I want you...hungry.
20 Rather die in your arms, than die lonesome
Notas iniciais
A fotógrafa mantinha-se deitada, escutava a assistente ruiva despejar pela boca acusações de como estava equivocada em se envolver com a morena.
–Marina, pensa por outro lado que não seja o seu. A Clara tem uma família, ela tem um marido lindo que parece ser um cara bacana, tem um filho pelo qual ela é apaixonada levando em consideração tudo o que me contou, ela brinca de casinha entende? Essa história não te pertence – A amiga tentava manter um tom tranquilo
– Agora mesmo, ela esta lá, na casa dela, com o marido dela, na cama deles. E sinceramente, eu nunca vi seus olhos brilharem assim enquanto falava de alguém, nem por mi... – Terminou em um suspiro acrescentando – Você é volúvel, vai lutar por ela com unhas e dentes e quando a tiver, não vai querer mais – Não tinha certeza nas suas palavras, nem ela sabia se acreditava nisso.
Aquelas sentenças causavam uma corrente angustiante.
A realidade era que Marina só tinha o que haviam vivido nos últimos dias, mas não desfrutava da certeza de que aquilo realmente faria Clara jogar uma vida aparentemente estabilizada para o alto em troca de uma aventura da qual não tinha garantias. Somente palavras e sentimentos que até então era insondado na vida da morena.
Os olhos estavam vermelhos, era o choro silencioso que despejava, a ruiva preocupou-se, definitivamente aquela cena não refletia a Marina que conhecia.
Uma mulher desejada e firme. Muitas vezes mimada, soberba, forte. A fragilidade que avistava não combinava com aquela figura, ou talvez todos os anos de convivência não foram o suficiente para desvendar a alma inquieta que se pintava naquele rosto.
A fotógrafa olhava para a tela preta e apagada do celular com menos de minuto de diferença, o questionamento de ter feito a coisa certa ao mandar a pequena mensagem a corroía por dentro.

Assistir aquela cena causava um desconforto desmedido no interior da ruiva. A grande verdade é que Vanessa sempre foi e continua sendo perdidamente apaixonada pela fotógrafa que até então tentava levar esse sentimento de uma forma prática, a amiga era uma pessoa extremamente importante para ela e não queria perdê-la.
Para a sócia, alcançar aquele olhar novo nos olhos rasgados de Marina abria um buraco em seu peito, era tomada por uma sensação desconhecida de perda.
Aqueles olhos, aqueles olhos que a fizeram repetir por incontáveis vezes para si as palavras do poeta Vinícius
‘Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces, porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto’
Vanessa já perdia as forças para lutar por aquele fascínio, se conformava com os dias que passavam, com a amizade que lhe era oferecida, tudo o que Marina podia lhe dar. Mas a menção de perdê-la para um grande e verdadeiro amor lhe fazia torcer o cenho, o coração, a alma.
–Marina, meu amor, você não se enquadra nesse mundinho de cristal dela – Continuou sem pensar – O lance com você, se ela continuar se permitindo, vai acontecer bem longe desse universo.
A fotógrafa não reagiu, o olhar continuava baixo e molhado, Vanessa sentiu uma pontada de culpa por dizer aquilo, percebeu o quanto era egoísta às vezes quando se tratava do seu amor. Não se importou por um momento se as palavras a machucariam. Colocou mais uma vez seu interesse à frente de tudo e não se sentiu digna. Um pensamento que obviamente guardou para si.
Decidiu que não falaria mais nada, aproximou-se do corpo que continuava deitado no chão e fez menção de afagar seus cabelos quando o som do celular fez os olhos até então perdidos atentarem.
Quando a tela do aparelho acendeu trouxe junto um sorriso largo que somente os lábios bem desenhados de Marina poderiam dar. Como uma criança faceira sentou-se no chão e leu a mensagem em voz alta, mas era para si que falava.
–Ela me quer– Exclamou – Ela me quer eu agora eu sei, eu tenho certeza! – Terminou ignorando agora de vez o discurso antagonista da ruiva.
–Bom, se você está dizendo – A amiga deu de ombros fazendo uma careta típica e debochada – Só quero ver até quando essa felicidade vai durar. Se você não se cansar de brincar com ela primeiro, não é?
Marina agora sentia as forças voltarem, levantou em um impulso e caminhou até Vanessa. Olhando-a nos olhos e com a voz carregada de uma firmeza assustadora perguntou
–Vem cá, você é minha amiga? Ou não é... – Criou-se um silêncio que foi rapidamente quebrado pela afirmação seguinte da castanha – Não, porque se você me conhecesse do jeito que diz que me conhece saberia que eu nunca fui de brincar com o sentimento das pessoas, pelo contrário, sempre fui completamente transparente com as minhas intenções, o que fazia com que muitas delas não soubessem lidar. Assim como você pelo jeito... – Terminou com um olhar incrédulo deixando a sala em direção ao seu quarto.
Teria um dia cheio amanhã, estava cansada, exausta na verdade. Tomou um banho quente, a água corria pelo seu corpo alvo quando um sorriso voltou a aparecer, lembrou-se das palavras escritas por Clara, da resposta mais do que perfeita que acabara de receber
‘Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir’
Pra mim, pensou, pra cá, sussurrou enquanto ensaboava com delicadeza o peito.
Deitou-se e deixou o sono apoderasse dela sem resistir, estava decidida que não duvidaria mais de tudo que foi vivido, que não diminuiria mais o que ambas sentiram, principalmente por ser algo novo e nascente. Lembrou da força que vinha de Clara e da vontade que via em seus olhos, vontade de ser feliz de buscar. Definitivamente não duvidaria mais disso, adormeceu.
A morena acordou desnorteada, demorou alguns segundos para entender que estava na casa da irmã. Não estava nos braços de Marina e muito menos dividindo a cama com o homem que agora parecia uma figura distante da realidade.
Lavou o rosto no banheiro, escovou os dentes e colocou uma muda de roupa qualquer que tinha em sua bolsa. Saiu do quarto ignorando o fato de que teria que lidar novamente com a figura do então marido. A noite passada não tinha sido um pesadelo, havia realmente acontecido.
–Bom dia irmã, dormiu bem? Tá melhor? – Perguntou Helena na mesa do café, estava acompanhada pelo resto da família que olhava Clara com olhos curiosos. Ela ainda não havia comunicado que a morena estava lá.
–Acho que sim – Sussurrou sem fazer muito esforço – Eu vou pegar o Ivan, tenho que levar o bichinho pra escola.
–Não se preocupa, eu tomei a liberdade de pedir pra Rosa fazer isso – Declarou sem saber se tinha feito a coisa certa – Pra evitar, você sabe...
A morena sentiu certo alívio, não por não ter que acompanhar o menino, mas por não ser obrigada a enfrentar os olhos de Cadu, não naquela hora da manhã. Ainda tinha do que se recuperar.
–Ah, você sempre faz a coisa certa irmã. Obrigada por se preocupar e cuidar de mim – Disse com a voz rouca depositando um abraço e um beijo do topo da cabeça da mais velha.
–Vem, senta pra tomar café com a gente, come alguma coisa.
Aceitou o convite de primeira, saber que tinha uma família grande que a amava fazia seu problema diminuir, nem que fosse um pouquinho só.
Luiza e Felipe puxaram assunto com a mãe de Ivan, falavam sobre o almoço que Dona Chica havia decidido fazer de última hora.
–Pois é, ela disse que o Ricardo é piloto e que vai viajar por dez dias para um congresso da empresa, então decidiu adiantar essa reunião, me pareceu muito feliz contando dele – Disse Felipe.
–A vovó hein, toda cheia de segredos, não queria envolver a família antes de ter certeza que daria certo. Disse ontem que tinha receio, não sei do que né mãe – Riu Luiza
–Pois é, bobeira dela – Concordou Helena sorrindo – Bom, mas deve saber o que faz né. Se preferiu assim...
–E eu não sabia de nada até ontem a noite – Suspirou Clara.
–Foi tudo tão rápido depois que ela contou, irmã. – Amenizou – E você viajando, acabou que passou batido.
–Pena que a mamãe teve que marcar hoje por causa da viagem do Ricardo, o Ivan tem prova depois do horário. Lembra que o bichinho ficou doente e faltou três dias na escola?
–Lembro – Disse Helena fazendo cara de dó – Marcaram logo hoje? Poxa, que pena Clara.
–Pois é, ele vai ter que conhecer o vôdrasto quando voltar de viagem – Disse dando uma risada com a palavra e fez todos na mesa entrarem no mesmo clima.
Clara era uma alma iluminada, sempre foi diferente das outras pessoas que conhecera no mundo, pensou Helena. Mesmo com problemas o sorriso aparecia largo e iluminando o semblante, tinha luz.
–Bom, tenho que adiantar uma papelada na casa de leilões meus amores – Declarou Helena levantando-se da mesa – Não se atrasem para o almoço, Dona Chica não iria gostar nem um pouco.
–Pode deixar mãe, saio da última aula e vou correndo pra lá – Sorriu Luiza.
–E eu tenho só quatro pacientes essa manhã, irmã. Estarei lá pontualmente – Disse Felipe com seu jeito todo particular de falar.
–E você? – Perguntou fitando a mais nova com carinho – Por que não aproveita o dia lindo e vai dar um mergulho no mar? Acho que ajudaria.
–Mais uma vez acertando minha irmã – Sorriu com os olhos para a mais velha – É isso mesmo que eu vou fazer.
A água salgada estava extremamente mais gelada que o habitual, não pensou duas vezes e mergulhou o corpo inteiro no mar do Leblon, hoje mais azul e claro do que de costume. Nadou submersa para frente sem saber ao certo para onde estava indo, apenas nadava e sentia a água glacial envolvendo seu corpo.
O rosto de Marina desenhou-se em sua mente fazendo o corpo dourado subir para tomar fôlego.
Virou-se de barrigada para cima cegando com a claridade do sol, observava o céu como conseguia enquanto boiava, flutuava nas lembranças, no cheiro que sentia falta, na voz que aguçava os seus sentidos, nos olhos. Ah, os olhos.
Elas precisavam conversar, precisava contar para a fotógrafa que estava decidida e que ser dela era só uma questão de tempo, e esse tempo era muito curto.
Saiu do mar para descansar a pele arrepiada no sol, o calor que alcançava sua superfície contrastava com o frio sentido. Pegou o telefone e sentiu vontade de ligar para a castanha, queria ouvir sua respiração, queria a tranquilidade que ela passava, queria a certeza de que tudo ficaria bem e então a tela acendeu, não era possível, Marina mais uma vez se antecipando nos seus pensamentos, como ela consegue? Pensou
–Alô – Disse em um sorriso
–Bom dia, Clarinha – Devolveu em outro
–Melhor agora – Sussurrou a morena com a voz rouca, sabia que aquilo seria um carinho na mulher que estava no outro lado da linha.
–Dormiu bem? – Perguntou a fotógrafa com um interesse sincero
–Ah Marina, que noite longa. – Suspirou – Aconteceu tanta coisa que... Que eu nem sei por onde começar – A confusão era genuína
–Sabe – Começou a castanha com a voz um pouco mais baixa – Eu Passei muito tempo ontem pensando que... Pensando que você tinha ido pra não voltar mais.
–Mas, por que isso? – Clara ficou confusa – Você sabe Marina, você sabe que eu quero tanto quanto você. Eu... Eu não iria te falar uma coisa dessas se não fosse a mais pura verdade, se não fosse exatamente o que eu estava sentindo.
–Eu sei! Eu sei... – Concordou sorrindo balançando a cabeça, agora desacreditava de ter pensado tanta besteira – Mas sabe, você de volta na sua casa, para o seu marido, sua vida, não pude evitar esses pensamentos, Clarinha. Você é uma mulher casada e... – Foi interrompida.
–Escuta – Disse com firmeza – Eu e o Cadu vamos nos separar e isso já está decidido.
–Ma... Mas quando? Como assim? Quando isso, Clara? – Gaguejou a fotógrafa.
–Essa noite – Suspirou lembrando-se da briga terrível que vivera – Mas acho melhor conversarmos sobre isso pessoalmente. Tudo bem?
–Sim, claro claro. Concordo plenamente – Parou por um momento – Janta comigo essa noite? Tenho alguns compromissos durante o dia, mas faço questão de te servir um jantar no estúdio. Assim podemos conversar com tranquilidade, o que acha?
A morena pensou por uma dupla de segundos e teve certeza que adoraria ver Marina naquela noite, mais do que isso, precisava daquilo.
–Tudo bem – Sorriu de leve – Conversamos essa noite então.
–Ótimo – Exclamou a fotógrafa – Vou pedir pra prepararem tudo por aqui enquanto estou fora, meu motorista vai ter buscar as 20h.
–Não precisa disso tudo, eu pego um táxi — Tentou convencê-la que era um excesso.
–De forma alguma. Não aceito um não como resposta – Sorriu.
–Você e seus mimos! Já te disse que vou ficar mal acostumada.
–Eu só te trato como acho que mereça, não to fazendo esforço algum pra isso – Concluiu Marina no habitual tom galanteador e extremamente sedutor.
–Tudo bem – Sussurrou alegre – As 20h.
Despediram-se com carinho, ambas sentiram o coração acelerar, o sentimento era forte de secar a boca, a possibilidade de estar no mesmo ambiente que a outra fazia as mãos tremerem, se molharem.
Clara viu a manhã despedi-se na praia, voltou para sua casa, precisava se arrumar para o tão comentado almoço da mãe.
Cadu não estava mais lá, como era esperado, tendo em vista que ele estava cuidando dos preparativos no bistrô que ficava dentro de um grande galpão cultural.
A felicidade voltada a tomar conta de si, sentiu vontade de ficar bonita, queria causar uma boa impressão para a família do escolhido de Dona Chica.
Sorriu ao perceber que a mãe, mesmo com uma idade um pouco mais avançada não estava com medo de recomeçar, sentiu-se orgulhosa e inspirada. Nunca era tarde para ser feliz, Marina tinha razão.
Sentiu falta da foto que tirara com a fotógrafa naquela festa, onde se conheceram, seu estômago seu contorceu pensando que Cadu poderia ter dado sumiço nela, mas não iria se preocupar com aquilo, não agora.
Estava linda, a pele ainda mais dourada pela manhã que passara debaixo do sol. Os cabelos presos em um coque e brincos escolhidos a dedo.
Chegou ao bistrô acompanhada dos irmãos que se encontraram para irem juntos, Helena estava o tempo todo do seu lado, não queria deixar de apoiar caçula tão amada, não sabia qual seria a reação do cunhado ao vê-la.
A mãe chegou logo em seguida vestida de um sorriso que não escondia sua felicidade.
–Clara, filha que saudade – Agarrou a caçula depositando um beijo carinhoso em sua bochecha — Você está tão linda.
–Linda está a senhora, que surpresinha hein Dona Chica, agindo pela nossas costas e ninguém nem desconfiou – Brincou com a mãe devolvendo o beijo.
–Ah, eu estou na idade que não dá mais pra ficar errando, esperei ter certeza pra apresentar o Ricardo para vocês – Respondeu a mãe ainda sorridente.
–E falando nisso, cadê ele? – Perguntou a morena.
–Ta chegando, passou para buscar a filha e a prima no lugar onde elas trabalham – Disse voltando a atenção para o resto da família deixando Clara com um leve sorriso no rosto, a encantava ver a mãe tão alegre.
–Oi – Ouviu a voz de Cadu atrás de si.
–Oi – Respondeu virando e apagando por um momento a expressão – Tudo pronto para o almoço? – Tentou caçar um assunto para não deixar que o desconforto tomasse conta daquele momento.
–Sim, tudo pronto – Sorriu forçado o chef de cozinha.
Como em fração de segundos viu a expressão no rosto do então marido desbotar, os olhos olhavam para longe, pelo o que pôde perceber avistavam a entrada do lugar.
Aquele olhar tornou-se sombrio e sem entender o que o causava fez menção de virar para descobrir, não teve tempo.
O homem a agarrou envolvendo a morena em um beijo torto, desesperado, queria provar alguma coisa e definitivamente ela não retribuiu, pelo contrário, se desvencilhou dos braços que quase a machucam.
–Você ta maluco, cara? Qual o seu problema — Sussurrou tentando evitar chamar atenção do resto da família que estava presente.
Percebeu que os olhos mortos e vazios tornaram a voltar para a direção, não quis esperar pra ver o que causava aquele desespero e girando o corpo sobre os calcanhares seguiu o mesmo caminho.
Lá estava ela, não sabia por que, não sabia como, mas lá estava ela, linda como sempre.
Marina estava cercada pelo irmão e por um homem alto e bonito que julgou ser Ricardo.

Os olhos da fotógrafa a fitaram e logo se perderam na mãe da morena que vinha cumprimentá-la, Clara enxergou a dor naquele sorriso que ela tentava desenhar, naqueles olhos que já conhecia.
A fotógrafa sentiu o chão desaparecer, arriscou construir um sorriso em seu rosto, não sabia o motivo da morena estar ali e com o marido. Naquela manhã declarou estar se separando, sentiu que a cena havia sido esquisita. Ficou confusa, as pessoas falavam com ela e a cabeça flutuava em pensamentos desconexos. Não tinha a menor ideia em que conclusão chegar.
Marina havia visto a cena, a cena que Cadu tentou retratar especialmente para ela e o coração da morena partiu-se, não queria ver sua coisinha sofrer.
Cadu, lembrou do homem e percebeu o corpo alto ainda próximo de si. Parecia poder sentir a respiração que aumentava, o desespero tomou conta do seu corpo, os olhos já não estavam aguentando mais segurar. Teve medo, estava certa, sentiu a mão pesada a puxar de volta.
Foi virada com grosseria e deparou-se com um olhar descrente e repleto de ódio.
–Qual o seu problema? – Falou alto apertando mais os dedos ao redor da pele de Clara – Você convidou ela pra vir aqui? Você ta maluca, ta de gozação com a minha cara? – Agora quase gritava.
Naquele exato segundo não conseguiu reagir, sentiu os olhos de todos os presentes no local voltarem-se para eles. Antes mesmo que alguém pudesse contrapor-se à cena pensou: estava feito, e não seria nada bom.
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