I want you...hungry.
9 And if I recover, will you be my comfort?
Notas iniciais
Marina acordou com um pensamento constante que martelava em sua cabeça, Clara merecia ser feliz, muito mais feliz.
Percebia a força inquietante que vinha da dona de casa, como se apesar de feliz e agradecida lhe faltasse algo. Era uma alma que buscava, queria e ansiava alguma coisa que desconhecia.
Lembrou de sua adolescência e da sua caça pelo autoconhecimento, dos momentos onde teve difíceis escolhas pela frente e as fez, sem olhar para trás.
A procura por sua identidade artística, as incontáveis vezes que tivera que lidar com os corações que partia, tentando sempre ser uma pessoa justa e precisa.
A descoberta da sexualidade por sua vez não havia sido um problema, na sua casa isso sempre foi conversado muito abertamente, nunca sentiu nenhum tipo de pressão que viesse se sua família.
Entendeu então que de alguma forma, foi colocada no caminho de Clara pra quem sabe fazer a diferença, trazer mudanças e até mesmo alegrias. Queria ajudar de alguma forma, então teve uma ideia.
Ligou para a morena com o coração acelerado, sentia-se uma adolescente que entrava em pânico ao lidar com certas situações. Teve medo de ser rejeitada e de não encontrar nunca mais aquela alma inquieta nesse mundo louco.
Felizmente não foi o que aconteceu. Clara atendeu sua ligação, a voz rouca e baixa ascendeu uma chama que trouxe alívio para o corpo rígido de ansiedade e seu coração, Marina sorriu.
Não sabia ao certo como havia sido o dia da dona de casa, se preocupava em como ela estaria lidando com a experiência que viveram na noite anterior. Não queria que sofresse, não por causa dela.
Marina mal sabia, mas a morena agora dispunha dela dentro de si, a fotógrafa já fazia parte de seus pensamentos, desejos e também medos. Era como uma tatuagem, uma cicatriz, muito difícil de ser apagada.
No telefone assumiu seu medo, medo de perdê-la e de nunca mais ouvir sua voz. Não sabia onde aquilo a levaria, mas precisava falar.
A resposta que ouviu fez seu coração acelerar ainda mais, o peito encheu-se de um sentimento tão bom que foi difícil identificar.
Ela disse que não tem mais como acontecer, nunca mais vamos nos perder, já que acabamos de nos encontrar. Pensou Marina.
–Ótimo, então tenho uma proposta irrecusável para te fazer!
–Uma, uma proposta? – Gaguejou Clara com uma rouquidão gostosa.
–Sim, irrecusável – A fotógrafa acrescentou
–E qual seria essa proposta irrecusável, dona Marina – Brincou a morena fazendo uma voz imponente.
–Vamos para Angra comigo? – Disse com um largo sorriso no rosto.
–Oi? Ir pra Angra? Mas Marina, assim? Eu, eu sou casada, tem meu filho, eu eu – Respondeu a dona de casa de forma rápida e atordoada.
–Calma Clarinha, eu sei disso tudo. Na verdade é uma proposta de trabalho, sabe? – Tentou acalmar o animo da morena – Meu pai vai vender a nossa casa de Angra e me pediu para fazer umas fotos, quer umas fotos mais artísticas, que capture a luz maravilhosa daquela ilha –Disse enquanto se lembrava da beleza do lugar
–Eu quero que você vá como minha assistente – Concluiu.
–Assistente? Mas eu não entendo tanto de fotografia assim pra ser sua assistente, apesar de amar muito. Eu não sei Marina, tenho medo de ser mais um peso pra você e não conseguir te ajudar em nada, não sei mesmo se isso seria uma boa ideia.
A dona de casa sentia seu corpo tremer de nervoso, além de conhecer uma mulher que desestruturou todo o seu mundo de dona de casa mulherzinha, essa mulher também estava disposta a ajudá-la a viver outra vida.
Uma vida onde ela correria atrás de seus sonhos e objetivos. Trabalhar com alguma coisa que amasse definitivamente fazia parte deles.
–Clarinha, ontem a noite não pude deixar de ouvir sua conversa com os meus convidados, a paixão com que falava de fotografia, luz, pele, eu me vi um pouco em você. Parece que somos de mundos completamente diferentes, eu sei. Mas de certa forma eu me enxergo em você.
Marina tentava explicar o que sentia achando que não estava falando nada com nada, mas Clara a entendia perfeitamente, também tinha tido essa sensação em relação à fotógrafa.
–Tá, mas quando? – A morena foi direta
–Amanhã – Respondeu
–Amanhã? Mas esta muito em cima, Marina – Suspirou a dona de casa –Bom, de qualquer forma eu preciso falar com o Cadu, tenho que ver se pode ficar com o Ivan sem atrapalhar o cronograma dele e do restaurante. Espera um minutinho, eu já te ligo, vou falar com ele aqui.
–Tá bom – Concordou a fotógrafa – Te espero.
Desligaram e quando se virou, Marina tomou um susto com a imagem de Vanessa plantada atrás dela como se fosse uma estátua.
–Eu pensei que eu é que fosse com você – Disse a ruiva decepcionada
–Eu quero mostrar a casa pra Clara. E também quero que ela comece a trabalhar com a gente aqui no estúdio, vou introduzir aos poucos esse mundo pra ela.
Vanessa gargalhou e respondeu com ar debochado
–Eu sei muito bem o mundo que você deseja introduzir, Marina. Mas acho que seria bem interessante tomar um pouco de cuidado e ser um pouco menos egoísta.
E continuou
–A Clara é uma mulher casada, você não pode entrar no mundo de alguém assim com os dois pés na porta pra depois abandoná-la sofrendo na sarjeta. Logo você, uma mulher tão volúvel.
–Se está falando pelo o que aconteceu com a gente, Vanessinha, só posso dizer que eu não te abandonei na sarjeta.
Maria sabia ser selvagem e tinha o dom de machucar de uma forma certeira qualquer um, quando precisava.
–O que aconteceu com a gente foi ótimo enquanto durou, meu carinho por você se transformou e hoje é uma pessoa essencial na minha vida. Talvez não da forma que você gostaria, mas é isso o que eu tenho pra te oferecer, minha amizade. E acho que sempre fui extremamente clara em relação a isso – Antes de encerrar adicionou — O que eu sinto por ela é diferente, nunca senti por ninguém na minha vida.
–É sempre foi clara até demais – Concordou ignorando a última parte
–Que bom que entramos em um consenso – Cortou o assunto que já estava incomodando – Cuida da locação do helicóptero pra mim, por favor, Vanessinha. Eu viajo amanhã – Concluiu enquanto saia pela porta que levava para o jardim.
Clara voltou para a cozinha, Ivan parecia um bichinho faminto devorando um super prato de comida, olhou pra ele com ternura, era um garotinho muito especial.
Aproximou-se dizendo
–Cadu, então, eu recebi uma proposta pra executar um trabalho. Tem haver com fotografia, fiquei super animada.
–Mas, desde quando você trabalha com fotografia? – Perguntou sendo estúpido sem perceber.
–Desde que alguém notou o meu interesse pelo assunto e resolveu apostar em mim – Disse prontamente.
–Quem te fez esse convite? Foi aquela fotógrafa?
–Marina! Sim, foi ela e eu não quero recusar
–Mas você não precisa da minha autorização pra trabalhar, Clara – Disse o marido sem tato
–Eu sei disso, Cadu. Não precisa nem me dizer – Respondeu fria e rouca – Acontece que amanhã ela tem umas fotos em Angra e eu perderia ao todo uns dois dias fora, acredito. Você pode cuidar sozinho do Ivan nesse meio tempo?
– Fica um pouco apertado ficar sozinho com ele, Clara. Tenho as responsabilidades do Bistrô e... – Percebendo a cara de desaprovação da esposa pela sua falta de esforço em assumir o filho sozinho por dois dias ele concluiu – É... Eu posso tentar. A Rosa me ajuda, qualquer coisa ele passa a tarde na Helena. A gente se vira, pode ficar tranquila – Terminou forçando uma naturalidade.
–Que bom – Sorriu Clara.
–Eu já sou um rapaz mãe, vou ficar bem só com o papai — Intrometeu-se o garotinho sorridente querendo ajudar.
O telefone de Marina tocou e sem pensar na demonstração imediata de ansiedade a fotógrafa atendeu no primeiro toque
–Clarinha – Disse em um suspiro
–Onde nos encontramos amanhã? – Foi direto ao ponto com a voz carregada de alegria e inquietude – E a que horas?
–Eu passo pra te buscar com o meu motorista às 8h, pode ser? Vamos direto para o aeroporto depois.
–Aeroporto? – Perguntou Clara surpresa
–Sim, o helicóptero vai estar nos esperando.
–Helicóptero? – Clara arregalou os olhos e a boca secou – Calma aí, calma aí, esse negócio de helicóptero... Eu tenho medo! Nunca entrei em um, tudo bem, mas tenho medo – A voz estava trêmula.
–Medo? Medo de que? Imagina, é super perto Clarinha. É muito mais seguro que estrada – Respondeu a voz confiante do outro lado da linha – Olha, confia em mim? Chegando lá a gente tem carro, a gente tem barco, você vai amar a experiência.
–Você não gosta de viver emoções novas? – Perguntou com volúpia.
Clara sorriu do outro lado do telefone. Era algo que não acontecia com frequência em sua vida, ter emoções novas ou velhas, até a chegada de Marina.
– Vou te mandar um email com o cronograma da viagem, me passa por mensagem junto com o seu endereço – Acrescentou a fotógrafa com um ar profissional, cortando o clima da sua última pergunta.
–Tá bem, Marina. Te espero – Disse se despedindo e desligando o telefone.
O Dia amanheceu lindo no Rio de Janeiro, o céu aberto e azul, o clima extremamente agradável não deixava lembrar em nada os dias de calor excessivo que a cidade tinha.
Clara despediu-se do filho que ia para a escola com Rosa e terminou de se arrumar, a bolsa já estava pronta e Cadu colocara a mesa do café.
Comeram em silêncio, o marido não fazia muita questão de perguntar sobre o trabalho novo e ela também não sentia vontade de falar, o silêncio era quase um consenso.
Uma mensagem chegou no telefone da morena que anunciou para o homem que levantava da mesa
–Eles chegaram, vou descer.
O coração batia eufórico, nem podia acreditar que veria Marina novamente. Se sentia tão alegre que por um momento esqueceu o helicóptero que enfrentaria logo logo .
–Eu te ajudo a levar – Ofereceu o marido com uma preocupação estranha estampada no rosto.
–Não precisa Cadu, a bolsa é pequena, não precisa – Relutou a dona de casa
–Faço questão – Encerrou firme sem deixar escolha
Os dois desceram e avistaram Marina parada do lado de fora do carro que esperava na entrada do prédio, estava inacreditavelmente linda. O sol batia em seu rosto, aquela mulher parecia não existir, pensou Clara enfeitiçada. Vestia um macacão conceitual e uma sandália alta, o rosto estava corado e os cabelos brilhavam com os raios daquela manhã.
– Oi, Marina – Cumprimentou Cadu – Como vai?
–Tudo bem Cadu e com você? – Respondeu com uma educação polida.
–Bom, vamos Clarinha? Não podemos perder o horário do helicóptero.
–Helicóptero? – Questionou Cadu com cara de bobo
–É, vamos voando Cadu... Acredita? –Disse despedindo-se do marido com um beijo rápido no rosto e um abraço leve.
–Ei, espera ai? Vai viajar voando e não vai nem se despedir direito de mim? Me dá um beijo direito pelo menos, pô – Chamou atenção da esposa aumentando ainda mais o seu nervosismo em relação a jornada que enfrentaria e o constrangimento, não queria fazer isso na frente da fotógrafa.
Clara aproximou-se do rapaz alto e de sorriso largo, beijou levemente os seus lábios e deu um abraço um pouco mais demorada.
Marina virou o rosto inconscientemente, não precisava e nem queria olhar
–Se cuida viu, cuida bem do Ivan. Fica de olho no dever de casa– Alertou a mãe preocupada
–Sim, senhora – Assentiu.
Cadu entregou a mala nas mãos do motorista e as duas entraram no carro.
–Dormiu bem, Clarinha? – Perguntou delicada
–Hum, mais ou menos viu – Divertiu-se a dona de casa
–O dia vai ser lindo, vai valer a pena – Dizia observando a morena com um olhar desesperador de tão lindo e um sorriso nos lábios.
Clara estava feliz, apesar de tudo. O coração batia quase que fora do peito com o encontro e então atentou para um cheiro delicioso que pairava no ar.
–Nossa Marina, que cheiro é esse? Que delícia – Exclamou
–Esse? – Respondeu a fotógrafa dando o pulso para a morena cheirar
–Esse mesmo, nossa que cheiro maravilhoso. Mas, não é o seu perfume.
–E você sabe qual é o meu perfume? – Perguntou surpresa com um sorriso ainda maior.
–O cheiro sim – Respondeu a voz rouca da agora assistente – Eu nunca esqueci, na verdade.
Marina sentiu o corpo arrepiar, flashes da noite maravilhosa que haviam tido pipocou diante de seus olhos e a respiração acelerou sem que pudesse fazer nada.
–E esse, você gosta? – Perguntou
–Eu amei, já disse, é maravilhoso – Respondeu a morena com uma leve cara de boba
–É um sabonete líquido que eu mandei manipular, se gostou tanto vou mandar fazer pra você também.
E antes que a assistente pudesse dizer alguma coisa ela finalizou
–Meu corpo todo tem esse cheiro.
Clara sentiu seu sexo pulsar, avançou na chefe em um beijo macio e leve, sem se preocupar com o senhor que as guiavam pela orla em direção ao aeroporto.
As mãos se entrelaçaram nos cabelos enquanto as línguas se sentiam e as salivas se misturavam. Os lábios passeavam delicadamente uns pelos outros, sem pressa. Que beijo era aquele? Tudo se encaixavam perfeitamente e a cadência era de um ritmo apaixonado. O andamento acelerou e agora as línguas afundavam-se nas bocas, tornou-se erótico, completamente sexual.
Separaram-se com os lábios rosados do contato e com o fôlego comprometido, Clara observou a mulher que lhe olhava, era linda e transmitia paz, segurança.
Sentiu-se completamente apaixonada. O olhar de Marina estava iluminado, parecia sentir que a alma inquieta da mulher que estava na sua frente se entregava para ela.
Clara constatou, tinha uma amante. Aquela viagem seria muito mais do que uma simples viagem de negócios.
No rádio começou a tocar Recover -Chvrches
Ambas se olharam e sorriram apaixonadamente, definitivamente seria!
Fale com o autor