I want you...hungry.

19 Collecting names of the lovers that went wrong


Notas iniciais
Capítulo inspirado nessa música e nesse mood | https://www.youtube.com/watch?v=8d3mXgtrH_4

Clara notou na face do marido um vazio assustador, uma alma que parecia não ter mais nada a temer. Nunca havia enxergado aquele homem daquela maneira. Sentiu-se a culpada por tamanha dor, permaneceu em silêncio enquanto digeria suas últimas palavras, a ameaça, o peso que aquilo carregava.

Teve vontade de falar alguma coisa, mas a garganta havia secado, não conseguiu emitir se quer um som.

Os olhos se encaravam, era uma guerra silenciosa, estavam sangrando e respiravam em uma falsa trégua.

Passou um pequeno filme por sua cabeça, todo aquele tempo juntos, desde o início perfeito até a linha de chegada.

Clara então pensou que se ainda respirava era uma pessoa sortuda, Cadu não poderia viver nas sombras de suas escolhas, na dor causada por sua caminhada para longe de um amor que não dava mais certo.

O homem alimentava agora um olhar que queimava de ódio, ele a diziam em silêncio, você é a causadora de tudo isso e ela o recebia, aceitava, fazia parte e não poderia evitar aquela dor. Pelo contrário, precisava ser sentida.

Os olhos escorriam lágrimas de pesar e então o olhar à sua frente ganhou um ar vitorioso, o homem havia conseguido atingir um ponto de fraqueza da mulher, por dentro a desafiava com superioridade. Se não seria feliz com ele, se era incapaz de oferecer alegria para àquela alma não poderia permitir que outra pessoa o fizesse, principalmente outra mulher. Estava cego, machucado e submerso em egoísmo e presunção.

Nesse momento Clara teve certeza que o silêncio seria a maior de suas imprudências.

Levantou-se com a cabeça erguida, a voz permanecia rouca, mas tinha uma firmeza até então inexplorada.

–Se você está sangrando, então você é sortudo Cadu, pior é quanto os sentimentos estão mortos ou se foram – Começou com um olhar carregado de segurança – Eu não estou causando tudo isso por diversão, estou lutando por aquilo que mexe comigo e que me faz sentir VIVA – Terminou a frase dando ênfase a ultima palavra.

O homem fez menção de interrompê-la, mas a morena não estava disposta a dar espaço para frases machucadas que seriam cuspidas sem o menor dos cuidados.

–Sabe o que me surpreende nisso tudo, não é a sua reação de homem trocado com o ego ferido e sim o seu papel de pai, o papel que eu mais admirei você exercer ser manchado por egoísmo – Não dava oportunidade para qualquer rebatida – Você quer me diminuir por ter me deitado com outra mulher, por ter te traído, por não ter sido forte o suficiente e firme para dar um basta na primeira vez que me senti balançada, naquela vez que eu tentei e falhei, tudo bem.

Eu aceito sua mágoa, eu aceito sua dor, eu aceito sua raiva e não tiro de mim a responsabilidade por esses sentimentos. – Clara gesticulava, a voz em um tom mediano, rouco e pausado enquanto as feições no rosto bem definido do marido mudavam bruscamente.

–Agora cara, eu NÃO ACEITO – Disse frisando propositalmente – Eu não aceito você jogar o seu papel impecável de pai no LIXO. Eu não vou ceder às suas chantagens, sabe por quê? Porque você vai colocar a mão na sua consciência e perceber que o nosso filho não merece isso – Agora a morena tinha um olhar protetor de uma leoa – Ele não merece ter uma sombra deixada no lugar onde estava nosso casamento. Não será nem eu e muito menos você os responsáveis por isso, você está me entendendo? — Respirou para continuar

–Seria muito mais fácil eu deixar você ser um filha da puta, te deixar agir por impulso perdendo toda a sua razão, mas eu não vou fazer isso, por respeito ao nosso filho e pela figura linda que ele tem construída do pai na cabecinha dele.

O homem tinha a cabeça enfiada no meio dos joelhos, a morena ouviu o choro sair por entre as pernas, não sentia pena, tinha consciência que a dor era pra ser vivida e seria passageira. Mas sentia por ele, sentia muito.

Caminhou até a frente do corpo abaixado e ficou na sua altura, sem encostar terminou.

–Eu sinto muito, sinto por ver que vai ter que sofrer e que não há nada que eu possa fazer para te ajudar, mas pela primeira vez em muito tempo eu me sinto realmente sortuda, estou amando e sendo correspondida enquanto a maioria de nós está sofrendo por alguém – Disse vendo a face vermelha do homem se levantar e a encarar com o final da frase.

Apesar de ser boa com as palavras ela tinha um lado atrapalhado que a fazia soltar com muita facilidade detalhes que deveriam permanecer selados.

–Quanta sensibilidade – Debochou Cadu – Que bom que está radiante enquanto eu... – Pausou – Enquanto eu perdi tudo e me tornei um rosto sem vida que você logo esquecerá. Que bom que está feliz enquanto eu sinto o meu peito partido -Terminou com um sorriso cínico que sempre irritava a esposa mas que nesse momento passou despercebido, haviam coisas mais importantes a serem tratadas.

–Você não perdeu tudo, Cara – Clara tentou amenizar – Você não vai me ter mais como mulher, o que de certa forma já vinha acontecendo faz tempo, nosso relacionamento amoroso estava definhando e era sustentado apenas pela nossa amizade, nossa parceria e nossa vontade de fazer sempre o melhor pelo nosso filho

Terminou lembrando-se das palavras da fotógrafa naquele jantar na beira do mar, repetiu para o homem com um sorriso leve e verdadeiro no rosto.

– Às vezes precisamos ser imprudentes, ser selvagens, precisamos perseguir a visão que temos do nosso futuro, encontramos nossa verdade e assim chegaremos lá – Pausou por um longo tempo enquanto observava os olhos vermelhos de choro que a encaravam e completou com toda a verdade que existia em seu coração.

–Eu não vou deixar de ver a Marina! – Era categórica

–Desde o momento que eu escolhi me entregar ela faz parte da minha vida e um dia Cadu... – Voltou a pausar – Um dia você vai me entender e aceitar que assim todos seremos mais felizes.

Era uma guerra perdida para ele, tinha certeza disso agora. Sentia raiva, sentia ódio, sentia vontade de ser vingar e até mesmo de ver Clara e a fotógrafa machucadas. Mas tinha certeza que nada disso a traria de volta, que com essas atitudes machucaria a pessoa que mais amava no mundo que era seu filho, seu garotão.

Se esforçando para ser um homem digno, e sim naquele momento com o peito transbordando de desgosto e tristeza não era uma tarefa fácil, levantou-se e disse

–Eu vou precisar de um tempo para sair daqui, não vou pegar minhas coisas agora e sair pela porta a fora – A voz era embargada e ainda cheia de orgulho.

–Fica o tempo que precisar, Cadu – Respondeu a morena sincera mas sem muito sentimentos aparentes.

–É... – Continuou o homem com sério – Sua mãe... Ela me pediu para preparar o almoço e... – Foi interrompido pela morena

–Eles sempre serão a sua família, cara. Você está se separando de mim como mulher, mas sempre vai ter a nossa família. Se a Dona Chica designou à você essa função, significa que ela confia no que está fazendo e estaremos lá.

Ele tentou sorrir, mas não conseguiu, não tinha felicidade naquele momento para fazer o tal movimento.

–Bom, eu to cansada, esta tarde... Vou pegar uma muda de roupa, algumas coisas e dormir na Helena – Falou de forma prática a mulher fazendo o que disse e saindo sem despedidas.

A morena pegou o elevador para o apartamento da irmã, já era tarde e não queria incomodar, mas sabia que ali sempre teria abrigo.
Rosa atendeu a porta e olhou para a bolsa nas mãos de Clara com os olhos assustados

–Ô minha nossa senhora, mas o que aconteceu dessa vez Clara? Tá tudo bem? Venha, entre... Entre – Disse pegando a sacola e puxando a filha mais nova de Chica para dentro do apartamento.

–Quem é que tocou aqui, Rosa? – Veio Helena perguntando do quarto antes de avistar a irmã.

–Clara? Ah minha irmã, o que houve? Você e o Cadu brigaram? Mas que carinha é essa? – Encheu de perguntas sinceramente preocupadas – Rosa, por favor, trás um chá de camomila pra Clara.

–Claro Dona Helena – Assentiu se retirando imediatamente.

As duas sentaram no confortável sofá, a casa estava silenciosa, só estavam as duas na grande sala.

–Ai irmã, brigamos sim e a briga foi feia – Clara começou o desabafo com lágrimas nos olhos.

–Mas agora é sempre a mesma história, vocês tem que se acertar Clara. O que não pode é continuar assim, vire e mexe a bomba estoura, mas que coi...

–Estamos nos separando – Soltou com firmeza a afirmação interrompendo e assustando Helena.

–Se... Separando? – Gaguejou a mais velha.

–Sim, separando — Confirmou continuando — Eu...Nós duas... Temos muito que conversar irmã. Mas agora eu estou exausta, amanhã o Ivan acorda cedo pra escola, preciso descansar. – Disse a morena com o rosto abatido.

–Claro claro... Bebe o seu chá – Disse pegando a xícara das mãos de Rosa que acabara de chegar agradecendo-a e pedindo para que arrumasse o quarto de hóspedes vazio para Clara.

Helena a fitou, tinha realmente uma expressão abatida, de quem havia voltado de uma guerra mas alguma coisa fazia seus olhos brilharem, ficou observando a irmã mais nova, companheira de toda uma vida com carinho e ternura até alcançar as marcas vermelhas e seu braço direito.

–Clara – Exclamou – Ele te bateu? Ele encostou a mão em você? Pelo amor de Deus, me fale agora, eu exijo que não esconda esse tipo de coisa de mim.

Os olhos da morena de pequenos e esgotados se arregalaram, tanta coisa havia acontecido, tanta pressão psicológica e emocional que nem se lembrava mais do momento em que o homem tentou abusar dela, à força. O estômago se revirou em uma sensação de náuseas e depositou imediatamente a xícara de chá na mesa que estava a sua frente.

–Não foi nada – Tentou mentir sem êxito

–Como não, olha você, toda marcada! – Helena estava inconformada.

–Ele me segurou irmã – Voltou a sentir os olhos marejarem – Ele me queria, queria provar alguma coisa à força. Estava inconformado.

–Inconformado com o pedido de separação? – Retrucou Helena.

–Inconformado porque se sentiu trocado – Clara falava baixo e rouca

–Mas você... Então quer dizer que tem outro homem na jogada, irmã? Você traiu o Cadu.

Clara assentiu com a cabeça em silêncio, a vontade de chorar cessou assim que se formou a imagem de Marina atrás de seus olhos.

–Mas você achou no momento que valia a pena, arriscar um casamento de anos por uma vontade, não sei... – O tom de Helena parecia muito mais curioso do que repreendedor, pensou na própria história por um breve instante.

–Sabe Clara, eu acho que nada justifica o que o Cadu fez, acho uma barbaridade ele te pegar e tentar forçar uma situação dessas com vocês. Mas é importante você ter consciência de que a dor pode mudar tudo o que sabemos sobre nós mesmos. Ele vai se arrepender de ter agido assim, se já não está nesse instante. Seria mais fácil o mundo crucificar o Cadu por essas atitudes babacas, mas sabemos que ele na verdade é um homem bom e um ótimo pai.

–Sim, eu sei. E um dia quem sabe não podemos ser amigos pra criar o Ivan em harmonia, mas nem que ele não tivesse feito isso, eu jamais poderia continuar esse casamento.

Helena só a contemplava, conhecia a irmã e sentia que Clara queria falar algo, então deixou o caminho livre para o desafogo da mais nova.

–Eu estou amando, irmã – Começou a morena – Amando como nunca amei ninguém – Sorriu com os olhos enquanto soltava as palavras.

–E... E ela – Gaguejou e parou observando os olhos de Helena se abrirem mais que a própria órbita – Ela se chama Marina.

–Marina – Sussurrou a irmã mais velha – Uma mulher – Continuou com uma expressão indecifrável.

–Vo...você – Gaguejou definindo mais a expressão e esboçando um sorriso – Ai minha irmã, vou te contar viu. Você sempre foi tão bem resolvida, na sua vida, nas suas coisas e tudo. Mas com essa você me pegou de surpresa, confesso que não esperava, podia apostar minhas fichas em qualquer outra situação – Terminou fazendo um carinho brincalhão no ombro da irmã que se sentia muito aliviada com a reação de Helena.

–Ah, nem me fala! Eu fui a principal pessoa a ser pega nessa surpresa. Além de me encantar, me apaixonar e desejar outra mulher – Disse a última parte em um sussurro – Eu descobri que existe o tão falado e utópico amor a primeira vista. Ela chegou pra colocar minha vida de cabeça para baixo e o pior é que estou amando isso, a parte boa disso tudo, claro. – Terminou pensando no sofrimento causado.

–Mas enfim, eu preciso mesmo dormir, prometo que amanhã conversamos sobre isso e eu te conto absolutamente tudo. Ou quase tudo – Terminou rindo, finalmente rindo.

–Tá certo minha caçulinha guerreira, e não esquece, amanhã tem o almoço da Dona Chica. Espero que você e o Cadu fiquem numa boa por lá, não vamos estragar esse momento dela com o tal Ricardo, que por sinal não vejo a hora de conhecer.

–Nossa, mas já é amanhã, o Cadu comentou mas – Respirou fundo – Mas acabamos entrando nessa briga sem fim e nem falamos direito sobre isso... – Agora sentiu-se muito cansada – Então amanhã estaremos lá, vamos receber o Ricardo e sua família de braços abertos, pela mamãe — Terminou tentando forçar uma animação.

–Isso mesmo – Concordou a mais velha – Agora vai, vai dormir vai – Enxotou Clara com carinho.

A morena trocou de roupa, lavou o rosto e deitou-se nos lençóis com cheiro de lavados, releu a mensagem que havia recebido e que foi de certa forma o estopim para toda aquela loucura.

Agradeceu mentalmente. Não soube naquele momento se teria tido tamanha coragem para começar a traçar esse caminho do fim, do término de seu casamento se não fosse aquela mensagem.

Agora já havia sido feito, em uma única tacada tudo estava definido e agora, por mais que ainda tivesse tristeza dentro de si, sentiu um grande alívio.

Antes que o sono a levasse sorriu e então respondeu

‘Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir’

Notas finais
Quero agradecer os comentários maravilhosos que vocês deixaram, fico muito feliz que sintam e se envolvam com o que eu escrevo. Saber o que estão pensando me ajuda a seguir com isso aqui.