I will never forget you.
38 Goodbye
Notas iniciais
Luquinha se desvencilha rapidamente de meus braços, e sem que eu antes o impeça, ele sai correndo por dentre aquele amontoado de soldados. O perco de vista em segundos, e passo a correr também. Fardas e mais fardas até encontra-los, abraçados, em uma bolha de felicidade. Pai e filho, isso ninguém nega.
Antes que os meus olhos e os de Lucca se encontrem, dou uma rápida conferida nele. Está nitidamente cansado, com o cabelo cortado rentemente, típico de soldados, mas o sorriso dele, ah esse não muda, está estonteante como sempre.
Nossos olhares finalmente se cruzam, e um tijolo é retirado de meu peito, e vai até o meu ventre, “não perca o foco, você não pode contar – Alerta minha consciência. ”
Respiro fundo e corro até os dois, lhes profiro um abraço, caloroso e cheio de amor, que em poucos minutos será quebrado.
Pensar que senti toda essa saudade em apenas uma semana é anormal, e me faz sentir a certeza de que não irei suportar sua morte, ele já é uma parte integral do meu corpo, não vou perde-lo para essa guerra.
– Como eu senti saudade de vocês. – Fala, com a voz abafada pelo meu cabelo.
– Também sentimos. – Digo, o encarando, e ele por sua vez, beija castamente meus lábios.
O contato entre nossos corpos não é nada inédito, mas me faz sentir como se fosse, pois me arrepio por inteira.
Fiquei perdida naquele sentimento por longos minutos, esses que foram utilizados para um papo pai e filho. Esses dois são incríveis.
– Amor, você poderia ficar com a vovó rapidinho? – Indago ao ver minha mãe em meio à multidão.
– ‘Tá’ – Responde cabisbaixo e abraça fortemente Lucca.
O que diabos eu estou fazendo? Ele precisa saber da verdade, ele precisa saber que talvez Lucca não volte?
Uma rápida apresentação é feita entre ele e minha mãe, e finalmente posso ficar a sós com ele.
– Como foi lá? – Indago presa em seus braços.
– Pesado, mas nada impossível – Responde afagando meu cabelo – E por aqui? – Indaga e um nó se forma em minha garganta.
– Foi...completamente impossível. – Gaguejo e ele me olha desconfiado.
– Miguel apareceu? – Indaga
– Não, não desde o dia da sua ida. – Respondo. – Tem alguma ideia de quanto tempo isso irá durar? – Pergunto fugindo do assunto.
– Não, mas talvez um ano ou mais. – Responde e eu paraliso. Ele não vai acompanhar nem mais um segundo da gravidez. Fraquejo, e quase me permito contar sobre a criança que cresce dentro de mim.
– Não chora, por favor! Isso só fica mais difícil. – Pede, e enxuga as lágrimas que passaram a escorrer descontroladamente por toda a extensão de meu rosto.
– É tão difícil. – Choramingo.
– Eu sei, mas eu preciso que você seja forte. Precisa manter o Luquinha alheio a isso tudo.
– Tem certeza que não é melhor contar para ele? – Pergunto angustiada.
– Não, mas ele é muito pequeno, se ficar sabendo, vai ser um trauma enorme, não sabemos como ele irá interpretar tudo isso. – Responde com os olhos fixos nos meus.
‘’ Embarque imediato para Israel! – Anuncia alguém pelo microfone do aeroporto – Forças armadas brasileiras, comparecer ao balcão de imigração. ”
Dito isso, Lucca enrijece totalmente sua postura, o vejo ficar tenso e o desespero é nítido em seu rosto.
– Vai dar tudo certo. – Asseguro o abraçando mais e mais – Eu te amo.
– Te amo. – Sussurra ao pé do meu ouvido.
Em um rápido momento, sinto ele colocar algo no bolso de trás de minha calça, não tenho tempo de questionar do que se trata, pois, o furacão Luquinha surge e praticamente nos escala, em busca de atenção.
Lucca o ajeita prontamente em seus braços e o abraça fortemente, e é nesse momento que vejo lágrimas se acumularem no canto de seus olhos, ele está prestes a desabar.
Quando Luquinha é depositado no chão, acontece tudo muito rápido, ele é praticamente arrancado de nossos braços, Luquinha fica no meu colo atordoado, e Lucca se vai, sem certeza de volta.
O acompanhamos com o olhar até que o perdemos de vista, e é assim que nos deixa, completamente perdidos no meio do enorme saguão, cercados por outras centenas de famílias.
Ajeito Luquinha no colo de minha mãe, ele está super agitado, me enche de perguntas das quais sou incapaz de responder.
– Mãe, vá para a casa com ele, pegue um táxi. Preciso ficar sozinha. – Anuncio e ela assente meio perdida. – Avise as meninas que tive um contratempo.
Após isso, saio correndo aeroporto a fora, e algo passa a pesar no bolso de trás de minha calça.
POV Manu:
– Então...é isso. – Rafa fala me encarando profundamente.
Não! Não é isso, não! Preciso de você do meu lado, caramba. Por que tenho que sentir isso por ele?
– Rafa, eu... – Começo, e minhas mãos ficam trêmulas, fico totalmente tensa, e com uma coceirinha na ponta da língua.
– Eu...- Encoraja, totalmente curioso.
– Eu preciso que você volte disso, preciso te ter ao meu lado por mais tempo, foi tudo tão rápido e argh, maravilhoso! – Desembucho, totalmente perplexa com minhas palavras, e ele não tem reação diferente.
– Te prometo voltar. – Fala suavemente acariciando minhas bochechas, e aí me jogo em cima dele e o beijo, o beijo como nunca havia beijado nenhum outro.
– É bom mesmo, e é melhor que esteja inteiro. – Brinco, afagando seu curto cabelo militar.
– Inteirinho, só para ti. – Pronuncia, me arrancando um último beijo, e assim sai caminhando junto de outros.
E assim, me permito soltar, uma única e reconfortante lágrima.
POV Sophia:
Sem nem saber muito bem como cheguei aqui, desabo perante o volante do carro, choro por mim, por Lucca, por Luquinha e por esse pequeno ser que está crescendo dentro de mim. Será que fiz o correto não contando sobre a gravidez? Será que essa criança terá um pai? Por que tudo tem que ser assim?
Começo a me acalmar aos poucos, as lágrimas cessam com o passar dos minutos, e eu sei que preciso me acalmar, preciso que essa criança fique bem, talvez ela seja a última coisa, a mais importante, que Lucca me proporcionou, ela é um pedacinho dele em mim, irei trata-la com o maior amor desse mundo.
Ligo o rádio determinada a segurar essa barra e é aí que mais lágrimas descem de meu rosto, só pode ser brincadeira, adivinhem a música que está tocando.
Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it's the only thing that I know
And when it gets hard
You know it can get hard sometimes
It is the only thing that makes us feel alive
Amar pode doer
Amar pode doer às vezes
Mas é a única coisa que eu sei
Quando fica difícil
Você sabe que pode ficar difícil às vezes
É a única coisa que nos mantém vivos
Exato, “Photograph”, do Ed Sheeran, essa maldita música, que não poderia vir em pior momento. Enquanto a primeira estrofe é tocada, tateio o bolso de trás de minha calça atrás do negócio que Lucca colocou aqui, e é aí que a segunda estrofe começa.
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time's forever frozen still
Nós mantemos este amor numa fotografia
Nós fizemos estas memórias para nós mesmos
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre
Esse destino só pode estar de brincadeira comigo, o que encontro em meu bolso é uma foto, a primeira foto que tiramos juntos, naquele fim de semana da praia. Ambos estamos com sorrisos de orelha a orelha, sentados na areia enquanto o sol sumia por nossas costas. Lá onde vivi os melhores momentos de minha vida, com ele, que foi o responsável por esses momentos.
Não vou mais chorar, já tinha prometido há tempos que não choraria mais por ele, e agora tenho que cumprir com isso, não só por ele, mas por mim também, preciso me agarrar na esperança de que ele irá voltar, pois caso contrário, irei enlouquecer, e tenho um filho que precisa de mim. Por ele, ele mais do que qualquer outro, será a razão para me manter firme.
Então assim sigo para a minha casa, de cabeça erguida, coração apertado e mais confiante do que nunca. Afinal, nunca abaixei a cabeça, e pretendo continuar assim.
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