Identity
1 Prólogo — Incertezas
Notas iniciais
Pov. Cheryl Blossom
Eu devo ter perdido a sanidade, talvez esteja louca, talvez sempre tenha sido...
Por mais que eu tente ignorar tudo o que minha mãe disse, eu não consigo. Não quero escutá-la, sei que ela não entende e nem nunca vai entender os motivos de eu ter queimado a casa, de eu ter escolhido destruir o único lar que um dia tive.
Minha mãe nunca entendeu como eu podia me sentir tão deslocada dentro daquela casa e agora provavelmente entende menos ainda. Aquela mansão, símbolo de orgulho para os meus pais, sempre me trouxe mais lembranças ruins que boas. Nem mesmo quando criança fui feliz ali, vivi sim pequenos momentos de alegria, mas não ouso dizer que fui feliz e depois de todos os acontecimentos simplesmente não suportaria permanecer ali por mais um segundo.
Queimar a casa, foi sim uma atitude impulsiva, porém a única forma que encontrei de tentar purificar meus pensamentos. Certo que pensando bem não tenho certeza se foi uma boa ideia. Apesar de me tranquilizar saber que não vou ter que voltar para lá, agora sou vista como uma louca por todos esses médicos que me prenderam aqui com medo de eu fazer mais uma suposta besteira. Isso porque eles nem sabem do que eu tentei fazer horas antes, se soubessem, eu já estaria sendo enviada para alguma clínica psquiátrica.
No silêncio dessa sala é fácil me transferir para mais uma das minhas lembranças. Meu último diálogo com a minha mãe passa como flash na minha mente. Durante todo o tempo que esperamos pelos bombeiros, a única coisa que minha mãe fez foi me ofender, não se preocupou em nenhum momento em checar como eu estava.
Sua maior preocupação era a casa, a escutei perguntando aos bombeiros se existia possibilidade de recuperar o imóvel, o que felizmente parece não ser possível. Minha mãe se afastou de mim assim que o socorro chegou, ainda posso ouvir os gritos dela me ofendendo, perguntando porque diabos eu tinha destruído a vida dela.
Não que isso me surpreenda, o único filho que ela amava era Jason, e mesmo o amando ela foi capaz de defender o papai. O que ela deve sentir por mim então? A filha, que além de sempre ter sido uma vergonha, também colocou fogo na grande mansão dos Blossom, a única coisa que tinha lhe restado?
Cada uma de nós foi levada para o hospital em uma ambulância e essa foi a última vez que a vi. No hospital me trancaram nesse quarto branco e deprimente sozinha, onde ninguém ousa falar comigo. Mais uma vez as lágrimas escorrem pelo meu rosto. Queimar a casa não foi o suficiente, ainda me sinto vazia, solitária e suja. Ainda sinto falta do meu irmão, ainda odeio meus pais, ainda me odeio por ser filha deles...
— Cheryl Blossom? — disse um novo médico ao entrar na sala. Acenei com a cabeça aguardando para as perguntas que eu já sabia que viriam.
— Boa noite, eu sou doutor Mckenzie, pscicólogo. Como se sente? — odeio esse tipo de pergunta. Como se alguém realmente quisesse ouvir a verdade.
— Ótima. Posso saber por que ainda estou aqui até agora? — se dissesse a verdade muito provavelmente permaneceria presa aqui por um longo tempo, por isso minto.
— A polícia disse que você assumiu ter colocado fogo na sua casa. Isso é verdade?
— Sim — respondi, não há razão em mentir. Minha mãe não permitiu de qualquer maneira.
— Posso saber porque?
— Depois de tantas tragédias, pensei que a nossa família precisava de purificação. Coisas ruins demais aconteceram naquela casa.
— Que tipo de coisas ruins? — o médico nem olha pra mim, passa o tempo todo anotando algo na sua prancheta.
— Foi lá que eu descobri que meu pai tinha matado meu irmão.
— Não posso nem imaginar o quanto deve ter sido doloroso— disse o médico desconfortável— E como você lidou com isso?
— Queimei a casa, como você viu, precisava fazer algo. Não sei se foi uma boa escolha.— disse tentando demonstrar um arrependimento que na verdade não tinha.
— Um pouco drástica eu concordo, mas admiro você ter feito algo. Demonstra que você se importa e isso é importante, mas o que me preocupa era só a casa que você queria, como você mesma disse, purificar? Ou queria tirar sua própria vida?
— Eu não... Não queria me matar. — menti. Ele não sabe sobre o que aconteceu no rio e não precisa saber.
— Tem certeza? Não haveria nenhum problema nisso, sabe, diversas pessoas passam pelo mesmo. Não tem nada de errado em estar doente.
— Não estou doente, não queria me matar. — falei chorando, não queria falar sobre aquilo.
— Tudo bem, se você diz. Segundo seu prontuário, você passou pelo menos vinte minutos exposta diretamente ao incêndio, porque não saiu antes?
— Só queria ter certeza que a casa pegaria mesmo fogo.
— Como você se sentiu depois do incêndio?
— Arrependida.
— Alguma outra vez você colocou sua vida em risco ou a de outros?
— Não, essa foi a primeira vez. — menti de novo.
— Você diria que tem um sistema de apoio em casa?
— Tenho.— nem de perto tinha, mas não queria ficar ali. Não podia, se ficasse terminaria de enlouquecer.
— Cheryl, não acho que você corra risco de tirar sua própria vida, mas me preocupo com os traumas que você relatou. Recomendo que você procure atendimento especializado o mais rápido possível e que busque em seus amigos e na família que lhe resta força para passar por esses momentos — dito isso, ele apertou minha mão e saiu.
Poucos minutos depois um enfermeiro voltou e informou que eu ficaria na enfermaria em observação por aquela noite e no dia seguinte estaria liberada. Dormi mais calmamente que nas outras noites, era bom não estar mais naquela casa vazia e assustadora.
Acordei no dia seguinte, me sentindo em uma espécie de inércia, tomei café e fui liberada. Aparentemente minha mãe tinha pago a conta e saído mais cedo, deixando apenas uma carta que eu hesitei em abrir. Somente já do lado de fora tive coragem. Não era uma carta, não chamaria nem de bilhete:
Não consigo mais. Siga seu caminho que eu vou seguir o meu.
Sua mãe
Não consigo segurar as lágrimas, nunca tive uma boa relação com minha mãe, mas não esperava que ela fosse me abandonar depois de tudo. O que diabos eu vou fazer agora? Não é como se eu tivesse para onde ir. Vago pela cidade por algumas horas tentando arquitetar alguma solução, mas nada me vem a mente. Por que eu tinha que inventar de queimar aquela casa?
Uma possibilidade era pedir ajuda a um dos garotos. Verônica, Betty ou até mesmo Archie, eles não recusariam eu sei disso, porém não sei se posso passar por mais essa humilhação. Não quero mais nada deles e então decidida vou até a delegacia. O Xerife se assusta com a minha visita.
— Está tudo bem, Cheryl? — perguntou ele.
— Preciso de ajuda — respondi tentando evitar as lágrimas que já escorriam pelo meu rosto. Não sei se existe humilhação maior do que essa, ter que pedir ajuda para alguém que até pouco tempo eu considerava inferior a mim.
— O que houve? — quanto mais eu chorava, mas assustado ele parecia ficar.
— Minha mãe... Ela foi embora... — falei entre soluços.
— Para onde?
— Não faço ideia, ela me deixou, não tenho para onde ir. Preciso da sua ajuda...
— Sente-se. Tem certeza do que está dizendo?— entreguei o bilhete a ele e me sentei.
— Ela o entregou a um dos enfermeiros depois de pagar a conta.
— Entendo. Verei o que posso fazer, aguarde aqui. Na mesa do lado tem café e alguns biscoitos caso queira.— odiei ver a pena estampada no rosto dele. A antiga Cheryl o teria repreendido, mas essa nova não consegue reagir, está perturbada demais para fazê-lo.
— Cheryl, entrei em contato com o Conselho Tutelar e eles já estão a caminho para levá-la. Existe alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar? Talvez buscar suas coisas?
— Não tenho mais nada, meus pertences queimaram no incêndio.
— Está com fome? Sede? — a cada pergunta mais clara sua pena se tornava e mais raiva eu sentia.
— Estou bem.
Não sei exatamente quanto tempo permaneci naquela cadeira, sequer olhava para o Xerife, estava distraída demais imaginando o que seria de mim daqui em diante. Serei enviada para um abrigo? Para uma foster family?
Uma parte da minha mente tenta se convencer que certos males vem pro bem e que talvez esse seja um deles. Me distraindo dos meus sentimentos uma assistente social entra. Nós conversamos um pouco antes dela me dizer que uma família aqui em Riverdale está disposta a me aceitar como uma foster kid e que hoje mesmo ela me levará para lá. Não digo muito, não sei se há muito o que dizer, não é como se eu realmente tivesse uma escolha.
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