Identity Crisis

1 C00. Initiation


Notas iniciais
(Capítulo revisado) Olá, sejam muito bem vindos! Peço que leiam com atenção e que mantenham as luzes acesas ao ler. Espero que gostem da minha nova história e que tenham uma boa leitura!

A cidade fria. Como já era esperado.

Para um primeiro dia de aula, o sol poderia dar pelo menos um “Olá” por detrás das nuvens cinzentas. Não seria muito agradável dar as boas vindas para os calouros do segundo semestre com os dentes batendo. Não seria muito motivador.

— Bom dia, Sr. Sieghart. — cumprimentou um homem de meia idade e terno de risca, um professor, quando passou ao lado. No braço pilhas de prováveis testes de conhecimento, bastante desagradáveis, que eram sempre aplicados no volta às aulas.

O jovem que caminhava despreocupadamente, vestido com o uniforme mais monocromático que um dia já existira – blazer e sobretudo preto, camisa branca, gravata preta, sapatos oxford, luvas e cachecol marrons –, acenou com a cabeça sem pronunciar uma palavra e seguiu em frente, onde os jardins gelados o levariam para os prédios principais.

— Ah! — exclamou a segurança na entrada, acenando com a cabeça brevemente. — Bom dia, Sr. Sieghart.

Novamente ele acenou e fez seu percurso até finalmente chegar à sala da diretora. Ele parou um instante, como se avaliando se devia avançar ou se podia deixar o assunto para depois. Seus olhos claríssimos pousaram hesitantes na maçaneta, exageradamente adornada a ouro, e no nome da dona da sala escrito na placa de metal dourado.

— Hm. — ele resmungou baixo, ajeitando a bolsa no ombro. A porta de cedro cujo entalhe era a Via Sacra abriu sozinha, revelando uma mulher alta de cabelos arroxeados lindamente ondulados.

— Sieghart. — ela disse, fazendo uma expressão indiferente. — Se você já chegou aqui, então não espere para bater na porta. Por acaso planeja passar o dia aí em frente?

Ela deu as costas e, com sua longa túnica violeta mesclada com branco, foi se sentar à mesa. Ele deu de ombros e entrou também.

— Bom dia para você também, diretora. — ele respondeu com muito pouca educação e se jogou no divã vermelho que ela estranhamente tinha. — Já que você tem essas câmeras do lado de fora, eu acho, mas só acho, que não preciso bater.

— Melhor você medir suas palavras, moleque. Lembre-se de que você não está na sua casa. — a mulher estreitou os olhos mortalmente vermelhos.

— Tanto faz. O que eu vim conversar é que eu pedi semestre passado que mudassem minha prima de quarto e isso ainda não aconteceu. — Sieghart disse aborrecido, cruzando os dedos.

— O que acontece, meu caro, é que sua prima, por mais que você se negue a aceitar, é menos perigosa no quarto em que está agora. Aceite isso se quiser que ela continue estudando nessa Academia.

— Mas Karina-!

— Um segundo! É “diretora” e “senhorita” para você, Sr. Sieghart. Preciso repetir? Você não está em casa. Isso é a Elite, não sua sala de estar. Comporte-se como tal.

— Hnf. Por isso odeio os Erudon... Tão certinhos.

— Pare de resmungar. Você é criança? Vá direto para a cerimônia ou vai se atrasar. Acredito que você valoriza sua posição o suficiente para não chegar atrasado. Está dispensado.

XXX

Os alunos novos não possuíam nada de especial. Eram comuns, fracos, “cheios de dedos”, pouco visionários e totalmente dependentes de atenção. Além de extremamente mimados.

— Quem é esse cara? Ele anda por aí se achando o máximo. — ouvia-se os burburinhos ignorantes no meio do enorme salão de cerimônias, decorado especialmente para iludir os recém-chegados ao inferno.

— Ele é tão lindo! — sussurravam as infelizes recém-menstruadas do primeiro ano.

Sieghart não se irritava com nada isso, mas quando comentários xenófobos parecidos com “Ele é o representante da Academia?!”, “Mas ele é estrangeiro, não é?”, “É um mauricinho dos piores.”, vinham à tona, ele simplesmente não conseguia se segurar. Dessa vez não foi diferente.

Ele subiu ao palco, cumprimentando todos os responsáveis e tomou o microfone. O salão silenciou assim que ele fez sinal que falaria. Sua apresentação foi rápida e clara tanto quanto é possível.

— Bom dia a todos. A Academia Real de Londres tem o prazer de dar as boas vindas aos ingressantes deste semestre. Todos temos a graça de receber pessoas tão talentosas para fazer parte dessa grande família. Eu mesmo sou um grande exemplo disso. — ele sorriu docemente. — Meu nome é Ercnard Sieghart, estudante do 3º ano, e fui lisonjeado com o convite para fazer o sermão de entrada. É bom que todos aqui lembrem meu rosto, okay?

As meninas trocaram risinhos enquanto a curiosidade aumentava.

— Apesar de minha ascendência alemã e minha dificuldade com a cultura inglesa, eu aprendi muito nessa academia, o que me permitiu realizar muitas funções importantíssimas aqui no colégio. Sou conhecido por ser o Representante da Turma 3-A, também o Co-Capitão do Clube de Futebol, além de representar oficialmente a Academia Real nos assuntos acadêmicos e também tenho tempo para realizar atividades como Monitor e felizmente, por fim, sou o Presidente do Conselho Estudantil. Com isso, é muito provável que me vejam com frequência a partir de hoje.

Depois disso, silêncio. O moreno tinha um sorrisinho no rosto, que soava até diabólico. Ao seu lado, os outros membros do Conselho e os capitães dos demais clubes se divertiam com a situação de constrangimento dos calouros.

O primeiro a se pronunciar foi um rapaz de cabelos de um vermelho-sangue de estrutura atlética fortíssima e olhos dourados tão grandes que estragavam todo o conjunto ameaçador inicial.

— É isso! Vocês ouviram o cara! Eu sou Jin Kaien e sou o Capitão do Clube de Kung-Fu. Recebam os nossos cumprimentos. Adianto que depois daqui vocês vão acompanhar os monitores, pois eles farão um tour para mostrar as instalações e depois haverá um coffe break no Anfiteatro A, onde a equipe supervisora mostrará como tudo funciona por aqui. Depois vocês serão liberados para os dormitórios e amanhã, se preparem, pois sem dúvida vai ter prova!

Sieghart deu um tapa na nuca do ruivo, que reclamou causando interferência no microfone.

— Calado Jin! Você falou para eles. — Sieghart resmungou, agarrando o braço do outro e puxando-o para longe enquanto o outro capitão, um elegante inglês de ar sério e cabelo longo azul, tomava a palavra.

— Isso doeu, idiota. — Jin xingou baixo, massageando o local. — Nem quero saber como é seu chute se o seu tapa é assim.

— Shh. Deixa o viciado em chá falar.

Por um instante Sieghart viu o azulado olhá-lo de canto cheio de ódio.

Obviamente eles não se davam bem. E não era uma coisa de dois ou três dias. Afinal, o Capitão do Clube de Esgrima era ninguém menos que Ronan Erudon, o sobrinho da diretora Karina Erudon.

— Você está fazendo “aquela” cara de novo, Sieg. — suspirou Jin, pondo as mãos nos bolsos.

Ronan terminou de falar cerca de cinco minutos depois e, por fim, dispensar de vez os novatos. Seu olhar para Jin foi condescendente e para Sieghart de genuíno desprezo.

A vontade de Sieghart era mandar o cara para aquele lugar, mas o outro sequer lhe dirigia a palavra, exceto quando era sobre responsabilidades do colégio. Estava claro desde o primeiro ano que algo entre eles não estava bem, seja por questões familiares ou simples antipatia. E embora compartilhassem esse desgosto de ver a cara um do outro, não gastavam seu tempo discutindo ou fazendo conspirações nem competições infantis. Não valia a pena. Ronan não era ingênuo, pelo contrário, era um adulto num corpo de 17.

— Podemos ir? — Jin indagou.

Jin levou Sieghart antes que pudesse haver outra Guerra de Cem anos só através de olhares ali. O corredor principal estava lotado.

— Sieghart, você ainda está reunindo o pessoal para “aquilo”?

O moreno sorriu levemente, esquecendo tudo.

“Aquilo” era uma coisa ultra secreta que ele promovia sem ninguém de autoridade ter conhecimento. Só os seus mais chegados e amigos de extrema confiança faziam parte da “reunião semanal”.

— Sim, só que hoje eu tenho algo especial.

XXX

A Academia Real nos últimos três anos tinha sido tão fortemente modelada nos ideais de Sieghart que era difícil dizer o que fora inventado por ele e o que era regra antes mesmo dele ingressar. Apesar disso o fazerparecer um terrível vilão, ele era o centro de comando, o controle, que fazia tudo dar perfeitamente certo. Ele era total responsável pelas próprias ações e era aceito por ser assim.

O fato de ele mudar algumas coisas sempre era fruto de uma necessidade. Por exemplo: por mais que ele detestasse fraqueza, ele protegia os alvos de bullying. Mesmo que ele se achasse o melhor em tudo, ele era completamente capaz de engolir seu orgulho, como quando acontecia em partidas de futebol contra times adversários ou como quando alguém tirava uma nota melhor nas provas. Ele em sua mente sabia que não era perfeito e se conformava. Sieghart não perdoava quem quebrava os códigos éticos. Ele tinha sim seus preconceitos, mas trabalhava neles.

Agora, faltando poucos meses para prestar o teste da Universidade de Oxford, estava tudo acontecendo do mesmo jeito. Era tão normal que chegava a dar tédio. Sem encontrar a garota especial, sem satisfazer os pais, ser o ideal de todos, comandar tudo sem motivo. Era bonito, corajoso e tinha ímpeto. No entanto, ele não se sentia um miserável, ele estava satisfeito consigo mesmo, pois tinha ótimos amigos e um futuro brilhante, sem compromissos piores. Pense só: filhos inesperados, relacionamentos fadados a acabar, empregos que pagam mal e uma vida de desesperança que leva à depressão. Pelo menos ele não tinha esse futuro à frente.

Após isso tudo, você até pode pensar que Sieghart tem uma vida de milionário perfeita e que ele leva a vida de boas. Que ele segue as regras. Que ele é um macho escroto – bem, isso não é tão mentira. A verdade é que a grama do vizinho é sempre mais verde. A dele com certeza era mais verde, mas cheirava à bosta.

— Hoje à noite temos entrada VIP na melhor boate da cidade, pelo menos o quanto isso é possível em Londres. — ele anunciou, empolgado.

Para esta inocente balada na madrugada, Sieghart iria acompanhado de seu melhor amigo Jin, o brincalhão terceiranista Ryan Woodguard, Zero Zephyrun a pessoa mais quieta que você nunca conheceu, e Lupus Wilde o único estudante veterano de 21 anos.

— Tem certeza que quer fazer isso hoje? Se você chegar bêbado no primeiro dia de aula sua reputação vai cair bastante.

Foi o que Lupus, geralmente calado – o que acentuava seu ar sexy de cara mais velho, ainda mais pela cor de pele bronzeada e o cabelo ondulado louro –, chamou a atenção para o moreno.

— Tenho um pressentimento ruim. — Jin resmungou baixo. Ryan o cotovelou desnecessariamente forte. — Caralho! Se mais alguém me tocar hoje vai ganhar um gesso novo!

— Ah, que nervosinho! Você é quem faz meditação e essas coisas zen, não devia ficar irritado por causa disso. E só para variar, guarda as predições obscuras para você, Jin. Nós temos entrada VIP, você ouviu? — Ryan riu latido, já prevendo a incrível noite que iam ter.

“E isso é o que me deixa preocupado.” Pensou Jin, ignorando seu amigo ruivo também, apesar de tonalidades completamente diferentes.

— Falou tudo. Era isso que eu queria ressaltar nesta discussão. — Sieghart bateu o punho com Ryan.

— Pára de falar assim. É ridículo, Sieg, especialmente quando você tenta copiar o sotaque. — Jin adicionou, incomodado. Lupus concordou na observação.

— Prefiro que você continue escarrando nos “r” como sempre faz. Você só é péssimo tentando falar inglês formal.

Sem que o próprio percebesse e os rapazes espalhados no quarto também, um leve rubor subiu o rosto de Sieghart, mas passou logo.

— E que tipos de roupas temos que usar? – Jin perguntou, cheio de inocência. Ele era um dos poucos amigos de Sieghart que desconhecia o “padrão” da sociedade, uma vez que com seis anos ele foi levado para um mosteiro na China.

— Eu te ajudo com isso. — Ryan se prestou e Sieghart empurrou o garoto de volta na cama em um segundo. — Sieg!

— Você tem péssimo gosto. Não vou deixar você vestir o Jin com qualquer coisa. Eu te deixo para o Lupus e eu mesmo ajudo o esquentado. Se quiser, o Lupus te ajuda também, Zero.

O rapaz de cabelo grisalho apenas assentiu, agradecido.

— Você está deliberadamente jogando suas obrigações em mim? — Lupus bufou, parecendo com muita preguiça para reclamar, mais afirmando que perguntando.

— Claro. Olhe-se no espelho, você vai encontrar o único cara que me faz ter inveja do que ele veste.

Lupus sorriu minimamente com isso, seu sorriso pequeno e enigmático. Até mesmo ele, que no começo não sabia lidar com as pessoas e as achava extremamente desnecessárias, conseguiu criar um laço forte com Sieghart e, mais, se afeiçoar por ele. Tudo porque o moreno sempre fez as coisas sem esperar nada em troca. Era uma amizade descompromissada e por isso funcionava bem.

— Acho que já é o suficiente por hoje. Eu tenho obrigações e vocês devem ir desfazendo as malas. Jin, deixo a minha com você? — Sieghart indagou se levantando da cama e apontando sua mala e guarda-roupa.

O ruivo assentiu e deu sinal positivo.

— 22h em ponto todos aqui para nos prepararmos para a fuga. — o moreno fechou o punho. — Dispensados, vagabundos.

Continua

Notas finais
Estamos aí. Leitores, comentários e críticas me fariam muito feliz e me inspirariam bastante para escrever os próximos :) Obrigada por lerem até aqui e até o próximo!