Identity Crisis

31 C30. Are you willing to?


Notas iniciais
Yep! IM BACK. Os capítulos tão ficando longos gente... É cansativo. Eu ainda to enrolando demais nas outras fics e existe Genshin Impact agora. Minha cabeça só consegue pensar no Xiao no momento :1. E também no Dainsleif, claro. Enfim, boa leitura para você, leitor lindo e fofo, que continua acompanhando uma fanfic dessa pessoa relapsa que eu sou. :3 bjs

Ele acordou no início daquela madrugada com uma sensação ruim no estômago e com seu celular vibrando. Vairne estava ligando no modo de urgência.

Dio se descobriu da manta escura enquanto trocava de lado, vendo a pequena montanha que o corpo de Sieghart fazia na cama vizinha. O cabelo negro escapava para fora e os pés estavam encolhidos um sobre o outro na borda inferior. Dio limpou os olhos enquanto assimilava o cenário e finalmente se levantou, sentindo uma leve queda de pressão.

Quando olhou novamente, Sieghart estava se encolhendo ainda mais, esfregando os pés. Rindo daquilo, o mais novo pegou a própria manta para jogar em cima da pseudo-bola que o namorado fazia.

“Namorado”.

Dio tomou a palavra na mente e experimentou uns segundos, estranhando-a. Ele não era do tipo que tinha relacionamentos. Ele gostava de ter encontros e sair por meses com algumas garotas com quem sentia alguma conexão, mas nunca se comprometia. A sua própria mudança era até um pouco... assustadora, se ele pensasse mais nisso.

Mas deixando os pensamentos de lado, o italiano se inclinou sobre a cama, mexendo nos cabelos do moreno e tentando procurar seu rosto. Com uma vontade peculiar de tocá-lo.

Sem muito esforço ele conseguiu descobri-lo, mas Sieghart não aparentava estar próximo de acordar. Sua expressão serena confirmava o quanto Sieghart tinha relaxado após se acertar com Jin e os outros.

Finalmente Sieghart estava caminhando. Dio não queria se gabar, mas o sentimento de autossatisfação, de saber que ele era a força impulsionadora do moreno, o deixava orgulhoso e idiota, como se burro até... fazendo-o querer estar perto de Sieghart o tempo todo e influenciá-lo.

Sem notar, Dio estava sorrindo. Sua mão automaticamente sobre a cabeça do rapaz adormecido. A sensação dos fios acariciando sua palma era viciante, hipnotizado no beiço de Sieghart e nos cílios imóveis. Toda a feição o deixando curioso como uma criança.

— Hm... — Sieghart resmungou, mexendo a boca, engolindo saliva. A testa franzida delatando que estava acordando agora. Dio se inclinou ainda mais, tocando seu nariz na orelha do mais velho, soprando sua voz levemente, sentindo todo seu estômago com borboletas ao ouvir o suspiro do moreno.

— Sieg, você está atrasado pra aula. — sua voz baixa e deliciosa, contendo-se para não lamber aquele pedaço sensível à disposição.

Dio sorriu por um instante até que os olhos arregalaram e o corpo do moreno se levantou abruptamente.

— ATRASADO?!

No movimento, Sieghart bateu a testa na cara de Dio.

— Au... — Dio tocou o nariz, sentindo o amortecimento espalhando por toda a cara. Tinha doído. E não era pouco.

— Ah, Dio! Você tá bem? — Sieghart tocou seus ombros, desesperado. — Me desculpa!

O italiano riu um pouco, sabendo que a culpa era toda sua.

— Eu tô bem... Sou acostumado com esse tipo de coisa. — ele riu de novo, sentindo-se agraciado pela face de preocupação do moreno. Afinal, até alguns dias atrás o Sieghart não queria nada com ele.

Sieghart tocava sua testa enquanto olhava o vizinho e conferia se o Wilde tinha acordado com aquilo. Ele murmurou:

— Que horas são para você me acordar assim?

Dio manteve o sorriso, mas sua expressão de descontentamento era óbvia, mesmo que Sieghart não soubesse o motivo por trás disso. Seus dedos brincaram na franja escura, fazendo os olhos prata piscarem. Eles brilhavam ainda mais bonitos hoje.

— Eu tenho uma reunião de família agora. Eu preciso ir.

—. Hã? Agora...? — o moreno buscou rapidamente algo que mostrasse as horas, que no caso foi o smartphone de Lupus no criado-mudo entre as camas. — São 2 da manhã, Dio.

O italiano enrolou os fios em seu dedo indicador e se inclinou um pouco, falando tão baixo que nem o próprio Wilde poderia escutar.

— Tem umas questões delicadas de família acontecendo agora. Eu poderia atrasar tudo isso e ficar aqui... — Dio murmurou, seus olhos finos caminhando pelos lábios do parceiro e seus dedos descendo dos fios para a bochecha fria.

A pupila do mais velho dilatou imediatamente com o tom e o olhar voltados pra si. Em alerta, Sieghart moveu os lábios, apreciando o calor daquela palma sobre sua pele. Sempre tão quente. Seus olhos se encontraram e o sorriso de Dio o desarmou outra vez, tirando qualquer oportunidade de retrucar.

— ... Eu poderia ficar, mas quanto mais rápido eu resolver isso, mais tempo eu vou poder passar com você sem interrupções. — Dio se inclinou e deixou um beijo um pouco demorado e úmido sobre a bochecha amassada.

Sieghart fechou os olhos com a sensação, sentindo um calor íntimo. Parecia a primeira vez que ele recebia uma carícia de puro afeto. Algo do tipo que ele só tinha recebido da mãe uma vez quando era muito pequeno e nunca mais.

— Haa, você tá vermelho por quê? — Dio zombou dele, pinçando sua bochecha.

— Cala a boca, idiota. — Sieghart resmungou, desviando da mão que o provocava.

— É assim que você retribui meu carinho?

— Sai daqui logo, Fiammeggianti. Você tem coisas melhores para fazer não tem? Não sei como vai sair do colégio, mas é melhor ir antes que o Wilson te veja.

Dio não sabia quem era esse, mas assentiu mesmo assim, voltando a se inclinar, buscando os lábios do moreno. Só por provocação mantendo-se afastado uns centímetros.

— Quê? — Sieghart franziu o cenho ao notar que o beijo não vinha.

— Me dê um beijo de despedida.

Sieghart sentiu a face fervendo com aquele bico atrevido e o olhar provocativo que o tirava do sério.

— Eu nunca-

— Se vocês não pararem agora de falar, você vai ganhar é um chutão na boca, Fiammegianti.

Sieghart imediatamente se afastou com a ameaça vinda da cama vizinha e o italiano apenas se deu por vencido, olhando insatisfeito para Lupus, que os encarava mortalmente agora com olheiras fundas e estresse palpável.

— Foi mal, Lupus. — sussurrou o moreno, apertando a mão de Dio e sinalizando com o olhar que iria voltar a dormir. — Nos vemos amanhã?

— Uhm. — Dio acenou positivamente com a cabeça enquanto apertava a mão do moreno de volta. — Quando acordar eu vou estar aqui.

XXX

Ele não sabia por que, mas a sensação de que a princesa ainda não tinha desistido o incomodava. O Fiammeggianti acompanhou atentamente a história de longe, exatamente na intenção de ficar à espreita para poder auxiliar o melhor que podia.

Ninguém sabia, ninguém tinha perguntado sobre seu paradeiro, mas Dio esteve por duas noites indo atrás de informações sobre a Onette, sua linhagem real e sobre o suposto acordo de casamento com os Sieghart.

Ele estava cansado da pesquisa e cada vez mais preocupado pela maneira que as coisas estavam ficando desvantajosas para o companheiro. Sentia que se não pudesse ajudar a pessoa com quem se importava num momento crucial, que espécie de pessoa ele seria? Seu pai ia deserdá-lo se tivesse sentimentos tão rasos.

Quando ele saiu do colégio, sem ninguém suspeitar de nada, o carro parou silenciosamente à frente. Ele não esperava que a porta abrisse e o próprio Pon Zec saísse para recebê-lo.

Isso significava problema.

Dio o encarava pelo retrovisor com os olhos agressivos. Ele era péssimo em disfarçar. Duel achava aquela rivalidade infantil fofa.

— Papà mandou lembranças, primo.

A voz do homem era sempre direta e com um tom de ordem. Dio o odiava. Mas odiava ainda mais como ele fingia ser íntimo de seu pai e como tentava assumir um papel paterno sobre a Rey desde criança, desesperado por conquistar uma posição de poder.

— Desde quando somos primos, Duel? — Dio retrucou, sincero até nos dentes que trincaram de irritação.

A risada do homem de cabelos brancos foi arrastada e elegante. Artificial.

— Sua falta de respeito apenas comigo sempre me surpreende. — ele respondeu e voltou o olhar para a rodovia. Estavam chegando ao Complexo Fiammeggianti.

Alfred o esperava no escritório, com uma feição tribulada e uma taça de água, como se já soubesse que o jovem mestre iria passar raiva.

Duel o seguia com um ar relaxado, sorrindo para os pouquíssimos funcionários.

— Bom dia, Mestre Dio. — Alfred saudou, olhando em seguida para o agente de terno branco e cumprimentando-o com a cabeça. Dio sabia muito bem que essa era a única forma de Alfred demonstrar sua insatisfação com alguém não falando nada.

Não demorou para que o herdeiro, o agente, o mordomo e mais os dois serviçais de Dio — Vairne e Sebastian — estivessem sentados na sala de reuniões.

Como sempre, Dio foi direto ao ponto antes que Duel começasse a fazer joguinhos.

— Eu presumo que meu pai seja o responsável por estarmos aqui agora. Aconteceu algo em Veneza?

Vairne soltou um suspiro disfarçado, trocando olhares com Sebastian. Duel deu uma risadinha nasal e Alfred fechou os olhos com um franzido discreto.

— Jovem Mestre, seu pai está preocupado com o cumprimento de suas atividades aqui em Londres... E também...

Dio arqueou a sobrancelha com aquela pausa.

— E o quê?

— Com as influências que está recebendo no colégio. — continuou o senhor.

Duel riu outra vez e fazendo aspas com os dedos disse:

— O velho está preocupado com a “perda de tradições”.

— Não o chame por esse nome, Mestre Duel. — Alfred retrucou, fitando Vairne e pedindo para o rapaz ajudar com o olhar.

O louro apenas deu de ombros, compartilhando um olhar cansado com o pequeno Sebastian, que até então não tinha abrido a boca para falar.

— O chefe só está preocupado com você, meu irmão. Ele não está acostumado com você negligenciando o serviço. — Vairne contava nos dedos com preguiça. — Dispensar reuniões, atrasar relatórios, essas coisas.

O italiano evitou o encolher de ombros, mas não tinha uma boa desculpa para isso. Ele queria ser digno de ser herdeiro da família e não era mentindo que conseguiria provar.

— Entendo. Mas qual é o ponto de estarmos aqui? Ele quer que eu reporte para vocês ou faça alguma justificativa? — indagou o rapaz, se ajeitando na poltrona.

— Dio, vou ser sincero. Posso ser sincero? — Vairne perguntou, fitando todos na sala e erguendo os braços em defesa.

Ninguém disse nada.

Dio apenas se perguntou em que ponto eles chegaram para serem tão informais quando estavam em reunião. Sim, ele tinha dado a brecha quando tinha escolhido os próprios seguranças e dito que não queria formalidades enquanto estivesse estudando na Academia Real.

— Ele só está com saudades. Ele viu algumas fotos suas e estranhou sua proximidade com os seus colegas. Na minha opinião é ciúmes. — disse Vairne, tentando não olhar diretamente nos olhos indignados do jovem mestre.

— Tem certeza que é do meu pai que você está falando, Vairne? — Dio cruzou os braços, incrédulo. Seu pai era um homem seco. Bom, mas seco.

Alfred suspirou com ele.

— O jovem mestre tem uma expectativa muito baixa de seu pai. O Sr. Fiammeggianti tem um modo peculiar de demonstrar o afeto.

— O que ficou claro para o papà é que você não está seguindo nosso código de disciplina. Seu pai aprecia muito o seu perfeccionismo, sabe disso não é? — Duel novamente interrompeu, soando irritado. — Esses moleques com quem você está andando estão te deixando mole, Dio?

Ignorando completamente o braço direito de seu pai, Dio cruzou os braços.

— Pelo que eu me lembre, o acordo era que eu poderia aproveitar meus últimos seis meses do jeito que eu quisesse desde que eu mantivesse excelente aproveitamento. Não tinha mais nenhuma condição no meio disso.

— Isso não quer dizer que você pode deixar seu serviço pela metade e ignorar seu papel. A ideia é você se apresentar como futuro chefe para nossos aliados, Dio. Foi por esse único motivo que você pôde vir para Londres.

Dio suspirou com isso, não podendo estar mais cansado desse tipo de conversa. Basicamente a questão ali não era seu pai e nem o que ele achava, mas sim que Duel discordava da decisão do papà em colocá-lo como sucessor e não aceitava seu relaxo com as questões burocráticas.

— E o que foi que meu pai te disse, Sebas?

Sebastian era um membro jovem e tinha bastante comprometimento, mas sua timidez e lentidão com tudo acabava deixando Dio muito puto. Assim, Sebas, como Dio o tinha apelidado, esfregou as mãos uma na outra e gaguejou:

— S-Senhor Fiammeggianti disse que queria ver o Mestre Dio logo porque estava morrendo de saudades. Ele ficou um bom tempo falando das fotos e de como o Mestre Dio não fala sobre a vida colegial e não responde às ligações.

Dio deu um risinho interno, um pouco feliz por Sebastian ser um completo idiota, mas mais por seu pai ser um pai coruja e chorar pros serviçais sobre os problemas pessoais.

O agente rangeu os dentes de raiva, desintegrando o rapaz baixo com fogo nos olhos. Mas ele não parecia querer desistir.

— O papà viu como você está grudado no filho dos Sieghart, Dio.

Automaticamente Dio entrou em alerta. Sua expressão congelando para não mostrar demais.

— E?

— Não se faz de louco. — o agente retrucou, insatisfeito. — Você sabe perfeitamente quem eles são.

Normalmente ele já teria terminado esse assunto, mas a questão do Clã Sieghart nunca tinha sido posta em pratos limpos dentro da Famiglia. O que Dio sabia era que eles eram um grupo poderosíssimo e bastante respeitado por todos... Menos por seu pai. Por algum motivo seu pai nunca tocou no nome deles. O fato de serem conhecidos por absolutamente toda a alta sociedade, mas seu pai nunca ter dito um “A” sobre, era a definitivamente suspeito.

“E pessoal.” Dio mentalizou. “Tem história por trás disso”.

— O que eu sei é que nós não falamos deles em casa. Incomoda tanto assim eu me aproximar dele? Por acaso tem alguma coisa pra esconder?

Duel abriu a boca, mas calou-a em um segundo, desviando os olhos. Ele não estava sendo esperto como de costume.

“Isso é preocupante também. Duel sempre foi aguçado, mas até para ele os Sieghart são assunto delicado”.

Aquilo tudo o estava irritando. Ele só queria estar com Sieghart agora, deitado com ele, beijando aquela boca e vendo aqueles olhos brincarem com sua paciência.

— Ele é uma pessoa importante no colégio e por coincidência é meu colega de quarto. Você já sabe, mas jogamos no mesmo time e estudamos na mesma sala. É impossível eu não me envolver com ele. — Dio descruzou os braços e já foi se levantando. Ele poderia preencher uns papéis antes de voltar e mandar para seu pai já que ele fazia tanta questão.

Duel estalou a língua, mexendo em seu paletó. Dio viu como Alfred estava incomodado com o maço de cigarros que o agente puxou.

“Ele até voltou a fumar. Deve ter alguma coisa acontecendo.”

— Chefe, não precisa se preocupar com sua apresentação. Os parceiros sabem que você está ocupado no colégio e entendem a situação. — Vairne interrompeu, querendo cortar o clima.

— E nós estamos sempre de olho na limpeza da área também. Os chefes locais tem um acordo com o Sr. Fiammeggianti, então estamos cumprindo pequenas tarefas que não merecem a sua atenção. — Sebastian também se pronunciou, tentando apoiar o mestre.

— Obrigado, rapazes. A semana de provas já está aí, então depois eu posso aparecer mais vezes para ajudar.

Os dois seguranças sorriram para ele, assentindo positivamente. Alfred pareceu mais relaxado com o final daquela discussão e Duel ainda estava nervoso, fumegando com o cigarro.

— Se ficar com bafo a Edna não vai querer te beijar, Duel. — Dio murmurou ao passar pelo mais velho.

Os olhos ametista do Pon Zec tinham o poder de atravessar sua alma. O agente tentou lhe dar um chute, mas ele desviou.

Antes de deixar a sala, Duel o chamou, sua voz introspectiva e escura:

— Dio, tente não se envolver demais com o garoto.

Era palpável a importância daquelas palavras, mas Dio já estava além delas há um bom tempo.

“Tarde demais. Mais envolvido do que já estamos impossível”.

— Vou pensar no assunto.

XXX

— Lupus está olhando aquele papel de novo.

Ryan não tirou os olhos do notebook falando e tomando seu chá gelado de sempre. Ele tinha aproveitado que o Wilde foi para a biblioteca outra vez e resolveu puxar o assunto com Sieghart.

Ele tentou na verdade. Sieghart também parecia estar em outro mundo agora, sentado na frente da televisão com a testa franzida. Depois de uns segundos sendo ignorado, Ryan largou o computador e foi se sentar ao lado do moreno, que não se moveu um centímetro.

— Sieg.

— Hm?

O ruivo fez um bico irritado pela clara falta de atenção.

— SIEG. Vocês dois estão estranhos. O que está acontecendo? Até ontem você estava bem. — Ryan o cutucou com o cotovelo, seus olhinhos procurando respostas do moreno.

— Eu tô bem. Não é nada. — Sieghart desviou o olhar, obviamente escondendo seus sentimentos. De novo.

— Okay. Você tá com vergonha de me dizer que o problema é o seu namorado?

O sobressalto que o moreno deu com aquilo foi a reposta que ele queria.

— Não é isso...

— OBVIAMENTE é isso. — Ryan segurou sua bochecha.

— Não quero falar sobre isso. Não é sério. E me solta.

— Okay, não vou te pressionar. Mas escuta, Sieg, o Lupus está muuuito estranho. Ele fica segurando o mesmo papel e fica olhando para ele um tempão, mas não faz nada. — Ryan murmurou outra vez. — A curiosidade está me matando.

— Surpresa é você não ter pego o rolê escondido pra saber.

— Cala a boca. Eu simplesmente sinto quando é alguma coisa que eu não posso me meter.

Sieghart deixou que o ruivo ficasse agarrado em si enquanto um sitcom continuava passando inocentemente na televisão. Ele também estava intrigado com o tal papel.

— Eu também notei, por isso que ainda não falei nada.

— Então dá um jeito de perguntar logo. Ele está ficando meio distante, não notou? — Ryan perguntou, afoito demais para um assunto tão inocente.

— Uhm. Um pouco só. Mas isso não é normal?

Ryan balançou a cabeça negativamente.

— Meu amigo. Quando um brother seu começa a ficar muito pensativo e distante, é aí que a gente precisa ficar em cima dele.

Sieghart franziu o cenho, discordando parcialmente em sua mente. Ele não era do tipo que se abriria para as pessoas se fosse pressionado, por isso ele se sentiu agradecido quando tomou a decisão por conta própria de conversar com os amigos.

O ruivo o encarou por alguns segundos, os braços cruzados. Parecia ter lido seus pensamentos.

“Ryan é assustador.” Sieghart concluiu, sabendo que o amigo começaria o discurso em 1, 2, 3...

— Sieghart. Tem pessoas que precisam de um empurrãozinho para as coisas acontecerem. Sei que você tem essa coisa de querer fazer as coisas no seu tempo, mas o Lupus... — Ryan balançou a cabeça, mantendo a voz baixa o melhor possível.

Sieghart meio que sabia o que o ruivo queria dizer. Apesar de conhecer Lupus por menos tempo, ele tinha notado como pela postura de maturidade ninguém costumava desconfiar da profunda reclusão em que o rapaz morava.

— Uhm. — o moreno concordou apenas.

Afinal, era verdade que Sieghart tinha mania de achar que todos pensavam igual a ele. Por um bom tempo ele foi uma pessoa extremamente arrogante, até que um dia foi obrigado a perceber como ele se sentia inseguro com seu verdadeiro eu. Mesmo agora tinha que admitir: estava com medo.

Ryan notou que o moreno estava dispersando para outro lugar.

— Você sabe como o Lupus nunca fala sobre si mesmo. Quando começamos assuntos mais íntimos ele sempre foge ou se abstém. — o ruivo tocou seu ombro, fazendo-o focar no assunto. Sieghart apreciava muito esse gesto atencioso.

— Ele nunca me disse nada. Eu sempre fui na casa dele, mas... Nunca tem ninguém, só os empregados. — Sieghart deu de ombros. — Isso sempre me preocupa, porque eu sei que ele tem parentes, mas sempre está sozinho em casa.

O colega suspirou.

— Sieg, eu sei que talvez seja pedir demais, mas o Lupus só deu uma chance pra você, sabe? O pouco de espaço que ele te deu para entrar é a única coisa em que a gente pode confiar agora.

— Ryan, eu não sei...

— Acredite em mim, Sieg. Tem uma coisa muito séria acontecendo. Você pode não ter notado porque o Lupus é sempre tão gentil com você, mas ele é estranho. Nós podemos falar outra hora sobre isso, mas você sabe que eu não falaria nada disso à toa...

Os olhos verdes do rapaz transmitiam um incômodo que há muito tempo Sieghart não via. Ryan geralmente não era tão insistente assim, mas quando algo o tirava do sério, ele apenas falava para quem confiava muito. Sieghart não sabia bem se ficava feliz ou não com isso.

O único problema era: ele adorava Lupus. Sieghart simplesmente não queria desconfiar dele, por qualquer motivo que fosse.

— Eu não posso prometer nada, Ryan. — o moreno se levantou, sentindo tensão nos ombros e arrepios na coluna. Ele precisava se distrair. E faria isso indo adiantar seu trabalho.

Ryan não tentou pará-lo, mas enquanto se ajeitava na cadeira, disse:

— Sieg, você não precisa fazer nada que não queira, okay? Mas tenha em mente: todo mundo tem seus segredos.

XXX

Ara e Rena conseguiram finalmente arrastar o melhor amigo para o prédio do colegial. Claro, eles teriam que espreitar bastante ou inventar alguma desculpa para os inspetores não levarem eles de volta para a área do fundamental.

— Eu sempre achei estranho não ter nenhuma divisão de verdade. Uma grade ou parede. — comentou a menina loura enquanto agarrava Lass por um braço.

No outro, Ara balançou a cabeça.

— Parece que o colégio foi planejado assim. A ideia era mostrar que eles atendem a todos os públicos e que jovens podem dialogar independente de idade. — explicou a morena, sorrindo levemente. Hoje estava com o cabelo solto para tentar passar uma imagem de mais velha.

Os três ainda tentaram esconder o uniforme debaixo de casacos escuros longos e cachecóis, mas o albino sabia muito bem que nenhum deles era alto o suficiente e não tinham o olhar de maturidade ainda para se passar por colegiais.

— Por que vocês fazem tanta questão de vir aqui? — Lass indagou baixo e nervoso. — Eu não posso ser visto aqui.

Ara franziu para ele.

— Você sempre se esgueira na biblioteca deles, mas nunca leva a gente junto. É claro que eu fico curiosa assim. É uma boa oportunidade para ver o pessoal mais velho.

— E você sabe muito bem quem é que queremos ver! — Rena resmungou, procurando com olhos famintos pelos corredores em que passavam.

Por sorte, não havia muitos alunos fora hoje. Devia ser a época de provas chegando. Além de ser quase final de semana.

— Estão olhando pra gente. — Lass murmurou, sentindo o nervosismo aumentando. Ele definitivamente não poderia se deixar ser visto pelo meio-irmão dessa vez. Uma parte sua tinha muito medo de saber se ele perderia a cabeça de verdade da próxima vez. Era tão forte que o fazia tremer.

— Relaxa, Lass. ­— Ara sorriu, agarrando ainda mais seu braço. — Vamos procurar ele.

O albino arrumou os óculos quadrados e suspirou, olhando para os lados com aflição.

— Deve ser o horário de clube agora, Ara.

— Ele com certeza é da jardinagem. — Rena comentou pensativa, se dirigindo a um mapa no corredor principal e arrastando o menino junto.

— Claro que não! — Ara retrucou, olhando o armário de troféus. — Ah!

Lass voltou-se para a outra amiga e soltou-se do braço de Rena. Parecia que a outra tinha encontrado algo interessante.

— Olha! O time de futebol do ano passado! — Ara apontou, animadíssima.

A foto era mediana, mostrando os vencedores. Os olhos azuis parando na figura altiva que carregava o troféu. De corpo perfeito, rosto belo, postura invejável, mas o sorriso plástico: o capitão, Ercnard Sieghart.

Lass sabia muito bem quem era ele. Lass conhecia sua voz, sua aparência, seus trejeitos.

Durante o ano anterior, Sieghart visitou sua casa quase todos os finais de semana. As empregadas falavam dele e seu pai também falava sobre sua família.

Lupus e Sieghart passavam horas juntos e falavam poucas coisas. Eles assistiam filmes, jogavam videogame e futebol, tomavam café, fumavam e faziam muitas coisas ilegais quando não tinha ninguém olhando. Exceto por ele. Lass via a relação dos dois crescendo pela fechadura. Uma relação calada, mas íntima.

O gosto em sua boca era amargo.

Não era porque ele não gostava de Sieghart. Era porque ele não compreendia: por que Lupus nunca o tinha tratado com tanto afeto como tratava Sieghart?

A inveja profunda que sentia dele o impedia de sentir-se feliz. A vida inteira Lass pensou que seu irmão estivesse quebrado, que ele não tinha salvação, que aquela face da violência estaria para sempre em Lupus. Mas quando Sieghart surgiu na vida dele, foi como um tapa na cara.

Algo como: ele não era mau. Ele só quis ser mau.

“Ele só quer ser mau comigo”.

Aquela realização doía muito mais.

Se Lupus fosse apenas mau, mau no cerne, tudo estaria bem. Ele apenas seria um coitado com problemas mentais. Mas não... Ele tinha bem dentro dele. Ele tinha o lado bom em si. Então quando ele era mau, era porque ele tinha a intenção de machucar. Era porque ele tinha viciado na maldade, no poder e usava sua mágoa como justificativa.

Por isso Lass sentia-se infeliz, como se tivesse sido enganado a vida toda. O Lupus que ele conhecia, nunca foi quem ele imaginava.

Então, quem Lupus era de verdade?

Os últimos acontecimentos também, só serviam para aumentar sua confusão. Ele queria esquecer tudo, mas constantemente sentia-se atraído pelo irmão, querendo entendê-lo, buscando respostas para tudo.

Depois de sofrer tanta injustiça, Lass “deveria” mesmo querer conhecer Lupus?

Se ele quisesse parar de sofrer, bastaria que ele se afastasse não é?

Mas ele constantemente ia àquela biblioteca. Ele chamava Rena para ir em casa. Ele caminhava por lugares onde Lupus poderia estar.

Aquele medo que sentiu quando Lupus o atacou não era suficiente para ele ficar quieto no dormitório?

Por que Lupus atacava, mas não batia nele sendo que sempre tinha sido assim?

Por que ele não dizia seus sentimentos? Ele estava arrependido? Porque ele não pedia desculpas?

Por que ainda estava pensando nele? Por que sua mente não parava de correr atrás dele?!

— LASS!

O menino engoliu em seco, piscando para a loura. Rena cutucava-o com o cotovelo, apontando para o final do corredor.

— É ele! — a menina murmurou, o rosto vermelho e os olhos verdes brilhando.

Ara se juntou a eles, quase pulando.

— Vamos lá cumprimentar.

Lass estacou o pé no chão ao observar na direção apontada.

Para sua surpresa e infelicidade, as pessoas que ele queria ver estavam todas juntas, trazendo um incômodo gigante em sua garganta e estômago.

Saindo de uma sala, Ryan, o rapaz bonito e ensolarado que Lass guardou em seu coração. Como sempre ele estava sorridente e simpático, andando como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. Seu coração derretia de admiração.

Mas logo atrás dele, em dupla, seu próprio irmão e o Sieghart. Os dois sorrindo e conversando como melhores amigos, se cotovelando, rindo.

— Vamos embora. — Lass segurou o braço das duas amigas, puxando-as para virar o corredor, onde não poderiam ser vistos.

Confusas pela força repentina, Ara e Rena ainda tentaram discutir com o albino.

— O quê que deu em você?! O Ryan está logo ali, Lass. — Rena reclamou, pondo as mãos na cintura.

— Eu também quero conversar com ele, mas...

Ara estava irritada também, mas rapidamente percebeu a expressão pálida do amigo.

— Tem alguém ali que você não quer ver?

— Uhm. — Lass coçou a nuca. — Desculpa. Eu não posso ir com vocês até lá. Eu quero, mas não estou bem.

As duas fitaram-se, vendo como Lass entrava em modo de defesa com o corpo. Ele era fácil de ler e era um garoto honesto. Por isso elas tinham feito amizade com ele.

— Vamos voltar. — Ara sentenciou, mexendo no cabelo branco uns segundos, acalmando o amigo.

— S-Sério?

Seus olhos azuis vibraram. Ele era com certeza uma pessoa de sorte por tê-las.

— Podemos marcar com o Ryan outra hora. Chamamos ele para ver a Plum e comer doces. — sorriu a loura.

— Sim. Sei que ele não ia achar ruim, mas é melhor não aparecer de surpresa. — sorriu a de cabelos castanhos. — Vamos voltar.

Lass sentiu seu coração se acalmar, seus pensamentos fluindo com mais gentileza, no prospecto de um encontro com o ruivo em que eles se sentavam e conversavam rindo sobre qualquer coisa enquanto tomavam sorvete.

XXX

Naquela noite, Sieghart bufou tão alto que foi impossível para eles não notarem.

— Okay, eu já cansei disso. Pode falar. — Lupus resmungou, fechando o livro que lia e guardando os lendários óculos de leitura. Ingênuo de quem acreditava que o rapaz era perfeito em tudo.

Ryan também desistiu do game de corrida e virou-se no pé da cama para o moreno, quem estava esticado olhando o celular:

— Já deu para notar que os problemas de casal já estão surgindo.

Zero assentiu do lado do ruivo várias vezes, olhando com tédio na direção do mais velho.

Corando, o moreno se virou na cama, tentando ignorar os colegas.

— Cadê o Fiammeggianti? Até semana passada ele não largava do seu pé. — Lupus começou, jogando uma almofada listrada na cabeça do amigo.

— Hmf. — Sieghart respondeu, escondendo o rosto no próprio travesseiro.

— Você não vai desmaiar por ficar sem beijar por um dia, okay? — Ryan acusou, pegando o pé do moreno e puxando.

— Me larga, Ryan. — Sieghart retrucou, revelando o rosto e fazendo uma careta. — Eu sei disso muito bem. Não é essa a questão.

— O que aflige seu coraçãozinho então? — o ruivo insistiu, cruzando os braços.

— Vocês não estranham nenhum pouco que ele some do nada de repente?

A negativa foi consensual.

— Nunca nem notei a presença dele. — Lupus resmungou, desprezo exalando das palavras.

— Ele tem desaparecido à noite. Ele diz que vai voltar de madrugada, mas não volta. Ele aparece nas aulas de repente, às vezes atrasado. — Sieghart chutou a almofada para fora da cama e continuou olhando para seu chat.

— Mas isso aconteceu quantas vezes? Vocês não começaram a ficar juntos tipo, “ontem”? — Lupus perguntou confuso, gesticulando com os dedos.

O moreno abriu a boca para responder, mas achou melhor não dar detalhes. Não queria compartilhar o que tinha passado com Dio com ninguém. Algo que ele não tinha sentido antes com a ex-namorada e nem com os outros inúmeros casos que teve.

— Claro que não e você sabe muito bem, Lupus. O lance é que ele disse várias vezes que tem coisas da família para resolver.

— Hm. Ele disse isso para mim. — o mais velho confirmou.

— Ele é assim... Alguém muito importante? — Ryan perguntou, fitando do Sieghart para o Wilde.

Sieghart só pode baixar os olhos. Ele tinha a impressão de que Dio deveria ser um indivíduo absurdamente importante.

A verdade era que Sieghart estava tão desligado da própria família que ele não sabia mais nada. No último ano ele tinha perdido as rédeas de sua vida e ignorado tudo que o tinham mandado fazer.

— Oh. — Lupus riu um pouco. — Você nem imagina.

O suspense foi suficiente para Zero soltar um raro assobio.

— Então você sabe sobre ele. — Sieghart o encarou com um pouco de irritação. Principalmente quando Lupus tinha sido tão chato com os dois, mas ainda assim sabia de tudo sobre o italiano.

— Eu sei. E você não. Irônico, né? — Lupus riu, levantando-se da cama. — E não espere que eu vá te dizer alguma coisa. Ele é o seu namorado. Melhor perguntar pra ele.

Enquanto o ruivo e o melhor amigo riam, Sieghart sentia o rubor subindo pela cara descontroladamente. Seu tom até diminuiu um pouco.

— Mas isso realmente tem a ver com ele sumindo à noite, mesmo dizendo que vai voltar?

Lupus riu, quieto e descolado do jeito dele.

— Você está com tanta insegurança assim? Ou é ciúmes?

— Oh! Você não acha que ele tá saindo com alguém e só tá brincando com você? — Ryan perguntou na inocência, aproveitando a deixa do Wilde.

Mas aquilo serviu para deixar Sieghart irritado de verdade. Como um interruptor sendo ativado dentro de si.

— Mano, é claro que não! — o moreno se levantou, sua expressão séria o suficiente para calar os dois.

— Caralho... Okay, desculpa. — Ryan levantou as mãos, suando frio. — Pisei na bola, Sieg.

O moreno suspirou, se acalmando um pouco.

— Eu tô inseguro sim, mas é com ele não falando sobre isso só. Ele podia explicar. Só isso. — Sieghart disse, com um toque final em sua voz. Ele calçava os sapatos enquanto Lupus coçava a nuca.

— Bem, ele voltou hoje não foi?

— Sim, de manhã. Mas ele saiu de novo à tarde, depois do treino. — Sieghart respondeu, cruzando os braços. — Parecia agitado.

— Uhm, isso é verdade. — Ryan confirmou. — Ele estava bem distraído.

O silêncio tomou conta do espaço por uns minutos, mas Sieghart balançou a estranheza do momento de uma vez.

— Vocês tem razão no fim. Não adianta ficar pensando demais nisso. Melhor eu perguntar direto pra ele.

Dito isso, o moreno vestiu uma jaqueta corta vento, uma touca cinza e seguiu em direção à porta.

— Ei Sieg, tá meio tarde... — Lupus tentou alertá-lo, mas o moreno o interrompeu com um “Tch, eu me viro” e saiu do cômodo.

Depois de alguns minutos, Ryan virou-se para o veterano, quem tinha voltado para o livro.

— Lupus. O Dio não é alguém capaz de fazer mal ao Sieg, não é? — a sobrancelha franzida do ruivo delatava sua desconfiança.

O moreno o fitou, seus olhos rubis sem emoções claras:

— Ter a capacidade qualquer um tem, Ryan. Tudo vai depender do que ele quer.

XXX

— “Onde você está?”. Ercnard.

Dio levantou-se abruptamente ao ouvir a voz inesperada da garota. Como sempre, agindo feito uma cobra, se infiltrando em todos os lugares sem ser notada.

— Me dá isso, Rey. — Dio tomou seu aparelho das mãos da rosada sem delicadeza nenhuma. De verdade, ele estava começando a odiá-la.

— Quem é o garoto? — Rey perguntou cheia de risos, cercando Dio na poltrona presidente. — Eu a-mei a foto. Ele é simplesmente lindo!

Dio não mostrou nenhuma alteração facial com o interesse dela. Afinal, Sieghart era um anjo caído do céu mesmo. Sexy, mas inocente por dentro.

— Colega de quarto. Ele é o presidente do conselho estudantil, então ele fica no meu pé por eu estar fugindo do colégio à noite.

— Uhm, que colega tão dedicado.

Rey estava pronta para curtir a noite. Ela estava com um vestido roxo tomara que caia curto e meias calças arrastão, salto preto básico. Seu casaco era grande e decorado com penas, seu colar era esmeralda e seu cabelo caía pelo ombro esquerdo elegantemente. Ela conseguia passar o ar de elegância e maturidade que ele tanto apreciava, mas melhor não elogiar a Von Crimson demais – ego alto demais.

— Você vai mesmo passar mais uma noite preenchendo documentos, Dio? — ela o fitou, cheia de julgamento. Dio sabia que ela estava preocupada de verdade. Todos estavam.

— Enquanto eu não calar a boca do Duel, eu não posso descansar, Rey. — respondeu, voltando os olhos para seus papéis enfadonhos.

— Você tem saído para o trabalho de campo também. Não foi há algumas horas aquele evento na casa dos Jork?

Dio confirmou com a cabeça, tentando se concentrar nas palavras em frente seus olhos.

— Dio.

— O que é?

— Seus olhos estão inchados.

— Eu não tenho mais nenhuma reunião para atender. Ninguém vai ligar pra esses detalhes.

Rey fez um bico, mas o amigo não estava prestando atenção nela nenhum pouco. Ela o conhecia. Ela sabia que ele era obstinado, do tipo turrão e orgulhoso.

— Negligenciar sua saúde por ficar bravo com o Duel não é uma troca inteligente, idiota! — Rey bateu em sua cabeça, fazendo-o parar de escrever. — Você está diferente, Dio!

— Do que você está falando? — Dio suspirou, largando a caneta finalmente.

— Você nunca se esforçou assim com nada. Normalmente eu e você estaríamos naquele clube incrível agora, satisfazendo todas nossas vontades. Olha, eu até entendo que você precisa se esforçar mais por causa da sua herança, mas eu acho que isso é demais. Não é necessário fazer tudo isso. — Rey acusou-o, apontando as pilhas à sua volta. — Isso é trabalho de outras pessoas.

Dio franziu a sobrancelha, incerto em continuar a conversa com amiga de infância.

— Eu só quero terminar tudo isso logo, Rey.

A menina arregalou os olhos.

— Por quê? O que você tem de tão urgente pra fazer?

Dio parou uns instantes no tempo. Rey era sua melhor amiga, a única confidente em sua vida. Ela merecia saber. Ele queria contar. Mas tudo estava acontecendo tão rápido...

Aquilo era normal? Ele estava namorando com Sieghart. Ele gostava mesmo do moreno. Quando pensava nele, queria estar com ele e fazer de tudo juntos. Mas o que o tinha feito gostar do rapaz?

Ele não lembrava. Ele não encontrava um motivo forte o suficiente. Nada explicava o sentimento arrebatador que ele estava sentindo.

Dio acreditava estar sob efeito de uma euforia grande o suficiente para atrapalhar sua visão lógica das coisas.

— No começo foi um jogo sabe? — ele murmurou, como se fosse mais para ele mesmo. Também tinha medo que a menina fosse rir de si e de seus, aparentemente existentes, sentimentos.

— Hah? — ela cruzou os braços na cintura, encostando-se à escrivaninha. O tom dela foi rude, mas Rey não a preferia de outro jeito. Ela era a única pessoa que o colocava na linha. Rey foi a única razão para ele não ter se tornado uma péssima pessoa.

Dio tomou um pouco de coragem. Ele apoiou Sieghart quando precisou se abrir com Jin Kaien. Ele deveria seguir o próprio conselho pelo menos alguma vez, não?

— Eu e Vairne naquela primeira noite, sabe? Eu estava entediado e esse cara que estava bêbado e derrubou minha bebida era só mais um cara qualquer.

Rey levantou as sobrancelhas repartidas em profunda atenção. Era possível ver sua surpresa com a revelação tão óbvia, mesmo antes de ele confirmar. Mas ela não falou absolutamente nada, apenas acenou levemente.

— Vairne me chamou a atenção para a aparência dele. Eu só liguei pra isso no começo e disse que não tinha nada a ver. Foi uma conversa de gente alterada. Mas foi ficando tarde e eu até estava com outra menina, mas sabe... nada. Não tinha graça. Então eu acabei vendo a minha oportunidade. E ele gostou. Eu senti aquele... “encaixe”.

Dio engoliu saliva. As memórias o tomando, como se tivessem acontecido ontem. Um leve aperto no peito, o estômago quentinho, um calafrio de prazer, a cabeça cheia.

— Então eu descobri que ele passaria todos os dias comigo. O tempo todo na minha presença. E ele era tão interessante, desafiador, competitivo! Ele é assim ainda. Mas o que me incomoda é que conheço várias pessoas que são assim. Porque logo ele?

Enquanto isso, Rey já havia compreendido que o amigo entrou na caixa de em suas emoções retidas, mas não conseguia colocar ordem nelas.

— Dio.

Ela o parou, vendo que o Fiammeggianti estava se perdendo. As mãos juntas sob o queixo, a testa franzida, o olhar profundo e desesperado.

— Eu não... Eu não acho que é isso que você deveria estar focando. — admitiu a menina, enrolando o cabelo por uns segundos. — Estou até com um pouco de inveja agora, haha... Nunca achei que esse dia chegaria.

O rapaz mordeu o lábio, sentindo-se frágil, sentindo-se descoberto da sua casca fria. Rey nunca o tinha olhado com essa, essa... “piedade”.

— O que é importante agora, eu acredito, é olhar para si mesmo. Além de todos os problemas que a nossa família passa, você sabe muito bem, você estaria entrando num território ainda mais delicado. Você iria conseguir conciliar tudo isso? Você está disposto a tentar? De forma incompreensível o medo vai estar o tempo todo ali.

Ela suspirou, baixando os belos olhos. Ela também parecia que estava falando para si mesma.

— Independentemente de com quem você estiver, a incerteza vai estar lá. Quando você estiver com essa pessoa, você vai continuamente descobrindo ela. Ela vai se tornar um novo alguém todos os dias. E acredite, você também. Assim, futuramente, os dois podem ser novas pessoas juntos ou serem levados a seguir caminhos diferentes. A questão é: vocês ainda vão ser capazes de seguir em frente em qualquer um dos dois cenários?

A moça descruzou os braços e se levantou, sentindo estar indo longe demais. Tem horas que precisamos nos calar e ouvir, não dar lição de moral. Mas ela tinha esse problema... ela ia longe demais sempre. Ela era séria demais para isso.

Suspirando, Rey fitou o amigo. Dio ainda estava intrigado, mas seu olhar era cortante, como sempre.

— Não sei o que você quer dizer com isso, Rey... Não acho que as pessoas entram num relacionamento pensando em como vai acabar.

Ela abriu os lábios, genuíno choque em seu olhar.

— Re-Relacionamento?

Dio então abriu a boca e desviou os olhos. Tinha cavado a própria cova.

— Dio...

— Vamos parar por aqui. Eu vou voltar agora. — ele sentenciou, se levantando no exato momento. Ele sabia. Seu rosto estava vermelho e ela estava sorrindo feito uma idiota.

Continua