Notas iniciais
(Capítulo revisado) Yo minna-san o/! Aqui está mais um capítulo de IC, feito com muito amor. Agradeço muito os comentários anteriores e espero que tenha sido bem escrito. Boa Leitura!

— Eu me lembro de tudo. — disse baixo, apenas para si. Seu coração acelerado parecia não querer se acalmar e, de forma sutil, Sieghart se viu correndo para um banho frio, que depois de segundos foi para quente. — Eu sou um fracasso... Eu beijei um homem.

Sieghart se deu conta disso quando acordou e ouviu o relógio tocar às 6h. Céus, ele não tinha dormido nada e ainda precisava ir à aula. Ele teve ainda que acordar Ryan e Jin. Já Lupus tinha ido por conta própria sem se apiedar dos amigos e deixando-os a própria sorte.

— Nunca vi alguém levantar depois de beber tanto como ele. — reclamou o ruivo de olhos verdes. — Isso é irritante.

— A cara dele nem muda. Acho que ele tem álcool correndo na veia ao invés de sangue.

Riram enquanto entravam na sala.

O 3º ano estava cheio, o professor ainda ausente e muitos grupos previamente formados conversavam sobre os mais recentes acontecimentos.

Uma garota ruiva sentada ao lado de uma loura levantou de sua carteira para os recém-chegados e veio balançando sua calça larga negra de penduricalhos de prata até estar de frente com o representante da turma.

— Sieg, onde você estava que não responde no whats, seu bastardo?! — ela questionou alta e agressiva, dando um soco no ombro do moreno.

O rapaz segurou o xingamento de dor, olhando para sua querida prima com reprovação. Ela empinou o nariz meio que dizendo: “Que é que você vai fazer? Eu te arrebento”.

— Olhe aqui ruivinha... Eu estava dormindo, eu sou muito ocupado se não percebeu. Não tenho tempo para ouvir seus problemas amorosos.

Ela franziu as sobrancelhas cor de fogo e estreitou os olhos cheios de fúria contida. O cabelo longo estava preso em rabo-de-cavalo e descia por seu ombro nu. Vestia uma camisa sem mangas do colégio e colada no corpo, mostrando boa parte do abdômen e o umbigo. Atlética, ar de machona e, mesmo assim, uma gostosa (era o que todos os babacas diziam, pelo menos).

— Quem falou em problemas amorosos? — ela retrucou, sentida. — Só queria falar com você.

O moreno não disse mais nada e ela suspirou.

— Não importa. A Karina quer que você vá falar com ela agora.

— Tch. — Sieghart estalou a língua. “Espero que ela não saiba o motivo”. — Eu já vou então.

Ao dar as costas, a ruiva segurou os dois outros antes que pudessem escapar e apertou-lhes os braços até o sangue estar passando por um fio apenas.

— E-Elesis! A-Ah! — as lágrimas acumulavam nos olhos dos ruivos, incapazes de revidar a garota.

— Onde vocês estavam? O Sieghart transou com alguém sem eu saber? — os olhos dela pareciam incinerar os dois, cada vez mais gelados de medo.

— A gente fala! Mas solta, por favor! — ela apertou mais forte.

— Por favor, eu imploro! Solta, você vai arrancar meu braço!

A ruiva os largou, balançando o cabelo convencidamente e cruzou os braços.

— E então?

Ryan estava abrindo a boca quando a loura que se sentava com Elesis se aproximou do trio com uma expressão ao mesmo tempo tímida e altiva.

Lire Eruel tinha olhos verde-esmeralda analíticos, nem tão ameaçadores quanto os de Elesis, nem tão gentis quanto os de Jin (para quem não sabe ainda, os olhos dele eram muito gentis). Era simpatia e firmeza num só ser. A novidade é que ela era uma aluna nova do 3º ano, transferida de um colégio feminino da França.

Aproximando-se de Elesis, lançando olhares intimidadores para os dois ruivos, ela parou um pouco atrás da parceira, mantendo a distância segura. E disse:

—Cher, parre de fazerr isto. Está machucando eles.

O tom de voz era ideal. Apesar da postura tímida, ela tinha dominância na voz, e o mais incrível era sua coragem para enfrentar a filha do Investigador da Interpol, Elscud Sieghart, e também a mulher mais forte do Reino Unido: Elesis Sieghart.

Mais inesperado ainda foi a ruiva apenas dar de ombros. Para as vítimas, ela lançou um olhar de “Vocês escaparam só por enquanto”. E Jin e Ryan já sabiam que depois da aula a resposta verdadeira, exata e com detalhes a pronta-entrega deveria estar na ponta da língua. Ou senão... Vocês já viram uma amostra.

As garotas então se afastaram, conversando sobre os horários das aulas e refeições.

Enquanto isso na sala da diretora, Sieghart se via novamente no divã se sentindo o maior desgraçado da face da Terra. Logo no momento da entrada, ele olhou para a mulher, que usava óculos para leitura e arqueou a sobrancelha. Ela tinha um sorriso largo no rosto.

“Mas o que-?”

E perguntando-se o porquê dessa afronta – esclarecendo ao caro leitor que Karina jamais sorrira na frente de Sieghart – o moreno olhou para uma das poltronas de espera, seguindo os olhos rubis da mulher.

De alguma forma, Sieghart sentiu reconhecer a figura ali, bem acomodada, pacífica, com as pernas e braços cruzados. Era familiar e lhe dava arrepios. Sua boca começou a tremer e sua garganta a secar. Foi quando o Presidente ofereceu um:

— Oh, quem seria você? — cinicamente, e tentando convencer a si mesmo que aquele, de forma nenhuma, nem no inferno, era quem ele pensava ser.

Completa ilusão. Sem dúvida alguma aqueles olhos afilados, mortalmente ameaçadores, pertenciam ao cara da noite anterior. Não que Sieghart se lembrasse bem do rosto ou de qualquer outra característica mais aprofundada. Depois daquele súbito inconveniente, o qual Sieghart mal sentiu o gosto, apenas pode sentir a umidade das línguas e a carne se esfregando (algo que ele não queria lembrar) por causa do amortecimento do álcool, ele só se lembrava de ter visto dois olhos realmente profundos e perigosos.

Karina ainda não tinha se livrado do maldito sorriso, mexendo as unhas pintadas de negro pelo encosto da poltrona, como se soubesse exatamente dos eventos da noite anterior. E, infelizmente para Sieghart não havia nada que ele pudesse fazer além de sorrir e acenar.

Diferente do que nosso Presidente esperava, o fato de ele se fazer cínico não irritou o rapaz ali sentado.

“O que me leva a duas hipóteses: a primeira, ele acredita que eu estava muito bêbado para lembrar; segunda, ele está blefando, assim como eu.” Pensou Sieghart com astúcia, analisando o espécime atrevido que tinha ousado tocar a boca com a sua.

Em uma situação normal ele trataria o recém-chegado com rudeza, botando medo e ameaçando-o, como a qualquer calouro. Isso não aconteceu porque a imagem que Sieghart teve foi quebrada devido ao que veio a seguir. A impressão era preconceituosa principalmente, de um homo macho com jeito arrogante e possessivo, de voz melosa e irritante. Veja bem, Sieghart não ficou com ele a ponto de esquecer tudo, mas em nenhum momento tinha realmente prestado atenção à voz dele.

Assim que Karina terminou de sorrir com o aparente sofrimento de seu querido mais odiado, o de olhos ferinos agraciou a sala com sua voz rouca e timbrada com elegância.

— I am Dio Valico Fiammeggianti. It is a pleasure, Mr.

Surpreso, Sieghart tomou alguns instantes para formular algo depois de tanta intensidade em uma frase de apresentação. Claro, deveria ser a coisa mais fácil do mundo dizer o próprio nome, porém, não pareceu tão fácil ali. E como a primeira língua de Sieghart foi o alemão, ele estava bem nervoso. Seu sotaque saiu um pouco mais forte do que o normal.

— I am… pleased. My name is Ercnard Sieghart.

Sieghart tossiu baixo, percebendo como as consoantes de seu nome saíram escarradas demais.

Depois disso, com as sobrancelhas bi-repartidas meio erguidas, o recém chegado sorriu largamente de maneira similar a Lupus, porém, não irônico quando achava alguém extremamente sexy. Mas é claro, Sieghart não pretendia levar essa comparação a sério.

Os olhos fitaram com charme simpático. Não se sabe se ele escaneou o moreno dos pés à cabeça, mas se o fez ele foi realmente sutil.

— Você fala engraçado. — disse com um sorriso sedutor.

Foi aí que Sieghart apostou que o tal Dio sabia de tudo, que o tinha reconhecido também.

Com expressão debochada Sieghart deu um risinho nasal e se voltou para Karina.

— Supostamente, o que eu deveria fazer agora, Karina?

A mulher segurou sua vontade de socar o Presidente do Conselho Estudantil apenas para não fazer feio na frente de alguém tão importante.

— Supostamente, — disse em voz rascante para o moreno. —, você deveria acompanhar o Sr. Fiammeggianti pelo colégio. Por acaso o senhor não é um monitor? E também o Presidente do Conselho Estudantil, como também o Representante da Academia Real? Devo adicionar mais algum título ou o senhor poderia apressar o tour particular do Sr. Fiammeggianti?

Sieghart pronunciou um xingamento mental, voltando-se para o inconveniente novo estudante com um sorriso meia boca.

— Ah, apenas Dio está bem. — o rapaz sorriu simpático, abanando a mão para a diretora. Quanto menos importante ele parecesse, melhor enturmado ficaria, provavelmente. Se destacar naquele momento faria toda a graça da viagem se perder.

— Então devemos ir, Sr. Fiammeggianti. — forçou o Presidente.

O italiano assentiu passivamente, se levantando para acompanhar o mais baixo, só que aí percebeu que a diferença de altura era de pouco menos de um palmo. Sieghart dirigiu um olhar rude para a mulher e foi porta afora com Dio em seu encalço.

Assim que a porta foi fechada parecia que o espaço havia sido tomado pela atmosfera do Grand Canyon. Apenas eco e silêncio. O som era apenas a corrente de ar passando entre as lacunas do corredor e se ouvia um único assovio do lado de fora do prédio, feito por algum funcionário à deriva.

A luz do corredor era naturalmente baixa. Ambos caminharam lado a lado e Sieghart não dirigiu nenhum olhar diretamente para o outro. A presença, além de forte, ele confirmava agora, era meio... ameaçadora, mais do que intimidadora, não é a toa que o cara tinha tido facilidade para empurrá-lo na parede.

Era uma sensação estranha... Não sabia bem. Parecia que ia ser apunhalado ou coisa assim...

“O que é que estou pensando?” Riu ele, empurrando os pensamentos para longe, com calma olhando para o outro. Seu corpo tremeu ao lembrar-se da noite anterior. Não só isso, mas também porque, de alguma forma assombrosa, nos olhos do Fiammeggianti havia uma luz que brilhava como sangue e circundava as órbitas, como se ele estivesse planejando algo.

— O que foi? Não vai me mostrar o quarto? — Dio perguntou, seu tom baixo. Ele mesmo havia sentido a tensão ali, mas não fazia ideia de que o garoto reagiria daquele jeito.

Para começar, Dio tampouco acreditou quando o viu entrar pela porta. Mais incrédulo ainda ficou quando a diretora disse que chamaria o Representante da Academia, e adicionou que “Apesar de ele ser um idiota, ele não é um completo idiota. É esperto, carismático. Mas ele pode te levar ao limite, sem dúvida. Por isso, agradeceria se não arranjasse nenhum problema com ele ou estranhasse o jeito dele”.

Sieghart quase sentiu o gosto do beijo em sua boca, embora houvesse apenas sabor de uísque.

— Sim, claro.

O sol começava a entrar por uma janela, iluminando o perfil do moreno de um ângulo perfeito. Dio sorriu ao ver como tinha abalado o garoto e este ainda conseguia manter as aparências.

“Falando em aparências...”.

Os olhos felinos, senão demoníacos, estreitaram. Dio ficou chocado ao confirmar o quanto aqueles lábios, repito, apesar de pertencerem a um homem eram tão maravilhosamente perfeitamente beijáveis.

“Será que estou levando a sério demais?” Dio questionou consigo mesmo.

— Ah, o caminho. — Sieghart se deu conta, refazendo o caminho certo. — Hm, é por aqui. Quer dizer, eu preciso saber: para onde você quer ir primeiro?

Os olhos do moreno se perderam por uns instantes e com uma face desconcertada deu uma volta completa, delatando seu nervosismo.

“Droga, o que está acontecendo comigo?”.

— Eu já falei.

Sieghart encolheu os ombros.

“SÉRIO?!” Gritou o moreno em sua mente.

— Mas antes de qualquer coisa... — Dio começou a falar e Sieghart instantaneamente pensou que ele perguntaria algo como “Hey, você se lembra de mim da última noite?” com aquela voz poderosa e atemorizante. — Eu estou no quarto 623. Soube que alguns dormitórios ficam muito distantes um dos outros.

Sieghart não teria uma boa reação em nenhuma das inúmeras possibilidades de conversa, mas aquilo foi além das suas expectativas.

— Ahn. Sim, é verdade que os dormitórios ficam um pouco distantes, mas apenas o dos universitários. — Sieghart disse, sentindo suar mais que antes e sua garganta ainda mais seca. — Só que você pode repetir o número? Eu posso estar enganado.

Dio a principio desconfiou, certo de que a cara do garoto era de completa desaprovação. “O que pode ser tão ruim no quarto?”

Um arruaceiro? Ou um emo? Ou talvez um nerd? Dio podia lidar com tudo isso facilmente.

— 623. — Dio respondeu.

Sieghart mordeu o canto da boca e baixou o olhar, escondendo sua preocupação.

— Por aqui.

“De todos os colégios, de todos os quartos existentes. Por quê? Por que eu?” O Presidente resmungou no canto de sua mente.

Dio, ainda sem entender apenas seguiu.

Um pouco diferente de antes, a atmosfera estava mais leve. Os dois caminhavam ao passo normal, seus passos fazendo eco pelo corredor vazio, que lentamente ia sendo iluminado pelo sol matinal, realçando as paredes escuras e as roupas assim como os cabelos, e uma sensação misteriosa pairando ao redor, deixando um rastro de vazio atrás.

Sieghart sentiu seu âmago remexendo doloridamente só pela presença daquele cara.

Olhando discretamente, percebendo os sentidos de alerta do moreno ligados, Dio fez uma escolha ao observar as íris prateadas perdidas e confusas. Sentindo desde o início daquela breve caminhada sua pessoa sendo progressivamente puxada para fora de seu corpo, seu coração tocando num ritmo envolvente, seu peito doendo de nervosismo, seus olhos se machucando com o brilho no cabelo negro, tão negro como o fundo do precipício.

“Acho que vou... Pegar você pra mim.” Um sorriso corrompido, verdadeiramente repleto de malícia, alargou-se nos lábios do italiano. “Vou destruir essa sua inocência.” As pupilas do demônio cresceram e depois afinaram, reluzindo com a veracidade de suas palavras.

XXX

Em plenas oito horas da manhã, estavam todos os alunos em suas respectivas salas de aula, recebendo as primeiras advertências dos professores mais chatos e rígidos do universo. Por sua vez, Sieghart estava pensando que teria sido melhor ter ficado e encarado as rugas do Prof. Reinhard do que estar fazendo um tour contra sua vontade com a pessoa mais esquisita que havia “conhecido” e que, provavelmente, deliberadamente, havia na noite anterior arrancado de si à força um beijo, aliás, muito erótico. Mas não esqueçamos a cereja do bolo: Sieghart é um belo de um homem, mas um belo de um homem hétero.

“Isso me deixa triplamente puto.” Trincou os dentes.

— E então? Você sabe quantos moram aqui? — perguntou o recém-chegado.

Dio na verdade não queria saber disso. Tudo o que importava ali no momento era manter uma conversa informativa o suficiente para poder importuná-lo depois com uma boa desculpa.

Uma expressão de seriedade não era o bastante para enganar os sentidos bem treinados do herdeiro mafioso. Uma timidez muito bem disfarçada se manifestava sutilmente, muito sutilmente, pela coloração avermelhada nas pontas das orelhas e nas maças do rosto, Dio analisava cuidadosamente.

— Bem, nesse quarto exclusivamente ficam um universitário, que é especial...

“Esse é o problema? Um universitário?” Dio imaginou antes de Sieghart continuar.

— ... E mais dois do terceiro ano. Jin Kaien, que é o capitão do Clube de Kung Fu, e eu. É isso, acho que vamos ser companheiros de quarto. — Sieghart disse, passando a mão na manga da própria camisa, sem saber exatamente como agir na frente daquele ser. Também, ele não tinha demonstrado ainda que o havia reconhecido e Sieghart estava torcendo para que isso não acontecesse, embora não ter a certeza o deixasse cada vez mais aflito.

A realização tocou o cérebro do jovem italiano.

“Cazzo, eu não esperava por isso.” Dio tirou os olhos do outro, tentando assimilar como todas as situações poderiam estar tão convenientes assim. Além de que aquela carinha envergonhada, de total insegurança, estava o deixando já bastante imaginativo, como por exemplo, eles dois em cima da cama e Dio fazendo o moreno gemer com uma de suas técnicas manuais.

“Mas deixando isso de lado agora. Só pode ser um jogo, um bem sem graça, de algum deus sádico que quer me ferrar.” Um segundo depois Dio tinha uma gargalhada quase escapando pela boca com um pensamento: Não fazia nem quatro horas que tinham se visto e um cupido insano o havia feito achar esse tal de Sieghart “uma graça” de tal forma impertinente que de repente Dio estava com vontade de se suicidar.

Assim que voltou o olhar, Dio constatou que uma pessoa medianamente máscula podia ser sexy e fofa ao mesmo tempo, ainda que esses dois padrões geralmente nunca fiquem unidos. Isso mexeu mesmo com sua cabeça.

O moreno cruzou os braços, esquecendo um pouco da questão do beijo.

— Ah, mas parece que você não trouxe malas ou coisa assim. Trouxe? Senão acredito que foi meio inútil ter te trazido aqui agora.

Dio apertou o punho ao ouvir as palavras saindo daquela boca tão estranha e atraente. As perguntas na cabeça de Dio dobraram.

“Por que eu só fico pensando na boca dele e por que ele é tão fofo? Porra, se ele parasse de falar com esse sotaque e me olhasse nos olhos... Mas os olhos dele não podiam ser menos brilhantes? Parece uma garota... E o cheiro? Que cheiro de madeira bom...” Dio arregalou os olhos. “Que merda, eu tenho que parar de pensar!”

Sieghart abaixou o queixo, constrangido duplamente pelo olhar e pelo silêncio perturbador se instalando no quarto vazio.

— Hm. Se você não trouxe... Sinceramente, as aulas são chatas e o primeiro dia é apenas um questionário longo e desanimador. Acredite, os professores nem são mulheres e as poucas que tem não são as mulheres dos nossos sonhos. — Sieghart disse, em seguida se repreendendo. “Como você vai falar de mulheres para um cara gay que te agarrou no meio do clube do nada?”

Sieghart estremeceu. Estava um pouco confuso ainda porque aquilo nunca havia acontecido com ele. Pior, com ninguém que conhecia! E ele não era tão aberto para aceitar qualquer um invadindo a privacidade de sua boca e encoxando-o na parede.

“Argh!” o olhar prateado caiu no semblante aparentemente desinteressado do Fiammeggianti. “Fiquei falante demais”.

— Hm, se você diz. — Dio ergueu uma sobrancelha. Era sua impressão ou o moreno estava ficando levemente amigável?

Ainda não foi dito, mas Dio pensou durante aquela madrugada inteira no beijo. Como esquecer a sensação de suas mãos no corpo de outro homem? Tipo, outro ser que também beija mulheres, que tem um pau também, que tem bolas?

Dio não era do tipo, de maneira nenhuma, de ficar lembrando e repassando em sua mente cada momento que passava com outra mulher.

Não. Ele, focado, inalcançável, um perfeito astro pornográfico, nunca tinha sentido o desejo subir à cabeça, nunca tinha ficado excitado só por lembranças. Porém, ele jamais um dia tinha ficado tão leve após se satisfazer apenas com masturbação. Ele não era mais um adolescente e, aliás, desde os quatorze já era capaz de deixar uma menina mole só com as mãos.

Então por que exatamente ele havia sentido tanto tesão apenas assediando um pouquinho uma pessoa qualquer e um homem?

“Não sei dizer por quê... Mas sei que mexeu comigo de verdade.”

Dio deu um passo à frente. Ele não entendia das baboseiras do amor, mas não era tão idiota para deixar escapar um sentimento tão único como esse. Havia sim suas dúvidas, pois ele achou Sieghart tão especial que sua vontade era de fazê-lo sofrer um pouco. Também, seria um tédio se ele ficasse seis meses sem sexo. O que havia a perder? Os dois tinham tido uns bons minutos e agora no mesmo colégio e até no mesmo quarto ele tinha vantagens estupidamente maiores para fazer o que quisesse.

Sieghart, percebendo que o outro não prestava a atenção em nada do que dizia, começou a ficar preocupado. Retrocedeu um passo inconvenientemente mais perto da escrivaninha.

— Então. O que você quer fazer agora? — Sieghart perguntou, já não sabendo mais o que deveria fazer para tirar aquele olhar perturbador de cima de si. Ele viu o italiano dirigindo os olhos para uma cama e de novo para si. “Oh, meu Deus, não! Ele não-,”.

O peito de Dio encheu com todo o oxigênio necessário e as batidas de seu coração pareciam ecoar por suas veias até seu cérebro. A cara de Sieghart era a melhor, os olhos completamente assustados, a boca entreaberta, os ombros tensos. Era tão óbvio que ele estava morrendo de medo, mas ao mesmo tempo estava curioso, que Dio não conseguiu controlar seu sorriso sádico e as palavras que lutavam para sair.

— Engraçado... Você não deveria perguntar para onde eu quero ir? Estamos em um tour, se lembra?

Dio se aproximou do moreno em segundos.

Sieghart em um quase salto bateu a lombar na escrivaninha e suas mãos se apoiaram na madeira, paralisado com a aura ameaçadora do outro.

Enquanto o italiano o encarava nos olhos e se inclinava, sua mão se esgueirava na madeira e seu torso ia cobrindo o espaço de fuga de Sieghart.

— E-Então devemos ir para as quadras? — Sieghart gaguejou, suando frio e se encolhendo ainda mais perante a aproximação. “Não venha, não chegue mais perto!”. O cheiro forte de perfume do italiano entrava por suas narinas, deixando-o ainda mais desesperado. A boca ia entreabrindo e Sieghart pôde ver os dentes branquíssimos, os caninos pontudos e pensou que ele se parecia cada vez mais com um demônio.

— Claro que não. — Dio disse baixo quase encostando em seus lábios. Seu hálito era fresco e fez Sieghart piscar e olhar para baixo. Foi engraçado.

O Presidente ficou em silêncio, esperando o que quer fosse. Seus olhos permaneceram baixos, desviados, sem coragem suficiente para olhar no rosto de Dio, por isso a única coisa que se concentrou foi a colcha marrom que Lupus usava.

Dio aproveitou esse instante para tocar os fios negros que caíam no alto da bochecha, rebeldes e charmosos. Teve vontade de rir quando viu o rubor subindo no rosto do Sieghart.

— Você não parece estar se dando conta da cara fofa que está fazendo.

O rosto de Sieghart ardeu em chamas.

— HA?! — Sieghart exclamou, num ato de surpresa e incredulidade estapeando a mão que segurava seu cabelo e fixou os olhos com a mesma frieza palpável da noite anterior. — Okay. Já sabemos o que está rolando aqui. Vamos deixar uma coisa clara, então Fiammeggianti? Não me toque. Não fale comigo e não me olhe diretamente nos olhos. Caso contrário-,

E Sieghart só teve tempo de ver os olhos do italiano fecharem. Um segundo depois ele sentia seu pulso esquerdo sendo segurado fortemente e uma mão possessiva em sua nuca. Seus rostos tão próximos que ele pôde ver a gota de suor escorrendo.

Sieghart até fechou a mão, mas Dio puxou seu pulso com força para si e com facilidade o corpo dele novamente encaixou com o seu. O sorriso do italiano aumentou, igualmente com a raiva do alemão.

— Você não vai fazer o que disse? — murmurou o italiano quase nos lábios do mais baixo.

— O quê? Do que está falando? — rangeu os dentes Sieghart, movendo-se minimamente, sentindo sua virilha roçando na do italiano de um jeito desagradável. Dio sorriu com isso, esfregando-se levemente nele e tirando-lhe uma cara de desespero visível. — Pare com isso agora!

— Sua cara estava tão séria ontem à noite... Mas agora...

— Calado-,

— Não esperava ficar logo no seu quarto, Ercnard Sieghart.

Um arrepio subiu o pescoço do moreno, os dedos de Dio o acariciaram e outro movimento na segunda metade de seu corpo foi suficiente para deixá-lo levemente excitado.

— Mas que merda-,

Dio puxou sua nuca e não adiou mais o seu segundo e merecido beijo. Sieghart esperneou no início e tentou se soltar, suas pernas mexeram, mas com o abdômen Dio o manteve no lugar, quase sentando-o em cima da mesa.

— Hm...

O italiano forçou a língua, sentindo a resistência diminuir enquanto esfregava seus lábios nos dele. Seu nariz roçava no de Sieghart e sua respiração era forte, sua mão na nuca massageava os cabelos e devagar ia subindo, infiltrando nas mechas unicolor, apreciando a maciez, prendendo o nó dos dedos nelas.

Sieghart apertou os olhos, sua mão livre agarrou-se na camisa do italiano e sem uma reação correta, ele aceitava o beijo, e às vezes não. Quando sentiu a língua entrando em sua boca, sentiu-se sujo, e quando Dio encostou na sua e começou a enrolar e chupar, sentiu um convidativo prazer. Seu pulso em algum momento foi solto e seus lábios mexiam sem parar, velozes e insaciáveis, lutando pela dominância sem conseguir. Sieghart não se deu conta que ele já estava participando e sua outra mão também foi para o ombro do Fiammeggianti. Ele também sentiu seu ar fugindo, sendo sugado para dentro da boca viciante que o fazia derreter. Mas quando as mãos começaram a tocá-lo pelas costas e pela cintura ele se sentiu como no dia em que deitou-se com uma mulher pela primeira vez. Ele se sentiu pressionado, temeroso e seu coração pedia bruscamente para parar tudo e esquecer aquilo.

Assim que a noção do tempo voltou, Dio levou um empurrão que o afastou a um metro de distância quase. Ele arrumou a roupa, pensando no quanto o moreno havia demorado em reagir mal. Assistiu Sieghart limpar a boca e tomar ar até se acalmar. O rosto dele não retomou a cor normal em nenhum momento.

Sieghart o fitou depois de ficar mais calmo.

— Não faça isso de novo. Foi a última vez. — disse, sua boca meio que tremendo, e se afastou da escrivaninha, pretendendo sumir das vistas de qualquer um por algum tempo. — Agora você sabe onde fica o quarto. Qualquer monitor que você solicitar pode te ajudar a conhecer a Academia. Apenas não chegue mais perto de mim.

Dio não parou Sieghart quando ele abriu a porta. Mas Sieghart não duvidava que o italiano o segurasse e o violasse, sabe-se lá. Dio até que se sentiu tentado, mas não o fez.

O som da porta fechando foi o limite que comprovou as realidades em que eles viviam. Novamente.

— Hm. — Dio passou os olhos pelo quarto e deduziu que a cama de colcha xadrez devia ser do moreno, uma vez que a de colcha vermelha de chamas parecia ter saído de um comercial da Hot Wheells e o criado mudo da cama marrom tinha uma foto de um cara mais velho com a família. A outra cama estava feita com a cor padrão branco e esta seria a sua.

Dio andou até a cama xadrez, deitando nela. O cheiro não deixava dúvidas... Era natural e aconchegante.

— Hm... Acho que estou indo longe demais por causa de uma intuição idiota. — resmungou consigo mesmo, virando-se de barriga para cima e sentindo o sono vir com força, especialmente depois da madrugada cheia que teve.

O rapaz não viu, mas a porta havia aberto e fechado. Consequência do sono forte.

— Acho que você errou de cama?

Dio abriu um olho, bufando. Não havia melhor hora para um ser insignificante atrapalhar seu momento? Depois do segundo melhor beijo que teve na vida? E ele estava quase dormindo para ter algum sonho pervertido com seu desejado Ercnard Sieghart. Ele tinha mesmo que aguentar alguém muito cuzão desfazendo o clima?

— Não errei de cama. Apenas gostei dessa aqui.

Dio olhou melhor e se deu com uma pessoa ruiva, olhos dourados, não muito feliz com expressão parecida com algo perto de irritação.

— Não importa. Você é Dio Fiammeggianti, não? Nosso novo parceiro de quarto. Eu sou Jin Kaien.

— Ah, sim. O do Kung Fu. — Dio rolou na cama e levantou-se. Os olhos do ruivo diziam saber do que havia acontecido entre Dio e Sieghart, o que era muito estranho já que não fazia nem cinco minutos que o moreno havia saído. — Oh, sua cara está dizendo que você não gostou muito de mim. O Sieghart te disse alguma coisa?

Jin ficou surpreso um instante e depois ficou sério.

— Não sei o que aconteceu, mas a cara dele disse tudo. Sou amigo dele há muito tempo e posso dizer que a causa é bem óbvia. E, claro, deve ser você. Sieghart nunca ficaria do jeito que eu o vi por nada. — Jin acusou, indo até uma cômoda para pegar uma troca de roupas.

— Huh. — Dio sorriu. Era bom lembrar, muito bom.

— Eu espero que você pense bem antes de mexer com ele. — Jin ameaçou e bateu a gaveta, olhando para Dio sem um traço sequer de medo ou contenção. Dio ficou interessado pela reação do amigo ruivo.

— Ah, sim. Por que ele é o Presidente do Conselho Estudantil e também tem cargos muito importantes nessa Academia, não é? É bom não deixa-lo estressado com nada. — Dio sorriu largamente. — Ou teria outro motivo?

Jin abriu a boca, pronto para desferir algum bom argumento, mas foi interrompido.

— Espero que não. Afinal, ele é hétero, não é? — Dio riu zombeteiro e deu as costas, saindo do quarto sem deixar o ruivo rebater.

Com o corredor dos dormitórios em sua visão, Dio desfez qualquer sorriso. Estava entediado.

“Onde será que ele deve estar agora? Ele ficou tão abalado só com isso?”.

Continua

Notas finais
That's it guys! Agradeço por terem lido o capítulo e espero seus comentários, observações e críticas. Um abraço e até mais! —AoKiriDay