Ice Heart
44 Está na hora de fazer uma visita
Notas iniciais
POV- Thalia
Uma dor atravessou todo meu corpo fazendo com que um gemido de dor escapasse da minha boca. Abri lentamente os olhos tentando me acostumar com a claridade que a pequena janela provia e logo notando que estava sozinha.
Me sentei na cama tentando ignorar a dor que sentia e olhei meu corpo nu vendo cada marca da noite anterior fazendo com que cada cena ocorrida voltasse a minha mente tão rápido como um raio e a mistura de sensações me dominasse. Eu me sentia feliz, bem, porém confusa.
Suspirei e levantei um olhar vendo uma muda de roupa dobrada em cima da cadeira que um dia eu tinha sido acorrentada junto com um pote de comida que para mim e meu estômago foi uma clara mensagem de que eu podia comer; foi o que eu fiz.
Virei-me na cama e deixei que meu pé encostasse no chão e foi quando eu senti a água fria molhar totalmente meu pé. Arregalei os olhos ao ver o quarto encharcado, foi quando reparei que os moveis estavam úmidos e o chão tinha se tornado uma piscina, lembrei da quantidade de vapor que havia na noite anterior, o quanto aquilo tudo estava abafado e quente, como uma disputa silenciosa.
Balancei a cabeça em negação e me levantei pegando as coisas da cadeira. Me alimentei com o que tinha no pote e me direcionei até o banheiro pronta para deixar que a água entrasse em contato com meu corpo o máximo de tempo possível e necessário por mim.
Assim que senti a água bater contra meu corpo limpando qualquer vestígio da noite anterior comecei a me sentir renovada. Deixei que toda a sujeira e marcas saíssem do meu corpo e depois disto sai vestida em direção a sala vendo Nico andando de um lado para o outro; um livro em mãos e seus olhos fixos e aparentemente distraídos em cima do objeto.
Adentrei mais a sala e ele não expressou nenhuma reação, nem parecia notar minha presença ali. Suspirei e olhei a sala que estava entulhada de livros, mapas e papeis que no dia anterior não estava ali, ele parecia ter revirado cada um dos itens ali de cabeça para baixo, em busca de algo.
— O que está procurando? – Perguntei me apoiando em uma cadeira que ali tinha.
— Ainda não sei. – Ele disse passando mais uma página.
— Já leu tudo isso? – Perguntei passando a mão em um livro aleatório.
— Algumas vezes. – Ele admitiu ainda sem tirar os olhos do livro, vagando e vagando.
— O que quer saber? – Perguntei me sentando na cadeira e ele suspirou irritado jogando o livro longe.
— Eu não sei, qualquer merda de coisa que me ajude a entender de verdade o que meu pai tramava com esse mapa. – Disse ele furioso e eu engoli seco e assenti.
— E se o que você procura estiver na história, sabe, pode ter alguma informação oculta, ele afinal contou como você disse, uma história infantil em um mapa de guerra, pode ter algo haver. – Disse tentando ajudar e fazer com que seus olhos negros parassem de transbordar raiva e frustração, pois sabia que no final sobraria para mim.
Ele suspirou e se apoiou na mesa olhando o mapa.
— Eu conheço aquela história infantil da minha irmã, ela me contou algumas vezes, mas nada demais. – Nico disse me olhando vendo-me cruzar os braços e me apoiar na cadeira.
— Então talvez seja a hora de fazer uma visita a Bianca. – Disse olhando seus olhos negros e ele suspirou e indicou com a cabeça que eu o seguisse.
O caminho até o quarto da irmã do Nico estava gravado em minha memória e logo o reconheci quando começamos a andar em direção ao quarto da morena. O moreno destrancou a porta e abriu indicando que eu entrasse e fez o mesmo logo depois trancando a porta atrás de si.
A mãe do Nico foi para o lado oposto do moreno com um olho trasbordando de tristeza e raiva. Bianca que estava sentada na cama sorriu, mas ela tinha olhar confuso no rosto, curioso, que notei ser muito semelhante ao de Nico.
— Bianca preciso te fazer umas perguntas. – Nico disse sério e a menina assentiu concordando. Não que ela tivesse outra opção.
— Sobre? – Ela perguntou e o moreno suspirou não parecendo à vontade com o fato de ter que vir perguntar sobre uma história classificada como boba e infantil para a irmã.
— Lembra de uma história que me contava quando éramos pequenos? Da Guerra da Morte? – Nico perguntou se sentando e indicando que eu fizesse o mesmo.
— Lembro. – Ela disse claramente sem entender o porquê o garoto tinha interesse naquela história.
— Preciso que me fale tudo sobre ela, e também sobre como conheceu a história. – Nico ordenou e Bianca assentiu engolindo seco.
— Como sabe não tínhamos um pai muito carinhoso, porém um dia quando minha mãe descobriu que estava grávida de um menino ele ficou muito feliz e veio a mim, eu estava me preparando para dormir como sempre e a empregada me ajudava, quando ele apareceu no quarto e disse que naquela noite seria ele que me contaria uma história para adormecer. – A morena disse parecendo querer se lembrar com detalhes da noite que ela falava. – Então ele dispensou a empregada e sentou na minha cama e falou...
— Querida, você sabe que sua mãe está esperando uma criança não sabe? – Hades disse olhando fixamente a pequena garota que tinha seus enormes cabelos negros espalhados pelo travesseiro.
— Sei papai. – Bianca respondeu sorrindo. – Vou ter um irmão.
— Exato, um lindo menininho que vai te ajudar a governar minha princesa. – O homem disse sorrindo e passando a mão pelo cabelo da criança. – Então hoje eu vou te contar uma história e vou conta-la todos os dias até o nascimento do seu irmão e eu quero que grave-a e quando seu irmão tiver sua idade vai contar para ele esta história todos as noites até que seja a data de seu aniversário, tudo bem princesa? – Hades perguntou olhando a filha que sorriu parecendo se divertir com seu pai lhe dando uma pequena missão.
— Tudo bem papai, mas qual é a história? – A criança perguntou segurando a mão do pai o incentivando a contar a história.
— A Guerra da Morte. – O homem disse e isso fez que a menininha arregalasse seus enormes olhos negros assustada fazendo o pai sorrir em compreensão e compaixão. – Não tenha medo pequena, é um romance, apenas o nome é assustador, mas não passa de uma fantasia boba.
— Se não passa de uma fantasia boba, porque quer que eu conte todos os dias por um ano a meu irmãozinho? – A pequena perguntou e ele riu.
— Porque um dia vai ser importante e vai ajudar você e ele a pensarem e quem sabe um dia entenderem. – O homem disse apertando a mãozinha da filha com delicadeza.
A menina estranhava, mesmo em silêncio, seu pai nunca a tratara com tanto amor e carinho como naquele momento e não queria estragar aquilo com perguntas bobas.
— Conte a história papai. – Bianca disse ansiosa por experimentar os meses que ela teria com seu pai lhe contanto aquela história, mesmo não sabendo qual era, ela não se importava, ela queria um pouco do amor que ele estava lhe dando.
— A história agora você já conhece. – Bianca disse após narrar o que seu pai tinha lhe dito antes de contar a história. – Sabia que não iria querer ouvir a história na época se soubesse que era pedido do pai, já o odiava, mas eu tinha prometido para aquele homem carinhoso daquela noite e queria cumprir e sabia o que aconteceria se não cumprisse, pois não seria aquele homem a me punir. – Ela falou olhando o irmão.
— Sempre imaginei que fosse ele que tivesse te contado. – Nico disse colocando a mão nos bolsos recostando na cadeira que sentava. – A história. – Ele disse e indicou que ela falasse.
— Você conhece de coo Nico. – Bianca disse e ele franziu o cenho fazendo com que ela engolisse em seco. – Tudo bem, desculpe. – Ela se apressou em dizer. – Um casal...
— Conte como ele te contou na primeira vez, conheço a história, quero saber como ela foi contada. – Nico disse sem paciência e Bianca assentiu.
— Bom pequena, a história começa com um casal, um casal de refugiados, eles habitavam um abrigo em um lugar chamado New York, na época, não era dividido em Reinos, mas em cidades, muitos anos anteriores, armas em vez de poderes eram usados, não existiam seres mágicos, apenas lendas de sua existência, eram apenas pessoas sem poderes, fracos movidos a sentimentos, amor, raiva e principalmente o desejo de querer mais, confesso que tudo isso ainda nos envolve, sempre envolvera, mas naquela época eles tinham uma tecnologia, está que se extinguiu com a guerra. – O homem fez uma pausa olhando a parede. – Lembro quando meu pai me contou essa história, eu era pequeno como você, estávamos em guerra também, lembro de me assustar quando a palavra foi mencionada na história.
— Vovô te contou esta história? – Bianca perguntou surpresa, parecendo se interessar mais pelas palavras do homem, não sabia muito de seu avô, apenas que estava morto e o homem que segurava sua mão não gostava do pai.
— Sim, contou, acho que é uma das poucas coisas que levei dele. – Hades admitiu. – Mas voltando a história. A Terceira Guerra Mundial, ou, a Guerra da Morte, uma decisão foi tomada, uma arma, incrivelmente mortal, não para nós, mas para os seres da época, bombas nucleares, radioativas, foram lançadas, de todos os lados, tudo foi atingido, destruído, quem podia lutava ou se escondia, e esse era o destino do nosso casal refugiado, que então achou um livro, um livro grande, sabe filha, maiores do que os que estamos acostumados.
— Tipo do tamanho de uma pasta? – A morena perguntou, já que o homem enfatizava no tal livro.
— Sim, no tamanho de uma pasta, porém grosso, devia ter umas mil páginas, amareladas, finas, porém inteiras, o que não era compreensível, devido a guerra. – O homem disse olhando fixamente nos olhos da filha. – Então eles abriram o livro e receberam um poder, um vestígio do nosso mundo que um dia foi preso nele.
— Preso? – Bianca perguntou pasma.
— Sim, dizem que a magia se perdeu completamente na idade das trevas, muitos anos antes da tal Terceira Guerra Mundial, preso em um livro, por uma bruxa que prendeu seu próprio poder ali, ela sabia que criaturas com poderes naquele mundo usavam de vantagem para enriquecer e matar, então ela prendeu em um livro, mas ela também sabia que sem as criaturas os humanos, seres sem poderes, ganhariam poder, não poder como nós, mas poder de inteligência, tecnologia e desejo, desejo de querer mais, afinal eles sentiriam o gosto...
— Mas pai, nós somos inteligentes. – A menina disse triste pelo pai ter chamado a ela e a si próprio de burro.
— Sim filha, nós somos, mas era a única coisa que eles tinham, inteligência. – Hades disse sorrindo para a pequena. – Mas com o livro aberto eles receberam o poder da bruxa para poder soltar o que tinha sido preso. E essa foi a ideia do casal, como a bruxa imaginou que um dia os humanos precisariam ser detidos criou um feitiço para trazer todo o poder de volta. O casal se preparou, preparou tudo para libertar os quatro elementos, sabe quais são pequena?
— Fogo, ar, água e terra.
— Sabe quem são? – Perguntou o homem.
— Norte, sul, leste, oeste, os reinos. – Bianca disse satisfeita com o sorriso que o homem fez.
— Exato. – Ele disse contente. – Porém a radioatividade não é algo que apenas afeta quando se é atingido, ela contamina o ar e tudo que está em volta e foi isso que aconteceu com o homem do nosso querido casal, mas ele insistiu em fazer o feitiço e parar os humanos. Então eles fizeram o feitiço e um portal foi aberto, porém com a fraqueza do homem muito mais conseguiu se libertar, coisas mais poderosas que os quatro elementos.
— Tipo o que papai? – Bianca perguntou curiosa.
— A junção deles. – Hades respondeu. – Lava, nuvem, gelo, chuva e tempestade, esses poderes, elementos, ocuparam corpos, corpos humanos e eles invocaram tudo aquilo que a bruxa um dia trancou, vampiros, dragões, lobisomens, fadas, anjos, demônios, tudo saiu e não apenas acabou com a Guerra da Morte, mas também acabou com tudo vivo que existia no planeta e fazendo que nascesse uma nova vida, a vida que conhecemos hoje.
— Todos morreram? Por culpa do casal? – Bianca perguntou surpresa e o homem assentiu.
— A história não tem foco no casal filha, tem foco no poder, no que o poder pode fazer. – Hades disse olhando a menina que parecia pensativa.
— Isso não parece uma história de romance. – A menina disse olhando o pai.
— Eu sei que não filha, mas não se esqueça da missão que eu te dei, vou te contar essa história todos os dias até o nascimento do seu irmão, preciso que guarde, palavra por palavra dela e conte a seu irmão quando ele tiver sua idade até o aniversário dele, para que ele também lembre cada palavra.
— Tá bom papai. – Bianca disse sorrindo para o homem. – Pai...? – A menina perguntou incerta.
— Diga filha. – Hades disse olhando sua pequena.
— Você é o fogo, mamãe é o ar, o que define que faz que eu seja o fogo também e não o ar, ou quem sabe os dois? – Bianca perguntou e isso surpreendeu o homem.
— Eu nunca me perguntei isso Bia, mas acredito que o poder, sabe, o mais forte deve passar a diante. — Hades disse e a morena perguntou.
— Então isso não faz sentido, não existe fogo sem oxigênio, logo não existe fogo sem ar, então eu não deveria controlar o ar? – Bianca perguntou deixando que uma pequena fagulha de fogo surgisse em seu dedo.
— Eu não sei querida, talvez seja aleatório. – Hades disse apagando a chama da filha.
— Nada existe sem um motivo. – Bianca disse olhando a mão do pai sobre a sua.
— Então descubra o motivo. – Hades disse e a menina sorriu para ele.
— Sou apenas uma criança, porque você não descobre? – Bianca perguntou e o homem riu.
— Tem razão, quando descobrir eu te conto. – Hades disse e a menina assentiu e se ajeitou na cama.
— Boa noite papai, estou ansiosa para ouvir a história de novo amanhã! – Bianca disse e ele sorriu.
— Boa noite querida. – O homem disse se levantando e deixando sua filha adormecer sozinha no quarto.
— Toda a história como foi contada. – Bianca disse cada detalhe a Nico e a mim suspirando. – Porque isso?
— Não vem ao caso agora. – Nico disse me olhando e indicando que eu levantasse. – Acabamos aqui.
O moreno se levantou e olhou para a mãe que respirava com dificuldade como de costume.
— Mandarei trazer comida a vocês. – Nico disse e indicou que eu o seguisse.
Começamos a caminhar de volta a sala deixando Bianca e a mãe dele trancados no quarto novamente.
— Ele focou no livro. – Disse acompanhando-o.
— O que eu vou fazer com um livro de magia? – Nico perguntou me fazendo dar de ombros.
— Provavelmente nada, mas Hades iria fazer algo, ou queria que você e Bianca fizessem.
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