Ice Heart
22 Como eu sou de verdade
Notas iniciais
POV- Thalia
Senti a carruagem parar de modo forçado, fazendo com que meu corpo fosse para frente e me acordando de um sono profundo. Nico abriu os olhos e encarou janela a fora e sorriu.
— Chegamos. – Ele disse pegando a mochila e abrindo a carruagem dando espaço para que eu passasse.
— Aonde? – Perguntei descendo do veículo e vendo uma casa simples, mas também podia ver a onda de poder sobre ela.
— Minha casa depois que fui expulso do castelo. – Ele esclareceu e eu franzi o cenho, mas assenti o seguindo para dentro.
Notei que os cavalos não estavam mais presos a carruagem e sim descansando livres. Entramos na casa que era de tijolos e possuía uma escasseeis de moveis, mas possuía o básico.
— Porque estamos aqui? — Questionei e ele deu de ombros.
— Preciso pensar e garantir que fique viva até sábado, então decidi vir para cá. – Ele disse e trancou a porta. – Mas te garanto que a segurança aqui é tão boa quanto a do castelo.
Assenti e me sentei no sofá que possuía na sala, além do móvel apenas uma quantidade absurda de livros de diversas línguas estava espalhado por tudo que lugar da sala, notei que era uma das poucas coisas que o cômodo tinha, uma janela gradeada que deixava uma luz suave passar, um lampião, o sofá e os livros eram o que preenchiam tudo ali.
— Se quiser trocar de roupa. – Ele disse pondo uma muda simples em cima do sofá.
— Porque me deu esse vestido para eu usar? Não sou uma princesa para usar algo tão elegante. – Questionei e ele revirou os olhos.
— Princesa ou não, um templo é lugar de respeito principalmente quando se refere ao Deus do poder. – Ele disse e eu olhei confusa.
— Acredita em um Deus? — Perguntei e ele deu de ombros.
— Acredito que conheço pouco do mundo e se nós podemos ter poderes porque não pode existir algo mais forte?
— Algo mais forte seria alguém como eu e você, não um ser que criou os poderes. – Disse e ele deu de ombros.
— Estou bem do jeito que estou e existindo ou não, respeito é bom. – Disse ele e eu ri fraco.
— Não imaginava essa frase saindo da sua boca. – Disse e ele se sentou no outro lado do sofá.
— Se surpreenderia se descobrisse um terço de como eu sou de verdade. – Sua voz saiu calma e seus olhos se fecharam e ele tombou a cabeça para trás.
— Porque não me mostra? — Perguntei e uma risada rouca saiu de sua garganta.
— Você é uma escrava. – Ele disse com um tom como se fosse óbvio.
— Já sentou para conversar com quantas? – Perguntei e ele deu de ombros.
— O suficiente. – Disse e ele me olhou.
— E o quanto seria o suficiente? – Perguntei e ele sorriu.
— O suficiente para conhecer essa tática. – Disse ele e eu sorri.
— Que tática?
— Fazer eu falar e confiar para conseguir informações, proximidade, liberdade. – Disse ele voltando a fechar os olhos.
— Quantas vezes isso foi útil? – Questionei.
— Nunca. – Sua voz saiu vitoriosa.
— Então porque faria algo que não vai me adiantar de nada?
— Porque apesar de ser diferente você é previsível.- Ele disse e eu dei de ombros.
— Talvez. – Disse me levantando e pegando a roupa do sofá. – Ou talvez eu não seja tão previsível e só queria conversar.
— Seu objetivo e sobreviver e fugir. – Ele disse e eu ri.
— Sim esse é meu objetivo. – Disse colocando as peças em cima de uma pilha de livros. – Mas não é porque a meta é a mesma que os meios sejam iguais.
— Está seguindo o mesmo caminho. – Ele disse enquanto eu tentava abrir o fecho do vestido.
— Estou? – Questionei e senti sua respiração no meu pescoço.
— Sim. – Sua voz saiu rouca e ele abriu o vestido com facilidade.
A peça escorregou pelo meu corpo me deixando apenas com a roupa intima, suas mãos deslizaram pelas minhas costas a acariciando.
— Inclusive seus medos. – Ele disse e eu me arrepiei sentindo sua mão em minha cintura.
— Quem disse que eu tenho medo? – Perguntei me virando para ele que tinha um sorriso nos lábios.
— Seu coração te entrega. – Sua mão deslizou pela minha cintura.
— Nervosismo, não medo. – Disse e ele riu.
— Jura? Fica nervosa porquê? – Ele questionou levando a mão pelo meu pescoço e se infiltrando no meu cabelo me fazendo fechar os olhos.
— Sabe qual foi a primeira coisa que eu vi quando cheguei nas celas? – Perguntei abrindo os olhos que estavam marejados.
— O que? – Perguntou ele me encarando.
— Dois caras usando uma garota, com outra morta aos pés deles, ela chorava e gritava e eu sabia que aquilo poderia acontecer comigo. – Disse e ele assentiu.
— Não vai. – Ele disse me soltando e dando espaço voltando para o sofá.
Respirei fundo e peguei a peça que ele tinha separado antes e colocando no meu corpo, meu corpo estava começando a soar devido ao calor, puxei o ar para dentro do meu corpo e recolhi o vestido que estava no chão o dobrando e colocando-o em cima do sofá.
— Descobriu o que queria sobre mim? – Perguntei me sentando no sofá próxima dele, mas com a roupa entre nós.
— Talvez. – Ele disse e eu suspirei.
— Não me contaria descobrindo ou não, né? – Perguntei e ele assentiu e se levantou.
O moreno saiu do meu campo de visão sem falar nada, conseguia ouvir seus paços indo mais a fundo na casa. Cruzei as pernas e peguei um livro qualquer em uma pilha sem importância e comecei a tentar a ler.
As palavras não faziam muito sentido, talvez por eu nunca ter lido, mas eu imaginava que deveria ser minha língua, as letras eram postas uma ao lado da outra, outras tinham espaços que as separavam, me forcei, aquilo deveria fazer sentido.
Meu cérebro parecia querer se esforçar para que fizesse, tudo se organizava calmamente, em uma sintonia que talvez começasse a fazer sentido.
Em um mundo distante um rei governava com mão de ferro tudo que possuía, seu próprio povo o temia, como se aquele homem governasse para si e não para eles. Ele era poderoso demais, odiado demais, uma criatura perversa que mesmo assim tinha dois filhos que não fazia questão de ter.
A mais velha, herdeira, poderosa, uma arma flamejante. O mais novo, um mistério, um casulo que tinha que ser quebrado na hora certa. Um destino tinha sido escrito para eles, afinal quando alguém tão poderoso tem filhos algo como as Parcas não deixariam de traçar seu caminho...
— Acredita em destino? – A voz do Nico surgiu atrás de mim me dando um susto, me levantei ficando de frente para ele que indicou que entregasse o livro para ele.
Estique e ele o fechou o tacando em uma pilha qualquer.
— Não respondeu minha pergunta. – O moreno falou se desencostando do sofá e indo para frente dele, parando a centímetros de mim.
— Não. – Disse e ele sorriu.
— Então acha que sobreviveu a meu massacre, ficou presa na cela, Annabeth escolheu você para viver, que despertou minha curiosidade a ponto de ficar sozinha comigo em uma casa por acaso? – Ele questionou e eu neguei com a cabeça. – Porque então?
— Sorte...
— Ou azar. – Disse ele e eu sorri leve.
— Ou azar. – Repeti abaixando a cabeça.
— Gostou da história? – Ele perguntou se jogando no sofá e eu dei de ombros.
— Não sei ler, acho que não entendi muito. – Disse o olhando. – Porque tá conversando comigo?
— Vê mais alguém aqui? – Ele questionou e eu neguei. – Você é o que me resta.
— Mas está sendo gentil. – Disse e ele riu.
— Quer que eu mude? – Perguntou e eu neguei o mais rápido que pude. – Foi o que pensei.
Ele pegou um livro e começou a folheá-lo lentamente, deixando que as seus olhos vagassem pelas páginas. Me sentei ao seu lado e fiquei observando-o, sua respiração era calma, mas seus olhos eram pesados, tinha plena noção que seu cérebro deveria estar a mil, quantas vezes ele teve que fingir ter o controle? Quantas vezes ele teve que se virar e comandar, liderar seu exército, faze-los acreditarem que poderiam ganhar, que poderia ter o mundo se ele mesmo não tinha certeza disso.
— Gosta do que vê? – Ele perguntou sem tirar os olhos do livro.
— Talvez. – Disse abraçando minhas pernas e continuando a observa-lo.
Seus olhos negros desviaram por uma fração de segundos em minha direção e notei a confusão, mas logo ele voltou a sua leitura, passando a página.
— Porque quer ser o dono do mundo? – Perguntei e ele deu de ombros.
— Quem não quer? – Ele questionou e foi a minha vez de dar de ombros.
— Eu. – Disse e ele sorriu e me olhou.
— O que quer então? – Perguntou abaixando o livro.
— Conhece-lo, ver o que ele tem para me oferecer, experimentar coisas, descobrir outras, descobrir quem eu sou. – Disse e ele assentiu.
— Isso vai mudar acredite. – Ele disse levantando o livro novamente.
— Porque você mudou todos tem que mudar? – Questionei-o e ele me encarou novamente.
— Porque não mudaria? – Perguntou e eu sorri.
— Porque você mudou?
— Não é da sua conta. – Ele cortou e eu dei de ombros.
— Não tenho motivos para mudar, já sofri, já senti o que tinha de ruim...
— Não é isso que te faz querer o mundo. – Ele largou o livro e se virou para mim. – A sensação de poder, o ar entrando em seus pulmões após uma vitória, o progresso se desenvolvendo a sua volta por sua causa, é isso que te faz mudar.
Ele estava a centímetros de distância, tinha chegado para trás e isso fazia com que seu corpo estivesse quase em cima do meu, seus olhos negros fixos no meu, sua respiração pesada com se tudo estivesse passando em sua mente.
Sentia o calor me envolvendo, quase como se seu poder me tocasse, fechei os olhos deixando a sensação que um dia me atormentou se suavizar sobre minha pele, não senti ele se mover, seu corpo relaxou como se toda a emoção estivesse se esvaindo. Abri os olhos o encarando, mas logo por impulso eles foram fechados ao sentir seus lábios no meu.
Meu corpo deitou completamente no sofá e agora ele estava completamente em cima de mim, conseguia sentir como se um choque corresse por nossos corpos, opostos lutando, um conflito que não sabia explicar. Sua mão deslizou pelo meu corpo e seu toque não me incomodava como das outras vezes, era como se algo estivesse se ligando.
Ele se afastou se levantando e saiu da sala sem nada dizer novamente me deixando sozinha deitada no sofá.
Fale com o autor