Identity Crisis
13 C12. Agreeing
Notas iniciais
Aquela tarde estava mais escura do que nos outros dias. Uma brisa gelada passava congelando suas orelhas enquanto caminhava cada passo apressado para casa, a Mansão Wilde.
“Por que ele ligou justo agora? ”. Se perguntava Lupus, só não roendo as unhas de impaciência porque suas mãos estavam frias sob o couro das luvas marrom. “O que está fazendo em Londres? ”.
O rapaz atravessou uma rua cruzada com falta de atenção, esbarrando num homem que passava. Mal se desculpou e seguiu em direção à linha de trem, onde passava alguns minutos de pura indagação.
Lupus, venha para casa.
Seu pai era sempre assim. Sem explicar nada e distribuindo ordens como se fosse um de seus fantoches da empresa, fazia o que queria com ele. Ele trincou os dentes e foi em frente.
Quando Miriam abriu a porta, imediatamente abaixando a cabeça ao vê-lo, Lupus avistou através do corredor estreito a figura alta do pai encostado à mesa e com o telefone ao ouvido. Ele estava em suas roupas de trabalho, mas seu paletó descansava no cabideiro.
Os olhos vinho do homem levantaram para si, mas não lhe deram grande importância. Lupus bufou internamente com isso e dispensou Miriam, que saiu rápida, como se o temesse, coisa que tinha todos os motivos para fazer.
Assim que a ligação terminou, o homem pousou o telefone e falou.
— Suba ao meu escritório. — disse e se dirigiu às escadas, subindo sem dar um segundo olhar.
Regis fechou a porta depois que entraram e não foi se sentar, mas ofereceu o assento para o filho. Seu olhar não era decifrável naquele momento e Lupus sabia que essa era face que seu pai fazia quando estava lidando com assuntos em que precisava tomar uma decisão.
— Pode ir direto ao assunto. Você nem estaria aqui se não fosse algo sério, não é?
O empresário assentiu e recostou-se na lateral da mesa, não olhando diretamente.
— O Lass está dormindo no quarto dele agora. Eu o trouxe depois de receber uma ligação para comparecer ao colégio.
Naquele instante o moreno franziu a testa, mas controlou seu mau hábito, fingindo se importar.
— O que houve? — indagou. Seu pai soltou um quase imperceptível suspiro. — Ele teve um desmaio?
Regis o encarou, obviamente como pai já conhecendo seu filho bem o suficiente para identificar a mínima mudança de tom de voz. E Lupus tinha tentado, mas não suprimiu completamente o tom de indiferença que sentia pelo meio-irmão.
— Seu irmão tem aparecido com ferimentos pelo corpo. — disse com repreensão, com um olhar pressionador que garantiu que Lupus não o fizesse de novo. — E parece que vem acontecendo desde um bom tempo.
— Ugh. — Lupus engasgou, sentindo a pressão abaixar.
Não poderia ter evitado o choque mesmo se quisesse. Ele realmente tinha encontrado o moleque na biblioteca no dia anterior, mas não esperava que aquilo pudesse ser seu deslize para o fundo do poço do fracasso.
“Antes de tudo, respire normalmente! Ele é incrível, mas não pode ler as batidas cardíacas. ” Disse a si mesmo, seguindo suas instruções mentais. Ainda que fosse verdade, Regis parecia estar procurando algum traço suspeito em seu corpo e parecia que encontraria se ele não se cuidasse.
— É verdade o que eu disse. — Regis reafirmou, cruzando os braços e ficando mortalmente sério.
— Hm.
Lupus suava. Depois de tanto tempo as coisas simplesmente não podiam dar errado, não quando ele tinha se esforçado para ficar afastado do moleque por um ano inteiro e por acaso se encontrou com ele e perdeu um pouquinho a calma.
Só que ele também não era idiota de ir com “Como assim? Que absurdo! ”. Seu pai era um homem maravilhoso, contudo, era implacável com os tolos e mentirosos.
— Você falou com a Karina. O que ela disse? — Lupus questionou, mantendo a expressão inalterada.
Regis repetiu o que a mulher disse e depois não resistiu em acender um cigarro e abrir as persianas. Ele andou de um lado por outro em completo silêncio, tragando.
Aquele comportamento... Ele só perdia assim sua aparência de homem perfeito quando se tratava do meio-irmão.
“Sempre foi assim. ” Pensou melancólico e sombrio o universitário, que cruzou os braços também. “Ele só perde a cabeça quando se trata daquele...”.
— Antes de tudo estou incrédulo que isso esteja acontecendo e ninguém tenha visto! — disse, em seguida soltando a fumaça. — Minha criança não quer contar quem foi.
Lupus estreitou os olhos, percebendo como seu pai realmente não sabia o que fazer dessa vez.
— Muitas crianças que sofrem bullyng são assim. Elas mantêm em segredo que sofrem abusos.
Regis balançou a cabeça.
— Nah, não acho que seja bullyng. — Regis amassou o cigarro nos dedos, falando com dificuldade. — Acredito que a Olivia batia nele quando eu dava as costas. Mas Karina disse que mesmo depois da morte dela Lass continuava aparecendo com marcas.
O moreno ficou quieto, tentando imaginar o que Regis concluiria disso. Ele podia estar condenado, mas era esperto para sair de situações como essa se precisasse.
“Não posso falar nada que possa me entregar”.
— Ele se envolveu com algo no colégio? Ou realmente tem alguém o perseguindo? — Regis indagou, parecendo gradualmente mais irritado. — Como eu posso não ter reparado?! Eu que sempre conversei com ele! Lass sorria normalmente e parecia bem.
Uma sensação de revolta começou a crescer no peito de Lupus e subir à sua cabeça de tal forma que ele quase soltou uma rudeza.
— Mas ele sempre foi assim. Você nunca conseguiu ver como ele agia assim só por você. Ele sempre foi um moleque introvertido que não se dava bem com ninguém. Talvez no colégio alguém tenha se incomodado com a quietude dele e foram para dar uma lição nele.
O pai levantou a cabeça num clique, seu ar de pura repreensão. Apesar das pouquíssimas chances, Lupus sabia o quanto era prazeroso fazer isso com ele. Deixá-lo louco.
— Como você tem coragem de falar desse jeito?! Por acaso eu te criei assim, Lupus?!
Regis se aproximou do filho, assumindo um ar agressivo que poucos conheciam. Lupus não tinha medo, mas tinha presenciado algumas cenas assim. E ele o entendia perfeitamente. Afinal, eles tinham o mesmo sangue.
— Você sabia de algo?
— Não.
O pai tinha um brilho sanguinário nos olhos cor de sangue. Mas Lupus não tinha mesmo medo.
— Eu pensei que você se importava com o seu irmão, Lupus. Vocês agiam como se fossem bons irmãos, então como é possível que não tenha percebido nada?
— Assim como ele escondeu de você ele escondeu de mim. Eu também não gosto disso! — exclamou Lupus, levantando-se da cadeira, seus olhos enchendo de lágrimas. — Não pense que eu não me importo! Você não pode colocar a culpa em mim assim, pai!
Regis calou-se.
Fazia um tempo que não era chamado de pai assim. Todos os outros dois o chamavam normalmente por “pai”, mas o orgulhoso Lupus sempre, sempre, ficava evitando. Ele parou logo que descobriu sobre a traição e sobre o irmão bastardo. Era uma criança linda, extremamente inteligente e promissora, o herdeiro perfeito, já que o filho mais velho tinha saído de casa.
Regis não esperava um dia ouvir o filho na maioridade chamá-lo de pai. Querendo ou não, sentia que tinha falhado com a família e ouvir isso o fazia sentir que havia recebido a confiança do filho de volta. Por isso ele ficou quieto e resolveu confiar em Lupus também.
O empresário cedeu, sentou-se e colocou a mão sobre a testa. Estava perdido.
Depois de uns segundos cortou o silêncio.
— Tenho que voltar para Stradfort. Não queria deixar as coisas assim, mas parece que não consigo adiar esse compromisso mesmo tendo saído de repente. — Regis disse. Em um cinzeiro de cristal ele apagou o cigarro e se levantou, massageando a base do nariz. — Você pode conversar com seu irmão?
Lupus confirmou brevemente com a cabeça.
— Se você não conseguiu uma resposta, duvido que eu vá conseguir. — comentou o moreno, olhando o pai, que era como sua versão mais velha.
— Não estou satisfeito. Quero saber o que está havendo na vida do Lass. Quero saber se há alguma chance de ele mesmo estar se cortando ou fazendo coisas perigosas.
Lupus piscou, vendo a confusão interminável do pai.
— Acha que essas coisas são possíveis? Que ele possa ter se envolvido com gente problemática ou que seja caso de depressão? Apesar de ser normal hoje em dia.
— Não fale isso. — negou o pai veementemente à ideia. Ao que parecia ele estava tentando evitar pensar nisso como algo sério como uma doença. Seria terrível. — De qualquer forma, só tem duas coisas, Lupus. Se você não descobrir o que está havendo, eu mesmo farei isso. Se ele aparecer de novo desse jeito, a culpa vai ser sua. Estou te colocando para cuidar do seu irmão mais novo, entendido?
Assentindo novamente, Regis indicou a porta e ambos encerraram a conversa. Saíram do cômodo calmamente, seguindo de volta ao andar de baixo.
— Boa viagem. — Lupus murmurou, nada animado com a situação, e o pai em resposta deu um aceno de cabeça apenas e saiu da casa acompanhado de seus guarda-costas.
As empregadas curvaram-se antes de a porta se fechar e o carro sumir na colina da mansão. No instante em que a chave girou, as moças encolheram os ombros, abaixando as faces.
O moreno virou-se para elas com lentidão. Um estremecer tomava todo seu corpo e seus olhos queimavam.
— Desapareçam da minha frente.
E assim elas o fizeram, inclusive Miriam, a empregada direta do Sr. Wilde, que ia de cabeça baixa e olhos medrosos, evitando qualquer contato visual com o herdeiro da família.
Continua
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