Ichiban No Takaramono

1 Aishiteru. Demo ne... Sayonara.


A pequena porção de comida fria jazia em cima da mesa, solitária, como a pessoa que a preparou. O silencio que pairava na casa chegava a ser sombrio, como o sentimento de vazio e insegurança depois de uma grande guerra. De certo estava ocorrendo uma guerra naquele momento. No coração de um garoto loiro de olhos azuis havia uma batalha entre o egoísmo e o altruísmo dentro de si.
Com o telefone em mãos e o olhar nos ponteiros do relógio imaginava o seu grande amor sentado em uma mesa farta de comida, lançando olhares luxuriosos a outro homem enquanto levava uma garfada à boca. Imaginava-o esticando seus lábios em um sorriso de canto, como sempre fazia quando estava feliz, e quase podia vê-lo se levantando e andando a passos lentos até o companheiro, cercando-o como uma presa para enfim ataca-lo com seus lábios desejosos. Fechou os olhos e imaginou-o possuindo o outro, seus toques escorrendo pela pele dele com carinho e afeição, seus lábios murmurando palavras doces enquanto escorriam pelo corpo pálido do outro. Palavras que já foram dirigidas a si, toques que nunca esqueceria.
Não estava triste, solitário sim, mas triste não. Já lhe satisfazia poder apreciar o sorriso dele, mesmo sendo dirigido à outra pessoa, ficava emocionado ao ter palavras carinhosas dirigidas a si quando estavam sozinhos, apesar de essas não ultrapassarem os limites do carinho e da amizade.
Tentou manter sua mente nos ponteiros do relógio e percebeu que era quase meia-noite. Seus lábios começaram a tremer com ânsia de desejar-lhe feliz natal. Olhou novamente pro telefone em suas mãos, não sabendo exatamente o que fazer com ele. Morava com o seu amor desde que se recordava, tendo partilhado inúmeras vezes da mesma cama e brincadeiras quando crianças, no mesmo quarto, no mesmo orfanato. Lembrou-se quando ele lhe deu o primeiro beijo, prometendo que sairiam daquele lugar triste e solitário. Naquela mesma noite prometeram nunca se separarem um do outro, e até hoje essa promessa insólita é cumprida.
Levantou-se e subiu as escadas, arrastando o corpo pela parede e parando no meio de duas portas, uma em frente a outra. Sentiu um cheiro familiar naquele cómodo. O cheiro do café da manhã cuidadosamente preparado pela irmã dele, e lembrou-se deles se levantando ao mesmo tempo e parando um em frente ao outro, dizendo “Bom dia” um ao outro enquanto em seus lábios havia um sorriso travesso se lembrando das trocas de caricia daquela noite.
Não chorava. Tinha apenas um sorriso no rosto. Podia não ser mais feliz, mas não era infeliz como achava que seria. O motivo de sua vida era um sorriso nos lábios do amado, e não do seu. Ahh! Aquele sorriso que esquentava sua alma e arrepiava todo seu ser. Mesmo que fosse apenas um sorriso de canto este já transmitia toda a felicidade que seu dono sentia. Olhou novamente o telefone, perguntando-se se seria imprudência sua ligar enquanto ele provavelmente passava uma noite deliciosa com seu novo companheiro.
O telefone tocou. Custou-se a acreditar nisso. Pensou que era apenas seu coração lhe pregando peças ou uma utopia sua. Não era.

- Moshi, Moshi? – Sua voz, tremula ao proferir a simples saudação, foi seguida de silencio, como se a pessoa do outro lado da linha estivesse medindo suas palavras

- Olá Al... Espero que não esteja se sentindo sozinho. — A voz do outro lado da linha veio carregada de culpa, enraivecida consigo mesma.

- D-derek? É claro que não! Estou na companhia de meus CD’s! Sabe que sempre preferi o som das vozes de Sonata Arctica ou de Épica do que de meros estranhos.

- Tsc! Só você mesmo. Como se eles não fossem estranhos...

- Pra mim as vozes são muito familiares e aconchegantes! – Rebateu, sorrindo.

- Ok, ok. Não te liguei para discutir isso. Te liguei para desejar-lhe um Feliz Natal, ou achas que eu teria me esquecido de vc?

- Não... – Tinha vontade de gritar sim, mas não faria nada para estragar o natal dele. Estava ocupado demais sentindo um liquido quente escorrer por sua face e seu coração se acelerar. Estava tão feliz... tanto que poderia sentir seu coração se derreter de tão quente que seu peito estava.

- Então? Não vai me dizer nada ? – Indagou a outra voz.

- F-Feliz Natal Derek! Tenha um ótimo Natal!

- Obrigado. – De alguma forma a voz do outro lado saiu amargurada, sendo seguida por alguma voz ao fundo

- Derek? Você está ai?

- Ahh! Sim. Aiko quer falar com você. Posso... passar o telefone pra ele?

- Claro! Eu também quero lhe desejar um feliz natal – “O outro” – pensou. Mas apesar de tudo que este lhe fizera, roubando-lhe algo precioso para si não sentia ódio. Ficava feliz por ele amar Derek tanto quanto o amava. Escutou o som do telefone sendo passado para outro, seguido de passos.

- Al?

- Ahh! Aiko. Feliz Nat...

- Vá embora. – Paralisou ao ouvir as palavras proferidas pelo dono da voz. As palavras pareciam ponderas e tristes, mas seguras de si.

- C-como assim? P-por que está falando isso?

- Por favor, não pense que é um sentimento tão infantil e egoísta como o ciúmes, não é nada disso. Apenas... é que vc o está deixando infeliz.

As palavras vieram a si como um baque. Nunca pensou que palavras tão grotescas quanto as do dia em que Derek lhe trocou tivessem digeridas por si com maior tristeza e sofrimento. Podia ter percebido isso, mas negava-se a acreditar.

- Eu...

- Você sabe disso, não sabe? Ele está sofrendo pelo fato de vc estar sofrendo. Ele te ama, só não como vc deseja. A sua companhia faz o coração de Derek sofrer Al! Por favor, eu estou pedindo. Vá embora. Deixe ele!

- Eu... entendo o que você diz e fico feliz por ter alguém como você cuidando dele. Mas eu não posso! Eu prometi a ele que não iria embora! Aquela promessa pode não ter significado pra vc Aiko. Mas para a gente tem.

- EU SEI DISS...

- Não, você não sabe.

Uma tempestade inundava a mente dos dois, e a guerra que antes individual, acabou sendo compartilhada.

- Mas... eu posso me esconder. Ele não irá me ver nunca mais, e não irá mais falar comigo. Hoje mesmo faço minhas malas e vou embora, mas não vou deixa-lo. Ficarei vigiando-o e cuidando dele. Pode compreender?

- Claro. Acho que isso já é o suficiente.

- Tudo bem. Poderia me fazer um favor? Diga ao Derek que eu o amo muito? E... não deixa ele se esquecer de mim? – Sua voz saiu embargada de tristeza, quase chorosa, que comoveu ao seu rival.

- Você mesmo não quer falar para ele?

- Não! Diga a ele para verificar o bolso do casaco. Adeus. – Desligou prontamente o telefone. Não podia falar com Derek, não no estado em que se encontrava, com a voz chorosa e o coração em pedaços. Iria apenas arrumar suas coisas e partir silenciosamente. Seguir uma vida sem destino e importância. Vigiando sigilosamente a coisa mais importante do mundo.

“Eu vou por mim, mesmo se eu estou com medo de morrer. Eu consigo ouvir sua voz, não devo morrer.Mesmo que pareça doloroso, mesmo se eu estou chorando de tristeza,no fundo do meu coração eu sinto o seu calor.”