Ice Heart
13 Curiosidade
Notas iniciais
POV- Nico
— Obrigado por vir Silena, precisa me livrar daqueles corpos. – Disse assim que entramos na sala.
— Eu que agradeço Nico, mas vai me contar o porque daqueles dois serem proibidos? – Perguntou a morena se sentando na mesa olhando o mapa que ali tinha.
— Annabeth quer o garoto vivo por enquanto e a menina está me sendo útil distraindo a Bianca. – Disse vendo a morena limpar a boca.
— Só com a Bianca que a garota está sendo útil?- Perguntou ela e eu franzi o cenho. – Qual é Nico, a morena é gostosa, a única que você já experimentou na sua cama é a loira, ela é seu soldadinho, te obedeceria se mandasse. – A garota disse se levantando em um pulo e girando ao meu redor. – Sem falar que a loira não está mais disponível como antes, vocês dois tem trabalhos e também tem algo mais, a curiosidade, um fator importante para Nico Di Ângelo, por algum motivo aquele rosto branquelo de olhos azuis te deixou curioso, não deixou?
— Suas conclusões são hilárias Silena. – Disse sério, já conhecia o esquema da morena, ela tinha mania de querer estar certa e ela fazia isso acontecer.
— Não estou vendo você rir Nico. – A morena sorriu de canto.
— Eu não rio. – Disse sério me apoiando a mesa vendo a morena dar a volta na mesma e repetir meu ato.
— Nico, Nico, o que custa sentir um sabor diferenciado, a menina não vai morder e se morder você vai gostar. – Silena provocou.
Deixei que as chamas nascerem em minhas mãos e ela se desencostou da mesa.
— Que seja Nico, faça o que quiser, mas deveria pensar no assunto. – Ela disse se virando de costas e começando a caminhar até meu quarto.- Vou tomar banho, mande Charles ir lá caso ele chegue antes de eu sair.
— Tá. – Disse sem ânimo revirando os olhos.
Os passos da morena se afastaram deixando-me no cômodo silencioso sozinho. Sai da mesa começando a refletir, assim que Leo chegasse colocaria os planos em ação, afinal o Sul era conhecido por sua grande dimensão territorial, riquezas e uma família misteriosa como a Grace não deveria ser tão poderosa assim, afinal eles não se esconderiam se tivessem poder para lutar.
— Senhor! – Uma voz quebrou o silêncio me fazendo olhar para a porta.
Ali estavam dois soldados e Charles com seu típico sorriso no rosto.
— Sua namorada está no banho, vai lá.
— Esposa, Nico, esposa. – Charles me lembrou sorrindo e virando de costas começando a caminhar em direção ao banheiro.
Revirei os olhos, mas logo ouvi a voz de Silena atravessou o cômodo junto com seu gritinho de felicidade.
— Amor! — Vi Silena na porta agarrada em Charles dando lhe um beijo, a morena tinha os pés distantes do chão afinal ela era muito pequena comparada ao marido.
— Voltem para o banheiro se forem se agarrar. – Comentei e Silena revirou os olhos já perto de mim.
— Tchau Nico, se precisar de mais um favor desses, sabe que estarei disponível. – Ela disse com um sorriso no rosto e dando um beijo na minha bochecha.
— Pode deixar que eu te chamarei. – Falei sério vendo ela se afastar saltitando até Charles que sorriu assentindo e caminhando porta a fora com a esposa.
Revirei os olhos, se a Silena não fosse uma ótima assassina minha paciência já teria se estourado com a morena, mas ela fazia o trabalho cansativo por mim o que era bem útil.
Bianca... é claro que pensar em trabalho cansativo a feição da minha mãe e da minha irmã veio-me em mente; respirei fundo e caminhei em passos lentos até a cela aonde a distração estaria.
A morena estava deitada no chão, desacordada, a respiração agitada assim como ela, a garota parecia ter um pesadelo e ela soava como se estivesse calor demais. Bati na grande com força, fazendo a morena se sentar acordando, assim como o tal conhecido da Annabeth que estava dormindo encostado na parede.
— Anda, você tem um trabalho a fazer. – Disse sério olhando para a morena que se levantou meio atordoada.
A garota caminhou até a grade que começou a subir, assim que ela estava alta o suficiente para a morena passar ela em passos rápidos caminhou até o meu lado passando a mão pelo pescoço, um ato de nervosismo que me fez sorrir.
Dei as costas para a garota indicando que ela me seguisse começando a andar em direção ao quarto da Bianca.
POV- Thalia
Caminhava apresada atrás dele, ele andava muito rápido o que dificultava para eu acompanha-lo principalmente por ter acabado de acordar. Aquele pesadelo.
Fechei os olhos balançando a cabeça tirando o pesadelo tão real com aquele homem a minha frente, ele era um monstro, ficar pensando no que ele pode fazer comigo não ajuda em nada. Abri os olhos focada em ver mais do castelo, qualquer detalhe que tenha passado despercebido por mim pode ser relevante, os detalhes me ajudaram a sair daqui.
O moreno interrompeu o caminho e ele se virou para mim me encarando, seus olhos negros estavam divertidos e curiosos e seus lábios pareciam ter uma ideia em mente, que me fez engolir em seco.
— Estou curioso. – Di Ângelo disse com um olhar divertido em seu rosto. – Afinal ora você curiosa, ora atrevida, ora medrosa, ora corajosa, o que passa na sua cabeça?
— Eu sou o que preciso ser para sobreviver – Disse o encarando, olhar naqueles vãos de morte que consistiam suas orbes negras, parecia que minha alma estava sugada.
— Sobreviver...Como é saber que sua sobrevivência depende exclusivamente de mim? – O moreno perguntou dando um passo para frente.
— De você ou do quanto eu te mantenho interessado? – Perguntei mordendo o lábio inferior arrependida de tal frase.
— Interessado...- Ele disse parecendo pensar no que eu disse, logo depois soltando uma risada forçada. – Interessado, acho que está confundindo o termo utilidade com interresse.
— Eu despertei sua curiosidade, me diga qual foi a última vez que isso aconteceu? – Perguntei e o vi rir novamente e ele deu mais um passo à frente ficando com o corpo colado ao meu, porém não me afastei.
— A última pessoa que despertou minha curiosidade morreu decapitado por minha espada, se quiser posso te dar o mesmo destino?
— Eu não era útil? – Perguntei fraco sentido o ar abafado devido à proximidade.
— Útil, mas descartável. – Di Ângelo disse com um sorriso no rosto.
— Já salvou a vida de quantas pessoas descartáveis? – Disse e consegui sentir a temperatura subir uns três graus.
Meu corpo foi preso contra parede, sua mão estava na minha garganta, meus pés não estavam no chão, seus olhos negros se tornaram o foco da minha vida que se esvaia com meus pulmões sem ar.
— Senhor, os dragões estão brigando, já destruíram três jaulas, soltando dois filhotes e um adulto, que entrou na briga se continuar assim eles podem vir para a vila. – Um soldado disse e meu corpo caiu no chão, o ar voltou para meus pulmões em desespero.
O monstro a minha frente me puxou pelo braço e andou mais alguns passos abrindo uma porta e me jogando dentro do cômodo.
— Já sabe como funciona. – O moreno disse batendo a porta com força a trancando e me deixando caída no chão.
Deitei meu corpo ali tentando puxar o máximo de ar que podia, conseguia sentir sua mão apertando minha garganta, virei-me de lado e logo vi as duas mulheres que ali estavam.
— Cadê o Nico? – A mais nova e para quem eu dava aula de violino perguntou vindo em minha direção me ajudando a sentar.
— Dragões...- disse com dificuldade e olhei para a senhora que ainda estava sentada na cama.
A mulher respirava de modo pesado e ela parecia mais pálida do que me lembrava, não precisei de muito para entender, ela estava doente, era por isso que a menina queria aquele monstro ali, queria ajuda.
Me levantei o mais rápido que consegui e deitei a senhora na cama com delicadeza, meu corpo trabalhava mais rápido do que a minha mente. Rasguei o vestido que a senhora usava, era uma peça de roupa simples, porém elegante, de um tecido preto fino demais para eu ter algum conhecimento e o identifica-lo, por baixo da peça um espartilho simples branco apertava o corpo da senhora que respirava devagar e com força, como se a sua garganta estava sendo sufocada o que fez com a sensação de ser sufocada voltasse ao meu corpo, mas eu não tinha tempo para passar mal.
Abri o espartilho com uma agilidade adquirida por anos vestindo madames no reino e também a quantidade de vezes que eu tinha que despi-las para banhos de cosméticos ou de água quente demorados em que muitas vezes serviam apenas para que seus maridos se aproveitassem da situação e fizessem o que bem entendessem com elas.
A mulher puxou o ar com força e necessidade, voltando a respirar normalmente. Sorri com isso e caminhei até o banheiro em um movimento rápido e peguei uma toalha e um balde a enchendo de água e voltando calmamente até o quarto começando a passar o pano umedecido pelo corpo da senhora que parecia relaxar.
A menina sentou ao lado da mãe e eu fiquei tratando da senhora vendo as duas sorrindo uma para a outra.
— Desculpa perguntar, mas o que...? – Deixei a frase morrer, não tinha coragem.
— Nico é meu irmão, acho que ele não quer nos matar, por pena talvez...
— Acho que ele quer que saibamos que se nós tivéssemos impedido o pai dele de fazer o que fez ele não teria se tornado o monstro que se tornou, se todas as vezes que ele foi espancado, torturado, humilhado nós tivéssemos o defendido ele hoje não teria se tornado o que se tornou, nosso Hades estaria vivo, nosso Nico ainda seria inocente, aquela criança que mesmo depois de todas as torturas sorria feliz e falava que estava tudo bem...- a senhora disse com lágrimas nos olhos. – Queria ter salvado meu filho, mas é tarde demais agora...
— Eu acredito que...- A menina começou, mas uma voz masculina cortou o cômodo.
— Não tem porque eu ser salvo e as duas deveriam estar treinando e não fofocando sobre mim. – Di Ângelo disse sério.
O moreno estava sem camisa, um arranhão se estendia pelo peitoral do moreno que sangrava, mas ele não parecia abalado com isso. O garoto caminhou até uma poltrona no canto do quarto sentando ali e apontou para o violino.
— Ande quero ver o seu progresso Bianca. – Ele disse irritado fazendo a morena engolir seco e se levantar.
— Eu só tive uma aula Nico. – A menina disse nervosa.
— Deve ter aprendido algo. – O moreno indicou que ela começasse.
Bianca posicionou o instrumento no devido local pegando o arco e começando a tentar tocar a música que tinha começado a ensina-la no dia anterior, de sua boca saia as notas que ela tinha se esforçado para memorizar.
—si, si, do, re, re, do, si, la, sol, sol, la, si...- Ela tentava reproduzir o que falava, errando em sua maioria.
Olhei para o garoto que tinha pego uma caixa de primeiros socorros e a estava abrindo olhando a irmã tocar.
— Você- Ele apontou para mim que levantei – Pegue aquela bebida ali.
Andei até aonde o moreno apontou e peguei a garrafa que continha um líquido laranja e levei até ele, com cautela, tinha impressão que qualquer movimento que eu fizesse muito rápido resultaria a minha morte e eu tinha que permanecer viva se quisesse fugir.
Entreguei a garrafa a ele que pegou com brutalidade da minha mão a abrindo e virando na boca e depois jogando um pouco do líquido em seu ferimento fazendo uma careta que logo se desfez. O moreno pegou agulha e linha da caixa de primeiros socorros e as lavou de qualquer modo com a bebida e começou a costurar sua pele, fechando lado a lado do seu ferimento no peitoral.
Sua mão era firme e bruta trançando o machucado forçando sua pele a se fechar, ora ele falhava o que fazia um xingamento sair de sua boca, mas era tão baixo que se não estivesse ali tão próxima não ouviria, principalmente devido a tal Bianca que falava as notas.
O moreno me olhou, ele estava claramente irritado por eu o estar observando fazer aquilo, engoli seco e por não aguentar mais ver a brutalidade do garoto fazendo aquilo perguntei.
— Posso? – Minha voz saiu fraca e baixa, não como antes em que a coragem estava estampada em mim junto com a idiotice.
Ele esticou a agulha fazendo a linha deslizar pela sua pele com dificuldade e ensanguentada indicando que eu poderia pegar. Caminhei até ele, me ajoelhei ao lado do seu corpo e lavei as mãos com a bebida, pegando a agulha com delicadeza e começando a trançar seu ferimento com delicadeza.
Agonia de sentir a pele dele ser furada, a linha passando com dificuldade pelo pequeno buraco feito pela agulha, arrastando-se, rasgando em busca de espaço. Respirei fundo e fiz isso mais algumas vezes apenas ouvindo a melodia desarmoniosa que saia do violino, junto com as sílabas que para qualquer um que não entendesse o mínimo de música não faria sentido.
— sol, sol, la, si, la, sol, sol...- A música acabou e eu arrebentei a linha depois de dar um nó impedindo que ela se soltasse.
Olhei para o moreno que tinha os olhos fixos em mim, curiosidade estava estampado nele. Peguei a garrafa novamente e derramei devagar sobre o ferimento fazendo com que o sangue começasse a desgrudar da pele aos poucos, limpando os vestígios de qualquer ferimento e da provável nova cicatriz do garoto.
Limpava com o máximo de delicadeza possível, por algum motivo eu não pensava em usar aquela oportunidade para tentar algo, machuca-lo, infeccionar o ferimento, eu queria ajuda-lo, mesmo que ele fizesse tudo de ruim para mim, mesmo ele sendo um monstro.
Levantei do chão chegando para trás ao vê-lo levantar, o moreno grunhiu baixo com a dor do ferimento que cruzava seu peitoral, mas começou a andar em direção a saída.
— Vou mandar alguém vir limpar a bagunça e trazer comida para vocês- Ele disse olhando para Bianca e depois para a mãe. – Me acompanhe. – Essa última parte foi para mim.
Caminhei até ele com medo, será que ele terminaria o que começou hoje cedo, senti o ar me faltar enquanto o seguia pelos corredores. O caminho que seguíamos não era das celas, comecei a reparar nos detalhe dos corredores, sim eu poderia morrer, mas eu poderia voltar para a minha cela em segurança e não poderia deixar que detalhes escapassem da minha memória.
Logo entramos na sala dele, a lembrança do moreno me observando me trocar me veio a mente, ele continuou a andar para um cômodo no interior da sala e como não tinha sido ordenada a parar continuei a segui-lo.
Assim que entrei ali notei que era um quarto. Uma cama de casal estava encostada na parede logo de frente a porta, uma janela gradeada era o foco do quarto, uma luz amarela estava pendurada ao teto iluminando o cômodo, um enorme guarda roupa ocupava quase toda a parede em frente a cama tirando por uma pequena porta de madeira assim como todos os móveis do quarto.
Di Ângelo parou em frente ao guarda-roupa tirando algumas peças de roupas dali e tacando na cama de qualquer jeito, notei que algumas roupas eram femininas e outras masculinas.
— Limpe esse sangue de você, vou te dar cinco minutos para tomar banho, se aquele relógio apitar e você não tiver limpa e vestida vou te tirar do banheiro e você vai do jeito que estiver para sua cela. – O garoto disse caminhando até a cama e me tacando roupas que eu supus ser da loira.
Assenti e ele apontou para a pequena porta e eu caminhei até ali em passos rápido. Um banheiro simples, que não me dei ao trabalho de analisar, tirei a roupa o mais rápido que consegui e comecei a me lavar só notando o quanto tinha me sujado com o sangue do moreno.
Quando terminei de colocar a última peça de roupa ouvi a porta sendo aberta junto com um sino tocando, ele indicou que eu passasse e que sentasse em uma cadeira que não estava ali antes.
— Se tentar alguma coisa eu vou saber. – O moreno me acorrentou ao chão e colocou um pote de vidro no meu colo.
Ele saiu do quarto entrando no banheiro, conseguia ouvir a água caindo e o cômodo começou a ficar abafado, como se o vapor da água fria com a pele quente dele estivesse se espalhando por todo o cômodo.
Analisei o pote de vidro tirando a tampa branca que ele continha vendo comida ali, uma comida decente, não a papa que eles entregavam na cela. Um sorriso brotou em meu rosto e com a colher que tinha dentro do pote comecei a comer notando o quão bom aquilo estava e principalmente que eu estava faminta.
Senti como se estivesse sendo observada e foi então que notei que o barulho da água tinha se extinguido e agora Nico Di Ângelo estava encostado no arco da porta me observando.
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