I want you...hungry.

27 Le seul défaut dans l'eau est de gravité


Notas iniciais
O mood da paz no repeat | https://www.youtube.com/watch?v=hERrQJEJ96A Nota 1: Queridos, mil desculpas pela demora em postar, faria isso ontem se o Nyah ajudasse. rs

Contorceu-se em um tremor suado, olhos fechados com força entregavam sua visão, não estava ali. A mente viajara ao encontro de alguém que lhe preenchia as mais profundas fantasias. O ato era individual, mas o prazer dividido.

Marina cedeu à força da gravidade sentindo o corpo afundar pesado em seu colchão, passou a língua nos lábios que de tanto permanecidos abertos acabaram por secar. Notou que o esguio dedo ainda permanecia e o tirou com calma, trazendo consigo parte do prazer úmido.

Pensou em como aquilo poderia ser possível, Clara mesmo distante participando de seu deleite. Como se a presença da companheira no mundo fosse mais que suficiente para identificar as ondas de prazer que dividia com ela através do ar.

Pegou o celular e ainda ofegante respondeu em voz enxergando a imagem dourada por detrás de suas pálpebras.

–Achou que estivesse se tocando, quando na verdade estava me comendo.

No momento que o aparelho da morena anunciou o retorno de seu ousado gesto os dedos já dançavam em seu sexo num ritmo acelerado. O pequeno ponto encapuzado estava rígido, concentrando em si o sangue que escapava das veias. Tateou com a mão livre a cama em busca do sinal, provavelmente Marina.

Estava certa, escutou a mensagem da voz adocicadamente rouca e ofegante, mal podia acreditar no que ouvira.

Sentiu na boca do estômago a invasão de uma corrente fria e deliciosa, a pele se arrepiou como se as palavras tivessem sido sussurradas em seu ouvido. O movimento acelerava e seu corpo começava a não responder.

Teve força suficiente para apertar o pequeno ícone que gravaria sua voz, tentou falar, mas não conseguiu. Tudo que saiu foi um gemido baixo, delicado, rouco e extremamente sensual. A mão afrouxou e o aparelho caiu, já havia sido o suficiente, mensagem enviada.

Não era bem aquilo que planejava, mal sabia que nesse momento aquele ‘silêncio’ valeria sim mais que mil palavras.

Não se falaram mais naquela noite, não precisou. Pegaram no sono ainda mais conectadas, apaixonadas, com total ciência da representação de uma para a outra.

A sexta começou como de costume para Clara, mandar o filho para o banho, deu café, escola, tudo que ela desenvolvia com destreza. Resolveu tirar o resto da manhã pra cuidar um pouco de si, foi para o salão e por ali ficou até a hora do almoço quando voltou para buscar o pequeno. O resto do dia passou sem grandes dificuldades.

Para Marina não foi diferente, cuidou dos detalhes do ensaio que faria de Clara com Flavinha, teve uma ideia especial e pediu para a assistente conseguir as peças que queria. Conversas com fornecedores, últimos acertos para a viagem de Nova Iorque e o tão esperado sábado com Ivan. Uma pequena sessão de fotos encerrou o seu dia.

Dormiram, com muito gosto.

O sol apareceu no céu de Brigadeiro, em um azul carregado e magnético. Acordou do sono profundo com uma leveza justificável, os olhos abriram devagar, percebeu ser dia, fecharam novamente e agora o que sentia era um aroma dançante de café pelo ar. A casa era grande, mas aquele cheiro era forte, persistente.

Os olhos lutaram mais uma vez para se abrirem, por entre as pestanas identificou seu tão amado espaço. Claridade raiada, mas em uma manhã de sábado provavelmente o Rio ainda era uma cidade que dormia. Virou-se para o teto esticando os braços em uma espreguiçada que estalava energia.

Marina não era de acordar cedo, mas hoje despertava com a graça da felicidade plena. Sentou-se na cama colocando com calma simultaneamente a planta de seus dois pés no chão. Desceu as escadas observando a luz dançante do sol que invadia a casa sem pedir licença. Criando espelhos em superfícies lisas, mostrando partículas que se desprendiam pelo ar.

Vestida em uma camisa branca alguns tamanhos maiores que seu manequim e pernas de fora, encontrou sem dificuldades o acesso do jardim. Marchou observando o céu, procurando por alguma nuvem, qualquer borrão branco que manchasse toda aquela perfeição, não encontrou.

Os pés caminharam tateando o chão de pedra, o encontro com a vida verde do gramado lhe trouxe lembranças de uma manhã não muito distante, onde viu o sol nascer e entendeu em um contato íntimo com a natureza os sinais de um verdadeiro amor.

Lembrou-se de um trecho marcante de uma aula de literatura, como se um clarão a engolisse teve a mente transportada para aquele dia, nos seus tempos de faculdade

Remembrance on

Era sobre Marianne que falavam, mas precisamente sobre o livro que se chamava La Vie de Marianne. Uma menina que um dia encontra com os olhos da alma um rapaz dentro de uma igreja.

–Vou sempre divagar? Acho que sim, é impossível não fazê-lo. As ideias tomam conta de mim. Sou mulher e conto minha história – Começou a ler a estudante de pele morena e olhos pintados, a face vidrada no livro – Considerem o que estou dizendo e vejam que não uso dos privilégios que isso me dá.

–Ok, pare – Interrompeu o professor de voz grave e firme, sem deixar de transparecer doçura – Comece de novo a partir de ‘Sou mulher’. Mas primeiro diga isso para si mesma. ‘Sou mulher’ é uma verdade – Observou.

Marina admirava a cena com olhos atentos, rasgados e sedutores. Sempre carregara em seu olhar o karma de seduzir o mundo, mas isso não é algo ruim, muito menos forçado. A sedução não era limitada ao desejo sexual, a sedução passeava em seus encantos, seus dons, suas forças.

–Entendeu? – Perguntou o professor

–Sim

–Comece daí, conte a sua história, é uma verdade – Reforçou o homem que queria a genuinidade, a verdade que encontramos em nossa vida cotidiana, a verdade que está nos sorrisos que se encontram, nas almas que se cruzam.

A então estudante de fotografia não entendia, mas queria, e muito alcançá-lo.

Tentava tirar das frases as substâncias que ali poderiam se esconder. Esforçava-se para ler nas expressões do homem ainda muito bonito apesar da meia-idade, os porquês. Aquilo mexia com ele, acreditava em tais palavras. Por quê?

–Eu sou mulher – Repetiu a companheira de classe pensando em si – e conto a minha história – Continuou

–Entre os rapazes que atraí, houve um que notei. Meu olhar focava-se nele mais do que nos outros. Eu gostava de vê-lo, mas não me dava conta do prazer que isso me causava – As palavras da aluna morena saiam como uma narrativa, narrativa da vida de qualquer um ali, os estudantes mergulharam em uma viagem, sentiam-se parte, sentiam-se aquela garota – Eu seduzia os outros, mas não ele. Não pensava em agradá-lo, só sonhava em vê-lo.

–Obrigada, Saïda... Maelys? – Citou o nome de outra aluna passando-a a vez na leitura.

–Parece que o primeiro amor começa com essa sinceridade – Tinha vigor na voz – Talvez a doçura de amar interrompa a preocupação de ser amável. O olhar dele era diferente dos outros rapazes. Era mais modesto, e ainda sim mais atencioso. Havia algo mais sério entre Louis e eu – Era empolgada nas palavras, fazendo alguns estudantes tirarem sarro silenciosos dela que não percebeu — Os outros respondiam abertamente aos meus charmes -Concluiu sua parte na leitura.

Marina não ria como os outros, a jovem mulher permanecia presa nas palavras que dançavam, independente de quem as soltavam.

O sol entrava morno pelas largas janelas da sala de aula e a levavam para um lugar ainda mais interessante. O corpo imóvel, os olhos vagavam.

–Ele parecia perceber, ao menos foi o que desconfiei – Dizia do personagem – Mas de uma forma tão confusa que eu não podia dizer o que pensava dele, nem o que pensava de mim.

Outras palavras foram ditas e trechos lidos, mas o que viria a seguir desvendaria, agora, no dia de hoje com os pés nos gramados de sua casa no alto de Santa Teresa o que tudo aquilo queria dizer.

O porquê a atenção do professor vidrar naquelas páginas, o porquê dos ouvidos atentarem àquelas palavras e na veracidade de como eram proferidas.

–Finalmente, saímos da igreja. Lembro-me de andar devagar, eu diminuí meu passo – Agora era um garoto que encarnava os dizeres escritos – Senti falta do lugar que estava deixando. Eu estava indo com algo faltando no meu coração, mas não sabia o que era. Digo que não sabia, mas talvez soubesse, pois enquanto saía me virei várias vezes para olhar o rapaz que eu tinha deixado para trás, sem querer acreditar que fazia isso por ele.

–Obrigado, obrigado Samir – Interrompeu novamente o professor agradecendo ao jovem

–Como vocês interpretam o fato de ‘faltar algo no coração’? – Perguntou voltado para a turma

O espaço foi tomado por um silêncio, almas ainda juvenis e frescas tentavam entender e decifrar a profundidade da pergunta. Percebendo a dificuldade que os alunos encontravam para uma solução, tentou ajudar

–Quando vocês são objetos do olhar de alguém, trocam olhares ou se cruzam espontaneamente. Como ‘amor à primeira vista’ por exemplo, seguiriam em frente com algo a mais ou a menos no coração?

–Arrependimento? – Questionou o jovem Eli.

–Arrependimento? – Tentou entender o professor

–Sim, arrependimento, por não ter se virado e falado com a pessoa. Por deixar aquele sentimento passar.

–Então pra você é isso? — Entendeu o homem maduro

–Sim

–Então arrependimento é algo faltando em seu coração? – Analisou

–Arrependimento por não preencher o vazio no coração, por continuar sem aquilo que poderia completá-lo.

–Muito bem, Eli – Incentivou o professor arrancando risadinhas dos amigos que o cutucavam deixando o rapaz sem graça.

–Quero que pensem sobre a ideia de predestinação nos encontros, certo? Como que acontece às vezes no amor à primeira vista – Encerrou a aula.

Não precisaria ter pedido, Marina passou aquela tarde inteira fazendo isso. Almoçou com as amigas jovens, faladeiras e curiosas.

Tentavam tirar com frequência durante a refeição a estudante de fotografia de suas divagações, sem muito sucesso.

Era rica, viajada e muito nova, mesmo assim dona de uma sensibilidade ímpar. Percebeu naquele momento que gostava de desvendar almas, sentimentos, que acreditava no que a vivência e experiência passavam em apenas um olhar, lembrou-se da imagem de seu professor.

Lamentou-se por não ter o fotografado naquele momento. Talvez se fosse uma mulher, não teria resistido, apontaria sua câmera ali mesmo, naquela sala, para registrar o flagrante daquele olhar. Ah, as mulheres, pensou. Seres que moviam, junto com a arte, sua vida.

Remembrance off

–‘O único vício da água é a gravidade’ – Falou baixinho olhando para sua piscina, voltando a perceber o gramado exprimindo sob seus pés.

Aquela frase também dita por seu professor trouxe nexo à todas aquelas lembranças.

Era a associação de uma lei universal, a gravidade, ao vício. Ou ao amor. Algo tão simples que lhe dizia o quanto era impossível inibi-lo ou rejeitá-lo, Clara era intrínseca à ela. Assim como a gravidade à água.

E se a tivesse deixado passar, se não tivesse procurado pelo o que a chamava, seu vício, seu amor, seria hoje um coração vazio.

–Marina? – Ouviu a voz rouca atrás de si virando-se com aqueles mesmos olhos curiosos e sedutores de sua versão mais jovem.

–Clarinha! – Exclamou levando imediatamente seu foco para o pequeno garoto que acompanhava a morena, era ainda uma criança, mas mantinha um porte encantador de rapaz.

Os olhos claros possuíam o exato formato dos olhos da mãe, tinha a pele branca e os cabelos castanhos dourados, parecia um anjo

–Você... Bom, você deve ser o Ivan – Aproximou-se do menino curioso – Eu sou a Marina, muito prazer – Estendeu a mão.

–Prazer, Marina – Respondeu com um sorriso delicado repetindo o gesto.

Mal pôde acreditar, a voz deslizava rouca e firme, assim como a de Clara

–Obrigada pelo convite – Concluiu agradável e orgulhoso de ter feito exatamente o que a mãe lhe ensinara.

–Olha, que menino educado – A fotógrafa sorriu – É um prazer te receber aqui, quero que se sinta em casa – Afagou o cabelo do menino agora sorridente.

Voltou a fitar a morena que observava a cena com os olhos brilhando, podia jurar que via lágrimas se desenhando por ali.

–Resolvi fazer uma surpresa, viemos tomar café da manhã com você – Sorria sabendo que Marina estava adorando o mimo – Olha, já passei na cozinha e peguei o café do Seu Pedro, já to sabendo que você adora – Brincou entregando-lhe a xícara.

–Hummm –Suspirou — Acertou na mosca Clarinha. Eu acabei me perdendo em pensamentos aqui, ainda nem me arrumei, não comi nada, acabei de acordar – Estava afoita, falava entre pequenos goles – Faz assim, senta com o Ivan na mesa que vou jogar uma água no corpo. Desço em dez minutos já de biquíni. É rapidinho.

–Claro, devia ter te avisado que viria mais cedo – Gaguejou sincera – Eu... – Foi interrompida.

–Eu amei a surpresa, mesmo! Desço em dez minutos pra tomar café com vocês. Tudo bem Ivan? – Perguntou para o menino o fazendo participar da conversa.

–Tudo bem! – Exclamou graciosamente infantil

–Ótimo – Saiu depois de dar uma piscada encantadora para a mãe do pequeno.

Fizeram o que Marina pediu e passaram um bom tempo em silêncio observando o espaço ao redor. Ivan levantou explorando com cuidado objetos que o rodeavam, caminhava se afastando da mãe, mas sem ir muito longe. Sabia que seria advertido se o fizesse.

Os olhos ficaram curiosos quando avistaram um grande painel que expunha uma foto p&b. Era uma senhora nua sentada no piano. Não julgou, nem aos menos espantou-se com a nudez. Sentiu-se um pouco triste pelo semblante solitário que encontrou. Nada que o derrubasse, apenas sentiu-se comovido.

–Mãe, é aqui que você vai trabalhar? – Perguntou curioso

–É sim bichinho, bonito né?

–Muito maneiro mãe! O que você vai fazer? Eu não sabia que você sabia trabalhar assim.

Clara gargalhou da observação ingênua do menino

–Eu vou organizar arquivos, ajudar na produção de ensaios fotográficos, sabe? Tipo aqueles de revista, de livros de arte.

–Sei, vai trabalhar com arte?

–Isso, você acha legal? – Incentivou

–Muito mãe! Na escola a professora passou um trabalho muito maneiro, ainda vamos apresentar. Ela entregou umas câmeras de fotografia e deixou a gente passar a manhã tirando fotos pelo colégio, caraca, eu me amarrei.

–Hummm, eu vou querer ser convidada para a sua primeira exposição – Ouviram a voz encantadora vir de trás da mesa os fazendo virar a cabeça – Posso te convidar para ir em uma minha também, o que acha? – Perguntou Marina.

–Combinado – Sorriu verdadeiro.

–Olha como a mesa está linda, as meninas sempre capricham – Comentou a fotógrafa sentando-se

–Por falar em meninas, a Flavinha e a Vanessa, cadê elas? – Clara estava curiosa como silêncio na casa.

–Ah, foram pra uma festa ontem, devem ter voltado quase de manhã – Riu – Essas demoram à aparecer hoje.

Começaram a comer em meio a conversa que fluía sem dificuldade entre os três

–Me conta Ivan, como foi fotografar na sua escola, o que te tocou? Te emocionou? – Questionou a dona da grande casa.

O menino franziu o cenho, estava pensando, Clara fez menção de que ‘traduziria’ a pergunta para ele, em uma linguagem mais infantil. Não precisou, viu o filho encontrar uma resposta fazendo seu coração apertar de orgulho, já estava tão crescido. Era sensível, inteligente.

–O cimento – Respondeu rouco enquanto dava uma colherada nos sucrilhos.

–Uau – Suspirou – O cimento? – A fotógrafa estava realmente intrigada com aquela resposta.

–É – Balançou a cabeça em uma afirmação – Meus amigos só queriam saber de tirar foto dos passarinhos, das meninas, de árvore.

Mas eu tava achando aquilo muito sem graça. – Começou uma explicação – Então eu comecei a tirar foto das paredes grandonas que tem lá na minha escola, dos tetos altos, das passarelas retas. Achei muito mais legal tirar foto do cimento do homem do que da natureza – Concluiu rouco.

–Então é isso que te move – Pensou em voz alta – Tão pequeno e tão inspirado – Sorriu para a morena – Você tinha razão quando disse que ele era especial.

–Esse menino é muito esperto, Marina. Mas não vamos elogiar muito não pra ele não ficar todo bobo – Brincou fazendo cosquinha no filho.

–Mãe, posso ir nada? Tá maio calor lá fora, deixa? – Mudou de assunto

–Tudo bem, mas sem correr, ouviu?

–Oba, ta bom – Beijou a mãe enquanto se levantava direcionando um sorriso grato também para Marina.

–Lindo – Suspirou a fotógrafa – Lindo e encantador, transcende o ordinário, assim como você. Assim como a arte da fotografia artística – Vagou em suas palavras.

–Estava com saudade – Sussurrou a voz rouca com o olhar preenchido fitando a imagem de Marina, que acompanhava com os olhos o menino se afastar.

–Morrendo de saudade – Respondeu cheia de vida voltando agora sua visão para a mulher – Estou muito feliz que vocês vieram, obrigada.

–Não precisa agradecer, é um prazer estar aqui com você, meu amor – Respondeu a mãe apaixonada.

–Olha só! – Uma voz estridente ecoou em suas cabeças – Não é que a dona de casa já está aqui, mais uma vez – Brincou Vanessa com um humor que só ela achava graça.

O cabelo parecia a juba vermelha de um leão, figura que combinava com sua personalidade, protetora e arisca. Os olhos ainda borrados e a cara de poucos amigos indicavam que a festa havia sido boa, boa o suficiente para um dia seguinte daqueles.

–Já veio desfilar seu mau humor por aqui, Vanessa? – Respondeu a fotógrafa em tom brincalhão – Qual o problema da Clara estar aqui?

–Ah, problema nenhum, mas e o filho? Não cuida dele não?– Continuou implicando com certa graça

–Aquele ali? – Apontou Clara para o menino que nadava feito um peixinho feliz – Esta ótimo, obrigada por perguntar.

A assistente ruiva franziu a testa quando a cabeça latejou ainda mais, descera para buscar um café forte. O famoso café de Seu Pedro ajudava até nas piores ressacas.

–Família feliz – Declarou sorrindo torto com a mão na testa – Agora sempre por aqui, entendi.

–Algum problema, Vanessa? – Perguntou Marina sem se exaltar – Nada mais normal que isso... Minha namorada frequentar a minha casa com o filho dela. Pode ir se acostumando — Decretou — Agora vai tomar um café, sei muito bem que foi isso que você veio buscar, só pela sua cara que não tá nada linda– Terminou soltando uma gargalhada sincera que contaminou Clara. Viu a ruiva se afastar com cara de sofrimento, era a rainha da ressaca.

–Namorada – Suspirou a morena ainda entre o riso – Você quer ser minha namorada, Marina? É isso? – A felicidade lhe fechava os olhos.

–Muito, eu quero muito. Namora comigo meu amor? – Pediu com o nariz afundando nos cabelos castanhos encostados no pescoço dourado – Namora? – A boca passeou pela pele que se arrepiava e os dentes afiados apertaram com cuidado a superfície entregue.

–Namoro, minha bandida – Respondeu suspirando com o avanço delicioso de sua namorada.

A mão da fotógrafa deslizou pela coxa descoberta, Clara usava um vestido leve de verão, já vestida com o seu biquíni. Continuou respirando o cheiro que o pedaço de pele exalava enquanto sua mão direita adentrava no espaço mais profundo entre suas pernas.

Alcançou o sexo protegido e sem cerimônia o apertou em sua mão, acompanhando o ato com um beijo molhado no pescoço delicioso de Clara.

Ouviu a morena gemer baixo, a deixava louca, sem forças. Era recíproco.

–Bom – Exclamou a fotógrafa afastando tentando recompor-se -Acho melhor um mergulho... E agora – Falou ofegante.

–Vadia! – Clara estava derretida na cadeira, tomada por tesão – Espero que a piscina esteja bem gelada – Brincou.

Tiraram a roupa e correram em direção à água, cada uma com seu jeito característico e animado, pularam de encontro ao garoto que agora esperava ansioso para brincar.

A manhã passou sem que percebessem. Para o almoço Marina pediu um banquete digno de rei, e claro, com tudo que uma criança gosta e sobremesa regada a sorvete de chocolate.

Sem temer fazer papel de chata falou para Ivan

–Não se acostuma com tanta besteira não, viu? Criança tem que comer bem pra crescer forte e saudável – Sorriu – Muitos legumes, verduras, frutas... Espinafre! – Brincou fazendo uma cara de má com a palavra final.

–Eu sei – Respondeu o menino em meio a gargalhadas – Minha mãe me faz comer tudo isso ai, sabia Marina?

–E você, gosta? – Estava curiosa.

–Ah, algumas coisas eu gosto até... Mas outras não, só que eu como mesmo assim – Pausou – Pra não ficar sem jogar videogame – Confessou o final em um sussurro no ouvido da fotógrafa.

–Então você vai adorar o segredo que vou te contar – Falou no mesmo tom do menino – Eu tenho um videogame muito maneiro aqui, quer jogar um pouco enquanto faz a digestão?

–Oba! Eu quero, posso mãe? — Voltou o rosto de olhos arregalados e pidões para a morena

–Pode, mas só uma horinha, depois vai voltar a aproveitar o dia. Tá bom?

–Tá muito bom – Estava animado com a segunda ideia também.

Marina o levou até a sala de TV e deixou o menino se virar com a tecnologia que já conhecia.

–Quer descansar um pouquinho também? — Perguntou sorrindo para Clara

–Uhum – Assentiu com os olhos fixos pela beleza que a fascinava

–Vem comigo – Estendeu a mão sem falar mais nada.

Caminharam pelo jardim, passaram pela grande piscina e desceram um pouco por entre árvores.

–Pra onde você ta me levando, amor?

–Para o canto mais especial dessa casa, depois do meu quarto, claro – Disse sedutora e brincalhona.

–Mas amor, o Ivan ta aqui, eu... Eu... – Gaguejou preocupada com o filho.

–Ei, coisinha... Relaxa, não to levando lá pra te devorar, ainda... – Sorriu agora terrivelmente apaixonante – Vamos deitar um pouquinho, digerir todas essas porcarias que nós comemos, to me sentindo culpada já – Gargalhou

–Eu também, mas agora já foi, segunda eu penso em todas as corridas na praia que essas besteiras vão me custar – Os olhos se iluminaram com a vista que alcançara, os lábios se abriram sem esforço com o que via.

–Uau, Marina! Nossa, que lugar lindo – Estava absurdamente encantada.

–Então vem — Esticou a mão deitando no grande sofá com vista para uma encosta gramada de Santa Teresa – Encaixa aqui – Tomava Clara em seus braços formando uma concha de junção perfeita.

Os braços entrelaçaram nos dourados da namorada, o nariz afundava no cheiro que os cabelos castanhos exalavam, o sexo adaptava-se com primor à bunda que Clara fazia questão de encaixar.

–Já esta tudo pronto pra sua sessão de fotos, Clarinha – Animou-se Marina – Quero fazer amanhã!

–Amanhã? – Assustou-se – Mas já?

–Sim, já – Tinha certeza no que dizia – Confia em mim?

–Confio claro – Tentou acalmar a ansiedade.

Os planos já estavam traçados, Marina sabia exatamente o que queria e o que faria, tinha certeza absoluta que conseguiria tirar de Clara a verdade e a entrega que seriam necessárias para aquele momento. Tinha confiança na mulher que escolhera, na mulher que a havia escolhido.

Permaneceram em um silêncio gostoso por um momento, apenas sentiam, quando a cabeça de Marina aproximou-se um pouco mais

–Arrependimento – Sussurrou no ouvido a sua frente, com os lábios delicadamente colados nele.

–Arrependimento? – Perguntou a morena com a voz calma, sentindo o sol bater em seu rosto por entre as folhas das árvores, ouvindo com atenção o que a voz estimulante de Marina lhe dizia por entre os sons que a natureza reproduzia com singeleza.

–Sim, eu seria só arrependimentos se não tivesse ido falar com você, depois de me apaixonar perdidamente no pé daquela escada – Os olhos fechados aumentavam seus sentidos, falava com o coração na voz, sentia a vida dançar ao seu redor.

–Você preencheu um vazio que eu não sabia que existia, Marina – Sussurrou com os olhos fechados –Me fez completa quando eu achava que a vida já tinha me oferecido o seu melhor.

Transpareceram em gestos que se apertavam o quanto aquelas palavras precisavam ser ditas.

O cheiro que invadia seus sentidos era de mato, de vida, da pele da amada.

Um vento suave e morno passeava em seus rostos, o sol alcançava, escapando os obstáculos naturais, os corpos deitados e protegidos apenas por tecidos leves.

Dormiram sem sentir, foram levadas pela calma, pelo amor, pela plenitude.

Ivan já jogava a mais de uma hora quando percebeu que excedia os limites impostos pela mãe, sem muita luta desligou o videogame, estava cansado, brincou a manhã inteira sem parar e os hambúrgueres que comeu no almoço faziam a digestão roubar suas forças. Cambaleou sonolento pela casa encontrando o jardim.

Não avistou a mãe e com os olhos curiosos começou a explorar a propriedade, sentia-se um mini aventureiro. Alcançou um graveto comprido no chão que usava para cutucar o caminho.

Avistou de longe as costas do grande sofá, viu também uma pequena piscina, que mais parecia um lago.

Aproximou-se lentamente até sua visão encontrar a imagem das duas mulheres deitadas.

Dormiam feito anjos, pareciam confortáveis. Marina abraçada cuidadosamente à sua mãe, como se quisesse protegê-la.

Deu a volta na cama e ajoelhou de frente ao rosto dourado da figura materna. Parecia tranquila, calma. Não se lembrava da última vez que vira no rosto da mãe tamanha calmaria.

A cena fez seus olhos pesarem ainda mais, o clima morno do dia parecia embalá-lo como uma canção de ninar. Tirou os chinelos e deitou-se com cuidado procurando agora o seu encaixe perfeito nos braços da morena.

Clara e Marina mexeram-se com a presença, sentiram o garoto ali, viram por entre pestanas um sol fraco balançar em seus rostos e iluminar o cabelo dourado.

Pensaram juntas, sem saber, que estavam sonhando.

Abraçaram-se os três, ambas tomaram o corpinho em seus braços. Foram levados agora juntos, em um sono repleto paz.