I want you...hungry.
18 Cos I can't give you anything
Notas iniciais
Clara tinha em sua expressão um misto de alegria e contemplação, estava visivelmente feliz.

Cadu sentiu o coração pesado, estava sendo atingido por uma tristeza descomedida, não conseguia acreditar que tudo o que tinha estava seguindo para longe de si em uma corrente da qual não possuía controle.
Sua dor era egoísta, pensava em como poderia viver, viver de uma forma que não fosse aquela vida que o trazia conforto.
Sentiu-se inferiorizado, a esposa não o amava mais, não da forma que ele gostaria e agora muito provavelmente estava envolvida com outra mulher.
Experimentou o nojo, sua cabeça machista tinha uma visão curta e tudo o que enxergava era a imagem de uma sem-vergonhice instalada.
Clara era uma sem vergonha, traidora, não se importava com o filho, com o casamento, estava deixando tudo de lado, jogando fora em troca de uma aventura lésbica. O rapaz alto com o rosto abatido repetia isso em sua cabeça como se fosse um mantra ominoso.
Perdeu-se no tempo, sentia o choro escorrer, sentia ódio e não sabia ao certo do que e de quem, era generalizado.
Ouviu a porta do banheiro se abrir o trazendo de volta das profundezas de uma mente que agora estava escura, perdida em sentimentos ruins.
A morena estava enrolada em uma toalha, alcançou com os olhos o marido sentado de costas e curvado ao lado de sua bolsa, o peito se contorceu em uma dor angustiante, se aproximou do rapaz com os olhos assustados até alcançar com a visão o telefone que ainda repousava nas grandes mãos.
–Cadu? – Chamou com a voz entalada e rouca sem obter resposta.
A cabeça do homem estava baixa, voltada para o aparelho, não se sabe se não sentiu vontade ou se não era o momento, mas ele não reagiu.
–Cadu? – Repetiu agora um pouco mais alto – Me devolve o celular, por favor. – Pediu esticando as mãos como quem estivesse prestes a cariciar o mais selvagem dos leões, aquela sensação de desconhecer por completo a possível reação, mas poder imaginar.
–Você não tinha esse direito – Tentou repreende-lo a assistente.
O Rosto pálido virou em sua direção, a expressão era indecifrável, mas existia dor.
–Já tirou o cheiro dela de você? – Perguntou levantando-se em direção ao corpo que estava de pé ao seu lado.
A morena sentiu o coração acelerar, o ar ficou rarefeito e toda a sua matéria parecia entrar em estado de pânico. Isso seria dito, seria conversado, mas de forma alguma estava em seus planos que fosse naquelas condições e com todo aquele peso.
Não conseguiu responder, os olhos transbordaram de maneira imediata, sentiu-se arrasada. Estava feito, o homem que amava, pai do seu filho, companheiro de uma longa jornada a odiava, estava machucado, mais que isso, dilacerado.
–Precisamos conversar Cadu, mas pelo amor, tenta se acalmar – Falou fitando os olhos que agora possuíam um mix de fúria e dor – Não quer tomar um banh...- Foi interrompida com a aproximação brusca do marido que agora segurava em seus braços e repetia a pergunta com uma carga emocional descontrolada.
–Já tirou o cheiro dela de você, Clara? – Falava por entre os dentes cuspindo como um cão raivoso
–Me solta Carlos Eduardo, o nosso filho esta no quarto ao lado, cara – Respondeu com a voz tremula, o desespero tomava conta, a visão estava ligeiramente turva, definitivamente Clara estava em estado de pânico. Não sabia como lidar, por onde começar, não sabia o que dizer.
Ele a fitou com ódio, pareceu não escutar sequer uma palavra que havia sido dita.
Agarrou a morena arrancando a toalha que protegia seu corpo, uma mão segurou com força pela cintura e a outra começou a abrir a calça em desespero.
–Quero saber se você já esta limpa sua vagabunda, eu vou te mostrar o que ta faltando pra você parar com essa palhaçada – Segurava a esposa que estava em estado de choque, parecia não conseguir mais reagir.
A morena sentiu a alma sair por um leve momento do seu corpo, não acreditava no que estava acontecendo, naquela reação descomedida do homem com quem se deitou por longos anos.
Buscando forças em algum lugar desconhecido teve voz para falar
–Pelo amor Cadu, não faz isso cara, para com isso, você ta descontrolado – O choro caia fazendo ficar ainda mais difícil respirar.
–Eu sou o seu marido, seu homem, vou fazer com você o que aquela mulher jamais conseguiria fazer – Estava fora de si, descontrolado agora tentava abaixar as calças com apenas uma mão. A cena era desesperadora, era triste.
–PARA COM ISSO, CADU! Esse não é você, me solta, cara, acorda ESSE NÃO É VOCÊ – Agora chorava descontroladamente pegando no rosto do marido que desabou de joelhos no chão.
O rapaz alto levou as duas mãos na cabeça, virando-se para a superfície coberta por um tapete, o choro era soluçado, parecia desacreditar estar vivendo aquilo, desacreditar da reação que tivera, desacreditar que em momento algum a mulher negou o que estava acontecendo.
Clara ajoelhou nua em sua frente, colocando suas mãos nas laterais da cabeça arriada por cima das deles. O homem não reagiu, apenas chorava, sentia-se fraco, perdido.
–Eu sinto muito – Disse com toda sinceridade em um tom rouco e triste.
–Clara... – Sussurrou a voz abalada do homem subindo os olhos na direção da morena – O que aconteceu nessa viagem? – Terminou em uma pergunta que não tinha certeza de querer a resposta.
–Cadu... – Pausou – Não acho que devemos entrar nesses detalhes — A voz era baixa e cuidadosa.
–Me responde, Clara – A nuance das palavras voltava a se alterar
–Nós... – Continuou gaguejando desviando seus olhos dos carregados que a observavam – Nós fomos trabalhar e... Acabamos nos descobrindo, como pessoas, nos envolvendo. Eu... Eu fiquei balançada, fiquei confusa – Terminou tentando medir as palavras para não machucar ainda mais o marido.
–Você... – Começou o homem – Você não esta omitindo nada? – O sorriso era amarelo, cínico, os olhos entregavam onde o marido queria chegar.
–Nã... Não – Gaguejou ainda mais, não queria causar um estrago ainda maior.
–Como alguém pode declarar amor sem ao menos ter tocado, ter beijado, ter se deitado com outra pessoa? – Fechou os olhos enquanto pronunciava as palavras, foi atingido por uma leve vertigem só de imaginar a cena. Esticou o braço pegando o celular e passando para a morena.
Clara abriu a mensagem, era a foto da manhã que viram nascer juntas na praia com um trecho de uma música de Chico Buarque chamada ‘Eu te amo’.
Fechou os olhos por um breve momento, notou uma sensação que lhe dava forças, lembrou de todos os momentos bons que vivera com Marina, seu peito se encheu de coragem. Não sentia mais vontade de omitir o que seu coração transbordava, nem mesmo para Cadu. Ele queria saber, então ela falaria.
Antes que pudesse declarar qualquer coisa foi interrompida pelo marido
–Sabe o que me choca? A sua cara de pau, a sua mentira deslavada, a sua falta de fidelidade comigo – Começou em um tom agressivo – Olha aqui, não to falando em fidelidade não, to falando em LEALDADE.
–Para – Sussurrou Clara que foi novamente interrompida
– Isso a gente já conversou várias vezes, lealdade! – Exclamou.
–Para, para... – Agora pedia mais alto com a voz irritadiça.
–FALTA DE CARÁTER – Gritou o marido.
–PARA – Gritou de volta sendo ignorada pelo rapaz.
– Você acha o que de uma mãe de família que mente para o marido? Que diz que não faz o que faz, que esconde... – Terminou debochado.
–Você me levou a fazer isso aqui e agora – A voz voltou a sair baixa
–Ah, claro! Agora a culpa é minha, óbvio. – Exclamou o homem
–Você queria o que? Que eu aplaudisse a minha mulher por ela me trocar? Não só a mim, mas o nosso filho, a nossa casa, os nossos sonhos, pra se meter na cama com uma outra mulher!
–Nossos sonhos? Acho que você não lembra de verdade da nossa conversa antes da viagem. VOCÊ NUNCA SOUBE DOS MEUS SONHOS CADU – Gritou contida – Sempre foi egoísta, sempre gostou do que eu representava para você não de QUEM eu sou de verdade – Estava perdendo a cabeça – Eu tentei pedir um tempo, eu tentei fazer tudo da forma correta. Mas fui burra, BURRA de ceder aos seus pedidos, fui completamente estúpida de não ter percebido que não conseguiria mais resistir – Pausou bruscamente analisando suas últimas palavras.
Cadu tinha os olhos arregalados, agora estava dito, estava tudo muito mais do que comprovado.
–Você jogou fora a nossa família, a nossa felicidade – Disse o rapaz com ódio na voz depois da afirmação.
–Nós não somos mais felizes – Respondeu a morena sem fôlego e pausadamente como quem quisesse fazer o marido enxergar de uma vez por todas.
–Ok, então você espera a gente se separar para dar seu grito de liberdade. Pra você fazer o que você quiser. Casamento é casamento e enquanto for a minha esposa eu exijo que me respeite, assim como eu respeito você.
–Você não é e nunca foi nenhum santo, cara – Disse ofegante
Cadu riu debochado, nada do que Clara dissesse faria grande diferença agora, ou quase nada, não tinha certeza do que mais poderia surgir.
–Você é muito desonesta mesmo – Grunhiu o rapaz – Eu te dou um flagrante e você fica ai bancando a ofendida, querendo mudar o jogo. Comigo não cola, ouviu bem, NÃO COLA!
Houve uma pausa, a morena sabia que aquela discussão, aquela troca de acusações não os levaria a lugar algum, respirou fundo e não segurou mais
–Qual foi o meu erro? – Suspirou Clara – Qual foi o meu pecado? – A voz agora era calma e rouca – Foi ter me apaixonado pela Marina?
Um silêncio tomou conta do quarto, a morena se ajoelhou do outro lado da cama ajeitando a toalha no corpo enquanto observava Cadu sentando-se na outra extremidade colocando a cabeça novamente entre as mãos e continuou
–Cadu, eu ... Eu não procurei esse sentimento, eu não corri atrás, nada disso. Mas o meu amor pela Marina aconteceu... Naturalmente – A fala era cuidadosa e pausada e a parte final saiu com um sorriso nos lábios, estava assumindo em voz alta algo que nem mesmo a fotógrafa havia escutado.
–Me poupe dos detalhes, eu não quero mais saber – Disse sem paciência – Amor... pfff. Amor que nasce de uma hora pra outra, você só pode estar querendo tirar uma onda com a minha cara – Riu debochando enquanto falava como se fosse um grande malandro.
–O que eu quero é me separar de você Cadu, não existe a menor condição de o nosso casamento continuar. Eu quero ser feliz – Foi certeira e precisa em suas palavras decididas.
–Mas é óbvio que vamos nos separar – Respondeu o marido ainda com um sorriso debochado – E o nosso filho vai comigo!
Clara sentiu mais uma vez a sensação de pânico tomar conta do próprio corpo, não poderia viver longe do filho, ficava desesperada em imaginar uma possível rejeição do garoto.
–E se você não fizer tudo do meu jeito, respeitando os meus limites eu conto pra ela a vagabunda que você é, a mentirosa, a mãe desleal que ele tem – Voltava a ser agressivo e tinha novamente os olhos carregados por ódio.
A morena sentiu-se ameaçada, apavorada, não queria que essa transição manchasse a infância do pequeno garoto. Não queria ficar guardada na memória dele dessa maneira e definitivamente não queria mais discutir com o marido, a cabeça explodia e agora mal conseguia falar.
–Por mais que eu ache uma baixaria ser chantageada dessa forma, tudo bem, faremos as coisas do seu jeito por tanto que sejam feitas. O que não podemos é continuar com isso Respondeu exausta, triste, sem forças.
–Ótimo, então com respeito a mim, respeito que você não teve se deitando na cama daquela mulher eu não quero que veja Marina enquanto ainda for a minha esposa.
– Você ta louco? Você não pode me pedir uma coisa dessas, cara – Exclamou desacreditada com suas últimas forças.
–Quer apostar que eu posso? – Respondeu o rapaz com um olhar que até então ela desconhecia.
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