I want you...hungry.
28 Ma femme plus que parfaite
Notas iniciais
A tarde passava por ali sem ser percebida, os pássaros cantavam a vida que seguia enquanto o sol descia devagar levando consigo a luz.
Como matéria que sente sua ausência e uma mente que ama a sua presença, Marina foi a primeira a acordar com a mudança de luminosidade. O clima agora um pouco mais fresco fazia o calor do corpo repousado em sua frente ter ainda mais utilidade.
Despertou primeiro seu olfato, encontrou no cheiro que a rodeava segurança. Depois o tato, sentia Clara enrolada em seus braços, junto com um pequeno par de mãos que segurava com leveza um deles. Finalmente cedeu à visão, abrindo os olhos devagar, redescobrindo o ambiente que a cercava. A morena dormia ainda profundamente, o pequeno de cabelos dourados aninhava-se na mãe e abraçava o braço branco e pintado da fotógrafa.
Ela lidava com arte, emoção, buscava isso em seus trabalhos, nas pessoas que fotografava. Mas pela primeira vez sentiu em si tais sentimentos genuínos, queria ela ser fotografada ali, queria que alguém como ela, com sua visão, sua alma e sua sensibilidade fotografasse exatamente aquela cena.
Levantou-se com cuidado, não queria acordá-los. Os olhos encontraram ainda inchados de sono e sem maquiagem, a luz alaranjada que desenhava o céu.

Os pensamentos se esvaíram e tudo o que conseguiu foi contemplar. Uma vida contemplativa pensou.
–Parece que ta pegando fogo, né? – Ouviu a voz infantil ainda mais rouca perto de si – Olhando bem até que os meninos tinham razão em gostar de tirar foto da natureza – Sorriu também contemplando a vista – É muito bonito.
A fotógrafa abaixou para ficar na altura do garoto, os olhos voltaram a encarar o alaranjado do céu
–A beleza é subjetiva, os nossos conceitos são relativos, isso faz com que você possa gostar de fotografar os prédios e mesmo assim ache a natureza inspiradora – Olhou dentro dos olhos cristalinos que a encaravam.
–Como assim, Marina? – Questionou com atenção
–Conceito relativo significa que ele depende do nosso foco, do nosso estado de espírito. Do momento que estamos vivendo, entende? – Sorriu sabendo que o menino era capaz de alcançar seu raciocínio.
–Acho que sim – Suspirou – Significa que sempre pode mudar?
–Sim, ou também permanecer o mesmo, se a pessoa permanecer sempre igual. – Apertou a bochecha rosada – Mas esse acho mais difícil, todo mundo ta sempre mudando, evoluindo.
–Eu to mudando – Exclamou o menino – De uma criança com fome pra uma criança com uma SUPER fome – Terminou brincando de fazer voz de super-herói.
Os dois caíram em uma gargalhada contida, não queriam assustar Clara.
–Sempre espirituoso, hein bichinho? – A mãe sussurrou se contorcendo no sofá – Quer dizer que eu fui abandonada aqui, não acredito... – Fez beicinho.
Sem que precisassem combinar os dois se olharam e avançaram na direção da morena que agora se protegia. Foi tomada por cosquinhas, apertões e beijos.
Brincaram e gargalharam até perderem o fôlego.
–Ai ai – Suspirou Marina – Dormimos a tarde inteira, nossa...
–Também, comendo hambúrguer, batata frita, sorvete de chocolate, caramba, não tem quem aguente! – Proferiu a morena – Mas parece que esse soninho gostoso abriu o apetite do meu monstrinho – Falava enquanto apertava o menino.
–O meu também, acredita – Marina fazia uma cara encantadora de menina culpada – Vamos subir? Vou pedir para prepararem um lanche leve pra gente, aproveitamos e mostramos o estúdio pro Ivan.
–Oba! – Comemorou o menino se levantando.
Não precisou fazer o pedido, uma mesa linda já os aguardava. Marina pensou em como as pessoas que trabalhavam com ela eram especiais, não era só uma questão de competência e sim de carinho. Apesar de ser uma patroa firme e até um pouco mimada às vezes, a fotógrafa era muito querida e admirada por todos que a rodeavam.
Comeram primeiro, com calma, conversavam sobre assuntos variados. Estudos, viagens, filmes e claro, videogame!
O ambiente era agradável, a relação dos três mostrou-se leve. Não ouve esforço de nenhum dos lados para aquela conexão. Simplesmente aconteceu.
Ivan era um garoto tranquilo, do bem, sem grandes maldades construídas pelos adultos. Marina era uma mulher forte, apaixonada e inteligente. Clara uma mãe orgulhosa, um coração completo e luz. Não tinha como tal encontro ser diferente.
–Já podemos conhecer o estúdio, Marina? – Perguntou o loirinho satisfeito.
–Podemos sim, garotão. Vamos Clarinha?
–Vamos!
Caminharam pela grande sala até chegarem a uma das portas que levava ao amplo ambiente. Ivan abriu a boca e arregalou os olhos, estava encantado.
–Caraca, é muito grande aqui! – Exclamou enquanto andava pelo ambiente – Olha só mãe, um monte de luzes grandonas.
–É filho, mas cuidado pra não derrubar nada, ta?
–Pô, eu sei né mãe – Advertiu o garoto sorrindo rouco.
–Pode vir quando quiser, só pedir pra sua mãe te trazer – Sorriu doce enquanto olhava Clara com ternura – Olha só, já que percebi esse seu gosto pela imagem e pela fotografia eu vou deixar essa câmera com você – Agora falava entregando um modelo mais antigo nas mãos ainda pequenas, era de filme.
–Ué, mas onde mostra a foto? – Ele virou curioso e sincero a câmera em sua mão.
–Essa é um modelo que chamamos de analógico – A última palavra saiu mais devagar para dar tempo do menino absorver – Ela tem um rolo de filme dentro, daqueles que temos que revelar depois – Contava enquanto se sentava ficando na altura dele – É uma responsabilidade que estou entregando nas suas mãos, pra você usar e cuidar, ta bom? — Era amável.
Clara se abaixou, observava a cena com um sorriso bobo desenhado no rosto, não podia esconder a felicidade de ver o laço que já criavam em tão pouco tempo. Crianças são assim, pensou, sinceros.
No caso do filho, a sinceridade transparecia uma admiração criada por Marina. Ainda não sabiam ao certo os porquês. Poderia ser sua profissão, poderia ser até mesmo a imponente casa com videogame e piscinas, mas a grande verdade é que a proteção o fazia sentir tamanha admiração.
A forma como a fotógrafa a olhava, a cuidava, a fazia sorrir e principalmente, a protegia. Para uma alma sensível e pueril, bastou um abraço para captar.
–Obrigada, Marina! – Sorriu sentando no colo na fotógrafa a pegando de surpresa em um abraço – Você é muito legal – Terminou com um beijo apertado em sua bochecha, fazendo os olhares das duas mulheres se cruzarem cheios de brandura. Apenas sorriam.
–Bom, vamos embora né, garotão? Seu pai me mandou mensagem, ta com saudade e quer passar o domingo com você. Vamos dormir cedo hoje.
–Ah, mãe, poxa! Tá tão legal aqui – Fez manha
–Mas vamos voltar mais vezes meu amor, muito mais – Sorriu tentando acalmar o filho enquanto Marina ainda o abraçava.
–É Ivan, a gente marca mais um monte de dias gostosos como esse – Agora o beijo depositado era dela.
–Ta bom, né... – Suspirou – Criança não tem escolha mesmo – Lamentou arrancando gargalhadas das mulheres que observavam o drama, nem o próprio aguentou.
–Filho, busca o seu tênis lá na sala pra gente ir? – Foi atendida prontamente pelo menino.
–Amanhã que horas meu amor? – Abraçou Marina com as duas mãos, passando-as em suas costas.
–Pode ser às 9h? Assim aproveitamos a luz da manhã – Já tinha o trabalho em mente
–Claro, as 9h então – Ouviram a aproximação do menino e se afastaram sem serem notadas.
Ivan sentou no chão pra calçar os sapatos, observando como as duas pareciam se gostar.
–Vamos filho? Tá pronto? – Perguntou
–To quase terminando mãe
–Acompanha a gente lá fora – Agora olhava para Marina esticando umas das mãos, não tinha medo de demonstrar esse tipo de carinho na frente do menino. Sorriram, os três, em perfeita harmonia.
Clara chegou em casa radiante, via nos olhos do filho que o dia havia sido bom pra ele também.
–Hum, que cheiroso – Falou fungando o pescoço do pequeno banhado e de pijamas já sentado em sua cama
–Para mãe – Se recolhia rindo de cócegas – Eu sei tomar banho, ta? – Disse ficando sério novamente.
–Eu sei, é um homenzinho muito cuidadoso, do jeito que a mamãe ensinou – Riu.
–Mãe – Soltou baixinho com a voz característica recebendo a atenção da morena que o olhava – A Marina é muito legal, ela fala um monte de coisa legal
–Ela é sim, filho – Suspirou – A Marina... A Marina é muito especial pra mamãe, é realmente muito importante saber que você gostou dela assim – Beijou a testa do filho – Muito.
–É, eu já quero tirar um monte de fotos pra mostrar pra ela, mas... Mas eu não sei se vão estar boas, né? Não tem onde ver – Os olhos arregalaram.
–É por isso que você tem que pensar antes de tirar, observar o que esta fazendo, o foco, tudo. Faz você ser mais cuidadoso com o que vai escolher fotografar. Acho que deve ser por isso, não sei – Também arregalou o olhar imitando o filho e agora fazia uma voz brincalhona de ordem– E o senhor, hora de dormir.
–Flavinha — Disse enquanto dava um gole na taça de champagne — E a Vanessa? Sumiu? Evaporou? – Bebia com a amiga e assistente no estúdio principal.
–Ela passou o dia no quarto dela sofrendo de ressaca, né Marina? Sabe como é e peça. Mas... Depois ela saiu e não disse pra onde ia, não vi mais – Também deu um gole em sua taça.
–Ela não aceita o meu relacionamento com a Clarinha – Bufou – Eu realmente não sei mais o que fazer com ela e com essa obsessão, sabia? Tentava fazer vista grossa, sempre gostei de ter ela por perto, sempre foi minha amiga, mas... Mas ela não pode ficar insultando a mulher que eu amo, que eu escolhi.
–Nossa, você apaixonada mesmo hein... Quem diria! – Exclamou – Não é só a Vanessa que esta de ludo né Marina, faz favor – Brincou com a amiga – As sapas do mundo estão chorando lágrimas de sangue – Agora gargalhava.
–Ah – Abriu a boca rindo com uma feição de surpresa – Você é uma palhaça mesmo, Flávia. Elas têm você ainda, o sofrimento não vai ser tanto. – Terminou com aquele ar ostentoso proposital – Tudo pronto pra amanhã?
–Tudo pronto, como sempre. Meu sobrenome é competência.
– A Vanessa disse que não ia participar, que não trabalharia domingo pra te agradar – Riu pelo nariz.
–Que bom, me poupa dor de cabeça. Ainda tenho que ter uma conversa séria com essa bandida. Mais champagne?
–Por favor – Esticou o braço.
O domingo amanheceu tão lindo e luminoso quanto o sábado, na casa de Santa Teresa tudo já funcionava a milhão e apesar da garrafa que beberam ontem entre conversas e risadas, Marina e Flavinha estavam com a disposição de uma cavalaria.
Clara também acordou cedo e preparou o filho que passaria o dia com o pai, o deixou na casa de Helena como havia combinado com Cadu, logo o homem iria buscá-lo.
–Bom dia, minhas mulheres! – Bradou Vanessinha enquanto entrava no estúdio onde Marina e Flavinha verificavam o material que ia ser usado.
–Olha só quem acordou de bom humor – Brincou a fotógrafa – Dá até gosto de ver.
–Pois é, mas não se acostuma não, viu? – Debochou a ruiva
–A que deve tanta energia essa hora da manhã de domingo? – Flavinha estava realmente curiosa
–Segredo de estado – Cruzou os dois indicadores na frente na boca – Bom trabalho para as operárias, hoje a ruiva aqui não coloca a mão na lavoura. Fui! – Exclamou sem dar direito de resposta para as duas.
–Operárias? – Repetiu Marina com uma cara incrédula e risonha – Essa Vanessa não presta mesmo – Riu.
Sentiu os olhos serem tapados por mãos femininas, macias e grandes. O cheiro que aquela pele exalava jamais poderia ocultar sua identidade.
–Meu amor – Sorriu
–Não tive nem chance?
–Se eu tivesse no escuro, no meio de mil mulheres eu... – Aproximou-se afundando o nariz na pele dourada – Te reconheceria pelo cheiro – Apertou Clara contra si – Pelo tato – A beijou com doçura os lábios.
–Já tomou café, Clarinha? – Preocupou-se
–Tomei, tomei com o Ivan. E olha, vou dizer que ganhou mais um fã – Passava a mão pelo rosto branco iluminado com a notícia – Ele realmente se encantou com você, é bonito de ver a admiração genuína nos olhinhos dele.
–E eu me encantei por ele, que menino doce, sensível, humano. Mas eu vou te falar que vindo de você, não esperava que fosse diferente – Era autêntica em suas palavras.
–Os rapazes da maquiagem estão prontos, Marina. Vamos começar pra não perder a luz?
–Vamos! – Exclamou a fotógrafa exibindo agora uma expressão profissional e focada
–Clarinha, pode acompanhar a Flavinha até o camarim. É... – Pausou pesando na melhor forma de falar, escolheu um sorriso animado e tentador pra começar – Sobre o figurino, eu havia falado das roupas lindas que temos aqui. Vou usar algumas, claro... – Pausou mais uma vez – Mas... Tem umas peças especiais que acho que devesse usar. A Flávia vai te entregar, seremos só nos três no set e... Bom, espero que goste – Riu da própria confusão, não era normal para Marina Meirelles passar por isso.
–Olha, eu já to aqui mesmo na ponta do trampolim, não é amor... Tem escapatória? – Divertiu-se Clara com um sorriso nervoso.
–Não, não tem! – Marina foi fatal.
Estava distraída no telefone quando viu a morena entrar acompanhada da assistente. O queixo caiu e tudo que conseguiu fazer foi se despedir do amigo francês com quem conversava
–D'accord, nous allons parler plus tard. Bisous, ma chérie – Desligou, os olhos ainda vidrados na mulher que acabara de arrancar todo o ar de seus pulmões.
–Clara – Suspirou sem conseguir falar mais nada.
–Gostou ? – Perguntou com o sorriso ainda acanhado
–Ma femme plus que parfaite. C'est bel et bien vrai, ma femme tu es plus que parfaite, tu es au dessus de tout — Recitou apaixonada um trecho que lembrou ter lido, Clara não falava francês, mas reconheceu em seus olhos que ali era o amor dito em outra língua.
–As luzes na sala de jantar já estão preparadas, Marina. O sol tá iluminando bastante também, acho que seria um bom momento – Flavinha passou as informações de forma profissional.
–A arara com as outras peças também está lá?
–Sim, tudo posicionado já.
–Ótimo Flavinha – Terminou mostrando o caminho que a morena já conhecia.
Quando chegaram ao grande cômodo, Clara constatou que foi naquela grande mesa de madeiro rústica que estavam sentadas tomando vinho, rodeadas por amigos queridos de Marina. Foi ali que engoliu os lábios arroxeados pela bebida antes mesmo de beija-los. Sentiu um frio percorrer toda a espinha ao seu lembrar da cena.
–Gosto daqui – Sorriu o objeto de seus maiores desejos com a câmera na mão.
–Eu também – Devolveu a morena com o corpo dourado vestindo uma lingerie branca, meias que passavam dos joelhos e um corpete. Marina tinha razão, era uma figura deslumbrante e possuía o sorriso mais encantador que já havia visto na vida.
Flavinha pegou o rebatedor, ligou o som, e quando The XX começou a tocar falou em voz alta com um sorriso maroto encarando Clara, mas com a atenção direcionada à sua chefe
–Enquanto ela se arrumava dei umas doses de bebida, fiz bem ? Saquê ... – Concluiu com o sorriso que aumentara.
–Muito bem – Respondeu uma Marina concentrada, dona de uma expressão quente, quase brutal empunhando sua câmera – Fez muito bem...
Fale com o autor