Identity Crisis
5 C04. Intermission
Notas iniciais
Após sair do prédio, ele passou um bom tempo procurando a prima pelos corredores. Já estava bastante tarde e ele ainda tinha a mente cheia de pensamentos confusos sem saber como escapar deles.
O mais preocupante de tudo era que ele ainda teria que ver o rosto de Dio quando chegasse ao quarto.
“Não! Não, céus! E se ele estiver levando a sério?”
Sieghart passou a mão na testa enquanto continuava andando entre as pessoas e cumprimentando quem o saudasse. Os uniformes começavam a se misturar e tudo o que ele conseguia fazer era olhar para os cabelos. Não tinha jeito melhor de distinguir a ruiva. Se fosse uma pessoa normal ele já teria desistido.
“Depois do que ele me fez, não tem chances de isso ser brincadeira. ”
— Seja realista, Sieghart. — disse a si mesmo baixo, passando por uns laboratórios que faziam experimentos com os novatos.
Elesis não aparecia em sua visão e, veja, Sieghart era muito bom em achar pessoas. Tinha olho bom desde criança, por isso entrou em vários esportes e artes marciais. O desespero de não a achar logo só o deixava mais obcecado para não a encontrar, assim ele poderia ter uma desculpa para não voltar ao quarto.
“E se ele me atacar à noite?” Sieghart arregalou os olhos, sentindo um desconforto doloroso no estômago. Não era que ele estava roncando de fome, mas que uma ânsia voraz o fez parar de andar e se encostar a uma das inúmeras pilastras antigas da Academia.
“Merda.” Sieghart xingou, fingindo que estava apenas descansando. As pessoas continuavam passando e olhando para ele com admiração, porque, óbvio, ele era tão importante. Os olhares apenas estavam fazendo ele se sentir pior.
“Elesis, onde você está, garota?!” Sieghart enfiou os dedos nos bolsos da calça e desencostou da pilastra num impulso, virando na lateral da coluna. Ao fazê-lo, seu peito bateu direto em algo forte com vida, digo, não era um objeto, mas uma pessoa.
— Ah! Aí está você. — Lupus disse apaticamente, estendendo a mão. Sieghart a aceitou, esquecendo os xingamentos na ponta da língua.
— Lupus. — o tom de alívio soou óbvio demais até para si, mas ele não estava dando a mínima. Lupus era o único que podia distraí-lo agora.
— O que foi? Até parece que estava me procurando. — Lupus deu de ombros, ajudando Sieghart a equilibrar-se nos próprios pés. O moreno bateu ao paletó.
— Não estava. Eu quero achar a ruivinha.
Lupus fez um “Hm”, indicando que havia entendido e trocou uma pasta que carregava da mão esquerda para baixo da direita.
— Está ficando muito mais frio que o normal nesse horário. Vamos para o quarto-,
— Não! — Sieghart exclamou, parando com as mãos à sua frente.
— O que foi? — Lupus perguntou, incomodado com a atitude do colega.
— Ah, eu preciso achar a Elesis. Você não quer voltar sozinho?
— Idiota. — Lupus empurrou sua testa com o dedo indicador como um irmão mais velho e fez uma cara irritada. — Até parece que eu vou sozinho para onde o Ryan está.
Sieghart riu baixo. Verdade seja dita, quando Lupus ficava um tempo sozinho com Ryan ele virava um saco de depressão por alguns dias.
— Então venha comigo procurar a ruivinha. Tenho uma impressão de que hoje eu devia dar uma atenção extra a ela. — Sieghart disse com um sorriso amarelo. “Apesar de eu estar fazendo isso apenas para salvar minha própria pele.”
— Já pensou em ficar parado, inteligência? Ou ligar para ela? — Lupus perguntou, encostando-se a pilastra onde antes o moreno estava.
— Ah, meu celular eu deixei-, — Sieghart começou, envergonhado.
— ... No quarto. — Lupus estreitou os olhos, continuando a frase por si só e se responsabilizando por pegar o celular e mandar uma mensagem para a ruiva mandando a localização. — Não é à toa que ela sempre te xinga por não responder. Eu meio que entendo?
— Shiu. — Sieghart disse com um bico, batendo fraco no ombro do mais velho.
Os dois não conversavam assim fazia um tempo e o silêncio tomou um pouco de espaço entre eles. Escurecia rapidamente. Os olhos dois foram para os prédios iluminados e para a movimentação de estudantes agasalhados para as aulas noturnas.
— Hoje é uma noite bem tranquila. Mais do que eu esperava. — Lupus comentou.
— Hm. — assentiu o moreno. Nada melhor do que sentir a brisa gelada como ele sempre fazia na varanda de sua casa no interior na Alemanha.
Lupus sorriu ao ver a aparência tranquila que não via no moreno há um tempo. Ele parecia realmente inocente daquela forma.
“É uma criança adulta. Só isso.” Lupus assentiu para si mesmo, puxando suas luvas do bolso. Sieghart tentava esconder os dedos embaixo dos braços, começando a congelar.
— Aqui. — Lupus anunciou enquanto estendia as peças de couro forrado. — Não vá perder os dedos.
O moreno puxou com violência as luvas, mas riu com sarcasmo, buscando ser o mais descontraído e deixar aquela nostalgia infantil de lado.
— Vejo que você está realmente gostando de ficar me bajulando, Lupus. O que é agora? Está apaixonado?
O moreno não ficou sério e nem espantado. Não era pessoa de se abalar com esse tipo de brincadeira
— Você está? — Lupus retornou a pergunta.
O moreno deu um sobressalto, seus olhos arregalando e seu rosto corando até as orelhas. Sua face era um forno quando olhou para o apático Wilde.
— Q-Quê?! — Sieghart tentou erguer sua voz, mas seus olhos caíram para os lados e ele não soube bem como, mas seu alcance de voz diminuiu espantosamente. — Eu não estou apaixonado. Desde a Lin não. Como você pode ser tão insensível? Eu estava brincando, não precisava dizer isso, agora eu não consigo pensar direito, Lupus, seu idiota-,
Aí sim o mais velho ficou curioso. Sieghart conseguia ser surpreendente quando algo inesperado acontecia. E não bastava achar que ele era uma criança, mas ele estava agindo de forma quase infantil. E também não parava de falar, sem olhá-lo nos olhos. Suas bochechas coradas. Era... Adorável.
— Oh, você consegue ser bem sincero às vezes. — Lupus disse, estapeando sua cabeça em cima, fazendo-o se calar.
Sieghart parou, olhando com receio o veterano.
— Hein, eu não estava te zoando. Não precisa ficar com essa cara. Pare com isso antes que alguém te veja. Elesis vai achar que eu fiz alguma coisa. — Lupus avisou, lembrando-se que algo assim, mesmo sendo ridículo, podia deixar a ruiva bastante irada.
Sieghart retomou sua postura usual e cuidou para que não parecesse muito constrangido. Tantas coisas para ele se importar, ficar nesse estado lamentável e falando de se apaixonar, especialmente quando tinha um cara o assediando à solta, ele podia acabar numa jaula por pervertidos querendo seu corpo.
“O que estou pensando?” Sieghart apertou os dedos no meio da testa, não entendendo como ele havia chegado a esse tipo de mentalidade. “É impossível que eu esteja na defensiva tanto assim.”
— Oi, Sieg. — Lupus tentou chamá-lo para a Terra, mas o moreno estava perdido.
Nesse meio tempo a ruiva resolveu aparecer, ainda não cansada de sua maratona pela academia, e encaminhou-se para eles à toda velocidade até que agarrasse o corpo de seu primo, este finalmente se dando conta de que ela estava ali.
— Sieghart! — ela disse ofegante. Sua cara retorceu em irritação. — ONDE VOCÊ ESTAVA, PORRA?!
Sacudido pelas vibrações vocais poderosas, Sieghart tremeu dos pés à cabeça e acordou para dar atenção à ruiva.
— Elesis...
Ela arregalou os olhos vermelho-sangue e depois fez uma expressão de choro exagerada, e estranhamente verdadeira.
Tudo o que você pode pensar disso é como ela é estranha. Enfim, ela pegou os braços do primo e o abraçou forte, como se fosse um milagre ele estar vivo. Um exagero. Sieghart pensou que ela choraria.
— Elesis...? UGH!
Mas tudo o que ele recebeu foi um soco no estômago. Essa é a explicação para o som gutural depois de “Elesis...?”.
Ela ficou em pé direito e se recompôs.
— Você tem sorte que eu tenho me controlado o máximo possível hoje. Vai me dizer o que esse Dio te fez? Eu vou matá-lo por te fazer triste!
Sieghart segurou o punho agressivo que balançava perigosamente em todas as direções, incluindo a sua.
— Ahn, entendo. O Jin já falou para você do nosso novo colega? Ele é bem um pé no saco. — suspirou, fingindo seu melhor sorriso. Falar nele era pior do que só imaginar, o nome que saía de sua boca parecia uma quase blasfêmia. Seu estômago literalmente estava dando reviravoltas.
— Bem, Lupus. — ele disse, se virando para o amigo, que parecia tranquilo agora em deixá-lo ir. Com a Elesis ninguém faria nada a ele. — Obrigado por me ajudar. Você me salvou.
O veterano fez um movimento de respeito com a cabeça, algo que ele fazia quando estava tudo perfeitamente bem. Assim, deixou que ele arrastasse a ruiva para longe.
Pensando bem na situação, ele sentia-se irresponsável. Elesis não podia ficar sozinha sem ele tanto tempo. Era milagre ninguém ter ido procurá-lo para pedir que controlasse a prima, que normalmente estaria espancando alguém ou destruindo alguma coisa. Agora se ela tivesse algum ataque era melhor que fosse com uma das únicas pessoas naquele colégio que realmente mereciam apanhar. Tipo Ronan Erudon, aquele rabo de cavalo, viciado em chá, espada fina e atualmente o Fiammeggianti, lógico. Este entrou para sua lista negra desde que se conheceram.
Suas sobrancelhas juntaram-se de raiva e de receio. Dio causava-lhe arrepios, mas ele também não queria ser um fraco que não podia bater de frente com ele – o que era meio controverso já que agora ele estava fugindo.
— Elesis?
— O que foi, Sieg? — ela perguntou, finalmente soltando seu braço e voltando a caminhar normalmente ao seu lado.
— Posso dormir com você hoje?
Ela parou de andar. Seus lábios abertos.
— M-Mas, Sieg, eu...
Os dois casualmente foram interrompidos pela presença de uma pessoa logo na entrada que levava aos dormitórios masculino e feminino. Foram recebidos pela garota Eruell.
— Cher! Como pôde me abandonar com aquela estrranha?! — ela exclamou, segurando as mãos de Elesis nas suas. Sieghart viu como elas tinham exatamente a mesma altura e comprimento de cabelo. Exceto as medidas do busto, Elesis não era tão avantajada como deveria naquela área.
Elesis ficou sem graça assim que colocou os olhos na expressão verdadeiramente magoada da francesa, entreolhando-se com Sieghart e não sabendo o que dizer.
— Me desculpe Lire. Eu precisava encontrar o Sieg.
A garota loura não falou nada, mas era óbvio para Sieghart o que ela achava disso. Seu olhar esgueirado para o moreno foi uma faísca de ciúme bruto, contudo, ele ignorou. As coisas já estavam suficientemente complicadas.
— Hm. — a loura ergueu uma sobrancelha para ele, parecendo analisá-lo de cima a baixo. — Sou a parrceirra de quarto de Elesis Cher. Você é Sieghart?
— Isso. — Sieghart fez uma saudação de acordo e sorriu levemente, voltando-se para Elesis. Não podia deixá-la escapar. — Ruivinha, por favor, me deixe passar a noite no seu quarto. Hoje, apenas hoje! Te imploro!
A ruiva ficou pensativa, o que normalmente não acontecia quando ele pedia algo, mas ela consentiu mesmo assim.
— Você vai nos levar, nós duas, para uma daquelas boates legais que você vai nos finais de semana da próxima vez. É uma promessa, ouviu? — ela exigiu, puxando seu braço num pedido forçado.
“Droga, Elesis, você me acertou no lugar certo!” Sieghart chorou mentalmente.
— Tá bom. Eu levo.
— Nós duas. — Lire interrompeu, apontando a si mesma e a ruiva, segurando o braço livre de Elesis.
O Presidente não teve como contestar.
“Para não ver a cara de Dio, ao menos hoje... Acho que vale a pena.” Sieghart suspirou, pensando em quão covarde estava sendo.
Continua
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