Identity Crisis
33 C32. Call me again
Notas iniciais
O time de futebol era apenas alto astral e animação àquela tarde. Dali cinco semanas iriam mostrar o motivo de serem invictos há seis anos.
O jogo treino tinha sido apenas uma pontinha do verdadeiro desafio, mas ele, sem dúvidas, serviu para mostrar o resultado de todo o trabalho dos últimos meses.
Sieghart, o vice-capitão e artilheiro, brilhou como nunca. Isso já não era algo novo, porém, houve um consenso de todo o time que ele estava, definitivamente, em sua melhor forma.
Enquanto eles se moviam em direção ao vestiário, no meio de todas as risadas e relembrando cada momento do jogo, o moreno viu ao longe, ao lado do campo e passando com olhar interessado, o garoto albino. Algo em sua memória se remexeu, tendo a certeza que o conhecia de algum lugar. Se ele estava próximo de lembrar, não conseguiu terminar o processo, pois o braço que envolveu seu pescoço o arrastou para dentro e Grand, o capitão, o distraiu com uma conversa sobre os melhores lances.
Logo mais o vestiário estava lotado. As conversas altas e o nível de testosterona tão alto que os assuntos começaram a ficar bem mais ousados ao passo que as roupas saíam dos corpos. Assovios quando Herich abaixou a bermuda. Palmas quando Grand fez o muque no meio da zoação. Imitações de gemidos quando Zero tirou as meias, exibindo as panturrilhas musculosas. E por aí vai.
Sieghart não prestava atenção a nada do que acontecia, muito cansado e envolvido em seus próprios pensamentos. Além disso, sofria uma queda de energia muito grande após grande parte dos jogos em que performava, motivo pelo qual geralmente se deitava e ia se trocar somente quando todos iam embora. Naquele momento ele apenas tomava sua água inocentemente, recuperando o fôlego e deixando a dopamina baixar junto ao seu armário aberto. Seus dedos passaram pela franja longa, jogando-a para trás, pensando em como seu cabelo estava grande e pensava na dor de seus músculos, que ele precisava ficar atento durante os jogos sérios, visto sua baixa resistência.
Hoje sua rotina não ia ser diferente, exceto por um comentário que o tirou totalmente de seu mundinho.
— Fiammeggianti, você precisa passar seu treino, cara.
Sieghart direcionou seus olhos imediatamente para onde todos olhavam, boquiabertos, quando Dio tirou a camisa, ficando com a comprida térmica negra por baixo. Os olhos estavam grudados nele. Sexy. Másculo. As proporções perfeitas. Qualquer idiota percebia isso. Quão alto e musculoso, feições finas e olhos arrebatadores que faziam todos tremerem de desejo.
E se formou um ar de espera para ver em primeira mão, se em pele era tudo o que eles achavam mesmo. Para Sieghart era sim. Era tudo o que queria. Seus dentes se apertaram na garrafa e seus olhos pesaram enquanto sentia luxúria percorrendo seu estômago, pensando em tudo o que aquele corpo conseguia fazer com ele.
Não por coincidência, quando Dio puxou a camisa por trás, bagunçando seu cabelo num movimento charmoso (e sensual), seus olhos pousaram no moreno do outro lado da sala, provocando. "Isso é pra você". A audácia. Se Dio tivesse piscado para ele, Sieghart teria mandado um dedo do meio para ele.
O assunto continuou, a roda em volta do atacante para apreciar seus músculos impressionantes. Sieghart virou o corpo para o armário e pôs-se a trocar normalmente. A camisa, a bermuda e as chuteiras removidas, deixando as roupas térmicas.
Ele tomou mais água e pegou uma toalha, se agachando para tirar as meias. Mal sabia que o italiano tentava não olhar fixamente para ele e fazer o olhar de todos voltarem para si. Não funcionou muito tempo, pois Grand não era um cara muito facilmente distraível. Ele se aproximou do moreno novamente, encostando-se ao armário.
— Sieg, você também tem uns bons músculos aí! Eu jogo com você faz três anos e essa é a primeira vez que te vejo tirando a roupa. O que houve?
Grand o analisou, fazendo o moreno internamente retrair-se. Sieghart fechou a cara, mas deixou-o dizer o que queria.
— Agora estou curioso. Você vai mostrar um pouco de pele dessa vez?
Claro que não era maldade. O Reinhardt não era dessas pessoas que faria isso por mal, mas que era incoveniente, nem se fale. Pelo menos uns três colegas já estavam prestando atenção neles.
— Quanto mais você se atentar nesses detalhes mais vai ficar sem saber, Grand. — respondeu seco, fechando o armário e preparando-se para tirar um cochilo num banco dos fundos.
Quando o moreno saiu, alguns se entreolharam.
— Uhm. Essa frieza nunca me decepciona. — Grand riu, passando as mãos nos braços.
— Por que o Sr. Sieghart não se troca com a gente? Tem algum motivo para isso? — perguntou um rapaz relativamente novo no time, que nunca havia se atentado àquele fato.
— Ah, você sabe. Tem um monte de rumores… Que ele tem cicatrizes. — Grand mexeu os dedos em teatro, rindo. — Outros dizem que ele tem muitas pintas. Ou sardas. Tem gente que jura que ele tem tatuagens, mas não quer que a família saiba.
Comentários positivos no local. Podia ser.
— Pode ser só vergonha também. — Grand deu de ombros. — É o mais provável.
— Ou ele é gay. — o rapaz rebateu, fazendo todo o time ficar em silêncio por um tempo, se entreolhando.
Dio não transpareceu o que pensou, mas era óbvio que aquilo soava perigoso.
Os rapazes pensavam rapidamente na possibilidade, mas era difícil ver seu artilheiro daquela forma. Sieghart era o cara que possuía holofotes em si por todos os lugares onde passava. Com certeza teria deixado escapar algum sinal.
O garoto que falou gesticulou rapidamente, percebendo o clima que tinha criado:
— Eu quero dizer, eu jogava beisebol pelo meu colégio anterior. Um colega tinha esse mesmo costume e depois de um tempo ele disse que era gay e que não se sentia confortável em ficar no mesmo ambiente, com medo de alguém perceber. Só pensei que poderia ser isso.
Grand arqueou a sobrancelha, curioso. E perguntou o que boa parte ali também tinha em mente:
— Quando ele disse que era gay, o que aconteceu? Tipo, com o time?
Todos fitaram o garoto. Dio apenas esperava para ver onde isso ia chegar.
— Bem, teve discussões. Ele acabou deixando o time.
Silêncio momentâneo.
No final, a maior parte das vezes era isso que acontecia e eles sabiam disso.
Zero, quem sempre era calado, balançou a cabeça negativamente e segurou o braço de Grand. O capitão sorriu para ele e bateu em seu ombro num gesto incentivador.
— Disse tudo, Zero! Isso ia ser uma merda mesmo. Sieg é nosso amigo e um jogador do caralho! Isso é o que importa.
O time começou a assentir. Boa parte dando de ombros "E se for? Tanto faz".
— Eu sei que se ele for, eu não estou na mira dele. Desse jeito grosso que ele me trata, credo. — Grand riu e voltou a fazer suas próprias coisas.
Zero assentiu atrás de si com um sorrisinho satisfeito. Outros brincavam comentando quanto estariam feitos se os olhos do Presidente estivessem neles. Com toda riqueza, com uma beleza sem par e sua personalidade única: se fosse ele, não haveria um ser que diria não.
Os risos descontraídos que envolveram o local foram tudo o que Dio precisou para se satisfazer e continuar se trocando. O alívio que sentiu, a faísca de felicidade que sentiu por Sieg ter companheiros tão leais. Certo que a verdade é bem mais dura do que quando só se está especulando, mas ele não viu nenhum olhar de desprezo. Sieghart era realmente respeitado por todos. Só era uma pena que ele mesmo não estava vendo isso.
XXX
A tarde findava com um ar de fatiga. O jovem Sieghart estava liberto da tecnicidade do esporte, mas novas preocupações — ou melhor dizendo, as mesmas — começaram a agitar seu cérebro exausto.
Os membros do Conselho estavam começando a ficar mais e mais sobrecarregados com a entrada da última parte do ano. As feiras científicas, as viagens, as competições… tudo se juntando. Papelada se juntando ainda mais em sua mesa. No próximo dia já havia programada uma reunião longa e enfadonha sobre orçamento.
Além disso, a Comissão dos Monitores estava passando por uma briga interna que ainda não fora levada para a Diretoria. Nem ia, na verdade, por que o grupo concordava que o acontecido devia ficar entre eles mesmos. Ainda assim, Sieghart devia dar um jeito de colocá-los na linha.
No futebol ele ia bem, mas ainda existia a pressão constante de entregar uma performance perfeita.
Com esses pensamentos arranhando sua têmporas, ele se encaminhava para o dormitório. Tentava — apenas tentava — inutilmente, não pensar em seus anseios envolvendo Dio.
Só por hoje, antes que ele precisasse ir visitar sua família à noite do dia seguinte, ele queria descansar.
Quem dera ele tivesse esse privilégio.
A meio caminho surgiu a primeira interrupção. Ele estava trocado em seu uniforme, excluindo apenas o paletó. Sua gravata contornava seu pescoço alvo apenas um pouco mais folgada e ele levava a bolsa de treino embaixo do braço. O moreno tinha suas manias também e uma delas era ser muito cuidadoso com os pertences. Nunca o veriam deixar nada em armários.
— Sr. Sieghart!
A voz o interrompeu e o parou embaixo de uma árvore frondosa. Havia ali um banco de pedra e um canteiro delicado.
Quando voltou o rosto para identificar o dono da voz, que com certeza não havia reconhecido, pensou que talvez fosse mais trabalho. De certa forma era.
— Com licença, Sr. Sieghart. — começou o garoto, cabelo ondulado e róseo, arfando de leve. Tinha corrido para alcançá-lo. — Se lembra de mim?
Sieghart sorriu um daqueles sorrisos públicos. Procurou rapidamente em seu arquivo mental e relembrou o garoto que o ajudou a escapar da Princesa dias atrás.
— Perfeitamente. Maya Rosewood, não?
O menino respondeu-lhe com graça. Os olhos azuis redondos gentis e um sorriso doce. O garoto era uma peça de delicadeza que Sieghart não havia apreciado da primeira vez. Tinha voz suave, como um canto e um gestual sucinto.
— Então você lembrou. E de sua promessa?
Sieghart arqueou a sobrancelha. Não que tivesse esquecido, mas que não esperava a cobrança.
— Claro que não esqueci. Imagino que te fiz esperar muito? — o moreno indagou, desejando ser invisível nesta hora. Ele queria dormir. Amanhã ele tinha muito a fazer. Dio ainda não tinha parado de sumir durante a madrugada, o que o estava matando por dentro. Ele estava uma pilha de nervos e sabia que logo ele não conseguiria mais fingir.
— O veterano estrela da academia de fato é muito ocupado, todos percebem isso. Um aluno comum como eu só pode esperar calmamente. Mas eu não pude resistir em falar com você.
Sieghart riu amarelo. Ele era adorável, mas tão forçado. Até parecia querer alguma coisa.
— Então eu espero que você entenda que no momento eu não posso—
O mais baixo arregalou os olhos e balançou as mãos.
— C-Claro que não! Quando você puder, Sr. Sieghart! Eu realmente só vi a oportunidade e quis conversar com você haha…
Sieghart riu também, um pouco mais aliviado e decidiu. Podia entreter o garoto algum dia. Não era nada demais e ofereceu:
— Amanhã.
— Perdão?
— Amanhã, podemos almoçar juntos. Se você não se importar de comer com meus amigos.
Foi rápido, mas viu um pequeno descontentamento com a proposta.
— Não poderíamos… Sozinhos? Eu sou um pouco tímido.
Tímido. Sieghart rangeu os dentes. E afirmou com a cabeça.
— Tudo bem. Em agradecimento pela ajuda, fica por minha conta.
Logo o menino, contente com o combinado, se despediu e sumiu por onde tinha vindo. Sieghart suspirou, tornando-se para continuar para a tão querida paz. Mas a segunda interrupção surgiu como mágica.
Ele quase xingou com o susto.
— Ryan! Quer me matar do coração?
O moreno passou a mão na face após o sobressalto. E o ruivo não riu, mas continuou olhando por sobre o ombro do amigo em julgamento. Sieghart sabia que ele estava intrigado.
— Conhece? — o moreno perguntou, tomando lugar ao lado de Ryan, que estava ainda com o jaleco que usava na horta.
— Mais ou menos. Ele canta com a Lire no coral da academia.
— Oh.
— É bastante talentoso. E um pouco exibido.
Sieghart riu nasalmente e puxou o amigo para continuarem andando. Ryan pôs as mãos nos bolsos e fez uma expressão que Sieghart não costumava ver.
— Aconteceu alguma coisa? Você está irritado.
Ryan sorriu com aquilo, mas Sieghart não gostou, lhe dando uma cotovelada de aviso.
— Ai! É só que eu tive que lidar com um garoto problemático hoje. E tem esse aí que você estava conversando…
— Então você sabe alguma coisa sobre o Rosewood? Eu devia me preocupar?
Ryan suspirou, tão inusual de sua parte.
— Ele não aparenta, mas está envolvido com algumas figuras aqui na escola. Uma delas é a Onette.
— Uhm. Disso eu já sabia. Ele me ajudou a sair da mira dela naquele dia que brigou com a Elesis.
Ryan o fitou.
— Ah é? Por que ele acha que ninguém vê, mas já vi ele passando informações para ela. E para outras pessoas na escola. Ele age como cupido ou algo assim.
Sieghart não podia estar menos impressionado. Ryan sempre fora observador apesar de parecer desligado. Ele sempre estava ali para avisá-lo de suas intuições e protegê-lo. Sua amizade se firmou depois de muito tempo, somente após criarem um vínculo. Não havia sido tudo flores entre eles. Mas agora, eram carne e osso.
— Vou me lembrar disso. Valeu, Ryan.
O ruivo sorriu com os dentes para si, apertando os olhos e fazendo um sinal positivo. Sieghart gostou dessa reação e explicou que estava precisando descansar.
Logo eles se separaram, com o ruivo se direcionando para os banhos. E Sieghart rezou. Ele só queria sua cama. Ele não aguentava mais nenhum minuto.
XXX
Seus lençóis o saudaram gloriosamente. Seu corpo afundando no colchão, abraçando o travesseiro e sentindo que nada podia estragar seu momento. Ele tinha se preparado: fechou uma das janelas. Fechou as cortinas blackout. Conferiu os alarmes para o jantar (que deixaria para mais tarde da noite). Tirou todo excesso de roupa. Deixou a porta aberta, pois caso alguém entrasse o trinco não faria barulho.
Agora sim.
Ele quase imediatamente caiu em sono profundo, deixando seus músculos relaxarem após todo o esforço do dia. Moído era pouco para descrever. Ele também estava com uma maldita enxaqueca, mas logo os remédios fariam efeito.
Até que a porta se abriu com um estrondo e ele gemeu de dor e ódio.
Ao levantar os olhos, esperando que o colega em questão percebesse que se houvesse mais um único som, ele iria começar a ser rude, Sieghart fechou a boca.
Lupus tinha entrado parecendo um bloco de gelo. Estava pálido, coisa tão difícil de ver, e seu estado de alerta o avisou para ficar calmo. Não importava o quanto estava cansado, quando um amigo seu estava mal, ele apenas não conseguia ignorar.
— Ei, Lupus.
Sieghart se levantou imediatamente, ignorando qualquer puxão de seus músculos e tocou o ombro do mais velho.
Lupus tapou o rosto e sentou-se na cadeira da escrivaninha, não olhando para o moreno. Sieghart esperou.
— Você precisa de alguma coisa? Você não parece bem.
O maior balançou a cabeça e bateu amigavelmente em sua mão, indicando que estava bem. Demorou um pouco, mas ele disse:
— Preciso pensar um pouco.
Sieghart não quis ficar contente com isso, mas, sinceramente, ele não estava com psicológico para ajudar ninguém também.
— Deita um pouco. Eu estou quebrado também… mais tarde podemos conversar.
Um pouco de silêncio depois, o moreno se levantou.
— Okay. Obrigado Sieg. Vou fazer isso.
Ambos se acomodaram e fizeram o máximo possível para relaxar. Mas Sieghart não dormiu até perceber que o Wilde começou a sonronar. Ele próprio tinha perdido o sono um pouco, o que o levou a conferir rapidamente o celular. Talvez alguma mensagem de Dio…
Seus olhos arregalaram. Realmente, havia uma mensagem do namorado.
Não vou poder dormir no dormitório hoje.
Mas essa mensagem não era a primeira de seu feed. Um número que há muito tinha esquecido. Uma foto que fez suas lembranças voltarem com força.
Oi Sieg!! Saudades, baby.
E ele ficou com raiva. Sieghart mordeu os lábios, não entendendo porque estava sendo negligenciado por Dio. Ele tentou se convencer de que ele estava muito ocupado, que os dois não conseguiam tempo e que esse sentimento era coisa de sua cabeça. Mas não era. Ele não tinha propriamente pedido para Dio ficar, mas o outro fugia do assunto quando perguntava o que fazia aquelas noites. Por que Sieghart estava ali. Ele sempre estava ali.
Já que não tinha tempo, ele faria o que quisesse então. Foi o que pensou, com toda sua inexperiência e sua raiva.
Como vai indo, Lin? Vai voltar para Londres?
Algumas reticências, ela digitava rápida e prática, como a brasileira que era.
Semana que vem, chuchu. Vou aí te visitar e você vai me levar naquele bar né?
Ele nunca tinha levado a garota lá. Ele só começou a sair depois dela, mas manteve breve contato. Só o suficiente para saber que ela saía com outros em seu país.
Claro. Quando você chegar no aeroporto, me avisa. Vamos por a conversa em dia.
E ela respondeu:
Aí sim kk To animada pra te ver!
XXX
Aquele foi um daqueles sonos tão pesados que quando se acorda, a impressão é de que já passou um dia inteiro. Os olhos do rapaz se reviraram e encararam o quarto semiescuro. Ele se virou lentamente para ver o amigo na cama vizinha, completamente apagado. Do lado, Ryan jogava algo, concentradíssimo no celular.
O moreno mexeu os lábios, sentindo-os secos e decidiu não olhar suas mensagens agora. Foi direto para o banheiro, tomando outro banho. Ele nunca ficava satisfeito com a ducha dos vestiários.
Diligente, fechou a porta, tirou sua única peça de roupa, e ligou no quente. Ele suspirou, tão forte como se tivesse sido derrotado.
O vapor começava a subir e a moleza de seu corpo só aumentava. A água molhando todo seu cabelo começava a se sentir um pouco revigorante.
Sieghart pensou que era a terceira noite que Dio não passava no dormitório. Ele sentiu uma pontada de raiva passando por seu corpo. Até parecia que ele estava evitando vê-lo. Mas a atitude do italiano durante as aulas e o treino não havia mudado. Eles conversavam como antes, ainda havia uns toques pervertidos. Mas eles não continuaram aquilo.
O moreno passou as mãos no rosto, constrangido com seus pensamentos. A verdade era que ele estava carente. Fazia muito tempo desde que tinha sentido prazer durante o sexo. Agora era sua chance. Dio parecia ser a pessoa certa. Então porque quando as coisas tinham começado a dar certo ele estava escapando?
Era de se esperar que eles iam começar a se explorar mais. Ele não se importava nenhum pouco. Da última vez… Ele realmente nunca tinha sentido algo igual.
Sua chateação não diminuia. Sieghart sabia que era normal ficar assim quando estava em um relacionamento, mas ele não queria parecer ciumento ou grudento. Isso o matava.
Para piorar a situação, ao sair do banheiro, Ryan lhe sinalizou o celular jogado no meio das cobertas:
— Alguém ligou para você.
E ele olhou, esperando qualquer um, menos o número de seu pai, como se ele tivesse desaparecido de suas preocupações.
Amanhã conversamos. Sieghart respondeu por mensagem. Porém, seguiu-se no instante seguinte uma ligação de seu pai novamente. Seu cenho franziu com dureza, um calafrio de irritação passando por todas suas costas e atendeu:
— O que foi, pai? Eu disse que amanhã-
— Oi filho.
— Mãe? Você ligou do celular do pai. Aconteceu alguma coisa?
— Não… Mais ou menos. Sieg, você vem amanhã nos visitar? Eu acho que seu pai está muito bravo com você.
— Eu imagino porquê.
— Sieg. O que está acontecendo filho? Você não me diz mais nada… — Erika começou a soluçar do outro lado da linha. Sieghart apertou os olhos, odiando esse sentimento. — … Eu soube que você teve que ir pra enfermaria no colégio. E a Karina me contou que você está se sobrecarregando. Você está no final, já, Sieg. Falta tão pouco… você não precisa fazer tudo isso pelo seu-
— Mãe! Chega. Eu estou bem, tá? Não foi nada demais. Eu posso contar amanhã okay? Eu conto tudo amanhã.
— E a sua noiva? A Mari nos contou que você não tem a tratado muito bem. Sieg, o que aconteceu aí no colégio?
Sieghart trincou os dentes, passando as mãos no cabelo.
— Mãe… eu converso sobre tudo isso depois. Eu preciso descansar hoje. Tem aula amanhã também.
— Filho…
"Não finja que se importa só agora". Ele apertou os dentes, segurando seus pensamentos.
— Boa noite, mãe. Até amanhã.
— A-Até amanhã.
E ele desligou rápido e seco, respirando fundo. Antes que ele pudesse sequer pensar, outro número brilhou na tela. Mas ele ignorou completamente, jogando o celular na cama enquanto se trocava.
Ryan estava estático, sabendo o que estava acontecendo ali. Ele tinha convivência suficiente com a Família Sieghart para saber que Sieghart só ficava assim quando havia chegado no limite.
E o celular continuou tocando.
— Sieg…
— Deixa tocar. — ele rosnou, pondo um casaco e pegando sem cerimônia alguma seu maço de cigarros e sua carteira.
Ryan largou o celular e se levantou, indo para tentar conversar com o amigo, mas Sieghart virou-se rápido.
— Eu preciso ficar sozinho.
— Leva o celular pelo menos.
— Ryan-
O ruivo fechou a expressão e entregou seu próprio celular:
— A senha é 0109. Fala sua senha.
— Ryan, não precisa -
— Eu sei que você está pensando em sair. Se for sair do colégio, vai levar um celular.
O moreno mordeu um lábio e pensou um pouco mais, sentindo-se ainda pior. Ele não estava pensando direito. Ryan só fazia isso quando precisava.
— Eu… Vou no telhado. Não vou sair.
O ruivo o fitou por um instante e assentiu com a cabeça.
— Não quer conversar mesmo? Você precisa mesmo disso? — Ryan perguntou sério, apontando com o olhar os cigarros.
Sieghart sentiu um aperto no peito. Fez que sim com a cabeça e adicionou, olhando para seu colega na cama:
— Talvez o Lupus precise conversar quando acordar. Ele não estava bem quando chegou.
Ryan suspirou, de seu jeito relaxado de sempre e tocou seu ombro levemente.
— Se preocupe com você agora, tá? Volte logo ou eu vou atrás de você. — o ruivo sentenciou. — Se ele acordar eu converso com ele também.
Sieghart sorriu fracamente e virou-se.
— Valeu, Ryan.
— Sempre, meu amigo.
Continua
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