno. Eu era muito mimado... Eu não conseguia aceitar.
— Você tem dois irmãos... O herdeiro que foi embora e o mais novo. Isso tem a ver com o que aconteceu com sua mãe, Lupus?
O mais velho assentiu, apoiando os dedos na testa.
— Minha mãe imediatamente fez uma cena. Eu não lembro direito. As empregadas começaram a correr, pegando a mim e afastando para o meu quarto, mas eu conseguia escutar tudo. A partir daquele dia, os móveis da casa foram todos revirados, meus pais brigavam e discutiam por tudo. Não houve um dia de paz. Foi nessa época que eu comecei a odiar o Lass.
— Lass? Esse é seu irmão mais novo?
— Sim. O Lass. Para mim, foi tudo culpa dele. Na minha cabeça...
Lupus desceu os dedos para seus olhos e Sieghart viu seu amigo quebrar de uma forma como nunca antes.
— Isso... Isso é meio demais. Vocês eram crianças. — balbuciou, um pouco chocado com o rumo da história.
— Minha mãe... Ela ficava abraçada comigo por horas a fio. Eu estava com ela o tempo todo. Ela me dizia: “Aquilo não é seu irmão.” e coisas como Lass era um plebeu, um demônio, uma criança que estava ali para me servir. Ela me afastava dele e dizia como a culpa era dele... E que se ele não existisse, nossa família estaria bem e unida.
Sieghart sentiu um calafrio na espinha, vendo lágrimas tão desconhecidas no rosto de Lupus.
— Eu vi coisas... o que ela fazia com o próprio corpo. Os surtos começaram e ela começou a ser violenta, com tudo e com todos. Ela só ficava bem quando ela me via. E às vezes nem mesmo estar junto com ela funcionava. Lass era sempre o alvo dela e o que acontecia não era bonito de se ver. Mas o pior de tudo era eu. Eu... Eu acreditava em tudo o que ela dizia. Eu acreditava nela, eu queria vê-la bem mais que tudo. Aquela doença parecia que estava entrando dentro de mim... eu fiquei igual a ela...
— Lupus... — Sieghart levantou-se e sentou do lado do amigo, passando o braço por seus ombros. — Não é sua culpa. Amigo, calma.
Por uns momentos os dois esqueceram que estavam em público. Lupus ia demorar um pouco para terminar a história, então ele decidiu deixar o conselho nas mãos de Èclair e Ronan, acompanhando o mais velho até o quarto.
— Não é a toa que você parecia tão mal. O que aconteceu, Lupus?
Sieghart sentou-se com ele, sabendo que não ia ser tão fácil agora.
— Sieg, eu fiz coisas horríveis. — Lupus murmurou, segurando o braço do moreno, causando-lhe um arrepio. — Meu irmão, Lass... Eu não sei mais como olhar pra ele. As coisas que sinto por ele, depois de toda a dor que eu causei.
O moreno inspirou ar, puxando-o para a realidade. Pela primeira vez, ele não queria detalhes. Algo ali não estava certo. Algo que ele não queria ouvir.
— Lupus, eu não sei o que aconteceu exatamente. Na verdade, eu não quero saber, já tenho uma ideia, considerando a história da sua mãe. Mas independente de o que você fez, você parece que se arrepende, não é?
— A vida toda eu fui um monstro! Eu não quero enlouquecer daquele jeito igual ela. Se eu não fazer a coisa certa agora, eu sinto que não vai ter mais volta... O Lass está crescendo e logo mais ele vai ficar igual a mim. E não vamos conseguir consertar nada.
Nada naquele momento podia confortar Lupus, a não ser sua presença e sua paciência. Sieghart emprestou seus ouvidos e manteve-se ali, ouvindo o que o amigo dispunha-se a contar.
Todas as vezes que ele se irritava com Lass, como ele se comportava na escola, como sua mãe falava com a família nos jantares. Lupus não tinha coragem de dizer o que fazia com Lass, mas ele tinha admitido que era um garoto violento, com um ego muito grande. Mas tudo foi tão pesado e tão chocante, que Sieghart decidiu apenas ouvir e trancar em alguma parte sua.
O que importava agora? Lupus tinha razão. Eles deveriam caminhar em frente, fazer as coisas de forma justa.
— Seu irmão merece uma explicação. Ele merece desculpas. Ouvir a verdade da sua boca, Lupus. Ele talvez nem precise de suas desculpas. Você é quem parece precisar do perdão dele, mais que tudo.
— Sieg, o que faço...? Aquele garoto nunca me odiou, apesar de tudo o que fiz...
— Não sei. Mas você sabe que em algum momento você vai precisar falar o que sente. Ninguém pode fazer isso por você.
Lupus parou uns segundos, balançando a cabeça, absorto em seus pensamentos.
4ª parte: Preparação para uma longa noite
— O Sieghart? Não pôde voltar hoje para o conselho. Parece que surgiu um imprevisto e ele foi direto para o dormitório. — Ronan explicava, organizando seu equipamento da esgrima e fitando alternadamente o visitante do clube. — A Èclair me pediu mais cedo para cobrí-lo.
O rapaz de olhos vinhos murmurou um “entendi” e ficou pensativo, mas não demorou muito a agradecer e indicar sua saída. Mas antes de fazê-lo, o Vice-Presidente o impediu.
— Fiammeggianti, espere um pouco.
Assim que o azulado o chamou, Dio parou no meio caminho, esperando do lado de fora do prédio. Ele tinha ótimo conhecimento sobre os estudantes da Academia Real, além de ter usado os primeiros dias para observar a dinâmica de uns com os outros. Sabia que o Erudon e o Sieghart atuavam como respectivamente Vice e Presidente, porém, boa parte da responsabilidade era centralizada em Ercnard. Ronan tinha um envolvimento muito mais administrativo enquanto Ercnard lidava com as relações sociais. Ambos tinham papéis importantes nos clubes e como líderes, serviam de modelos e guias para o resto do colégio inteiro, além de estarem no top 3 dos melhores estudantes do país. Dio sabia também que os dois não se davam exatamente bem e que Ronan atualmente estava saindo com Jin. Ele só não tinha certeza se Ercnard sabia disso.
— Você vai ir encontrá-lo agora, não vai? — o mais velho indagou, descendo rapidamente e estendendo um folheto de propaganda e uma folha de bloco de notas toda escrita à mão. Ronan passou a toalha em sua testa e apontou para o material. — Isso é do campeonato que vocês vão participar daqui umas semanas. Eu fiz algumas marcações no desenho e fiz minhas anotações do que precisa ser modificado. Eu corri para falar com a impressão e com a coordenadora da academia para podermos terminar isso até hoje à noite. Depois é só mandar alguém com as modificações para mim.
— Então o Sieg deixou isso para você? — Dio indagou, fitando o garoto à frente, esperando encontrar algum indício de o que tinha acontecido. — Ele me parece ser alguém que leva ao fim o que diz.
O azulado arqueou a sobrancelha para ele.
— Normalmente sim. Mas pode acontecer às vezes... Ele já desmarcou coisas de última hora quando algum problema acontecia.
Dio ainda assim não estava satisfeito. Com tudo o que vinha acontecendo, apesar de os dois terem firmado um relacionamento, ele não conseguia ficar tranquilo. Não quando o moreno tinha se mostrado tão abalado nos últimos dias e carregando um n número de problemas em suas costas. Sieghart nem conversou sobre o que poderiam fazer sobre a “noiva” Mari. Ele nunca tinha realmente pedido ajuda com nada.
— Está preocupado com o Sieghart? — o azulado indagou, perspicaz.
O mais novo afastou os pensamentos, ainda não confortável com o moço de cabelos longos.
— Acho que ele não precisa da minha preocupação. — Dio sorriu com um dar de ombros e começou já a caminhar, acenando. — Agradecido a ajuda, Erudon.
O azulado também, só o observou se afastar.
Não muito depois, o italiano se pegou pensativo sobre sua interação com o moreno algumas horas atrás. Ele se lembrou de suas mãos juntas, causando-lhe uma vontade desconhecida de necessidade, de todos os olhares e coisas ditas. Ele também ficou pensativo sobre como Sieghart estava irritado com ele por sempre fugir do assunto... e altas chances de estar irritado por não se tocarem direito nos últimos dois dias. Realmente, não é o que se espera de um casal que acabou de começar um namoro.
“Mas no colégio é um pouco difícil... Nós demos sorte da última vez.” Pensou consigo, revendo os momentos quentes que tiveram no vestiário e no dormitório e como foram absurdamente inconsequentes, mas sortudos por não serem pegos.
De qualquer forma, ele sabia que nenhum pensamento racional conseguiria impedi-lo de se agarrar com Ercnard, não com aquela atração incrível que tinha.
Ao chegar finalmente em seu quarto, ele se deparou com uma mochila sobre a colcha xadrez e os olhos dos colegas se voltando para si. A sensação foi estranha, já que eles nunca realmente tinham estado todos juntos. Muito menos conscientes de que ele e Sieghart tinham algo sério.
— Dio, finalmente você apareceu. — o moreno exclamou, jogando as roupas sobre a cama, ao lado da mochila, extremamente casual.
Ryan e Lupus o fitaram em silêncio, mas o cumprimentaram com um aceno. Zero chegou perto e bateu em seu ombro, sorrindo levemente.
— Minha bateria acabou durante a sessão de estudos. — ele respondeu, fazendo o caminho para seu guarda roupa e começando a separar suas peças. Ele não tinha certeza se iria para a empresa, para o apartamento que seu pai tinha na cidade ou sabe-se lá, mas ele precisava mover suas mãos.
Sieghart o fitou, segurando uma jaqueta longa.
— Entendi. Eu te perguntei mais cedo se você ia para a filial hoje ou se vai estar ocupado. Temos planos. — os olhos prata indicaram os três rapazes no local, que estavam eufóricos.
— Depois que o Sieg sair do jantar da família nós vamos para o Alley Club! — Ryan comentou animado, já procurando a página para mostrar ao italiano. — Aqui, vai ter um DJ muito famoso.
“O mesmo clube.” O mais alto então fitou Sieghart, fingindo casualidade e questionou:
— Jantar de família?
O moreno o olhou de volta, pelo canto dos olhos. Havia hesitação neles.
— Dessa vez vai ser um jantar burocrático. Seria ótimo sairmos para nos divertir depois.
Dio sorriu por dentro, animado com a ideia de finalmente sair com o moreno. Com os amigos juntos não seria bem um encontro, mas pelo menos ele queria passar tempo juntos. Eles podiam aproveitar para conversar sobre o que estava acontecendo dentro da Casa Sieghart.
— Avisa o Jin para já comprar os remédios, que o Sieg vai ficar maluco hoje. — Ryan brincou, cotovelando Lupus, que estava muito silencioso até então, mas riu.
O moreno girou os olhos e ignorou os amigos. Dio então tirou o cartaz que Ronan lhe deu mais cedo e cutucou o ombro do moreno.
— O Erudon acabou de me entregar isso. É pra você.
Olhando o material por alguns segundos, confuso, todos puderam ver a face de “merda, esqueci”, que o moreno era capaz de fazer.
Lupus suspirou e se levantou, olhando o que tinha nas mãos do melhor amigo.
— É melhor você ver mexer nisso agora. Escreve o passo a passo, eu faço as mudanças e entrego para o Erudon.
Sieghart o encarou com incerteza palpável.
— Mas até que horas você vai ficar aqui, Lupus? Você sabe fazer edição?
Lupus o empurrou levemente, já ligando o computador do Sieghart em cima da mesa.
— Se eu não conseguir aparecer no clube, nós nos vemos amanhã em casa, certo?
Os rapazes comentaram que o acompanhariam e tudo o mais, só não garantiam estar no melhor estado.
— Combinado. Então me dá uns minutos.
Dio olhava de um para o outro, sentindo-se alheio, vendo Sieghart rapidamente sentar-se e focar no trabalho. Até que Lupus veio até ele.
— Você pega a mochila dele e os documentos que eu já vou arrumar minhas coisas. Amanhã você vai vir em casa também não é? Leve o que você quiser, mas leve roupa de banho. Com o resto não precisa se preocupar.
XXX
Esperando o carro particular da família em frente aos portões da Academia, completamente silenciosa naquelas horas, Sieghart pôde falar finalmente a sós.
O herdeiro alemão prostava-se vestido em terno. O moreno estava com a combinação cobre e oliva, cachecol e luvas pretas, além de uma grande jaqueta para proteger do vento gelado da noite. Já Fiammeggianti não podia estar mais interessante, suas vestimentas negras por completo, em couro, coturno, a jaqueta longa, cachecol fofo e negro, os cabelos roxos medianos tocando abaixo de suas orelhas.
— Hoje à noite algo pode acontecer, Dio. Eu tomei providências mais cedo para podermos ficar mais tranquilos, claro. Fiz um subordinado passar uma mensagem para Mari.
— Que subordinado é esse? — o mais alto indagou, aproximando-se um pouco, para ouvi-lo, mas também para sentir o belo rosto de Ercnard mais perto.
— Aquele garoto, Rosewood. De quando nos encontramos no corredor.
Dio assentiu. Tinha descoberto de uma ou duas formas quem ele era.
— Aquela menina é perigosa e estava muito interessada em você. Acha mesmo que ela vai desistir só com uma mensagem?
Sieghart sorriu para o ar, esboçando uma confiança que Dio não achava nada menos que sexy.
— Acredite em mim. Ela vai ter que fazer o que eu quero.
Os olhos prata brilhavam com a ideia brincando em sua mente. O mais novo sentiu uma chama dentro de si, assistindo-o, e não resistiu em se aproximar ainda mais, roubando seus dedos sob os casacos.
Sieghart o olhou um instante, surpreso com o ato.
— O que foi?
— Entendo o sentimento.
— Hã?
— Eu também quero que mande em mim.
O moreno demorou a entender por uns segundos, então tornou-se vermelho e apertou os dedos do outro de volta com força bruta.
— Você... Você é bem clichê às vezes não é, Fiammeggitanti?
Dio riu para ele, mas os dois tiveram que se separar ao avistarem o carro subindo a colina para parar bem à frente. Logo depois, uma moto massiva sendo dirigida por um senhor musculoso parou logo atrás.
— Assim que terminar, me chame. Eu vou te buscar.
Sieghart assentiu com a cabeça, guardando seu sorriso animado. Ao passo que seu mordomo o cumprimentava e abria a porta, teve vontade de puxar Dio consigo, mas sabia que não podia fazer isso. Não ainda. Seu maior alívio foi quando o italiano bateu em seu vidro e inclinou-se sobre a porta, segredando para que o homem não ouvisse enquanto dava a volta para o banco do motorista.
— Não esqueça, qualquer coisa que você precisar é só me pedir. Estamos juntos nessa.
Sieghart apertou os lábios, vendo a seriedade nos olhos de Dio naquele vento frio. Ele sentiu-se inteiramente seguro de que eles ficariam bem.
Continua
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