Notas iniciais
Espero que gostem !!

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Minha atenção estava nos quatro à frente, ao que sorria com suas brincadeiras, todavia, minha mente se encontrava totalmente no espaço atrás de mim, o lugar onde Jack nos observava.

Eu não conseguia parar de pensar nele, ao que realmente havia sentido falta do moreno nesses dois meses.

Ele não podia simplesmente aparecer em minha vida novamente, e sumir quando quisesse. Mas parecia que só eu ali sabia disso ou... Somente eu queria isso.

Lembro exatamente dos primeiros dias em que ele não estava lá, e isso foi tão igual às manhãs em que eu acordava com total vazio, depois de sua morte. Claramente pude sentir tudo voltar, como se aquela época não tivesse acabado e, foi simplesmente horrível.

Pensei ser fruto da minha imaginação. Talvez eu realmente estivesse louco e criado, não sei, alguém parecido com Jack, mesmo que nesse caso, não totalmente, como forma de consolo.

Todavia, ali estava ele. Eu não queria acreditar na possibilidade de estar fora de minha cabeça. Pelo menos uma coisa boa precisa acontecer depois de tudo. Talvez isso seja a coisa boa, e por mais que ele pareça não me reconhecer em nada, nem uma coisa na vida vem exatamente do jeito que desejamos.

Lembro das noites em que eu chamava por ele incessantemente e devia estar mais do que grato por finalmente... Ainda que para ele, eu não seja o Hiccup. Ainda que, para ele, eu seja o Hiccup, mas somente Hiccup.

Olhei para a água cristalina ao redor de meu corpo, fechando os olhos, ao que apertei as mãos em punhos, não deixando que mais pensamentos viessem em minha cabeça. Eles me tenderiam à tristeza, e eu absolutamente não queria isso.

Acabei por sorrir, ao que conseguia distanciar as reflexões de antes, voltando para o momento em si.

Nadei mais para o raso, lamentando mais uma vez no dia o fato de não poder ficar no fundo com os outros, por não querer arriscar com a minha perna. Na verdade, eu não sabia se conseguia nadar como antes. Talvez nunca poderia descobrir, se não parasse com a hesitação, mas eu não podia evitar.

—Não é justo... Eu queria ficar aí com vocês!- exclamei, ao que dei de ombros por um momento para que pudesse me aproximar mais da margem, e acabei por observar rapidamente Jack que permanecia deitado à grama, olhando para cima. Sorri automaticamente com a cena, logo me virando para o grupo demasiadamente distante.

Eles me encararam, parando com suas conversas e poucas brincadeiras.

—É só você vir até aqui.- Astrid respondeu, sorrindo maldosa em minha direção.

Seu namorado concordou imediatamente, como o típico Melequento que era, ao que ouvi parecido dos demais, isto é, Perna de Peixe e Cabeça-Quente.

—Não tem graça.- respondi, cerrando os olhos para ela.

—Então fica aí, medroso.- falou, voltando a dar atenção para Melequento.

—E é isso o que eu vou fazer mesmo.- ditei, cruzando os braços, mesmo que não tivesse mais sua atenção voltada em minha direção.

Rodei os olhos, pensando por um momento se minha atitude era realmente medrosa, ou se eu devia tentar algo mais ousado.

Todavia, ao perceber o lugar específico onde me encontrava, não deixei de sorrir, desfazendo a pose adotada há segundos, ao que deixei que minha mente fosse invadida por memórias.

Eu estava exatamente no local onde um dia eu e Jack já nos beijamos. A constatação fez-me sentir nostálgico e demasiadamente alegre ao mesmo tempo, ao que pensar no assunto deu vontade imediatamente de olhar para Jack atrás de mim.

Desviei a atenção até meus amigos ocupados, ao que passei a dar de ombros quando cheguei à conclusão de que eles não prestariam atenção em mim. Apoiei os cotovelos no chão, me permitindo sustentar ali, ao que deixei minhas pernas flutuarem um pouco.

—Psiu.- chamei, observando o moreno ainda em sua posição, parecendo pensativo.

Sua cabeça virou em minha direção, ao que ele arqueou as sobrancelhas, deixando claro que estava me ouvindo.

Sorri, antes de continuar.

—Por que você não entra?- olhei para outro ponto por um momento, logo voltando meus olhos para seu rosto.- Ou... Você, sei lá, não pode?

Jack olhou para cima, rindo por uns poucos segundos, o que claramente me contagiou, ao que me vi sorrindo largo.

—Eu congelaria vocês.- respondeu, voltando a me olhar.

De imediato, franzi o cenho, tentando de alguma forma entender o que aquilo queria dizer, todavia falhei em busca de respostas.

Ele continuou a me olhar, ao que nos segundos em que fiquei em silêncio procurando o significado de sua fala, também o encarei.

Jack então, acabou por soltar um risinho, deixando-me ainda mais confuso.

Observei quando levantou, deixando sua espada no chão e, logo se aproximava do lago com passos lentos.

Ele se agachou em minha frente, com um dos joelhos no chão, e o outro o sustentando. Seus olhos me encararam, me deixando preso, ao que minha respiração também estava dessa mesma forma.

Então, acabou por sorrir de lado, abaixando os olhos para a água. Segui seu olhar, curioso quanto ao que o chamava atenção ali. Não encontrei nada demais, o que me fez voltar a encarar seu rosto.

Sua mão, antes em contato com a grama, se encontrava agora em frente ao meu rosto, em punho. Ele a abriu, mostrando seus dedos para mim, ao que logo os fechou novamente, deixando que o indicador continuasse elevado. Apontou para a água, ao que logo olhei para a mesma novamente.

Bastou a ponta de seu dedo indicador triscar ali, para que o branco pudesse se formar.

Encarei aquilo um pouco hipnotizado com o que estava acontecendo. Crescia, e cresceu a ponto de entrar em contato com a minha pele desnuda, ao que no exato momento, senti a sensação gélida.

—Viu?- perguntou, tirando seu dedo da água.

Sua fala chamou atenção para seu rosto e de imediato, o encarei.

Seus olhos azuis estavam escuros, lembrando um céu à noite. Sua pele era tão branca, e o contraste entre a cor de seus olhos com a cor extremamente clara, era simplesmente compatível e lindo.

Jack era o ser — ou, nesse caso, algo perto disso — mais lindo que eu já havia visto.

—Se eu entrasse, mataria todos vocês.

Sua atenção abaixou-se por um momento até a água novamente, ao que sorriu pequeno, sentando na grama, o que resultou em um distanciamento entre a gente. Passou os braços nas pernas, aproximando as mesmas de seu corpo, ao que encostou o queixo em um de seus joelhos.

Eu ainda estava um pouco atordoado e confuso, ao que parecia algo tão complexo, mesmo que Jack demonstrasse ali em meu rosto que, para ele, há segundos, o que ele havia feito não era nada demais. Como se agisse assim desde sempre.

—C-como?- foi a única coisa que consegui falar, isso depois de mais um tempo o encarando.

Sua expressão deu a entender que ele não sabia do que eu estava me referindo, ao que em resposta, apenas olhei para a água e para seus olhos novamente, dizendo indiretamente que eu estava me referindo a o que aconteceu há pouco.

Seu sorriso se fez presente, mais evidente desta vez.

—Coisa da sua cabeça.- falou, levantando e abaixando os ombros rapidamente.

Eu devia esperar algo parecido de Jack, todavia, ainda sim rodei os olhos.

Minha boca se abriu, ao que estava pronto para insistir mais no assunto, precisando de respostas. Porém, logo escutei o seu chamado.

—Tudo bem, Hiccup.- falou, e de imediato tomei certo susto, dando de ombros para os olhar.- Chega de ser medroso e vem pra cá logo, por favor. Ta chato sem você.

Eu sorri desconcertado, um pouco aliviado por ser sobre algo bobo, já que não perceberam o fato de que eu estava conversando, no olhar de qualquer um, sozinho.

—Mas você não me mandou ficar aqui? É isso o que eu estou fazendo.- respondi indiferente, encostando-me à margem.

Minha atenção se desviara para trás, para que pudesse fazer isso, e percebi Jack ter voltado para o seu lugar de antes, só que desta vez, ele se encontrava sentado, segurando sua espada em mãos.

—Vem vocês pra cá.- completei, cruzando os braços.

Eles acabaram por se juntar a mim em algum momento e conversamos besteiras por um tempo no qual eu não saberia informar. Também não era como se tivesse prestado total atenção, já que sempre voltava para o moreno atrás de nós, pensando ele estar muito mais em minha mente a cada segundo, assim como era e sempre foi.

[...]

—Hiccup! Anda logo!

—Ahn... Eu esqueci o meu...

—Esqueceu a mim? É...

Perdi o oxigênio com o susto, ao que minha mão subira até meu peito, todavia tratei de parar o ato no meio do caminho, decidindo por me virar até o dono da voz atrás de mim.

—Você devia ter levantando logo, ao invés de ter ficado sentado lá, como se esperasse que eu fizesse um convite formal.- respondi, o contornando para que pudesse voltar a andar.

—Convite pra quê?- perguntou, começando a andar ao meu lado.

Sua voz tendia ao cinismo e me segurei para não o xingar.

—Só anda, Jack.

Ele riu alto e pensei que falaria mais alguma coisa sobre o assunto, todavia seu silêncio se instalou por um momento.

—Vem cá, você não é do tipo ocupado?- perguntou.

Eu o olhei, sustentando o ato por um tempo.

—Eu acabei de chegar de uma viagem, que à propósito, foi em busca de comida pra vila toda. Eu tinha o dever de trazer comida e estar preparado para qualquer ataque que pudesse vir a qualquer momento. Você está querendo dizer que eu devia estar trabalhando ainda mais, quando tinha um sol lindo e um resto de tarde me esperando?

Seu cenho franziu, enquanto seus olhos vieram para os meus. Depois, Jack soltou um riso curto.

—Tem razão.- levantou uma das mãos, mostrando rendição, ao que assenti com a cabeça, reafirmando o que havia falado.- Só pensei que você seria que nem seu pai... Quer dizer, eu soube do quanto ele era dedicado, não que você não seja... não estou dizendo isso. Mas... genética, huh?

Sua provável intenção de comparação me incomodou demasiadamente, ao que nunca gostaria que me comparecem ao meu pai quanto ao aspecto chefe de Berk. Eu sabia quando tinha que parar, ao contrário do homem, que sempre reservava todos os seus minutos para nossa aldeia. Isso era admirável, todavia, assistia seus desgastes no pouco tempo em que ele estava em casa. Não queria ser dessa mesma forma.

Eu não sou dessa mesma forma.

—Que é? Eu não trabalho o suficiente na sua opinião?- perguntei, tentando não deixar visível que me irritaria com sua resposta, se ele não me reconhecesse.

A demora foi o que me fez olhá-lo novamente.

Ele sorriu de lado, retribuindo sua atenção a mim, logo voltando a olhar para frente.

—Você trabalha tão bem quanto o seu pai trabalhava.- sua resposta surpreendeu um pouco, ao que jamais conseguiria enxergar isso sozinho. Ela me aqueceu o peito, uma vez que desviei a atenção até o chão, para que ele não pudesse ver o sorriso mínimo que crescia em meu rosto.- Genética...

Nós rimos juntos um pouco, por causa de sua última fala, ao que o ambiente voltara a ficar silêncio, e passei a observar os outros andando no mesmo caminho que nós, todavia estando mais à frente.

Dei o meu máximo para tentar não pensar mais no assunto, porém Jack ao meu lado não deixava. Ele permanecia num constante voo a poucos metros de distância do chão, ou apenas brincava com sua arma de aparência frágil, mas ainda sim bonita e esbanjando um ar desconhecido.

Parecia estar agindo tão como ele mesmo, ainda que seu comportamento não fosse de longe normal. Eu sabia que ele não era um ser humano, todavia onde eu poderia o colocar na classificação limitada de minha mente?

—O que você é?- perguntei, ao que observei-o uma última vez sair do chão, quase que voltando no mesmo momento com a minha pergunta.

Ele me olhou, trocando a espada de mão, voltando a atenção para frente novamente.

Pareceu pensar e me surpreendi com a talvez ideia de que ele meio que não sabia, ou apenas não conseguia formular uma resposta. De qualquer forma, não estava seguro quanto ao que me responder, o que me deixou um pouco confuso.

—Normal eu não sou.- disse, ao que aquilo parecia ser o seu melhor.

Não queria pressioná-lo, todavia meus olhos continuaram em seu rosto, esperando algo a mais que sua resposta havia me proporcionado.

Uns bons passos se passaram, ao que quando o vi me espiar de relance, soube de que ele sabia que eu queria mais vindo de sua parte.

Suspirou, trocando a espada de mão novamente.

—Um dia eu simplesmente acordei e era assim, tudo bem? Não é como se eu tivesse tantas respostas. O Homem da Lua não facilita.- sua voz começou alta e, a medida que as palavras saíam, o tom abaixava, como se ele estivesse agora reclamando de uma situação.- A única coisa que ele se importou em me falar, foi o meu nome e, depois de uns anos, me mandou ir atrás de você.

Mesmo com tanta pouca coisa, as informações eram muitas. Me deixava ainda mais confuso e frustrado por não entender direito.

Como assim um dia ele acordou e já era do jeito que está agora? E a parte de mandar vir atrás de mim?

O assunto o cansou, assim como também teve o mesmo efeito em mim, uma vez que sentia que ficaria louco se continuasse a pensar tanto naquilo tudo.

Olhei para o chão marrom, juntando minhas mãos em frente ao meu corpo.

Não precisei pensar por muito tempo, tampouco me importaria com a resposta, somente algo havia passado em minha mente, o qual apenas coloquei para fora.

—E ainda está aqui por que ele mandou, ou por que você quer?

Silêncio.

—Ainda não tenho resposta para isso.

[...]

—Seu pai acabou de sair.

Meu dedo apontara para a porta atrás de mim, dessa vez fechada, ao que não era essa a realidade quando cheguei à grande casa.

—Olha só quem apareceu...

Seus olhos não se desviaram para mim, uma vez que ele não se preocupou em olhar para trás — onde eu estava, em relação a ele -, e logo se encontrava subindo os degraus sem muito interesse e com pose cansada.

O observei até que chegasse ao outro andar, ao que sorri pequeno, olhando para baixo por um momento e desviando quase que na mesma hora.

—Me espera!

Passei a andar até à escada, subindo os degraus rapidamente. Também corri durante o grande corredor, chegando ao único quarto com a porta aberta, quase que um dos últimos cômodos, se não fosse pelo banheiro.

Ri brevemente ao encontrar o garoto deitado em sua cama de forma desleixada e despreocupada. Seu peito descia e subia lentamente e seus olhos estavam fechados.

Encostei ao batente, cruzando os braços, ao que continuei a encará-lo. Passou-se segundos naquilo e não sabia se ele tinha conhecimento de minha presença o observando. Mas de qualquer forma, decidi me pronunciar.

—Olha quem ta falando.- dei continuação ao assunto.

Ele abriu os olhos, encarando o teto.

—Quem está falando é o seu namorado, que sabe muito bem que você sumiu esses dias.- respondeu-me, se sentando para que pudesse me olhar.

Franzi o cenho, rodando os olhos logo depois, ao que descruzei os braços, caminhando até ele.

—Hic, quem vivia ocupado era você. Tão ocupado, que nem me percebeu bem aqui.- o respondi, parando em sua frente, chegando mais perto quando apenas nos encaramos por um tempo.

—Nem treino você quer saber mais.- sussurrei, ao que o toquei no rosto, mais especificamente o lugar onde sua franja estava, a fim de a tirar dali, colocando-a mais para o lado.

Ele rodou os olhos, sorrindo.

—Tudo bem.- se rendeu.- Mas estive muito ocupado. Você sabe.

Sorri para ele também, chegando mais perto, ao que coloquei uma das pernas entre as suas, apoiando meu peso no colchão.

Coloquei uma das mãos em seu ombro, tendo que abaixar para beijar sua testa levemente.

—É... eu sei.

Me afastei como antes, só que desta vez, mantenho a cabeça abaixada, logo levantando o queixo do ruivo, para que ele me olhasse.

—Esse seu tempo "fora do ar", estragou com todos os meus planos.- sussurrei, já olhando para a boca alheia, tendo que morder meu lábio inferior para que pudesse chegar aonde queria naquele diálogo, uma vez que, se me permitisse agir por impulso naquele momento, com certeza nós ainda não estaríamos tão longe.

—Que planos?- perguntou finalmente.

Eu sorri de lado, voltando a olhar para seus olhos verdes.

—Aqueles em que eu te beijo e nunca enjoo disso.

Ele sorriu e, por Odin! Como eu consegui viver todas essas semanas sem beijar Hiccup?!

Eu realmente sentia falta dele, mesmo que saiba o que o levou a ficar não distraído. Quer dizer... Seu pai claramente não era do tipo fácil, e, por algum motivo, estava mais agitado do que nunca de um tempo pra cá.

Senti sua mão agarrar minha camisa, ao que ele levantou mais sua cabeça, numa preparação "indireta" para o ato.

Minha mão, antes em seu queixo, logo estava em sua nuca, e olhei para sua boca mais uma vez.

—Posso colocar em prática?

—Faça isso.

Nós sorrimos e, logo o tocar de bocas.

As risadas me trouxeram a mim e pisquei, saindo do tipo de transe.

Não tinha mais cenário a minha frente, nem a escuridão do quarto.

Eu estava de novo no ambiente largo, com o branco do chão ganhando destaque. O céu estava claro, mas nuvens escuras eram vistas passando por ali.

Meus olhos logo foram para as poucas crianças que aquela vila tinha, ao que brincavam com a neve fofa e em quantidade considerável. Gritavam e acertaram uns aos outros.

A cena era engraçada, se não fosse o fato de que ainda me sentia estranho por causa dos flashes vindo em minha cabeça.

Tampouco percebi quando eles se fizeram presentes, ao que agora, não sabia o motivo dos mesmos o terem feito.

De imediato, procurei pelo único que poderia causar isso, o percebendo num tipo de círculo com um bando de homens, o qual conversavam alto. Parecia uma discussão, isso se eu não estivesse tão acostumado a ponto de saber claramente que não era uma.

Hiccup os olhava e não seria típico do mesmo juntar-se à eles, e competir com suas vozes mais altas.

Eu sabia que ele só estava ali, pois provavelmente queriam o chefe junto, mesmo que talvez nem precisem dele tanto assim. Eram capazes de resolver a questão sozinhos, uma vez que mesmo com o ruivo ali, não pediam por sua opinião.

Como previ, logo o deixaram sozinho.

Ele abaixou os ombros, passando uma das mãos pela testa e balançou a cabeça ao mesmo tempo.

Era irônico o fato dos dois cenários se parecerem tanto.

Hiccup passou a andar até sua casa, ao que seus passos eram lentos, possibilitando a neve quase que o sugar para dentro de si. Logo estava abrindo a porta e a fechando.

Desviei o olhar, ao que minha mente trabalhava sem eu saber ou perceber. E, depois de mais alguns segundos, não demorei para estar voando até à janela sempre aberta, acabando por me encontrar em seu parapeito.

O que eu estava fazendo ali? Talvez testando algo.

Sentei direito, ao que antes estava somente agachado, apoiando a ponta de minha espada no chão para que pudesse esperá-lo.

Depois de um tempo parado, em que o ruivo não aparecia, comecei a ficar inquieto, levantando quando estava em meu máximo.

Passei a andar de um lado para o outro, sem querer isso realmente e de uma forma totalmente automática.

Primeiro para direita, depois para a esquerda. Direita, esquerda. Direita, esqu-

—Olha só quem apareceu.

Me assustei de imediato e, não foi por causa de sua entrada repentina, anulando todos os meus pensamentos, mas sim por causa da fala.

Parei no meio do ato, o encarando perto da porta, ao que ele não se permitiu ficar somente naquilo, ao que caminho até sua cama, jogando-se nela.

Aquilo estava realmente acontecendo?

—Olha quem ta falando.

O respondi, tentando passar um pose indiferente, ao que queria realmente me sentir assim, sem o incômodo de muitos pensamentos ou presente misturado com memórias e flashes.

Ele me olhou, levantando a cabeça por um momento da cama, me encarando com as sobrancelhas arqueadas. Pareceu ceder a si mesmo, não demorando para voltar a "desmoronar" no colchão.

—Quem está falando é o cara que sabe muito bem que você sumiu esses dias.

Mordi o lábio inferior, incerto do que fazer a seguir. Eu não ia agir como o cara das memórias. Aquilo me parecia um pouco fora de questão no momento.

Ele se sentou, me observando.

Parecia saber o que eu faria a seguir e me perguntei se ele lembrava desse nosso diálogo. Como a resposta me era duvidosa, já que parti para a parte onde pensava ser coincidência, logo vi-me na vontade de continuar, a fim de ver onde ia dar.

—Quem estava ocupado aqui, era você. Eu estive nessa ilha todo esse tempo, você que não percebeu.- falei, manuseando minha espada nas duas mãos, o que me distraiu por um tempo das coisas acontecendo em minha cabeça.

Só passei a ficar inquieto, ao que o ruivo se levantou, o que me chamou atenção até seu rosto e vi seu sorriso, antes de começar a andar em minha direção. Seus passos se desviaram para a janela, ao que ele sentou no lugar onde eu me encontrava há pouco.

—Tudo bem.- falou, rodando os olhos.- Mas eu sou um chefe ocupado. Você sabe disso.

Ele gesticulou com as mãos enquanto falava, desviando os olhos. Ao que terminou, me olhou com as sobrancelhas arqueadas.

Eu sabia o que sua atitude cobrava. Quer dizer... Sabia a resposta que ele queria.

Odiei a agonia, como se ele estivesse enrolando para também me dar a informação que precisava. Melhor dizendo, informações que precisava.

Eu tinha que saber logo se ele sabia quem eu era como eu sabia quem ele era. Tinha que saber se, por algum acaso, ele saiba quem eu sou, se ainda existe algo ali.

Hiccup parecia se divertir às minhas custas.

—É... eu sei.

Sorriu.

Nós permanecemos nos encarando, sem expressão alguma, e se fosse em outra situação, se me visse olhando para alguém tão fixamente por tanto tempo, iria rir sem pensar duas vezes. Todavia, não sentia nem uma graça sequer ali. Sentia ansiedade.

Hiccup estreitou os olhos para mim, depois de mais alguns segundos, me olhando de cima a baixo, o que levou-me a checar meu próprio corpo, a fim de ver se tinha algo de estranho por ali.

—Que foi?- a conversa perdeu seu foco, isso porque eu sabia onde aquilo ia levar, e não saberia como dar continuidade.

—Eu que te pergunto.- respondeu com um sorriso de lado.- Você está muito estranho...

Franzi o cenho, fingindo não saber do que ele estava falando.

—Agi normalmente até agora.

—Isso mesmo.- apontou o dedo pra mim.- Você agiu normalmente até agora.

—Sério?

—Sério.

—Ahn... Não é nada. É só que lembrei de umas coisas.

Voltei a olhar para a minha espada, tentando ficar alheio.

—Que coisas?

Desviei a atenção para seu rosto, percebendo estar bem interessado no assunto.

Limpei a garganta, antes de continuar.

—Uma conversa.

Ele pareceu surpreso, e não sei o que aquela reação me causou. Ela seria bem reveladora para mim, se passasse a pensar mais, porém no momento, não conseguia.

Seus olhos se desviaram para o chão, ao que ele mordeu o lábio inferior, num meio sorriso.

—Entendi.- voltou a olhar para mim.- Bom, já que você não fez nada... Eu vou tomar banho.

Levantou do parapeito, passando a andar até o banheiro.

Sua fala também era muito reveladora. Ela revelava que ele realmente estava esperando um beijo, ou que eu continuasse com o diálogo, esse que também levava a um beijo.

Mas minha mente só conseguiu focar que, realmente, Hiccup queria me beijar.

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