Identity Crisis

32 C31. Always lock the door


Notas iniciais
Postado em 30/07/2024 Boa leitura! :3

Ultimamente os professores têm chamado muito a atenção dele. De vez em quando, Lass se pegava sonhando acordado durante a aula e, de repente, notava ter passado quase meia hora na própria nuvem e o assunto da aula ter mudado.

Claro, isso era muito estranho da parte do Isolet. Todos sabiam que o garoto era um gênio nato e que ele particularmente gostava de biologia.

Suas duas melhores amigas, Ara e Rena, tiveram que trazê-lo de volta para o mundo real várias vezes nos últimos dois dias. E elas sabiam o motivo de sua desatenção, mas obviamente não sabiam como perguntar sem parecer intrusivas, além do medo de afastá-lo. E sim, Lass as apreciava por isso. Mas a verdade é que ele não podia e nem queria entrar em detalhes sobre sua relação com Lupus.

“Elas já descobriram, mas não vão perguntar abertamente”. Ele pensava mordendo a ponta do lápis. O gosto amargo de madeira trazendo uma sensação mútua de desconforto e prazer ao sentir a textura de planta industrializada cedendo à força de seu maxilar. Isso o ajudava a distrair. “Melhor do que roer as unhas” ele sempre dizia a si mesmo.

— Estão dispensados. — anunciou a rígida professora Ekidna, encerrando o período e também os pensamentos do garoto.

O trio, como sempre de acordo com sua rotina, se dirigiu à cantina. Eles comeram e conversaram sobre trivialidades normalmente, Lass mantendo-se presente o tempo todo. Assim que chegou o horário do clube, Rena tocou no antebraço do Isolet delicada e discretamente, como sempre havia sido, e disse:

— Lass, você pode buscar algumas leguminosas na horta da academia? Nossas reservas para a Plum estão acabando.

— Logo mais vai chegar um novo pet para cuidarmos! — adicionou Ara, com uma animação palpável, tal seu gosto pelos bichinhos.

O albino reajustou os óculos quadrados em seu nariz, pequeno demais para sustenta-los, e sorriu de leve. Sabia que elas estavam tentando fazê-lo “tomar um ar”. Podia ser um rato de biblioteca, mas de vez em quando caminhar ao livre lhe fazia bem. Pelo menos quando havia de pouca a nenhuma pessoa.

Bom, ele tentava.

Enquanto fazia o que foi pedido, tomou seu tempo para observar. Ele caminhou pelos caminhos mais solitários, fugindo dos sons de alunos, mesmo porque as turmas mais novas do fundamental eram especialmente barulhentas e energéticas, características que destoavam muito das suas. Dali, ele precisaria passar pelos campos de práticas esportivas para chegar à horta compartilhada — projeto implantado pelo Conselho Estudantil daquele ano e que estava indo de vento em popa. E a amiga loira sabia muito bem quem estava fazendo parte do projeto, outro motivo pelo qual o tinha mandado.

Ao passo que saía do prédio principal e se encaminhava para os campos de treinamento, seus olhos iam se levantando tímidos, porém, curiosos. Ver os colegas em uniformes variados e dedicando seus corpos em séries de exercícios exaustivos o deixavam retraído e ao mesmo tempo cheio de admiração. Como ele gostaria de ter um físico um pouco mais forte… ele se pegava pensando nisso várias vezes. Ser alguém parecido com, por exemplo, o Presidente do Conselho, Sieghart. Como não pensar nele? Todos admiravam-no. Em consenso, como um ídolo.

Lass andava procurando os corpos, vendo os grupos de garotos correndo atrás da bola de futebol com uma velocidade que duvidava possuir um dia, sentindo uma pequena vontade de estar lá com eles, mas ele era meio anêmico para quase qualquer tipo de exercício físico.

E então ele viu o dito cujo fazendo um gol. Era só falar nele, que o preferido da academia surgia. Mesmo com a distância, conseguia ver o brilho do suor na tez branca e os cabelos cheios negros esvoaçando com a alta velocidade em que comemorava o gol, pulando nos companheiros.

Lass mal percebeu o suspiro que soltou admirando o veterano. O inconfundível alemão de olhos claros e com o sorriso cegante. Só então percebeu como o time usava roupas térmicas por baixo para proteger do frio. Além de tudo, parecia que o uniforme tinha sido feito especialmente para ele, combinando preto com branco e cinza. Nada nunca pareceu tão perfeito para Lass.

Ele viu como Sieghart trocou um cumprimento de mãos com um colega com força e um olhar intenso. O colega que havia chutado para ele.

Sua mão se fechou de leve. Ele adorava suas amigas. Às vezes quando queria interagir com os meninos, lembrava-se de como o ridicularizavam por sua aparência fraca e agradecia por que elas o entendiam. Os meninos sempre deixavam elas de fora de tudo. E ele também, mesmo que não fosse uma garota.

Aquilo doía. Mas pelo menos tinham uns ao outros.

Assim ele continuou seu caminho, um pouco mais cabisbaixo do que esperava.

XXX

Se o sorriso de Sieghart era cegante, o do Woodguard era hipnotizador.

Foi como receber o calor do sol, enchendo seu peito de quentura e uma onda de excitação subir por seus nervos. O garoto não conseguia conter seu rubor enquanto travava o olhar na imagem do terceiranista quase nem piscando.

Hoje, o cabelo ruivo estava domado com uma tiara marrom e usava um jaleco de jardinagem, que lhe dava um ar caseiro, perfeito para ele. Lass tentou imaginar Sieghart assim… ele não gostou do que pensou e afastou rapidamente a imagem.

Ryan tirou as luvas enquanto se aproximava o pouco de distância até o portão do cercado de grade.

— Lass! — sua voz aguda, mas não menos agradável, entoou seu nome tão bem. Lass sentiu-se ainda mais envergonhado. — Veio finalmente conhecer a minha horta!

O rapaz colocou as luvas no bolso após abrir o local e dar espaço para ele, dando uma risada leve.

Lass não soube o que fazer quando a mão de Ryan tocou companheira seu ombro, empurrando-o de leve para frente. Era quente em seu ombro. Ele nunca sentira alguém quente assim antes.

— Você ainda não foi conhecer a Plum. — Lass murmurou, sabendo que tinha gaguejado um pouco e se preocupou com a possibilidade de ter falado baixo demais.

— Ah… Esse período de provas tem acabado comigo. Eu não sou tão inteligente quanto pareço, então meus amigos me arrastaram para um grupo de estudos. Desde então eu não tenho tempo. Me desculpe.

Lass sentiu uma risada na porta de sua garganta. Ele não riu, mas seus lábios se curvaram. Ryan não tinha cara de inteligente e o engraçado era que Ryan sabia bem disso e sempre fazia piada. Ele adorava como fazia isso.

Ryan viu seu rosto e imitou seu sorriso. Casualmente foi levando o garoto e falando sobre o projeto e o que faziam ali, sabendo que o albino tímido ouvia calmamente, interessado e relaxando em sua presença.

No meio do breve tour, Ryan trocou algumas palavras com uma moça loira de olhos verdes em francês sobre alguma erva daninha e como removê-la. Lass observou a interação com olhos contemplativos. Eles dariam um belo casal, mas sua troca de olhares e gestual eram de puro profissionalismo. Eles estavam totalmente concentrados no trabalho. E ele se perguntou se Ryan era assim com todo mundo. Se ele sorria e era gentil o tempo todo. Ele tinha vontade de perguntar.

— Você está com uma cara de quem quer perguntar algo.

O sobressalto que o menino deu quase o fez derrubar a bolsa que carregava em mãos.

Ryan riu de leve.

Será que ele lia mentes? Lass pensava algo assim.

— Eu devo estar certo então. Mas fique calmo, Eu não leio mentes tá?

Lass apertou os dedos na bolsa e olhou firme para o ruivo, tentando ver se ele sabia algo sobre seus "sentimentos", seja lá o que fosse aquilo que sentia.

— Ok.

Lass abaixou os olhos, tentando decidir se falava ou não. Ele não era próximo do ruivo para perguntar algo, mas ele estava ali tão solícito para ajudá-lo. Ele quase queria dizer. Parecia a pessoa certa.

Nisso, o maior coçou o rosto, sabendo que tinha colocado o garoto em uma posição difícil. Então se abaixou um pouco para ele e disse:

— Lass, você pode me perguntar qualquer coisa, okay? Somos amigos, afinal.

Lass se inebriou outra vez, só que desta vez nos olhos verdes tão escuros. Tão refrescantes. Ele quase quis dizer tudo o que se passava consigo, mas se conteve.

— Você é sempre tão animado… — começou baixo e contido. —... Todo mundo é tão animado.

Ele não sabia como continuar. Ryan colocou a mão no queixo e na cintura, ficando ereto novamente.

— Hm. Acho que eu sou bem animado mesmo… às vezes demais haha. — ele respondeu, com um sorriso amarelo.

Lass o olhava sem saber exatamente onde queria chegar.

— Ser animado demais é ruim? Eu acho que preferia ser assim do que quieto.

— Oh. — Ryan olhou para baixo, pensando. Logo ele gesticulou, falando de uma forma séria que o fazia parecer mais sábio do que aparentava realmente. — Pessoas quietas tem suas vantagens também sabe? Elas podem parecer mais inteligentes e centradas por causa disso.

— Acho que as pessoas preferem pessoas alegres e fáceis de se aproximar mais do que nerds… — Lass respondeu calmo, esquecendo por um momento que estava trocando ideia com uma pessoa mais velha.

Ryan sorriu, não se abalando com a atitude.

— Isso é verdade. Mas sabe, os dois tipos de pessoas tem seus pontos fracos e fortes. Não consigo pensar que uma é melhor do que a outra.

— Eu não consigo ver um lado positivo. — Lass sentiu um pequeno nó na garganta. Se lembrou dos grupos de amigos se cumprimentando.

Ryan se virou e continuou andando. Lass o seguiu.

— Pessoas que não mostram suas emoções podem ser difíceis. Elas são pessoas para você desvendar e se dedicar. Isso é super interessante para mim, que sou muito curioso e insistente.

Lass sentiu um pouco de contentamento. Isso era verdade. Ele adorava ler histórias assim.

— Mas tem algo que eu realmente gosto sobre as pessoas quietas. Você sabe o que pode ser?

Lass balançou a cabeça em resposta negativa.

Ryan o fitou com gentileza.

— Quando ela finalmente ri para você. Pode até demorar, mas quando você vê, é genuíno. E você não consegue desver. Nada tem maior preço. — Ryan sorriu, um pouco de rubor em suas bochechas.

Lass sentiu uma pontada em seu peito. Ele não conseguia se ver rindo naturalmente. Ele nunca tinha feito isso.

— Mas… — Lass balbuciou, confuso. Ele não conseguiu segurar mais. — ... Você consegue ser assim o tempo todo.

Ryan continuou fitando então abaixou levemente as íris para o chão por um momento em pensamento.

— Pode até ser. — Ryan apontou o indicador para cima, dando outro sorriso para ele. — Mas veja, uma pessoa como eu é mais difícil perceber quando está triste. Ou sentindo qualquer outra coisa.

Lass arregalou os olhos.

— Ou você acha que eu sou positivo o tempo inteiro? — Ryan perguntou entre um riso divertido, colocando as mãos nos ombros do garoto.

Lass tremeu um pouco. Ryan parecia… diferente de certa forma. E ele não conteve sua língua.

— Você parece tão tranquilo. O que você faz quando se sente mal?

Lass sentiu o ambiente pesado. Ryan era brilhante, mas como ele, também tinha algo preso de si. No fim eles não eram iguais?

O maior suspirou, batendo levemente em seu ombro.

— Vou te contar um segredo porque você é um garoto inteligente. — Ryan sorriu com ar brincalhão para ele. Lass se perguntou se ele estava realmente falando a verdade ou se só estava tirando uma com a sua cara.

O ruivo tocou uma flor.

— Eu vou para um lugar assim. Um lugar na natureza, perto dos animais e das plantas. Quando eu não posso, eu sorrio pensando nessas coisas.

Lass franziu o cenho.

— Você sorri? É difícil para você não mostrar o que sente?

— Muito. Eu sorrio, mas quando estou mal eu sorrio também.

— E é tão ruim mostrar o que sente? Eu acho que transpareço claramente o que sinto e sinto vergonha disso. Mas eu faço mesmo assim. — indagou enrolado.

Ryan murmurou algo.

— Bom, talvez no seu caso não seja tão ruim. Mas é nesse ponto que as pessoas são diferentes sabe? Para você não é fácil, mas quando mostra só atinge você mesmo. Pelo menos não machuca os outros…

Lass não se continha, sentindo que queria ouvir mais e falar mais.

— Você já mostrou o que sente de verdade pra alguém alguma vez? — a pergunta pairando no ar, com a curiosidade pulsando. Ryan não respondia diretamente.

O ruivo riu. Foi gostoso, porque pareceu de verdade. Mas agora ele não tinha certeza do que era verdade ou não.

— Você também é uma pessoa misteriosa, mesmo sendo animado.

— Como eu disse. Os tipos de pessoas não são melhores que as outras. Mas talvez as pessoas em si sejam. — Ryan sorriu, mas seus olhos não. — E você é melhor do que eu, Lass. Você é honesto.

Lass ficou em pensamento por um tempo. Ele tinha entendido que Ryan tinha muito a esconder. E tinha entendido um pouquinho sobre o sentimento que ele estava tentando explicar. Nesse momento ele não queria ver o sorriso de Ryan, mas sim, o que ele realmente era.

E ele precisaria se dedicar pra isso.

XXX

Por fim, Lass adquiriu as cenouras, ervas e até um brinquedo que Ryan tinha comprado para levar para a coelhinha.

Os dois se despediram, um pouco mais íntimos do que antes. Lass estupefato com a emoção de ter conversado por um longo período com alguém sobre seus sentimentos. Ele estava um pouco feliz. Ryan podia até não ser nada do que ele esperava, mas pelo menos ele parecia estar um pouco mais ao seu alcance.

Ele percebia um pouco melhor: todos tem um lado que não querem mostrar. Inseguranças e medo de rejeição.

O garoto baixo caminhava com um passo apressado, já que sua visita à horta tinha demorado muito mais do que o planejado por Rena, quem tinha já mandado uma mensagem apressando-o de volta.

Lass estava tornando o dojô do clube de Kung Fu, sentindo-se mais corajoso em passar pelo caminho principal onde boa parte dos atletas andavam de volta para o prédio principal e de lá iam para os dormitórios.

Sua face empalideceu com o que viu. Seu coração bateu forte, mas ele sentiu fraqueza. Logo ao seu lado por sorte estava o banheiro do dojô e ele entrou.

Acho que ele não me viu.

Por um momento, sentiu alívio e ele caminhou, corpo retraído ainda, robótico, para a pia. Foi muito rápido quando a porta se abriu e ele se virou para trás com um olhar apreensivo. Seu olhar ficou duro e gélido, tentando não mostrar medo.

Lupus o tinha visto e não deixou passar. Ele tinha vindo rapidamente em seu encalço e isso deveria significar apenas uma coisa. No entanto, o silêncio permaneceu por algum tempo, os dois se olhando. Esperando.

Lass o olhou nos olhos, tentando decifrar o que ele queria. Lupus era tão gélido quanto ele, mesmo com todas suas características tão opostas.

As mãos do maior se fecharam e ele pareceu sem saber o que fazer por um momento. Até que começou a falar:

— Eu…

Lass mordeu o lábio por dentro, começando a sentir leve arritmia. O meio irmão não veio bater nele ainda. Ele estava falando. Ele não podia estar mais nervoso.

— Vamos conversar. — o mais velho disse, com seu tom usual de ordem, embora a agressividade não estivesse tão presente.

Com certeza. Havia algo bem diferente nele.

Lupus Wilde, seu irmão mais velho. O seu irmão quebrado e sem mãe. Quem o odiava e o atormentou por tanto tempo. Ele fitou o chão apenas. Não olhava para ele. Lass ficou com medo, mas sua voz não se aquietava mais.

— Sobre o quê?

Lupus não o olhava ainda. Era possível ver como ele estava sendo forte para falar assim com ele, sem partir para violência.

— Sobre o que mais? — disse estúpido. — Sobre tudo isso. Não era o que você queria?

Lass apertou as mãos na bolsa que continha os alimentos colhidos. Ele não sabia o que pensar ou dizer. Ele balbuciou:

— E-Estamos num banheiro da escola… Não é meio-

Enquanto falava, ouviram vozes se aproximando. Tão próximas da porta atrás de Lupus que ele encolheu os ombros e rapidamente moveu-se em direção ao irmão menor.

A mão dominante agarrou seu ombro sem nenhuma hesitação e o direcionou para a última das cabines, colocando-o de frente para uma privada e entrou junto, fechando-a atrás de si.

Por sorte, os banheiros da academia eram fechados e não apresentavam espaços na parte inferior que pudessem delatar sua presença.

Só houve tempo para Lass tornar-se de frente para o moreno, completamente nervoso, e então ambos ficaram em total silêncio quando no segundo seguinte a porta do banheiro foi aberta ao som de passos e conversa.

Lupus não demorou a reconhecer exatamente a quem pertenciam as duas vozes. Elas estavam contidas, mas era possível entender o que diziam.

— … esse vestiário é pouco usado depois que os membros vão embora.

— Um pouco abandonado você quer dizer.

— Não precisa se preocupar, Ronan. Eu confiro as condições do dojô e do vestiário diariamente.

Uma leve pausa e a voz agradável e inconfundível de Jin Kaien continuou num riso:

— Tem papel higiênico sempre okay?! Não precisa se preocupar.

Som de torneiras se abrindo e de movimentação. Jin estava junto a pia, pois sua fala continuou muito próxima à cabine em que estavam.

— Você é tão metódico com certas coisas.

— Ouço muito isso. E você é também, que eu já percebi.

— Ah é?

— Uhum.

— Por exemplo?

— Você nunca sai do quarto sem arrumar sua escrivaninha. Ou como você não pára de arrumar a gravata a aula inteira.

A risada do Kaien foi gostosa de ouvir. Ele estava se divertindo.

Lupus lançou um breve olhar para o menino imóvel à sua frente. Lass estava tenso e parecia segurar sua respiração, segurando a bolsa contra o peito e olhando fixamente para frente, que não por acaso era a altura de seu peito.

Os dois estavam praticamente colados, já que o espaço entre a privada e a porta eram mínimos. Isso acontecia pois boa parte do vestiário masculino priorizava os chuveiros e não os sanitários.

Quanto tempo fazia que os dois não ficavam próximos sem qualquer indício de agressão ou aversão? Lupus sentiu-se levemente apreensivo com isso. Ele não podia se descontrolar naquele espaço.

Jin e Ronan continuavam falando. Em algum momento o ruivo falou sobre tomar um banho, fazendo os irmãos perceberem que iriam permanecer ali até terminar. Provavelmente os capitães ficaram ocupados, dando tempo para os membros do clube se trocarem e irem embora. Lupus não tinha calculado direito quando veio atrás do albino.

Parecia uma eternidade.

O som de roupas sendo retiradas. A água barulhenta e fria caindo ao lado. Os murmúrios e "Está gelada" e " Use o outro".

Lupus arqueou as sobrancelhas. Ele se lembrou de como o esgrimista e o lutador estavam tão íntimos naqueles últimos tempos e começou a se sentir ainda mais nervoso.

Dois caras que, muito provavelmente, estavam se pegando. Sozinhos num vestiário esquecido. Tomando banho juntos.

Lass olhou para cima ganhando um pouco de coragem, apenas com uma expressão de confusão.

— Ei…

A voz de Jin fez ambos irmãos travarem no lugar, os ouvidos muito abertos. Eles se entreolharam em perfeita sincronia, sabendo o que o outro estava pensando. Ou pelo menos, Lupus pensou que Lass sabia o que estava acontecendo. Algo nos olhos azuis o atormentou.

Lass por sua vez estava atônito. Tudo estava correndo tão bem. Agora ele estava numa situação em que, na hora que acabasse, talvez ele levasse a maior surra de sua vida… e ele tinha tido essa experiência antes. Apesar disso, manteve-se quieto e imóvel. Algo ao lado com aqueles dois rapazes mais velhos não estava certo. Ele tinha uma ideia, mas era no mínimo surreal algo do tipo acontecer consigo. Ele no mínimo sentia seu coração bater extremamente rápido, seu corpo tremendo de leve com as pontadas leves da adrenalina.

E então, ele estava olhando para Lupus, meio querendo sumir, constrangido, meio buscando ajuda. Sua face quente, suas partes levemente responsivas.

O maior deve ter percebido. Ele o fitou um tempo, analisando-o e se obrigou a fazer um sinal de silêncio, que o garoto apenas assentiu.

— H-Hm… Ron… Se alguém entrar…

Os sons confusos ficaram um pouco mais altos. Lass e Lupus totalmente concentrados. Ambos constrangidos por aquela situação tão inesperada.

As mãos do albino se apertaram firmes quando ouviram um som de algo, pele, se encontrando com a parede e com o chão. Uma movimentação suave embaixo d'água.

— Uh…

Um som aquoso e repetitivo se fez presente. Leve arfar, um gemido tão baixo e lânguido que fez a pele dos dois escondidos arrepiar.

Eles conseguiram ouvir o som grave de Ronan e entenderam o porquê de ele não falar nada enquanto Jin só gemia afetado.

Tudo era tão implícito, mas tão excitante ao mesmo tempo. Nem o Wilde nem o Isolet conseguiam pensar em mais nada enquanto os capitães faziam suas carícias de forma tão irresponsável.

Lass tentou virar o rosto. Seus lábios apertados.

Lupus sabia muito bem que o garoto não tinha experiência. Seus olhos desceram e naquele pequenos centímetros entre seus corpos ele conseguia ver a ereção surgindo. Sua respiração saiu um pouco de ritmo, mas ele não se mexeu.

Lass aos poucos começou a curvar-se, ao passo que os gemidos e aqueles barulhos explícitos aumentavam.

Lupus praguejou mentalmente. Será que aqueles dois iam mesmo até o final ali? Sua resposta chegou junto com um gemido arfado e tão afetado que seu próprio pau se moveu contra o tecido colado de sua calça, fazendo as borboletas de seu estômago remexerem deliciosamente. Ele fechou os olhos, levantando instintivamente a mão e tocando sem querer o braço do albino.

Lupus não queria fazer qualquer som, então sua mão parou ali, fechando-se no braço fino e macio do meio irmão.

Em resposta, Lass o fitou. Seus olhos transbordando claramente seu estado frágil.

Lupus respirava difícil. Tinha em mente como aquilo era algo novo para Lass. Lembrou-se de quando o atacou, quando o despiu, quando o menino olhou com medo para ele. O olhar de agora não era medo. Era o início do prazer que ele não podia consumar sozinho naquela situação.

Será que alguma vez Lass tinha se masturbado?

— Quer fazer aqui? — Ronan murmurou, com uma voz excitada que Lupus nunca imaginaria vir dele um dia. O cara que todos diziam ser frígido. Pelo menos não tinham errado sobre seu cavalheirismo.

Hesitação.

— Isso é arriscado demais…

— Não é a primeira vez que transamos em público.

Jin soltou um som de desaprovação.

Lupus e Lass totalmente duros no lugar, imaginando se os dois começassem a foder ali. Os olhos azuis começaram a mostrar desespero. Sua imaturidade tão visível.

Som de beijos. Gemidos lânguidos e línguas se encontrando no eco das paredes e braços se envolvendo. Pernas se envolvendo.

Lass começou a entrar em pânico. Seus lábios sendo mordidos levemente, sua testa suando. O latejamento no meio das pernas sem poder tocar, sua boca sem poder fazer som.

Quando Lupus notou o garoto descendo a mão para o meio das pernas, ele tentou impedi-lo, apertando onde tocava seu braço. Aquilo não ajudou em nada.

Lass segurou-se por cima da calça, fechando os olhos.

E então Lupus teve uma ideia. Ele não podia de modo algum deixar Lass fazer algum som. O melhor seria se tentasse impedir de continuar ouvindo. Ele levantou as mãos, ignorando seu próprio corpo e tapou os ouvidos do albino.

Lass o encarou em choque. Lupus devolveu o olhar, tentando se comunicar através deles. "Se não quiser ouvir, tape os ouvidos".

Não que isso fosse impedir completamente de ouvir o que estava acontecendo. Mas Lupus ajudou.

Lass apertou os olhos, o corpo um pouco mais perto de Lupus. Ele estava com medo de tirar a mão de seu membro e sabia que não iria conseguir abaixar aquela ereção só com força de vontade. Ele fitou o mais velho, um pouco mais aliviado por abafar seus ouvidos. Então prestou atenção nas palmas quentes, rígidas, apertando com força, mas tomando cuidado para não feri-lo.

Aquela devia ser a primeira vez que Lupus o tocava assim, com cuidado. Era algo novo, gostoso. Algo tão… íntimo.

Lass tremeu quando Lupus olhou-o de cima a baixo, vendo-o com cuidado. Ele estava olhando para seu corpo. Aquilo não devia deixar Lass tão excitado como deixou.

O albino prestou atenção naquele instante somente no maior. Em como os lábios entreabertos eram finos. Na pulsação rápida que ouvia através das palmas. Na pele do peito que via da camisa entreaberta. O pomo de adão se mexendo em nervosismo. No volume massivo nas calças do uniforme… Uau. Sua boca se abriu levemente. Nunca havia visto…

Lupus também notou o olhar. Ele fazia o mesmo. Nunca tinha prestando atenção dessa forma nele. Na maciez da pele. Na profundidade dos olhos de Lass. Seus dedos sobre as orelhas pequenas, ele mexeu de leve e hesitante, recebendo uma resposta tímida, Lass fechando instantaneamente os olhos e abrindo, as bochechas queimando.

Os dois se aproximaram um pouco mais. Parecia uma nova descoberta.

Os sons do sexo tão longes e tão próximos criando um clima tão sujo e atrativo.

Lass sentia-se pulsar. Sua mão lentamente passando por sobre seu volume, acariciando-se sob o olhar do irmão mais velho.

Tão proibido.

Lupus com as mãos nas orelhas do menor puxou-o levemente, permitindo a aproximação total. Lass segurou seu braço com a mão direita, sentindo os músculos rígidos do moreno. Seu rosto na altura do peito, sua ereção na perna do maior.

Lupus olhou pra cima, buscando alguma ajuda interior, mas seu corpo lhe traía. Sua ereção roçando contra o corpo de Lass.

Lass sentiu as mãos de Lupus tensas, a perna se movendo minimamente contra seu membro, incentivando-o. Ele sentiu-se um cachorro no cio. Se esfregando contra a perna do dono. E era tão… intenso.

— Hm!

Os sons pareciam ter voltado com força. Lupus soltou sua orelha esquerda e deu a volta com ela para tocar seu pescoço, dando apoio para ele. Lass mordeu seu lábio, impulsionando seu membro como uma estocada na coxa do outro, tal a onda de prazer que percorreu sua espinha.

— R-Ronan… meu Deus, eu vou gozar…

A voz do ruivo era um fio, sofria.

— Goza pra mim. Hm, isso… aperta mais, Jin…

Lupus arfou de leve e tentou cobrir isso apertando os fios brancos da nuca do menor. Lass mordeu sua boca ainda mais, soltando sua calça o mais silenciosamente possível, sabendo que precisava de mais, dolorido como estava em seu cárcere.

Os dois no chuveiro não faziam ideia, mas já não controlavam mais a voz nem os barulhos altos que faziam, tomando todo o ambiente. Eles estavam totalmente envolvidos no que faziam, dizendo coisas embaraçosas um pro outro.

Lass estava no limite quando conseguiu abrir a calça. Sentia a ereção de Lupus cutucando-o, mas tinha consciência de que ele não deveria arriscar.

Os meio irmãos se olharam naquela confusão. Lupus não estava puto. Lass não estava com medo. Os dois estavam extremamente excitados e tinham um ao outro assim tão perto. Havia um desejo tão cru e simples.

Lupus enfiou a cabeça de Lass em seu peito, abraçou seu pescoço e o contornou com um braço, tocando sua cintura baixa, instigando-o a se esfregar contra ele, contra seu membro, suas partes mais íntimas dando e recebendo apenas prazer. O menor sentiu sua permissão, mal sabendo o que estava sentindo, mas entregue no momento.

Com a mão na lombar, Lupus ajudava Lass a encontrar seu ritmo. Lass sentia em sua face o peito de moreno, o aroma amadeirado e do café que gostava tanto. Mais que isso, sentiam uma nostalgia. De quando? Não se lembravam.

Na cabine ao lado o clímax próximo. Ali dentro, sons inexistentes, mas o roçar que imitava uma penetração.

Lass sentia o aumento da sensação desde seus testículos. Ele queria gozar bem ali, bem na virilha do meio irmão. Sua mão subiu pela camisa na área do abdômen, rígido, provocante. Seus pequenos dedos fazendo a face de Lupus mover-se em expressões de prazer nunca vistas.

Lass ousou. Puxando lentamente a camisa de dentro da calça, levou-a para o alto, sentindo apenas com as pontas dos dedos o umbigo, as linhas do abdômen chapado.

Lupus puxou seu cabelo, obrigando-o a olhar para si. O azul lânguido hipnotizando-o com ar afetado, necessitado. Ele sabia que o garoto agia por instinto.

Do lado o casal começava a encerrar, ainda em beijos e leves gemidos.

Lass e Lupus moviam as mãos cuidadosamente, apertando locais enquanto o movimento continuava. O menor agarrando-lhe a calça, a outra ainda amassando a camisa para olhar o abdômen. Lupus com a surpresa de ter o garoto fazendo o que bem entendia, se dando prazer enquanto admirava seu corpo, se contentou em observar. Ele não queria tocar o garoto mais que isso. Ele tinha consciência do que estavam fazendo e de todas as merdas que fez no passado. Então ele deixou que Lass o usasse, esfregasse suas masculinidades, tocasse seu tórax e seus bíceps, buscando algum apoio. Ele observou. A tez branca ensopada, o belo cabelo branco sendo empurrado para trás. Os cílios fechando enquanto se movia buscando o clímax. Lass parecia totalmente diferente. Ele parecia realmente um homem.

Talvez a realização foi repentina demais. Lupus não iria chegar ao ápice só com isso, mas foi suficiente ver o garoto torcer o pulso em sua camisa, os nós dos dedos brancos. Tão satisfatório foi. O membro pulsando contra o seu, a umidade fluindo através do tecido branco da roupa íntima. O cheiro que exalavam era melhor ainda. Lupus lambeu o lábio por dentro, sentindo uma sensação predadora tomá-lo inteiro ao ter a visão de um Lass em seu clímax, tão contido, o rosto vermelho pelo esforço, por segurar cada som, segurar o ar, engolir o gemido do orgasmo. Ele era novo nisso, mas tinha se saído tão bem.

Os olhos marejados de Lass lhe causaram um aperto no estômago ainda mais intenso. Ele respirava forte pelo nariz, peito arquejando, mas nenhum som.

Lupus o segurou e Lass soltou as forças de suas pernas moles. Permanecendo assim, grudados um no outro, como nunca antes.

O Wilde relaxou com o corpo do menor abrigado no seu. Seus braços fazendo força para mantê-lo em pé. O albino também, estava exausto e relaxava sobre o outro, envolvendo levemente suas costas. Seu rosto deitado no peito do meio irmão aos poucos ganhando familiaridade. Os dois se tocaram que nunca antes, nem quando se conheceram quando pequenos, haviam se abraçado. Lupus nunca havia querido fazer isso com um irmão que ele nunca havia querido, nem consentido e nem aceitado.

Eles esperaram toda a intimidade dos capitães acabar e depois de muitos minutos se retirarem para se mover.

Estranheza era um sentimento insuficiente para explicar. Mas a falta que o calor fez, foi um golpe de realidade. Os problemas não sumiam assim do nada e Lupus sabia bem disso. Só que também sabia que não era o momento para conversar sobre nada. Eles precisavam de um pouco mais de tempo após o que tinham acabado de passar.

Lass olhava para baixo e se virou para pegar papel do rolo. Realmente, tinha bastante papel higiênico ali. E ao sentir que o silêncio estava se estendendo demais, ele tomou coragem como nunca antes.

— Você está bravo comigo?

Lupus continou em silêncio, mas balançou a cabeça negativamente. Não estava, mas sua voz não saía. A palpitava em seu peito era alta demais. Parecia quando ele estava saindo de controle, mas diferente.

Lass olhou para ele, sem medo.

— Você disse que queria conversar. Mas agora tem mais coisas para conversar… eu não sei se consigo agora. — Lass disse, trêmulo, ainda tão surpreso com suas próprias atitudes naquele espaço de tempo.

Lupus acenou positivamente com a cabeça e pôs a mão na têmpora. Ele precisava sair dali, tomar um ar e se acalmar. Tantas coisas que ele não pensou que poderiam dar errado. E ele então perguntou algo que nunca teria perguntado antes também assim que encontrou sua voz, tremida e baixa:

— E você? Está bravo comigo?

Lass arregalou os olhos, percebendo como tanto ele como Lupus estavam abalados. E ele também, balançou a cabeça negativamente.

Ambos se olhavam com cuidado, trocando algum sentimento mútuo de confusão. Lupus era mais velho, então ele se aproximou.

— Vamos… Vamos conversar outra hora. Quando você quiser.

As palavras saiam com pausas e incertas. Ele estava dizendo direito?

Lass assentiu lentamente, marcando o final daquela interação.

Era estranho. Mas não era tão ruim assim.

Continua