Identity Crisis
28 C27. Give up
Notas iniciais
De todas as coisas que poderiam irritá-lo hoje, com certeza Sieghart entrando no quarto acompanhado de Dio Valico Fiammeggianti e, para piorar, corados e sorrindo feito um casalzinho clichê de cinema, estava em seu Top 3. A cara que Sieghart tinha nesse momento quando abriu a porta o deixou profundamente com ciúmes. Parecia que o moreno nem se importava com ele e nem como eles tinham discutido no dia anterior! E por causa do novato!
Lupus bufou internamente enquanto desviava os olhos para o pedaço de papel em sua mão. O número pairou em seus olhos por alguns instantes enquanto o par de colegas entrava em silêncio agora, provavelmente notando sua presença.
— Lupus... E aí, mano? — a voz de Sieghart era um fio de constrangimento e fez o mais velho se sentir um pouquinho melhor. Só um pouquinho.
— Hm. — murmurou em resposta.
Lupus ainda analisou um tempo o papel, sentindo um nó na garganta. Ele não estava se sentindo mais o mesmo fazia um bom tempo. Ele sabia bem que era por causa de seu irmão, mas até agora ele vinha tentando ignorar o problema. Bem... Não mais. Ao ficar sem seus amigos por perto por uns dias e ter que lidar com seus sentimentos o tinha feito refletir e notar que não tinha mudado um pingo desde quando tinha 10 anos.
Claro, estava chateado com Sieghart. Mas, sinceramente, ele era o menor dos problemas agora.
— Qual é a desse papel? Você está franzindo para ele, Lupus. — Sieghart comentou, inclinando-se por trás do amigo, fitando o número.
Lupus finalmente abandonou o papel para observar por cima do ombro como a face do moreno estava perigosamente perto. O cabelo negro parecia um pouco descuidado, mais longo que o costume – mas não menos bonito – e os olhos pareciam cansados. Com aquela garota claramente o seguindo para baixo e para cima, era óbvio que como Presidente ele devia estar se sobrecarregando. E de adição, eles tinham aparentemente acabado de voltar do treino.
Sieghart vestia uma expressão culpada naquele momento, encontrando seus olhos. Ele tocou seu ombro, cuidando para não invadir seu espaço.
— Lupus, podemos conversar? É sobre ontem... Sobre esses últimos tempos na verdade.
O maior sentiu seus músculos faciais lutando para fazer um sorriso, mas ele não fraquejou. Uma sensaçãozinha de vitória preenchendo seu orgulho idiota.
— Claro. — Lupus deu-lhe atenção, voltando os olhos para o Fiammeggianti, que se sentava diligentemente na cama de Sieghart, de frente para ele. “Oh, ele vai participar das desculpas?”.
Surpreendentemente, o novato não tinha aquele olhar agressivo de antes. Ele parecia no mínimo desconfortável, mas não parecia querer provocá-lo como tinha feito no outro dia.
Sieghart então se permitiu um sorriso, daqueles aliviados que ele fazia quando estava arrependido de algo. Ele tinha um charme irresistível mesmo quando fazia isso e claro, Lupus adorava. Vê-lo se sentindo culpado ou zangado era sempre ótimo. Fazia um tempo que não experimentava esse sentimento.
Então o moreno se sentou ao lado de Dio e ficou em espera enquanto Lupus girava sua cadeira para ambos e cruzava os braços. Era estranho ele parecer uma mãe dando bronca nas crianças agora? Enfim... Não importa.
— Eu queria que o Jin estivesse aqui, mas talvez seja melhor eu falar com ele depois. — comentou, baixando os olhos e pensando: “Considerando que ele nos viu é melhor mesmo... Jin é muito inocente, talvez ele tenha ficado chocado com aquilo”.
— Então? — indagou Lupus, fitando o melhor amigo. Sieghart encolheu os ombros e suspirou, olhando-o diretamente.
— Me desculpe por negligenciar a nossa amizade, Lupus. Nós nos conhecemos faz poucos anos e mesmo assim somos tão próximos quase como irmãos. Eu ignorei completamente os problemas que todos estão passando e o pior, não expliquei nada para você. Eu sabia que era importante para você termos o nosso tempo juntos e mesmo assim eu te deixei no escuro.
Lupus abaixou o olhar, sentindo um leve aperto no estômago. Sieghart parecia arrependido de verdade, mas o que o intrigava mesmo era que ele não sentia mais raiva apenas preocupação. Por que Sieghart estava tão distante? Ele sabia que Dio ao menos gostava do moreno, mas se então os dois estavam juntos, porque não admitir logo? Ele não era seu amigo? Ele não era alguém que merecia sua confiança?
Sieghart olhou para Dio, quem apenas o encorajou com um aceno de cabeça. Era estranho ver os dois agindo tão amigáveis.
— Então... Uhm... Primeiro, aquela garota que eu estou acompanhando... Ela é minha noiva.
O casal notou como os olhos de Lupus arregalaram ao ouvir a notícia.
Sieghart fez uma cara de quem tinha pisado feio na bola e ia levar um esporro, mas Lupus ainda se segurou, gesticulando para continuar.
— Você já deve saber, mas o nome dela é Mari. Ela é uma nobre na linha de sucessão de Liechtenstein.
Lupus abriu um pouco a boca, surpreso. Já devia saber que os Sieghart eram assim influentes, mas às vezes ele se esquecia dessas coisas... De como aquela família era assustadora.
— Eu sei... É uma loucura. Aliás, você deve ter suspeitado. Você sempre foi atencioso assim, mas eu nunca disse em alto e bom som, então é isso que vou fazer agora.
Sieghart suspirou demoradamente, se dando um tempo para continuar. O mais velho esperou paciente.
— Desde que eu consigo me lembrar, meu pai vem me pressionando para ser o sucessor da família, exigindo meu sucesso, mas principalmente que eu me case com alguém de influência. Eu me sentia tão mal pelo meu último relacionamento, que você sabe muito bem como foi, e também pela aproximação da maioridade que eu descontei minhas frustrações saindo com vocês e fazendo idiotices. E eu sei que tudo era apenas para ignorar meus problemas e me sinto um pouco ridículo por isso agora.
— Bem... Você tem razão, Sieghart. Isso eu sabia, meio que sem você dizer. Casamento arranjado é uma das coisas em comum entre a maioria dos estudantes desse colégio, considerando as famílias que pertencemos. — Lupus disse, confirmando a suspeita do moreno.
— Isso não justifica como agi com vocês. — o moreno o cortou. — E deixando claro, eu não quero me casar. Não com ela. Também não é uma coisa que eu quero pensar agora. De qualquer forma, era isso que precisava dizer.
— Hm, eu entendo. É claro que eu te desculpo, Sieg. Você só precisava me dizer essas coisas, sabe. — ele suspirou, não conseguindo mais resistir à face corada do rapaz, que estava quase ajoelhando ali.
Sieghart olhou mais uma vez para Dio e franziu o cenho. O Wilde notou como os nós dos dedos do moreno ficaram brancos apertando os joelhos.
— E também... — Sieghart engoliu em seco. Os olhos prata atingindo o chão, hesitante.
Lupus fitou Dio, quem não apresentava mudança na postura, mas certamente algo em seu olhar indicava algo de... insegurança, talvez?
— Sobre esse cara... — Sieghart apontou para o italiano.
Lupus franziu o cenho também, sabendo o que vinha à frente. Afinal, a briga tinha sido majoritariamente por causa do italiano.
—... A gente... — Sieghart tapou o rosto, tentando inutilmente esconder o vermelho fofo que o cobria inteiro. — Isso é tão difícil.
Lupus descruzou os braços e se levantou. Ele não estava exatamente contente em ver seu melhor amigo sendo levado assim, não por um folgado igual o Fiammeggianti. Uma parte sua era contraditória e gritava para não saber da verdade.
— Acho que eu consigo deduzir pelo jeito que você tem agido. Não precisa se forçar a-,
— Lupus! Só... Só me deixa falar! Eu preciso. — Sieghart tirou a mão da face e se levantou também.
O moreno inspirou uma última vez e segurou a mão de Dio, o forçando de pé ao seu lado, tirando uma expressão desgostosa do veterano.
— Nós estamos ficando! — Sieghart admitiu num sopro, olhando em seus olhos. — Tipo... ficando como num romance. Acho que eu sou bissexual!
A face do moreno era algo que ele nunca achou que veria em toda sua vida. O tão brincalhão e despreocupado Ercnard Sieghart. Sieghart nunca tinha mostrado tanta fragilidade antes... Parecia ter renascido como alguém completamente novo nesse instante. Havia firmeza em seu olhar, apesar de sua voz estar toda quebrada.
— Não fala “romance”. É estranho ouvir isso da sua boca. — Lupus suspirou. — Você pensou que eu ia ligar para o que você gosta de comer ou algo assim?
Os ombros estressados do moreno se levantaram sem que ele notasse. A sensação borbulhante em seu rosto o fez quase fechar os olhos e se enfiar embaixo da cama. Sua mão na de Dio quase estourou alguns ossos de tão forte. Ele realmente tinha um apelo de fofura naquele momento.
— C-Cala a boca, Lupus! Por que você tem que falar desse jeito?!
Lupus ainda soltou um risinho sarcástico e se atreveu a bagunçar o cabelo do moreno. Esse sentimento de que Sieghart iria se afastar dele o deixava inseguro, mas boa parte sua estava feliz em saber que o amigo tinha alguém importante em sua vida agora e estava finalmente seguindo em frente. Ele não poderia fazer nada a respeito já que o Presidente estava tão decidido.
— Além disso, é natural se preocupar com algo assim. É uma coisa que acaba pondo os relacionamentos à prova. — Sieghart explicou. — Eu devia ter confiado mais em você, Lupus. Me desculpe, de verdade.
— Mano, tudo bem. São águas passadas.
— Fala alguma coisa também, você. — Sieghart cotovelou o companheiro.
Dio resmungou e fitou o veterano. Ambos trocaram um olhar intenso, parecendo se comunicar mentalmente.
Lupus sabia que o rapaz, apesar dos maus hábitos e de aparentar no começo estar só se divertindo com Sieg, estava mais sério agora. E Dio sabia que Lupus tinha uma atração estranha por Sieghart, mas sabia que 97% daquilo significava uma forte amizade. Os restos por cento o deixavam extremamente puto.
— Ei, por que estão se encarando? Já vão brigar? — Sieghart arqueou uma sobrancelha, empurrando o ombro do italiano.
— Eu sou seu amigo, Sieghart. Vou te apoiar nas suas decisões, é claro, mas não significa que eu precise gostar disso. — as palavras saíram cuspidas, diretamente para o italiano, mas este apenas sorriu como se tivesse aceitado o desafio.
— Vai ter que me aguentar mesmo assim, Wilde. Ercnard e eu estamos juntos. Você vai ter que doar bastante do seu tempo para mim também. — Dio sorriu, obviamente gostando de provocar o de cabelos tingidos.
Lupus sentiu uma veia em sua têmpora saltando. Mal tinha começado e ele já odiava isso!
— Eu te odeio. — declarou.
A atenção de Sieghart foi atraída para seu smartphone, que vibrava insistentemente. Não eram muitas pessoas que ligavam para ele e, de qualquer forma, tinha dito tudo o que precisava para Lupus.
— Alô?
O moreno travou, ouvindo a voz do outro lado.
— J-Jin? Eu queria mesmo falar com você. Será que podemos nos encon-,
— Guarda o que tem para falar para outra hora. A Elesis está com problemas! Você precisa ir agora para o pátio!
— Huh? O que aconteceu com a Elesis? Jin? — o ruivo não respondia. — Caralho, Jin! O que aconteceu?!
— Venha para cá AGORA.
XXX
Quase cinco de minutos antes de ligar para Sieghart, o ruivo tinha corrido para o pátio junto com Ronan para ver a confusão. Quando Amy tinha ligado desesperada sobre como Elesis estava “perdendo a cabeça”, o ruivo não teve outra reação a não ser abandonar o dojô do jeito que estava e ainda de uniforme.
E ao chegar lá, os olhos dos estudantes estavam tão concentrados na cena que era quase impossível passar por eles. Se não fosse por Ronan abrindo espaço com sua voz “séria”, Jin não teria conseguido atingir o centro da comoção e encarado a amiga.
— Ele-, — Jin levantou a voz para chamar a garota, porém, se interrompeu ao ver a expressão da ruiva.
Dizer que seus olhos incendiavam a oponente era pouco. Aqueles olhos vermelhos cuspiam ódio flamejante, corroendo diretamente todos que se atreviam a olhar. Na direção oposta estava Mari, a garota nova. Ela não parecia alterada, mas nenhum pouco mesmo. Sua face era rígida como a de uma boneca.
Entre elas e a multidão parecia haver um espaço imaginário de agressividade. Jin também não chegou mais perto que isso, preferindo procurar por Lire Eryuell, quem tinha praticamente assumido a responsabilidade pela ruiva.
“Realmente, por um curto tempo até me convenci de que a Elesis não esmagava as pessoas pelo Sieghart.” Jin suspirou mentalmente, se forçando a encontrar a loira no meio de tanta gente.
Lire não estava lá, o que era estranho. Mas mais estranho ainda era como Elesis mantinha distância, sendo que geralmente ela já estaria na garganta da azulada.
Notando isso também, o Erudon tocou seu ombro, lhe dando um ar preocupado. O mais velho como Vice-Presidente do Conselho Estudantil poderia tentar parar seja lá o que fosse que estava acontecendo e ele mostrava sua convicção no aperto.
— Avise o Presidente, Jin. — o azulado disse e deu um passo à frente.
— Ron...
— Imediatamente. — Ronan ainda avisou, com um sorriso encorajador.
Foi nesse momento que Jin se afastou, pegando seu smartphone e ouvindo novamente a voz de Sieghart. Enquanto isso Ronan pisava no meio da situação.
— O que está acontecendo aqui? — Ronan indagou o mais suavemente possível, olhando para Elesis primeiro.
A ruiva pareceu ignorar sua presença, com os olhos fixos na azulada, como um animal raivoso. Ronan não desistiu.
— Elesis?
A ruiva inspirou com raiva, olhando-o como se ele fosse um empecilho e voltou para a azulada. Esta fitou Ronan por uns instantes e abriu a boca minimamente, a voz elegante e a entonação lógica.
— Vice-Presidente. Tivemos uma conversa particular, porém, a senhorita Sieghart parece ter se ofendido com as minhas palavras.
Elesis girou os olhos e pôs as mãos na cintura, o franzido em sua testa tão forte que parecia atravessá-la. O movimento dos lábios de Elesis claramente dizendo “vadia”.
— Então você não vai repetir o que disse para mim? Quero ver você repetir. — Elesis se aproximou um passo, mas para seu desgosto Ronan interceptou-a mesmo a distância sendo razoável entre elas.
Mari apenas a encarou, sem dar nada. Ronan jurou ver um sorrisinho por um ínfimo segundo no olhar da garota de olhos bicolor.
— Não vai, já que eu ameacei quebrar seus óculos dentro da sua boca se você repetir. — Elesis rosnou, cruzando os braços, putíssima.
Ronan encolheu os ombros rapidamente, sentindo a dor, mas não deixou sua reação transparecer. Ele precisava segurar Elesis ali até alguém mais útil aparecer. Ninguém na Academia Real tinha capacidade de pará-la quando ela se descontrolava.
“Pelo menos ela não está fora de si”.
O azulado viu Jin pelo canto de olho com uma expressão irritada, mas logo ele terminou a ligação e encontrou seu olhar. Ele acenou com a cabeça e veio se aproximando.
Nisso, Elesis estava quase em cima de Ronan.
— Essa vadia é uma descarada manipuladora, Ronan. — Elesis rosnou em seu rosto. Algo tinha acontecido ali quando ele desviou os olhos.
Mari ainda deu de ombros.
— Que exagero. Preciso lembrá-la que foi a senhorita que se aproximou de mim com seus questionamentos? Obviamente, como qualquer pessoa, posso dar respostas que não vão agradar, contudo, sou contra qualquer tipo de violência.
— É melhor você parar com esse “senhorita”. — Elesis andou mais um passo e foi quando Ronan tocou seu braço. — Falsa do caralho e pior: hipócrita.
A ruiva virou ferozmente para ele, arrancando seu bíceps do alcanço do rapaz. Não era porque o Erudon era seu amigo que ele podia tocá-la. Ele ainda era um dos homens que ela tanto desgostava na vida. O aviso “não encosta de novo ou vou te morder até a morte” estava claro.
Ronan sentiu seu estômago revirando. O olhar de desprezo da ruiva atingindo-o até o fundo. Ela sabia o quanto esse modo de agir o afetava. Eles se conheciam a vida inteira. Ninguém tinha muita noção disso porque eles tinham colocado uma barreira entre si depois de entrar no colégio, porém, ela sempre foi como a Julieta do seu Romeu. Na verdade seriam mais como Catarina e Petrúquio, só que sem um final onde ela finalmente cede. Aquele não era o final de sua história. Sua história imatura de amor foi um final amargo de rejeição da qual ele ainda não tinha se reerguido tão bem.
Jin finalmente se interpôs, tocando o antebraço do azulado e atraindo a atenção da ruiva, que rangeu os dentes. O ex-monge estava acostumado com isso. Quantas vezes tinha sido praticamente espancado?
— Escuta, Elesis, o Sieghart está vindo aqui.
Os olhos dela arregalaram.
Inocente da parte dele pensar que isso a acalmaria.
— POR QUÊ?! — ela o segurou pelo kimono, puxando-o para si. O punho da boxeadora apertando tão forte que Jin já sentia sua autodefesa ativando. — Ele não precisava saber disso, Jin!
— Elesis! Você quer ser expulsa? — Ronan pediu, os olhos tristes. Não tinha presenciado tantos surtos dela e agora definitivamente aqueles olhos vermelhos estavam perdidos.
— Eu não ligo para essa merda de colégio! Eu só quero dar uma lição nessa vagabunda! Você por acaso tem uma puta ideia de quem ela é?! — Elesis quase cuspia.
— Não, mas não importa. Não é certo o que você está fazendo-,
— O que EU estou fazendo?! Você estava aqui antes?!! — Elesis jogou o rapaz para trás. — Ela não vai dizer em voz alta, mas eu vou!
Elesis largou o ruivo e virou para a azulada. Mari franziu levemente o cenho e cruzou os braços, mas não arredou. Ronan e Jin olhavam de uma à outra. Todos os corações no local acelerados.
— Essa filha da puta disse que ela já tem os papéis prontos. Que o Sieg está “vendido”! COMO SE ELE FOSSE UM ANIMAL! — Elesis gritou com todos seus músculos, os olhos encharcando.
O silêncio no local alastrou totalmente, ninguém querendo perder nada. Não era certo revelar isso para pessoas que obviamente só estavam esperando um deslize do presidente para poder difamar o nome da Família Sieghart. Elesis balançou a cabeça e agarrou o próprio braço em frente ao corpo, envergonhada e indignada com tudo, com ela mesma, com a merda de família que eles tinham, mas mais com a puta que estava ali para se gabar do poder que tinha sobre qualquer ser humano. Poder sobre a vida do Sieghart.
Ronan soltou um largo suspiro. Ele viu que Jin tinha começado a lacrimejar também, os lábios franzindo, mas mantendo a postura firme.
Não havia hora melhor para Sieghart aparecer, seguido do Wilde e do Fiammeggianti.
— Elesis! — o moreno exclamou, passando pelo caminho que os alunos abriram ao vê-lo.
Era claro em seu rosto que ele estava preocupado. Ele rapidamente foi para o lado da ruiva e fitou a azulada no lado oposto. Foi instantânea sua expressão de entendimento.
Ronan tocou levemente o ombro de Jin quando este tensionou o corpo ao ver o presidente. A insegurança do ruivo com (apenas) Sieghart era irritante, mas pelo menos isso provava o quanto o Kaien se importava com a amizade de ambos.
— Você está bem? — Sieghart indagou intimamente para a ruiva, ignorando os olhares, tocando seu rosto. Ele não perguntou das lágrimas, pois sabia que só a constrangeria mais.
Ela balançou a cabeça em um “não” e tocou o ombro do primo, murmurando só para ele.
— Desculpa, Sieg... Não é só por sua causa que isso está acontecendo... Eu não queria te causar problemas, então eu vim sozinha de novo... Merda, eu só faço merda! Me desculpa. — ela balbuciava, tentando limpar as lágrimas que não paravam de escorrer.
— Ei, ei. — Sieghart adoçou sua voz, com uma dor profunda no peito. Ver Elesis assim, em público? Ele nunca imaginou que isso aconteceria e também nunca tinha notado a dimensão dos problemas da prima. Ele acariciou a franja desnivelada com cuidado e reafirmou sua presença com um aperto gentil no ombro. — Elis, meu amor, olha pra mim. Está tudo bem. Eu já entendi. Não precisa se preocupar com nada disso okay? Eu vou resolver tudo.
Elesis assentiu levemente, parecendo uma criança. Ela fungou e segurou a mão do moreno.
— Eu sei que eu pareço uma idiota fazendo essa cena, mas... — Elesis mordeu o lábio. Precisava contar o real motivo de estar querendo quebrar a cara da liechtensteiniense.
Sieghart olhou por um segundo sobre o ombro, vendo a princesa mostrar um olhar agressivo. Ela tinha de fato muito poder, mas o rapaz tinha acumulado coragem dia após dia para enfrentar sua família, recebendo o suporte de seus amigos. Elesis, Lupus e Jin nunca o deixariam na mão, ele sabia disso.
— Você pode me contar qualquer coisa, Elis. — Sieghart novamente fitou a prima, vendo a insegurança naqueles olhos fragilizados. — Você é a única que sempre se preocupou comigo.
Elesis apertou ainda mais seus olhos e abraçou o moreno. Foda-se aquelas pessoas e o que elas estavam achando disso tudo. Os murmúrios voltando com força total.
A ruiva murmurou em seu ouvido, não deixando que ninguém visse seu rosto. ela não queria ninguém lendo seus lábios também.
— Lire... Ela provocou a Lire, Sieghart. Ela puxou o histórico dela do colégio na França e descobriu que tinham uns boatos sobre ela estar se relacionando com outras meninas. Para evitar maiores escândalos, os pais dela a enviaram para cá... E nós...
Elesis sentiu as lágrimas ainda mais. Ela não se sentia mais a mesma, a insanamente forte Elesis Sieghart. Debulhando na frente de uma multidão agarrada ao primo.
O rosto da menina estava tão inchado que Sieghart quase riu, mas carinhosamente. Ele sorriu compreensivo.
— Sabe, eu esqueci de te falar, Elis... — ele apertou a bochecha dela, trazendo um pouco mais de descontração entre os dois. — Eu te achei muito fofa de trança.
Elesis arregalou os olhos, o rosto ficando absurdamente vermelho. Ela não conseguindo evitar um sorrisinho.
— E cadê a Lire agora?
— *sniff*... Ela fugiu para o quarto chorando com a Amy.
— Entendi. Você não quer ir fazer companhia para ela? Acho que ela gostaria de estar com você nesse momento.
A ruiva assentiu rapidamente, limpou os olhos e deu uma última encarada na inimiga. Ela não ia se safar tão fácil dessa, mas Elesis precisava ir.
Pela primeira vez, Elesis e Sieghart se olharam e sentiram que tinham total confiança um no outro. A ruiva inspirou, sentindo que, pelo menos um pouco, tinha se libertado da dependência que tinha dele e que ele havia adquirido a autoconfiança necessária para se virar sozinho.
— Ridículo. — Mari retrucou para si mesma. Todo aquele drama para quê?
Ronan e Jin permaneceram ali, mais aliviados pelo problema estar parcialmente resolvido.
Lupus e Dio tinham ficado de longe assistindo também, claramente incomodados, mas sem poder fazer nada.
O moreno por fim se encaminhou para a azulada, o rosto inexpressivo.
— Você não fica satisfeita de estragar a vida de uma pessoa só, princesa? É tão bom assim incomodar os outros quando se vive no tédio?
Mari franziu a testa levemente e arrumou os óculos.
— Ora. Eu não acho que estou estragando a vida de ninguém, pelo contrário, estou salvando vidas. — ela disse, a voz monotônica.
— E de que jeito está fazendo isso? Não consigo enxergar.
Ela cruzou os braços e sorriu levemente.
— Você é exatamente como eu, Ercnard Sieghart. — ela pronunciou com ênfase no sobrenome. — Influente. Poderoso. Belo. Você tem um legado para viver, um nome para proteger. E ainda assim, não fica satisfeito com isso. Tudo é seu, mas é como se você não pudesse tocar.
Sieghart franziu a testa. Como ela tinha coragem de falar um absurdo desses? Eles? Parecidos?
Foi como se uma luz tivesse acendido naqueles olhos frios.
— Quando eu te vi pela primeira vez eu soube... — ela sorriu um sorriso estranho, nunca antes visto por ninguém. —... Você tinha o mesmo olhar que eu. Vazio. Necessitado e aprisionado.
As bochechas da menina avermelharam-se, as pupilas aumentando, a expressão vertendo em ar lunático. Sieghart sentiu arrepios.
— Eu simplesmente soube. Era você. Quando você encontra sua alma gêmea, é como se o tempo parasse... Você vê o quanto ela é quebrada igual a você. E você ama.
Sieghart trincou os dentes, sentindo seu estômago doendo. No passado, ele foi a pessoa que tinha dito essas coisas. Ele aprendeu do jeito mais difícil que estava errado. O tempo ensinou para ele. Rejeição e dor ensinaram para ele que as coisas não funcionavam assim.
— Você está errada, Mari. Você apenas está me colocando num pedestal. Nós até podemos ter várias coisas em comum, mas isso não faz de mim sua alma gêmea. No momento eu sou como um ídolo para você. Você quer se conectar a qualquer coisa, mas nada te atrai tão facilmente, então qualquer cisco de semelhança que existir, você vai tentar agarrar, mesmo sendo minúsculo.
Ela cerrou os lábios, não apreciando a resposta do rapaz. E assim que ela começou a falar, ele levantou a mão, interrompendo-a.
— Eu planejava fazer isso logo, num lugar com mais privacidade, mas já que estamos aqui...
— O que quer dizer? — ela fechou os punhos, perdendo a compostura na voz.
— Eu estou feliz por estar aqui, sinceramente. Fico lisonjeado por você gostar de mim. Apesar de a minha família ser muito influente, não acho que seria um parceiro adequado por vários motivos.
— Eu devo deixar claro que amor não é necessário entre nós, Sieghart. Se há uma pessoa que compartilha dos mesmos problemas e tem o título necessário, isso já é uma benção no meio em que vivemos. É tudo o que poderíamos pedir. Amor não é um privilégio para nós. — ela insistiu, tocando-o no ombro. — Ter atração um pelo outro, isso é suficiente.
Sieghart a fitou friamente. O soco de rejeição óbvio. Ela piscou algumas vezes, descendo o olhar pelo pescoço do rapaz percebendo o que se passava.
Ela arregalou os olhos e seu sorriso se tornou amargo.
— Oh... Eu vejo.
Sieghart se separou dela, as pessoas cochichando. À distância Karina Erudon se aproximando com a secretária, Cléo.
— Você sucumbiu aos seus desejos egoístas. — ela proferiu com certo asco, a mudança súbita. — Patético.
O moreno segurou o ar, lembrando-se de ouvir o xingamento em outras ocasiões, o som de diversas vozes assombrando-o. Ele já estava começando a afundar em si próprio quando sentiu uma pressão forte e um calor aconchegante na base de seu pescoço.
— Hora de terminar essa discussão. — Dio disse, indo para o lado do moreno. — A diretora está vindo.
Mari o encarou, parecendo exalar ódio na direção do italiano. Seu lábio tremeu. A mão do intrometido em cima das marcas no pescoço do Sieghart.
— É você quem está sujando ele.
Dio não reagiu à menina, mas Sieghart obviamente estremeceu com a acusação.
— Escória. — Mari disse num escarro e se afastou ainda mais logo que a diretora chegou no grupo.
Ronan, Jin e Lupus estavam logo atrás, assistindo e esperando que nada pior acontecesse.
Vendo que o moreno conseguia respirar melhor, Dio o soltou, mas deu um passo para mais perto, mostrando que o protegeria.
Sieghart sentiu-se constrangido, mas pelo menos ele não estava sozinho. Além disso, tinha a Erudon, quem vestia sua máscara de seriedade, mas em seus olhos tinha somente farpas. Ela realmente não estava feliz de estar ali.
— O que está acontecendo aqui? — ela pronunciou em alto e bom som, autoritária.
— A culpa foi minha, diretora. Um assunto de família que acabou gerando maus entendidos. — Mari disse com descaso, gesticulando de forma despreocupada.
Karina a fitou como se fosse matá-la a qualquer segundo.
— Nesse colégio, não toleramos qualquer tipo de comoção. Não condiz com o nosso perfil e não admitimos esse comportamento de qualquer um dos nossos alunos. — ela falava com o tom militar. Karina já sabia de tudo o que tinha acontecido e quem era Mari. Sua desaprovação para com a azulada era palpável.
— Perdão, diretora. Nos deixamos levar e causamos problemas para todos. — Sieghart se posicionou, sabendo que como uma figura importante no colégio, ele seria o responsabilizado por tudo.
— Para a minha sala, Sieghart. Srta. Onette tem uma visita a esperando.
A dispersão dos alunos não demorou mais. Sieghart seguiu seu caminho, dando um último olhar para seu... Dio não era ainda, mas o sentimento era como se já fosse.
O italiano assentiu com a cabeça e ficou assistindo suas costas se afastarem, perto dos companheiros de quarto e do vice-presidente. Sentimentos à flor da pele remanescentes e silêncio vergonhoso.
Continua
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