Identity Crisis
20 C19. Harassing
Notas iniciais
— Você não vai voltar para o dormitório então? — perguntou Sieghart confuso.
Há pouco ele havia dito que levaria Lupus de volta para a academia, mas o amigo pediu para que o deixasse em casa.
— Se puder me levar para casa eu agradeço. Esqueci algumas coisas importantes lá e vai demorar para eu voltar, você sabe. — Lupus explicou, sorrindo da forma usual — enigmático.
Sieghart apenas deu de ombros e dirigiu o amigo para a Mansão Wilde.
Mais cedo, Lupus estivera observando o movimento das pessoas em geral, com foco especial nos familiares de Sieghart e principalmente o moreno, que parecia demasiado inquieto com algo. Se havia algo que conseguia deixar o veterano alerta era quando Ercnard Sieghart começava a agir diferente. Lupus não gostava de pensar que era obsessão sua, mas sentia que a proteção do moreno era sua obrigação. Logo, quando não conseguia fazer seu papel, ele ficava profundamente decepcionado consigo mesmo.
— Sieghart, parece que Elesis tinha algo muito importante para te dizer naquela hora. Ela conseguiu te dizer? — Lupus indagou, fitando-o com o canto do olho e fingindo desinteresse. Ele viu o moreno encolher um pouco os ombros e fazer uma cara de desgosto.
— Sim.
Silêncio.
Lupus olhou para frente, permanecendo calado. Odiava isso, mas não podia ultrapassar aquela barreira que Sieghart sempre erguia quando não queria comentar muito mais que o necessário. Não havia remédio e ele ficava muito, muito frustrado dessa forma.
Só que em poucos minutos ambos rapazes já conseguiam ver a grande casa dos Wilde, localizada numa larga e longa avenida no centro da cidade, o que gerou uma conversa retórica de “Oh, estamos chegando”, “Sim, é verdade”.
Lupus pensou um pouco e abriu a boca, ainda esperançoso.
— Sieg, você não quer entrar e tomar um café? Guardei uns grãos especiais para nós tomarmos enquanto fumamos. — Lupus ofereceu, pedindo que o moreno pudesse ler seus pensamentos pelo olhar pelo menos por um instante.
E sim, Sieghart percebeu que havia alguma coisa camuflada por trás do pedido e, sim, ele adoraria matar o tempo com seu veterano, mas não podia, porque ele precisava pensar numa solução para fugir de um noivado.
— Sinto muito mesmo, Lupus. Você não sabe como eu ia adorar passar um tempo a mais com você. Só que eu... Eu tenho uns negócios para resolver na mansão. — disse ele, sorrindo de forma fraca. — Guarde esses grãos para mim. Vou precisar deles um dia desses, certo?
O mais velho pode apenas assentir com a cabeça e segurar a mão de Sieghart num cumprimento de irmãos. Lupus sorriu complacente e deu duas batidinhas no ombro do moreno antes de sair do carro, acenando e desejando uma boa noite.
O volvo preto arrancou virando a esquina no café que os dois sempre iam quando passavam o final de semana juntos e deixou o herdeiro dos Wilde plantado em frente à casa com um ar preocupado.
Suspirando, Lupus deu meia volta e permitiu-se entrar em seu lar destruído.
Ninguém veio atendê-lo porque era sábado na hora do crepúsculo e nesse momento não havia nenhum serviçal em casa, exceto por um mordomo surdo que tomava conta de Lass até que ele ou Regis retornassem. Mas nem por isso a casa estava completamente silenciosa. Havia vozes vindas da sala, histéricas e risonhas, que revelaram a presença indesejada de um espécime fêmea.
Lupus franziu o cenho, sentindo sua anterior frustração se tornar uma espécie de irritação. Ele foi largando o casaco no cabideiro e caminhando direto pelo corredor.
Prestes a virar na porta, algo bateu de frente consigo.
— Opa!
Uma garotinha de cabelos longos claros levantou a face para encará-lo, mostrando os olhos verdes e se afastando com delicadeza. Era essa então a espécime fêmea.
— M-Me desculpe! — ela proferiu, fechando os olhos e inclinando o corpo um pouquinho.
Antes de poder falar qualquer coisa, Lass surgiu atrás da menina, perguntando se ela estava bem, mas logo o menino ficou mudo ao ver que quem estava ali era o irmão mais velho.
Lupus não esboçou nenhuma expressão – apesar de que ele ficava ainda mais assustador quando não demonstrava nada. Ele olhou de Lass para a menina.
— Sem problema, criança. Você é amiga do meu irmão?
Ela assentiu ainda com aparente medo e olhou para Lass antes de falar.
— Meu nome é Rena. Lass me convidou para brincar à tarde até escurecer. Meus pais estão vindo me buscar já.
Lupus deu espaço e estendeu o braço, mostrando que a acompanharia até a porta. Por sua vez, Lass continuou estático até que Rena se virasse.
— Lass?
Ele sorriu levemente e os seguiu, obrigando-se a se mexer.
Depois de algumas conversas aleatórias e quando finalmente a garota foi embora, Lupus fechou a porta e tornou-se para o albino.
Lass travou, baixando o olhar.
— Então. Parece que agora você traz amiguinhos para brincar.
Lupus inspirou ar profundamente, pensando no que faria para acalmar seu estado de espírito.
— Eu pensei que você voltaria para o colégio hoje. Eu ia ligar para a Miriam me levar também logo que a Rena fosse embora.
Lupus seguiu seu caminho, começando a subir as escadas. Vendo que Lass continuava parado, o chamou:
— Vem logo, pirralho.
Ambos se dirigiram ao segundo andar em direção ao quarto do mais velho e ao entrar Lupus fechou a porta girando o trinco.
Lass segurava a barra da camisa, nervoso, mas se atrevia agora a olhar o espaço que ele não via há anos.
— Finalmente paz. — Lupus suspirou baixo, acomodando-se numa poltrona negra num canto ao lado da rica janela, que possuía por volta de dois metros.
O quarto de Lupus era muito maior que os outros quartos. Só não era tão grande quanto o escritório do pai porque este cobria um andar inteiro quase. É que antes dormiam juntos naquele quarto o primogênito, Lemius, e o mais novo, Lupus.
Aquele cômodo havia sido o palco da morte de Olívia Wilde, bem naquela viga que trespassava o quarto inteiro. Ela se pendurou ali com a gravata favorita de Regis e chutou a poltrona em que o moreno se sentava.
Lupus indicou com o dedo indicador para que ele se aproximasse.
— Vem. — ordenou ele.
Calafrios percorreram a espinha do menino de catorze anos e ele se aproximou, a passos de tartaruga.
Lupus fitou-o bem nos olhos e Lass pode ver que ele estava não só irritado, mas estava consciente de tudo e que dessa vez faria planos concretos e calculados em razão de sua vingança.
Lupus tocou a têmpora, estudando o meio-irmão. O ser pequeno e frágil estava de camisa azul e pulôver bege, bermuda marrom, suspensório e meias brancas ¾ (três quartos). Ele era a típica criança inglesa, só que seu rosto dizia o contrário. Os olhos azuis gélidos, o cabelo até os ombros muito lisos e grossos, sardas e a palidez absurda. Tudo mostrava que ele não era sangue do seu sangue, embora sua beleza fosse comparável.
— Nós ainda não discutimos o que vamos falar ao pai. — Lupus disse, sua voz saindo surpreendentemente tranquila.
O menino também ficou um pouco aliviado e não precisou pensar muito para saber qual a resposta que deveria dar.
— Vou dizer que eu estive fazendo isso para chamar a atenção. Vou dizer que estava me cortando e que tentei me estrangular.
— E os hematomas?
— Vou dizer que me jogava das escadas de propósito para pensarem que alguém estava me batendo.
Lass mexeu nos óculos e Lupus refletiu um pouco na questão.
— Acho que podemos convencer ele disso. — Lupus disse consigo mesmo. Ele olhou para o irmão e a lembrança da garota lhe veio à mente. — Voltando ao assunto de antes, você sabe que me desobedeceu quando trouxe essa garota aqui, não é?
Lass levantou o olhar, espantando.
— Mas ela não veio dormir aqui-,
— Calado, merdinha. — Lupus interrompeu-o grosseiramente, esticando o pé e empurrando-o com os sapatos negros. Lass deu uns passinhos e caiu para trás com um som nulo. Lupus riu sem vontade realmente de rir. — Você acha que é homem suficiente para trazer garotas para casa? Eu já disse inúmeras vezes que você nunca vai ter filhos, seu bastardo. Eu não vou deixar essa sua linhagem podre continuar.
Lass se levantou, tremendo contra sua vontade e abriu a boca para reclamar.
— Eu não estava pensando nisso! Rena é minha amiga!
Uma sombra pousou no rosto do mais velho, que bateu o punho no braço da poltrona com força exagerada, fazendo o menor sobressaltar.
— Quem você pensa que é para falar assim comigo?! — Lupus exclamou, puxando o menino pela gola e quase colando suas testas. De seus olhos vinho pareciam saltar veias, vermelhas e finas de sangue. — Está mais do que claro que você só queria esfregar a cara nos peitinhos da garota.
Dito isso, Lupus agarrou o cabelo de Lass e o puxou para o lado.
— Vai, me diz que não. — inquiriu rudemente.
Lass fechou os olhos, sentindo sua cabeça doendo onde Lupus puxava, mas ele respondeu.
— Não, ela é só uma amiga. — Lass negou fracamente, mas não deixaria ninguém falar coisas inapropriadas de seus amigos, nem mesmo Lupus.
O albino só viu um relance do teto antes de sentir suas costas baterem no almofadado da poltrona e então se viu no lugar de Lupus e este de pé. A larga mão do moreno pressionava sua face. Pelas frestas dos dedos ele viu a expressão alterada, as veias no meio da testa e os lábios crespados, no entanto, os olhos fixos.
— É mesmo? — Lupus indagou, sua voz expelindo maldade. — É isso então. Você prefere dessa maneira!
Lass encolheu-se. Segurava a mão do mais velho com força, se lembrando da promessa que havia feito à Miriam, que ele nunca mais ia deixar Lupus fazer o que quisesse sem reagir.
Lupus com a mão livre segurou a barra das vestes superiores do menino.
— Você não está interessado em meninas, não é?! — disse enquanto forçava a roupa para fora do corpo pequeno de Lass.
— P-Pára! — Lass gritou, desesperado.
Logo que Lupus começou a arrancar suas roupas Lass não conseguiu mais se conter. Ele se rebateu e esperneou, fazendo com que Lupus realmente usasse a força para mantê-lo no lugar. Sem compreender tal terror, tremendo como jamais antes, Lass não pôde impedir suas lágrimas enquanto o mais velho o sufocava tapando sua boca e puxando sua bermuda com dificuldade, porque ele batia os pés.
— Fica-quieto! — o maior mandou, sentindo dificuldade em chegar ao seu propósito e dando um chacoalho forte no menor.
Lass tinha sem perceber virado de costas e estava deitado de lado na poltrona com Lupus acima de si, travando com a coxa suas pernas. E estava seminu, apenas com a cueca e as meias. Os óculos tinham caído para o chão na briga.
Vitorioso, Lupus segurava a cabeça do meio-irmão contra o almofadado e o olhava com desprezo.
— Olha só para você... — disse Lupus, passando a mão no cabelo e o jogando pra trás, visto o esforço que tinha feito. — ... Não passa de uma garotinha.
Lupus soltou-lhe o cabelo, mas não se afastou, pelo contrário, se aproximou do ouvido do menino choroso, cobrindo-lhe todo o corpo com o seu.
— Você não vale nada. Seu lixo imprestável. Por que você não morre? — Lupus murmurou, sem alterações na voz. Foi simples e claro, até mesmo indiferente. — Poderia ter apenas te ignorado, mas você está me irritando ultimamente. Estou pensando que vamos começar a voltar aos velhos tempos, Lassy.
O albino arregalou os olhos e seu corpo tremeu. Lupus o assistiu ficar paralisado por uns segundos e depois passou a observá-lo melhor.
Lass tinha realmente o corpo de um pré-adolescente. Ele não tinha nada de altura e sua estrutura óssea era tão fraca que Lupus poderia esmagar um de seus braços sem dificuldade. Além de parecer frágil, a pele albina deixava as veias visíveis e Lupus podia ver o sangue se acumulando em certas partes do corpo. O peito era chato, mas não ossudo. As mãos e os pés eram pequenos, macios e delicados. As pernas eram pequenas e lisas, livres de pelos, características próprias de sua idade. Os olhos eram grandes e estavam molhados, mas havia um insistente brilho que mostrava que ele não era exatamente um covarde.
— Ou... Você pode corrigir seu erro de uma forma mais adequada.
Lass o fitou, suas pupilas crescendo ainda mais junto com o medo.
Continua
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