Identity Crisis

12 C11. Conversation


Notas iniciais
(Capítulo revisado) Olá! Obrigada a todos que estão acompanhando o/. Um agradecimento especial à Marceline por ter me dado o empurrão final para escrever esse capítulo. Boa leitura!

— Ah... — suspirou Regis logo que pode finalmente desabotoar a camisa ao botar os pés para dentro da casa.

Lass entrou logo atrás do pai, ainda cabisbaixo como estivera desde que tinham saído da diretoria. Ele reajustou os óculos e seguiu o adulto, que deixou uma bolsa em cima de um criado-mudo ao lado da escadaria e onde o telefone da casa ficava. Vizinho ao pequeno móvel de cedro, muito bem polido por sinal, havia um porta-casaco – ou cabideiro, como quiser.

— Sr. Isolet! — exclamou uma das empregadas passando pela porta do corredor lateral ao ver o dono da casa. — Há muitas ligações e mensagens de voz na secretária eletrônica no escritório! Eu simplesmente não sei o que fazer! Estão dizendo que o senhor deixou uma reunião importantíssima e-,

— Tudo bem, Miriam. — Regis a interrompeu, levantando as mãos. — Deixe que eu resolvo isso depois.

A mulher assentiu ainda afobada e saiu mandando olhares rápidos para Lass. Ela parecia não ter entendido o que ele estava fazendo ali no horário de aula e talvez tenha achado melhor não se intrometer.

Regis colocou os óculos escuros no móvel e virou-se para Lass um pouco, apenas para mandar um olhar de seriedade.

— Vamos subir, filho.

Sem demora os dois subiram o primeiro lance de escadas, com passos silenciosos muito típicos deles. Andavam como se não quisessem acordar o gato que dormia na sacada, mas a real razão era a governanta da casa. Ninguém precisava desse problema agora.

Lass sentou-se na cama, imaginando a dezena de mentiras que deveria contar naquele dia. Como ia ser difícil mentir ao pai. Algo que ele raramente tinha feito. Ele mal conseguia parar de tremer ou mesmo olhar nos olhos do mais velho. Como ele podia escapar dessa?

— Pai, você não precisava ter vindo assim tão de repente. — disse baixo, tentando não soar um covarde. O grande empresário em resposta lhe deu uma careta.

— Eu não sou tão negligente a ponto de ignorar uma chamada da escola, Lass. Você é meu filho e eu sei que esse tipo de coisa não acontece com você. Claro que eu ficaria preocupado!

Regis passou a mão no cabelo, evitando que os fios rebeldes caíssem sobre o olho, e se sentou ao lado do menino, batendo a mão em sua cabeça, forte, mas gentil. Na face ele ficou um pouco vermelho e desviou os olhos.

Lass deu uma pequena risada. Era engraçado como seu pai tentava ser legal e no fim ele mesmo se constrangia pelas coisas que acabava dizendo.

Regis riu também e juntou os dedos, olhando para frente, mostrando que ia começar a falar.

— Lass, o que a Karina disse foi um choque imenso para mim. Como acha que eu me sinto?

Lass encolheu os ombros.

— Eu não sabia de nada. Ou melhor, tudo o que ela disse é realmente verdade? — Regis coçou a nuca, assumindo uma expressão ainda mais séria. — Filho, você deve estar pensando que vai causar problemas se contar para mim, mas sabe, não vai adiantar de jeito nenhum manter seus segredos.

Lass franziu o cenho, sentindo seu peito apertar. Quando seu pai sofria, ele sofria mais. Não queria isso.

— Eu não posso compartilhar dos seus problemas? Não posso fazer algo por você? — Regis o olhou, profundamente ferido. — Depois de tudo o que eu te fiz passar morando aqui, você deve estar simplesmente cansado, não é?

Lass arregalou os olhos.

— Depois que a Olivia morreu você se fechou mais ainda e nós nunca mais conversamos. A culpa é minha por ter te dado seu espaço e talvez tivesse sido melhor eu ter estado presente-,

— Não, a culpa não é sua pai! — Lass interrompeu-o desesperadamente. Suas pequenas mãos seguraram a manga de Regis, sua expressão abalada. — E na verdade eu não pensava muito nela naquela época. Me desculpa. Não é por causa de vocês. O problema sou eu.

Regis afagou seus cabelos claríssimos e demorou-se, olhando-o com paternidade.

— Filho, não quero que você se sinta no lugar errado. — Regis disse, fazendo o garoto olhá-lo diretamente. — Quero te dar um lar. Não quero que te firam ou que você se autoflagele ou mesmo acredite que você é um empecilho, não é nada disso.

— E-Eu sei. — Lass tremeu, sentindo vontade de chorar. Aquela vontade ele estava segurando a um bom tempo, mas ele tinha que segurar. O pai tinha que ver como ele era forte!

— Lass. — Regis passou um braço em volta do menino e o abraçou forte, cobrindo com seu corpo a pequena estrutura de Lass, que se sentiu completamente cheio de carinho por aquele homem. — Filho, eu não vou te obrigar a me dizer agora, mas eventualmente. E você tem que me prometer que isso não vai acontecer mais.

— U-Uhum! — Lass o abraçou de volta, apertando os olhos e sentindo os óculos saírem do lugar.

Dessa vez ele não esperava esse comportamento vindo do pai, sempre sério, bom, mas nunca emotivo. Regis o olhava uma vez e bastava para Lass contar uma coisa ou outra, no entanto, dessa vez ele ficou quieto e confiou nele.

Mesmo que o desejo de contar fosse grande após essa demonstração de total confiança, não era maior do que encarar seu problema de frente. Lass tinha decidido isso há muito tempo.

XXX

Lupus olhava a tela do celular com as sobrancelhas finas franzidas. Sieghart pareceu perceber esse movimento estranho na feição do moreno e resolveu comentar.

— Aconteceu alguma coisa, Lupus?

Por uns segundos o mais velho não respondeu, até que ele virasse a cabeça de repente e olhasse para o Presidente, percebendo que estava de cara feia tempo demais.

— Coisas de família. — respondeu, levantando o celular e guardando. Em seguida ele pegou um casaco de cima da cama, envolveu o cachecol marrom xadrez no pescoço e pegou ambas, carteira e luvas. — Vou ficar fora o resto do dia.

O rapaz de olhos prateados olhou-o não compreendendo o que se passava, mas Sieghart podia totalmente esperar agora. Lupus não tinha tempo a perder, pois havia algo centenas de vezes mais importante do que as permissões para sair da Academia ou dar satisfações ao melhor amigo.

Lupus tinha no peito um coração que batia como uma marreta. E não era de felicidade.

Ele saiu, fechando a porta atrás de si, e ao andar dois passos deu-se com uma face que ele sabia, tinha visto por aí, mas com quem nunca tinha conversado.

— Posso ajudar? — indagou, olhando sutilmente o relógio no pulso.

O outro, que era um jovem de estatura mediana, de postura ereta, e dono de uma expressão baixo-astral demais para qualquer um não notar, ou seja, ele tinha olhos tão caídos e tão claros que parecia estar chorando, fitou Lupus com um ar de surpresa.

— Ah, não... Quer dizer...

Lupus suspirou mentalmente e olhou-o sério.

— Quer falar com alguém? Se estiver procurando alguém no dormitório o Sieghart pode muito bem te ajudar. — Lupus disse, mal se incomodando em dar atenção ao rapaz, virando-se de volta para o quarto e abrindo. — Sieg, tem um cara aqui fora que quer alguma coisa.

O moreno estava deitado com o antebraço sobre a cabeça e com isso Lupus sentiu imediatamente o ar pesado.

— Você está passando mal?

— Não, não. Já vou. — Sieghart negou, tirando a sombra do rosto e sorrindo. Lupus pensou que o amigo nem tinha se dado o trabalho de fingir um sorriso melhor, então claro que ele não estava bem.

— Vamos conversar melhor quando eu voltar. Ouviu? — Lupus lhe murmurou, apontando-lhe o dedo e dando meia-volta, para passar pelo menino esquisito e descer as escadas num disparate.

XXX

O moreno ainda olhava as costas de Lupus sumindo escada abaixo e os cachos louros fazendo um movimento suave de ondulação ao que descia cada degrau. Só quando sumiu, Sieghart olhou para o segundo em cena.

Não o conhecia. De todos os alunos da Academia Real, dos quais o Presidente do Conselho Estudantil via diariamente, não conseguia se lembrar daquela pessoa de cabelos escuros e mecha branca, olhos espelhados azuis e expressão de pura timidez. Ele parecia, de alguma forma, um pouco mais velho do que aparentava, mas ele não deu atenção aos instintos.

— Você está procurando alguém? — Sieghart questionou, colocando a mão nos bolsos de trás da calça jeans. Ele estava em suas roupas comuns, a camisa branca, jeans claros e descalço.

O indivíduo parecia envergonhado tanto com algo que ele cortou o olhar descaradamente e coçou a nuca.

— Na verdade eu preciso falar com você, Sr. Sieghart.

O moreno levantou uma sobrancelha, surpreso. Apesar de ele ser respeitado, somente os funcionários o chamavam assim.

— Comigo? –Sieghart perguntou, então tirou as mãos dos bolsos, ficando um pouco tenso. O que aquele desconhecido poderia ter para dizer a ele? Nem eram da mesma sala. Ou era um daqueles que são tão sem graça que ninguém percebe eles?

— Sim.

Sieghart ficou em silêncio uns instantes, tentando imaginar o motivo. Aquela pessoa realmente estava com um olhar forte. Isso não era bom sinal.

— Bem. Não quer entrar? Não tem ninguém agora e-,

— Não, no seu quarto não. — disse o desconhecido, interrompendo-o.

Sieghart o encarou, não sabendo o que dizer. Era estranho ouvir isso.

— Tudo bem, mas qual é o seu nome mesmo?

— É Uno. Me desculpe, Sr. Sieghart, mas eu resolvi falar de uma vez, aqui mesmo. Não me encare como brincadeira, por favor. — falou Uno, se curvando um pouco e estendendo a mão, tocando a sua. Sieghart arrepiou-se, agindo por reflexo, mas não conseguindo evitar o toque a tempo.

— O-Okay... –Sieghart gaguejou, olhando sua mão e para os olhos do rapaz.

— Eu me mudei para a cidade há muito pouco tempo, mas eu nunca encontrei alguém como você, Sr. Sieghart! — o outro moreno apertou sua mão, expressando-se, mas abaixando seu tom de voz.

— O quê?

— Quero dizer, me perdoe pela grosseria. Eu estou cursando a faculdade aqui na Academia, mas quando te vi como orador de turma no primeiro ano pensei que era coisa da minha cabeça.

Sieghart ouviu seu coração acelerando. Aquilo estava mal.

— Só que na verdade eu estou apaixonado por você, desde que você chegou aqui pela primeira vez!

O recém-declarado Uno abaixou o olhar, extremamente vermelho nas bochechas. Ele soltou Sieghart e ficou em silêncio, deixando que o Presidente processasse a informação.

— Me desculpe. Eu venho te seguindo durante um bom tempo.

Nesse momento o moreno estacionou todos os seus sentidos, olhando incrédulo para o outro.

Aquele homem, que dizia ser mais velho, estava se declarando para ele. E estava também revelando, estranhamente, que era seu stalker.

— H-Hã?

— Desculpa, eu não quero te assustar. Eu não sou obcecado por isso, me entende? Eu só queria te observar às vezes então o seguia pelos corredores. Da última vez que te segui foi até um dos telhados. Achei estranho você ter ido até os prédios de aula da faculdade. Só que eu não cheguei a subir, eu fiquei ao pé das escadas.

— Isso. — Sieghart arregalou os olhos, se lembrando. Ele tinha fugido de Dio no dia em que ele ficou procurando Elesis. — A porta tinha emperrado! Foi você?!

Uno pareceu não compreender.

— Não. Eu acho que ela acidentalmente trancou com o vento. Ninguém vai lá por causa disso. Quando você tentou abrir a porta e não conseguiu eu fiquei com medo, mas não podia te deixar lá. Ainda assim eu não queria que você me visse, então destranquei e sai correndo.

Os dois ficaram em silêncio.

— Só agora decidi dizer o que sinto. — Uno suspirou. — Mas acho que é impossível.

— Por quê? — Sieghart indagou.

O outro moreno deu um sorriso amarelo, escondendo sua expressão ferida por um amor platônico.

— Porque você já é apaixonado por outra pessoa, Sr. Sieghart. Não é mesmo?

Continua

Notas finais
Yo! Como vão vocês? :3 Eu espero do fundo do coração que a minha motivação para escrever tenha contribuido para a melhora da história. Espero que tenham gostado. Se puderem, deixem reviews. Um abração e até o próximo! o/