Identity Crisis
6 C05. Observation
Notas iniciais
Por algum motivo Sieghart tinha evitado voltar ao quarto.
Lupus se perguntou isso quando percebeu que o moreno se negava a ir até o quarto para qualquer coisa. Eles tinham tido a oportunidade de se falarem, mas acabaram discutindo sobre diversas coisas além do que importava.
Além disso, o universitário soube por terceiros sobre um aluno transferido que não compareceu à cerimônia e nem se diga da surpresa que teve ao entrar no quarto, vazio, e se deparar com um amontoado de malas que se encontrava ao lado da cama branca sem dono.
E para finalizar, na manhã seguinte, Lupus foi capaz de se encontrar com o Presidente.
— E então? Onde você passou a noite? — o veterano questionou.
Em resposta, o moreno se fez de desentendido. Era lógico que ele tinha ido para o quarto da prima e passado a noite suportando os olhares de puro ciúme da francesa loura. Mas à custa de quê?
— Por quê? Sentiu minha falta, Lupus?
O veterano riu docemente.
— Nem tanto. Você quer me dizer que é coincidência o cara novo chegar e você magicamente sumir? — indagou o mais velho, estreitando as íris vinho. — Ele é tão insuportável? Ou você talvez o conheça e não goste dele.
Sieghart o olhou com uma pitada de espanto, mas mantendo seu queixo erguido e expressão séria. Deu de ombros.
— Essas são as explicações lógicas. — Lupus ainda explicou. Sieghart tentou não mover os lábios, sentindo os dentes arrastarem-se uns pelos outros levemente de raiva.
“Talvez as duas explicações estejam corretas. Você por acaso lê pensamentos, Lupus?” Sieghart disse mentalmente, olhando firmemente para o amigo e esperando que ele desse um sinal de ter realmente ouvido seus pensamentos.
Não havia coisa pior. Sieghart tinha claramente fugido do campo de visão do Fiammeggianti e nem tinha tentado disfarçar. Não por medo, claro. Foi mais por receio. Aquela sensação preenchia seu âmago e importunava ao ponto de doer.
Ryan questionou também por que o moreno estava tão sério de uma noite para outra e sendo meio que escroto, respondendo grosseiramente os professores e o resto do mundo. Até mesmo sendo um cretino com todas as garotas que cruzavam seu caminho. Tinha sido assim desde mais cedo, quando Sieg apareceu com a prima à tira colo e com uma cara péssima, agindo nervosamente, quase como a própria Elesis.
Sieghart sentiu que deveria ter aproveitado toda essa atenção e ficado com todas. Para limpar sua boca daquele gosto que o italiano havia deixado impregnado em toda a extensão de sua boca, desde a língua, os dentes, gengiva... Tudo. Ele movia os lábios e sentia ainda aquela sensação quente e suja.
Ele tentou. Bem que tentou, mas o que houve foi bem pior do que imaginava. Uma ânsia ficou revirando seu estômago. Era desagradável. Ele só não conseguia continuar, mesmo que suas mãos estivessem perfeitamente encaixadas em cada seio e glúteo e o aroma fosse perfeitamente normal. Ele não pôde continuar, não com a sensação de mal-estar e vontade de vomitar subindo diretamente na garganta ao mesmo tempo em que seus dedos se moviam pela pele macia de cada garota que ele tocava.
Esse era o motivo de ter ido dormir no quarto de Elesis e não em qualquer outro com uma companhia que pudesse realizar equilíbrio térmico. Em menos de 48 horas o Fiammeggianti estava conseguindo, com muito pouco, aliás, perturbá-lo. Jin esteve no apoio enquanto Elesis já desconfiava também.
— Sieg, eu espero sinceramente que você resolva o problema que você estiver tendo. Mas se a Diretora souber que você tem ido para o dormitório feminino não vai terminar tão bem assim. Além de que você tem obrigações o tempo todo. Não se esqueça de quanto tempo faz que você não aparece na sala do Conselho Estudantil. E tem os treinos. Não fique dando mole para besteiras, ouviu? — Lupus segurou sua cabeça e o balançou um instante com certa força, de um jeito amigável, mas íntimo para quem visse.
Sieghart sentiu seu corpo tremer repentinamente. Sua mão agiu sozinha e o tapa fez um estalo no pulso de Lupus, que parou a ação estupefato para se indagar.
— Ei, algum problema?
Os olhos de Sieghart estavam vidrados nele, mesmo que não propositalmente. Porém, Lupus tinha plena consciência de que a grosseria não tinha sido por que ele tinha bagunçado a franja de Sieghart, mas por algum outro motivo. Eles não tinham tido nenhum problema um com outro que explicasse esse tratamento.
— Ah, não. Nada. Desculpa, eu apenas reagi por reflexo. — Sieghart justificou-se, balançando a mão como se quisesse dizer que não era nada demais.
Não seria nada realmente importante, exceto por sua expressão facial que estampava claramente “mentira”.
Lupus ainda tentou tirar alguma coisa dele, mas o moreno foi mais esperto e fugiu com um aceno e um “Eu não posso me atrasar, você mesmo disse, não? Estou indo! Boa aula!”.
Foi tudo. O veterano foi deixado em meio ao corredor e com uma expressão interrogativa.
— O que caralho foi isso?
O cabelo castanho-alourado ondulado foi atingido levemente por alguma coisa. As pessoas no corredor principal eram muitas naquele horário, mas não era comum alguém vir descuidado e apenas esbarrar em você com tanta força.
O tempo de reação foi de milésimos de segundos. Lupus levantou seus olhos demandadores e captou a imagem de um homem que tinha seu tamanho, não menos forte, não menos nobre e não menos influente.
— Ciao. Eu sou Dio Valico Fiammeggianti e me disseram que você é a pessoa quem estou procurando.
A mão de Dio pousava no ombro do universitário, passando uma energia que demandava o louro ficar e trocar umas palavras. Lupus conhecia pessoas assim, com aquele olhar de ordem e mãos pesadas que estão prontas para esmagar qualquer coisa.
O Wilde deu um olhar “Tire os dedos” como de costume quando estava desgraçadamente irritado – e isso sempre acontecia quando ele era tocado sem permissão – e ao ser obedecido ele parou um instante e se virou para atender o indesejado.
— Sr. Fiammeggianti. Você é meu parceiro de quarto, não? — Lupus indagou, cruzando os braços. – É um prazer suponho?
“Como assim ‘suponho’?” Dio resmungou mentalmente, contendo sua vontade de quebrar os ossos faciais do pequeno inseto atrevido à frente.
O sorriso de Lupus se abriu, assim como seu olho visível estreitou de uma forma pecaminosa ao olhar humano.
— Suponho. — Dio engoliu seu orgulho, sabendo que se deixasse levar por emoções alguém ficaria cego e sem dentes.
— Então? Não sabe o caminho das salas? — Lupus perguntou, virando-se e voltando a caminhar, sem esperar que o outro o acompanhasse.
— Sim, eu já conheço o caminho. — Dio respondeu, começando a andar ao lado do rapaz.
Pelo que Dio podia ver, as pessoas olhavam discretamente. As pupilas viravam-se levemente e desviavam medrosas. Ele se deu conta de que admiravam o Wilde e agora os olhinhos de todas as partes estavam curiosas para saber quem era ele.
— Você é popular, Sr. Wilde? — Dio perguntou com um olhar de não importância.
— Não que eu seja popular, mas que eu não devia estar aqui. Normalmente estou por perto nos horários do almoço e janta.
Dio ergueu uma das sobrancelhas bipartidas.
— O que quer dizer com isso?
— Que eu estou no dormitório junto com alguns colegiais, enquanto na verdade eu sou um universitário e minhas aulas são do outro lado do campus. — Lupus explicou com paciência. “Nunca ouvi falar desse cara e ele parece não ser nada legal. Quero saber o que ele fez para ter deixado Sieghart estranho.”
— Ah, você é universitário. Não entendi também porque você está com os colegiais, mas acho que as decisões não devem ser discutidas. — Dio disse sem um pingo de emoção na voz, colocando as mãos nos bolsos.
— Você sabe o caminho para a sala e faltam dois minutos para o sinal. Do que você realmente precisa?
— Estou só curioso... Suponho?
O sorriso de Dio era um enigma irritante. Lupus sentiu um músculo de seu rosto ameaçando contrair, mas ele não deixou seu desprezo ficar visível.
— Afinal, você já conheceu o Presidente, não é? — Lupus indagou, arriscando.
Os passos tinham parado até aquela altura. Dio, com as mãos nos bolsos das calças e acomodado despojadamente com o ambiente, parecia um delinquente popular e safado. Lupus, com os nervos à flor da pele, por estar tendo que conversar com um inseto por tanto tempo, estava parecendo um modelo nervoso e sexy prestes a ser jogado em uma cama de hotel.
— Ah, Sr. Sieghart. –Dio disse em voz baixa, seus olhos faiscando na sombra do cabelo rebelde roxo. — De certa forma. Ainda não o suficiente.
Lupus sentiu um arrepio desagradável e se virou de costas para esconder seu lado negro, o qual não queria que ninguém visse, inspirando lentamente. Dio notou sua perturbação, mas não disse palavra.
— Apenas vá para a aula. Eu tenho que ir agora.
Dio tirou a mão do bolso com seu celular e a galeria aberta, repleta de imagens graciosas que havia conseguido na noite anterior.
— Acho que agora eu posso fazer algo interessante. — disse a si mesmo, sua expressão vazia, sua boca úmida.
Continua
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