Identity Crisis
19 C18. Breaking
Notas iniciais
A mulher que conversava com Lupus se virou assim que ele levantou a mão para cumprimentar Sieghart.
Se Sieghart não tivesse há mais de meses tentado superar isso, ele teria estacado ao ver a face da desconhecida. Contudo, ele caminhou até estar entre os dois e esboçou um sorriso simpático. Lupus foi o único a identificar o constrangimento em seu rosto.
— Olá, me desculpe interromper a conversa de vocês.
— Sem problemas. — ela inclinou a cabeça. Seu tom indicou que se tratava de uma pessoa segura e sua postura que era uma mulher no corpo de uma jovem. Ela tinha cabelos brancos longos ondulados e os olhos eram azuis e decididos. Nela Sieghart encontrava uma semelhança absurda com sua ex-namorada, Lin, mas também diferenças exorbitantes. O que as diferenciava era que essa garota tinha uma aura bastante incompatível consigo, diferente de Lin, que era mais empática. Essa à sua frente era inteligentíssima e séria demais para ele. Pode-se até dizer... perigosa.
— Me chamo Ercnard Sieghart-,
— Eu sei quem você é. — ela o cortou, arrumando as mangas da camisa e colocando a mão fechada sobre o peito. — Meu nome é Edel Frost. Sou a Guarda chefe de Frosland.
Diferente das outras moças no local, ela usava uma espécie de farda azul marinho e calça branca, além de botas longas de salto. O traje militar não lhe tirava a elegância, deixando bem visível a sua posição.
— Oh. — Sieghart levantou uma sobrancelha, surpreso pelo descaso em que ela falava.
Ele seria muito irresponsável se não soubesse de quem se tratava a Família Frost. Eles eram uma família composta apenas de militares e gênios. Além disso, possuíam uma ilha inteira há algumas milhas de distância de Vermécia e tinham uma ligação muito próxima com o avô de Ercnard pelos tempos de guerra.
— Muito prazer. — ele cumprimentou, olhando mais atentamente para o broche no peito dela. — A senhorita... É bem jovem, não?
Ela deu um sorriso curto com um pouco de presunção como resposta.
— Estou acompanhando o representante da família hoje. Como o Sr. Frost é um homem bastante acima da idade, acredito que o tenha deixado tempo sozinho o suficiente. Se me permitem, vou deixá-los a sós, senhores. — ela acenou, caminhando para longe.
Sieghart e Lupus se entreolharam logo que ela desapareceu de vista, como se perguntando o que tinha acabado de acontecer.
— Você viu isso? — Sieghart perguntou como se fosse muito óbvia a sua pergunta.
Lupus assentiu com a cabeça.
— Ela saiu sem mais nem menos.
— Ela fez uma saída estratégica!
Ambos se viraram para pegar mais uma das bebidas cítricas que serviam na festa e continuaram a conversa enquanto andavam sem rumo e sem prestar atenção às pessoas.
— Vocês estavam falando sobre?
— Hm, ela estava me explicando uns detalhes sobre o ingresso na cavalaria. — o mais velho respondeu com um sorriso gentil.
O moreno levantou a sobrancelha, desconfiado. E Lupus, percebendo a expressão do amigo, sorriu por dentro.
— Sei que você não quer que eu traga esse assunto à tona, mas Edel aparenta mesmo a Agnécia.
Lupus recebeu um olhar duro e afetado do Presidente, que deu um “Tch”.
— Uma coisa que não quero mais é continuar visitando o passado sem poder mudar nada. Lin é só uma parte dele. — Sieghart fitou o nada, parecendo lembrar-se de algo, franzindo a testa. Lupus entendeu imediatamente que aquele assunto era perigoso e que tinha a ver com a conversa discreta que ele teve com Elesis. Por isso ele resolveu mudar o assunto, não muito mais reconfortante, mas melhor.
— Eu vi o Erudon andando por aí. Você o convidou?
— Jesus, não! — Sieghart negou, fazendo uma careta. — Hoje parece que é Halloween, só vejo monstros por todos os lados, múmia, sereia, doppelganger, vampiro. Já quero ir embora daqui, Lupus.
— Que tal parar de chorar e ficar feliz por virmos te fazer companhia, hein vadio? — uma voz soou atrás da dupla, chamando-lhes a atenção.
Ryan expunha um largo sorriso que iluminava o local e atraía os olhares com sua cabeleira ruiva, penteada para trás e presa por um arco marrom. Seus olhos grandes verdes brilhavam enquanto ele abraçava os dois amigos, se pondo no meio deles.
— Quanto tempo, seus cús!
Sieghart ruborizou ao sentir os olhares da família atraídos pelo tom alto de voz de seu amigo extra espontâneo.
— Foi mal, Ryan. Eu estou gastando muito tempo com as atividades do colégio. O treino também não está tendo descanso.
O ruivo passou a mão na cabeça de Sieghart e largou o pescoço dos dois, balançando a cabeça.
— Não tem problema. Mas se você está tão entediado devia chamar seus brothers para te animar.
Sieghart riu sem graça, tentando lembrar quando tinha sido a última vez que tinha saído realmente com Ryan. Ultimamente ele e Zero só jogavam e dormiam. E pensando nisso, viu sair de trás do recém-chegado os outros dois, Jin e Zero.
O outro ruivo vinha com um ar meio constrangido visto pela cor do rosto e por que seus olhos não o olhavam diretamente. Zero estava como de praxe usando óculos escuros e agindo estoico como sempre.
— Pessoal! — Sieghart sorriu mais animado com a presença de seus amigos mais próximos.
Lupus soltou um “Hm” baixinho, satisfeito por ver a face do amigo ficar mais vívida.
A partir daquele momento Sieghart tentou apagar de sua mente que ele estava num beco sem saída. Com seus amigos e sua prima, ele pode por algumas horas se divertir conversando sobre casualidades, rindo de suas lembranças e do cenário em que estava. Pelo menos até certo momento em que todos se separaram e ficaram apenas Jin e Sieghart.
— Sieg, você não está com uma cara boa desde que chegamos. — Jin foi ao ponto.
Provavelmente o capitão do kung fu ainda queria que Sieghart contasse o que estava acontecendo em relação a Dio, mas não queria pedir novamente, tentando respeitar seu espaço.
— Você sempre... — Sieghart coçou a nuca, constrangido. — ... é coisa de família.
As mãos de Jin apertaram dentro dos bolsos, sua face endurecendo.
— Sieg-,
O moreno levantou a mão, batendo levemente no ombro de Jin. Seu sorriso foi falso e ele não tentou realmente disfarçar.
— Tudo bem, Jin, eu não quero falar sobre isso. Você já faz muito por mim, me ouvindo sempre.
O ruivo abriu a boca para falar, mas Sieghart lhe deu as costas, preferindo evitá-lo a ignorar a pergunta. Jin ficou em choque por alguns segundos, sentindo como se tivesse sido completamente rejeitado. Ele só foi reagir quando alguém entrou em seu perímetro, bem sobre seu ombro, quase encostando.
Uma voz soou bem acima de sua orelha, grave e com sotaque inglês.
— Foi deixado para trás?
Jin encolheu os ombros de susto, mas não se moveu. Ele não estaria respeitando o kung fu se não soubesse reagir a um assalto desses. Seus olhos decepcionados dirigiram-se para Ronan, que não possuía nenhuma expressão julgadora como se deveria esperar dele.
— É o que parece. — Jin respondeu com a sensação de algo preso na garganta e reposicionou-se, respirando devagar e tomando um gole da champanhe.
Ronan se pôs ao lado, mexendo a taça com elegância e olhando para o Presidente, que se afastava sozinho cada vez mais.
— Se continuar com essa cara seus sentimentos por ele vão transparecer mais do que já estão.
Jin o fitou com repreensão.
— Isso não é da sua conta, Ron.
O maior deu de ombros.
— Só estou te avisando. Seria tão ruim para ti quanto para ele se descobrissem os rolos em que ambos estão envolvidos.
— Do que está falando? — Jin indagou, confuso. Ronan deu um sorriso enigmático e deu as costas, andando. Jin o seguiu.
— Ron!
— Não se afobe, Jin. Além de tudo, já está mais do que claro não? Você e sua devoção fanática por aquele inseto e ele com seu caso rebelde com o italiano. Quem olha de fora com apenas um pouco de interesse consegue enxergar que na verdade os três cortam pro outro lado.
Jin enrubesceu até as orelhas, sentindo metade de sua vida esvair. Sua mão automaticamente agarrou o pulso do colega.
— Você não pensa em contar essa história, certo? — Jin perguntou em tom baixo. Ninguém estava estranhando o contato entre ambos, por sorte.
O esgrimista o olhou sem dar importância.
— Eu não preciso, você já deixa isso na cara.
— Ronan. — Jin o puxou levemente, meio que implorando, a voz quebrando.
O Erudon ficou em silêncio ainda por alguns segundos, fitando os olhos grandes do ruivo, tão emotivos, tão brilhantes.
— Eu teria destruído sua relação com o Sieghart. Teria feito ele te rejeitar de forma tão humilhante que você teria nojo de chegar perto dele novamente.
Jin franziu o cenho, olhando para o chão.
Ronan soltou as mãos e puxou com discrição o ombro do ruivo, fazendo-o andar. Eles ficaram quietos e caminharam até os fundos do jardim, onde as árvores eram tão grossas e altas que cobriam o chão de flores.
— Você sabe que eu não quero que ele descubra que eu o amo. — Jin murmurou, fraco demais para falar alto.
Ronan fez com que os dois ficassem fora de vista de qualquer um naquele local.
— Se continuar falando na minha cara que o ama eu vou ficar realmente irritado e então eu vou contar não só a ele, mas a todo o colégio. — Ronan ameaçou-o, inclinando-se para o ruivo e segurando seu queixo com força.
Jin segurou-lhe o pulso e tentou afastar o mais velho, mas Ronan só firmou mais o aperto, quase encostando suas bocas.
— R-Ron-,
— Shh... Eu só quero te convencer de uma vez... — Ronan sussurrou em seus lábios, quase tocando-o com a língua. — Que a pessoa que realmente te dá o valor, que quer estar ao seu lado, que se excita só de te olhar... Está na sua frente.
Jin fechou os olhos enquanto sentia o tronco em suas costas e a umidade em seus lábios. O gosto da rejeição era amargo, subia como uma ânsia, mas não era forte a ponto de querer sair. A rejeição que ele recebia de seu melhor amigo e a rejeição que ele sentia pelo único homem que realmente o amava.
Jin agarrou-o pelos ombros, sentindo aquele sentimento ambíguo, correspondendo ao beijo sem paixão. Sua boca era sugada, seu lábio puxado para baixo, chupado e depois suas línguas molhadas se entrelaçavam, endureciam e esfregavam até o ar faltar para depois voltarem, quase animalescos, tentando se comer inteiramente.
Seus corpos se tocavam, Jin sentia a ereção do azulado junta a sua virilha e os braços dando a volta em suas costas, enquanto suas mãos lhe deitavam na clavícula.
Era uma ilusão pensar que tanta luxúria faria o ex-monge se esquecer do quanto amava Sieghart. Em nenhum momento ele se sentiu confortável nos braços de Ronan. Em nenhuma das vezes em que suas bocas se juntaram num ósculo prazeroso ele trocou a imagem do moreno pela do rapaz que o estava beijando de verdade. Jin não abriu os olhos em nenhum momento.
E isso só o fazia sofrer. Mas ele não conseguia parar o desejo.
Continua
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