Notas iniciais
Espero que gostem !!

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—Que é?- parei de olhá-lo de relance, para voltar minha atenção totalmente até seu rosto, virando minha cabeça para o lado onde o mesmo se encontrava.- Você tem algum problema com isso?

Seus olhos não se desviaram do céu cinzento, e sua expressão estava difícil de ser lida, do tipo imprevisível.

Ele parece procurar por uma resposta para dar-me, embora não tenha se preocupado em mudar a expressão adquirida.

Por fim, eu acabei por entender que ele não iria me responder, o que me levou a encarar o céu, o imitando.

—Eu já deixei claro que minha vida no passado não era a mais normal... E pensei que você ia entender isso, não ser uma pessoa com preconceito.- falei, passando a mão na neve entre meus dedos.- Quer dizer, antes tinha as mesmas coisas que hoje, mas eu era um alguém totalmente diferente. Eu n-

—Não.- ele disse, ao que olhei para seu rosto por causa disso.- Você não me deixou dizer nada e fica colocando coisas na minha boca.

Seus olhos ainda estavam desviados dos meus, na pose indiferente que ele sempre coloca para falar comigo, ao que sua expressão estava séria.

—Só fala logo.- continuou, fechando os olhos, indicando que iria me ouvir daquela forma, assim como havia feito até ali.

Eu sorri por causa de suas palavras, concentrando-me novamente de onde eu tinha parado.

Estava tudo normal, até que eu cheguei no assunto, que pensei ser completamente interessante, ao que gostaria muito de saber sua reação ao tocar no quesito sobre nosso passado juntos.

A única prova que ele me deu à respeito de me conhecer, de conhecer sobre nós dois, acontecera uns dias atrás. Ainda que não houvesse terminado da forma que eu queria, aquilo era um possível começo.

Aproveitando daquele momento, eu vi uma oportunidade de indicar que eu sei quem ele é, ou de o lembrar ainda mais sobre nosso namoro.

Voltei a olhar para o céu, entrando novamente em meus devaneios e recordações.

Sorri, antes de começar a falar.

—Tinha esse lago.- digo, me permitindo lembrar do dia em que fui parar por lá.- Eu achei numa caminhada na floresta.

—É o lago do outro dia?- perguntou, quebrando meu raciocínio.

—Obrigado por me interromper duas vezes.- respondi, rodando os olhos.- E sim. É o lago do outro dia. Enfim, a primeira vez que eu fui lá, passei a tarde toda admirando a neve e a água congelado e, depois desse dia, eu sempre me encontrava no mesmo lugar. Era uma forma que eu tinha de escapar do meu pai e da sua implicância comigo.

As brigas vieram em minha mente, e lembrava que as mesmas sempre me deixaram com muita raiva. De qualquer forma, hoje estas acabaram por me fazer sorrir, agradecido de que fora numa delas que eu tive a oportunidade de conhecer Jack.

—Era uma época em que eu discutia muito com ele. Eram sempre os mesmos motivos. Esses mesmos, que sempre me levavam para o lago.- continuei depois de mais alguns segundos refletindo.- De qualquer forma, peguei o costume de ficar lá, quer seja em respostas às brigas entre meu pai, quer seja por motivo algum. Lá não era mais minha fonte de escape, e sim, o lugar onde eu sentia que poderia fazer parte. Que poderia me trazer paz.

Dei uma pausa, olhando para o moreno ao meu lado, ao que estava para entrar no assunto em que ele aparecia em minha vida.

Limpei a garganta, desviando a atenção para o céu novamente.

—Um dia em questão, usei o lago como forma de escape. Se tratava de mais uma discussão entre eu e meu pai, e eu realmente não lembro o motivo. Talvez ele quisesse mais uma vez que eu me casasse com a Astrid, ou estivesse insistindo que eu fosse para os treinos.

—Espera, casasse com Astrid?- perguntou, com o ar claramente confuso, ao que sua cabeça virou-se para mim, na primeira vez desde que veio me encontrar no lugar onde estávamos naquele momento, em minha pausa após o almoço.

Eu ri, ao que desviei minha atenção de seu rosto, antes que ele pudesse fazer isso primeiro.

—Meu pai sempre teve essa admiração pela Astrid. Como o chefe da vila, ele poderia arranjar esse casamento pra mim.- expliquei, ao que enxerguei de relance que ele ainda me encarava.- Na época, eu meio que também gostava dela, mas não o suficiente para querer o casamento. E... isso me levava a discutir com o meu pai, já que ele não entendia. Talvez ele tenha se casado com minha mãe muito cedo... Não sei. Graças a Odin, ainda que eu tivesse "namorado" com ela, não sei o que fez com que ele mudasse de ideia. O assunto casamento durante o nosso "namoro" não era mencionado.

Jack parecia bem mais confuso que antes, e eu sabia que para ele, minha fala provavelmente ia até seus ouvidos como códigos muito difíceis de desvendar.

—Enfim, os motivos das nossas discussões nem sempre tinha Astrid como foco. Treinar era o principal motivo.- decidi que falaria sobre o meu namoro falso quando chegasse a hora de falar sobre ele.- Voltando... Naquele dia, eu estava com muita raiva. Lembro que desci até o lago chutando o chão. Devo ter chutado tanto, que talvez ele tenha tentado se vingar de mim, porque assim que eu cheguei no lago, eu cai.

Sorri, lembrando da risada do grisalho, ao que isso se misturou à risada do moreno ao meu lado, o que me fez sorrir mais largamente.

—Engraçado que eu realmente não sei como. Acho que tropecei, mas isso não vinha ao caso, porque ele estava logo ali, perto do meu lago e estava no meu lugar. Ninguém nunca tinha ido outra vez no meu lugar e, ele estava ali, rindo de mim.- falei, ainda sorrindo.

—Eu também riria de você...- disse, ao que o olhei.

E você riu...

—E como assim você é tão egoísta? E-ele devia estar lá só de passagem.- o fato de ter gaguejado e meio que ter ficado sem jeito ao falar "ele", me fez sorrir.

Jack estar incomodado por eu estar contando sobre o meu passado, mas principalmente, estar contando sobre como conheci meu namorado — sendo ele ou não, isso porque também me machucaria se estivesse contando uma história com qualquer outro sequer -, me destruía.

Por mais que o moreno tenha me assegurado de que não se incomodava por eu ter me interessado por outro garoto, ele parecia um tanto desconfortável com o assunto. Isso me fazia questionar se ele realmente se lembrava de mim, ou se lembrava de que era ele o garoto por quem me interessei.

—Enfim...- desviei de sua pergunta, decidindo continuar com o que estava falando.- Foi naquele dia em que eu o conheci. Eu não tinha amigos e, bom... Com ele fora tão natural e simples, que com certeza eu sentia que tinha conhecido alguém com que poderia contar, mesmo que... Ele tenha rido do meu nome quando eu disse.- ri fraco, mas logo cessei.- Nós nos tornamos amigos rápido e sempre nos víamos no lago, passando a tarde toda ali. Era legal. Ele tinha essa personalidade que, tudo o que eu fizesse em sua presença, se tornava algo legal. Quase nunca falava sério e com certeza posso dizer que essa é a sua marca registrada. Uma vez perto dele, você não quer sair mais. Era sempre divertido.

Não evitei olhar para ele, querendo saber se ainda me acompanhava de onde estava no relato, e o que encontrei, deu-me certeza de que o moreno estava.

Voltei minha cabeça para a posição de antes, sorrindo de lado, ao que já sabia a próxima coisa a ser falada.

—Meu primeiro beijo fora com ele...- dei uma pausa, pensando que o moreno ao meu lado precisava absorver isso. De qualquer forma, logo me vi continuando.- Aí que entra a Astrid. Eu gostava dela, já disse isso. Nunca havia beijado ninguém e, numa conversa sobre isso, ele me convenceu que eu precisava aprender. Ele me ensinou.

Ouvi o riso de Jack ao meu lado, ao que sorri também por um momento.

—Depois disso, eu não confessaria para mim mesmo naquela época, mas passei a pensar demais naquele beijo. Passei a pensar nele. Eu negava qualquer sentimento que poderia estar vindo, mas não mudava o fato de que minha mente não se livrava do nosso beijo. De qualquer forma, passei a reparar mais nele e em seus detalhes e de uma maneira completamente diferente. Era meio que inevitável, uma vez que nos víamos todos os dias, mesmo que fingindo que não havia acontecido nada.

—Tão típico.- Jack interrompeu sarcástico, ao que enxerguei de relance seu rosto virando em minha direção.

—Duvido se você ia agir diferente.- respondi, cerrando os olhos em sua direção, o que o calou impressionantemente, ao que sorri com a pequena vitória.- Astrid acabou por ter entrado na história de novo. Nós dois estávamos conversando no meio da rua principal e ela simplesmente me beijou. Bom... Aquele beijo era para ter sido muito melhor do que eu imaginava que seria, mas não foi. Foi o contrário. Eu ia deixar ele pra lá, até porque não me considerava alguém que ainda gostava da Astrid. Esse foi o motivo pelo qual eu não ia falar para ele, mas de alguma forma, descobri depois que ele nos assistiu, e bom... Sua reação não fora das melhores e nós brigamos.

—Ele já gostava de você?

—Não sei. O que você acha?

—Acho que se ele não ficou feliz, então sim.

—Então por que você perguntou?

—Calado.

Ri um pouco, ficando realmente calado por uns segundos.

—Nós não nos falamos por boas semanas e, vou te dizer, elas foram torturantes.- lembro exatamente do quão torturante fora, isso porque sempre conversava com Jack, e quando isso mudou, era algo horrível.- Ainda fui obrigado a vê-lo, isso porque nós treinávamos juntos e para piorar, ele era a minha dupla. Nós chegávamos lá, e simplesmente descontávamos nossa raiva um no outro com golpes de espadas.- olhei de relance para a espada do moreno, lembrando da época, o que me fez sorrir.- E um dia eu simplesmente disse que sentia falta dele, o que nos deixou um pouco bem novamente. Todavia, só pedimos desculpa oficialmente, depois que eu... Eu dormi na casa dele pela primeira vez. Depois daquela noite, eu meio que já tinha certeza que sentia algo por ele. Ah, não contei que na época, eu e Astrid estávamos namorando de mentirinha, mas nós estávamos. Ela não era um obstáculo, o único obstáculo era minhas confusões, isso porque sempre voltava atrás sobre o que sentia realmente. Enfim... Nós nos tornamos amigos novamente, mas estava muito difícil manter isso. Não era possível ficar a mesma coisa. Não depois daquela noite.

—O que aconteceu naquela noite?- perguntou, parecendo curioso demais.

Eu o olhei, arqueando as sobrancelhas em sua direção, ao que fora impossível conter o sorriso de lado.

Ao que nos encaramos por segundos demorados, ele pareceu entender, fazendo-me rir, voltando a olhar para cima.

—Oh...

—Não é totalmente isso o que você está pensando, mas...

O olhei novamente, com um sorriso grande nos lábios, não querendo perder sua reação, que realmente estava engraçada.

—Ok, continuando...

—Faça isso, por favor.

—Hm... Aconteceu de novo, e agora, o que aconteceu, é exatamente o que você pensou. Com isso, criamos muito mais intimidade e passamos a ficar mais tempo juntos. As sensações ao lado dele eram boas demais, e eu soube que precisava delas pelo resto da minha vida. Precisava dele ao meu lado, porque o que fazíamos sem nome algum, parecia errado pra mim. Foi quando eu o pedi em namoro.

Olhei para o lado, ao que Jack também retribuiu. Eu sorri, dando a ideia de que pararia por ali, isso se eu quisesse, e eu não queria.

Olhei novamente para o céu, ao que as próximas palavras eram tudo o que eu mais acreditava.

—Tudo estava adequado... nos eixos. Nada poderia mudar o que nós éramos e nada poderia tirar o que nós tínhamos juntos. Estávamos sempre seguros, e uma vez eu e ele, aquilo dobrava. De alguma forma, sei que nada vai mudar. Sei que meu coração bate da mesma maneira. Uma vez na vida, eu tive isso, e foi a melhor coisa. Ele fez uma grande diferença em mim, essa que eu nunca iria querer que não tivesse acontecido. E não me arrependo de ter vivido, e nem do que eu sou. Não me importo se você é preconceituoso.- ri por um momento, quebrando a seriedade das palavras.- De qualquer forma, mesmo com a passagem de ano, me sinto da mesma forma, e soube que não mudei.

Não mencionei sobre a guerra e como, a partir dali, tudo não seria da mesma maneira para nós vikings. Acho que ele sabia de algo que mudou completamente a nós.

Houve um silêncio, ao que continuei olhando para o céu. Esse silêncio permaneceu, até que Jack se pronunciou:

—E onde ele está agora?

—Ele morreu.

Outro silêncio.

—E sobre você, e todos esse poderes? Por que não me conta mais?

Virei minha cabeça em sua direção, percebendo sua expressão um pouco atordoada e sabia que era por causa de tudo o que tinha acabado de falar.

Depois de uns poucos segundos, pareceu tentar se recompor, e mesmo que tivesse tentado ser convincente quanto a ter conseguido, eu sabia que sua mente corria inquieta.

Sua boca se abriu, de qualquer forma.

—Chefe, vamos?

Olhei para cima, onde o homem estava em pé, me encarando dali.

—Oh, ok. Já estou indo.

Seus passos se distanciaram, ao que observei quando já estava longe de nós.

Olhei para Jack novamente, tratando de me levantar da grama.

—Não terminamos aqui.

Dei de ombros, ao que escutei quando o moreno pegou voo atrás de mim.

[...]

—Mas eles nem sabem cuidar de si próprios, imagina no campo de batalha.

—Ninguém nessa vila sabe cuidar de si próprio.

—Você está dizendo que ninguém tem responsabilidade?

—Estou dizendo que não adianta falar dos nossos aprendizes, porque éramos e ainda somos como eles. Somos impulsivos, nervosos e às vezes não pensamos nas consequências.

—Não estou entendendo aonde vocês querem chegar... Estamos aqui para discutirmos sobre nós, adultos, ou sobre nossas crianças?- Hiccup se pronunciou a primeira vez, ao que sua voz de imediato me chamou atenção. Pensei que ele não falaria nada...

—Parece que de vocês, adultos.- eu disse, ao que levantei de onde estava, flutuando até o chão.

Hiccup não precisou me olhar, ainda que soubesse que o mesmo já havia me notado, sorrindo de lado por causa de minha fala.

Seu sorriso fora desfeito de imediato, ao que outro homem o havia chamado atenção para o que estava dizendo.

De novo passaram a discutir o assunto, completamente alheios à outras coisas.

Era engraçado observá-los e era engraçado a forma como Hiccup parecia estar ali, ainda que sua mente estivesse longe. Todavia, mesmo que desse a entender isso, eu sabia que os escutava atentamente, limitando-se a falar poucas vezes.

Seu queixo estava apoiado à mão encostada à mesa, ao que sua cadeira estava num dos extremos.

—Por que, se meu filho for para uma das batalhas, ele tem que fazer outras coisas na aldeia?!

Sorri, ao que o ruivo bufou, se endireitando na cadeira, deixando as costas retas.

—Parem de falar ao mesmo tempo.- começou.- Por Odin... Parecem um bando de crianças.- os homens lhe deram atenção, ao que tive vontade de rir, tanto pelo tom usado pelo chefe ruivo, quanto pelo fato de que eles se assustaram.- Escutem: eu já passei por isso e garanto que não é algo tão extravagante assim. Os aprendizes, com o treino certo, são capazes de fazer tudo o que nós fazemos. Se vocês parassem de discutir como tolos e fossem assistir aos treinos por pelo menos poucos minutos, saberiam do que eu estou falando. A lição de vida? Vão e vejam por si próprios, depois tirem suas próprias conclusões. Podem sair.

Ri um pouco, ao que arqueei as sobrancelhas, encarando o ruivo ainda sentando.

Os homens começaram a sair da sala um pouco falantes, mesmo que não falassem mais sobre o assunto.

O ruivo permaneceu em seu lugar, ao que observamos até o último homem sair. Olhei para ele.

—Você vê o que eu tenho que aguentar...

—Vi agora.

Ele se levantou, enchendo um copo com vinho, logo o bebendo distraidamente.

—Não vá ficar bêbado de novo.- alertei, voltando a andar de um lado para o outro.

—Esse tipo de situação, precisa de bebida, desculpa.- respondeu, encostando à parede, ao que ainda tinha seu copo em mãos.- Você nem começou a falar sobre... Você, huh?

Parei no lugar, colocando minha espada em um dos ombros, ao que passei a olhar para meus pés descalços, voltando a andar.

—Então quer dizer que eu posso falar sobre a minha vida toda pra você, mas você não pode fazer o mesmo pra mim?

Ele então começou a andar até a saída do local escuro, deixando seu copo em cima da mesa grande.

—Eu não disse isso.

Passei então a segui-lo, ao que logo estávamos do lado de fora. Nós permanecemos numa distância constante, uma vez que ele se encontrava um pouco distante de mim e também não quis mudar isso.

Chegamos ao grande campo de treinamento, ao que Hiccup parou à porta, cruzando os braços.

—Vai conversar com a loirinha?- perguntei, ficando ao seu lado.

—Hmrrum.

Olhei novamente para dentro, observando os aprendizes e a instrutora, amiga de Hiccup, parada também os observando.

Não me permiti ficar ali, de qualquer forma, ao que logo voei até as armas e objetos, encarando cada um deles.

—Continuem praticando!- ouvi a voz feminina, logo desviando a atenção até o lugar de onde ela vinha.

Eles se abraçaram rapidamente, não demorando para entrar num diálogo descontraído.

Era incrível a forma como Hiccup ficava na presença dela. Tão... Solto e despreocupado. Ele sempre sorria diferente para ela, sorriso esse que acabei por me questionar se era exclusivamente dela e para mais ninguém. Por fim, vi-me sorrindo, ainda encarando o ruivo com os braços cruzados conversando com a loira perto de si.

A forma como se mexia parecia lenta, o que me prendeu atenção até o momento em que ele simplesmente deu a volta, andando para longe.

Sua atitude me surpreendeu, ao que de imediato voei até ele.

—Não se preocupe, que eu te alcanço.- falei, estando no chão novamente, caminhando ao seu lado.

Ele riu.

—Jack... Eu estou um pouco ocupado e isso vai piorar agora. Não posso te dar atenção.

—Entendido.

[...]

—Olha, me desculpa por mais cedo... Ser chefe não é fácil.

—Eu sei. Não precisa se desculpar.

Sorri, ao que deitei na cama, não me importando em colocar alguma blusa para dormir. Apenas me cobri com o cobertor, logo encarando Jack em pé.

—Senta.- falei, olhando para o grande espaço ao meu lado no colchão.

—Quer que eu conte uma história?- perguntou, sorrindo maldoso.

—Então não senta.- respondi, ao que olhei para o teto. Logo um estalo me veio e o olhei novamente.- Ah, e eu quero sim que você me conte uma história. Você sabe muito bem qual.

Ele rodou os olhos, começando a andar em meu quarto, como o bom Jack que não consegue ficar quieto. Acabei por sentar na cama, esperando pacientemente que ele começasse, e querendo que ele fizesse isso.

—Foi como eu disse pra você...- ele disse, vasculhando entre as minhas coisas. Pareceu se limitar somente àquilo, mas logo voltou a falar.- A primeira coisa que eu lembro, é de acordar no meio da neve. Estava sozinho e no escuro. A única coisa que espantava todo o clima, era a lua. E... Foi estranho, mas quando eu olhei para ela, soube pela voz que meu nome era Jack.- seus olhos vieram para mim, e franzi o cenho, ao que logo sua atenção se desviou.- O Homem da Lua não havia me falado mais nada. No mesmo dia, eu descobri que ninguém me via. Basicamente, fiquei sozinho. Tinha os guardiões, mas eles sempre estão muito ocupados. Me acostumei com isso, e com a falta de respostas. Ou ainda, com o fato de não lembrar de nada. Teve esse dia que o Homem da Lua, como eu disse, mandou eu ir atrás de você e, de novo, só falou isso. Mas enfim, eu estou aqui agora. E tudo o que aconteceu a partir do momento em que eu fui te ver, você já sabe. Satisfeito?

Por mais que ainda estivesse pensando sobre o que ele tinha acabado de falar, sorri em sua direção, abaixando os olhos até meus dedos brincando em meu colo.

—Obrigado por contar.- disse por fim.- Quer dizer, é estranho ter um cara que só eu posso ver, e não saber sobre a vida dele direito. Ainda sinto isso... Mas sei que você também não tem noção de muita coisa.

—É... Eu realmente não tenho. Mesmo que... Algumas coisas voltam. Sei que um dia eu já fui humano. A Fada disse isso pra mim. Mas ao mesmo tempo, tudo parece fora de alcance ou sem nexo.

Prendi a respiração automaticamente quando ele disse a parte sobre ser humano, ao que desejei falar mais sobre isso. Todavia, sentia que não poderia ou que eu iria assustá-lo com isso tudo. Talvez seria informação demais.

Estava preso em pensamentos, ao que fui interrompido por sua voz.

—Você... Gosta da Astrid?

Eu o olhei logo franzindo as sobrancelhas.

—O que?- respondi com outra pergunta.

Ele passou a andar novamente pelo quarto, ao que começou a se explicar.

—Você tem um sorriso diferente quando está com ela...

—Quê? É o meu sorriso!- não evitei sorrir no final, esperando que ele me olhasse, todavia, ele não o fez.

—Só pensei que, se uma vez você já gostou dela, podia estar acontecendo de novo.

—Não se preocupe. Ela é minha amiga e só isso.- respondi num tom sarcástico, tirando uma com a cara dele.

Virou o rosto em minha direção, murmurando um "quem ta preocupado?" contrariado, o que me fez rir baixo.

Nós ficamos em silêncio, ao que Jack continuava a andar em meu quarto, brincando com sua espada ou mexendo em alguns objetos em cima das minhas estantes. Era agonizante vê-lo desse modo mesmo que ele estivesse em seu normal.

—Você não fica quieto?- perguntei, como alguém que fala com uma criança.

—Você ficou com alguém, depois daquele... Garoto?

Eu encarei suas costas, um pouco surpreso por causa da pergunta e pelo fato do moreno ter desviado de repente do assunto que dei início.

De qualquer forma, logo o estava respondendo:

—Hm, não.

O vento vindo da janela fez-me sentir falta da blusa que não havia me importado em vestir, ao que logo estava andando até minha gaveta do guarda roupa.

—Por que a pergunta?- vi-me questionando, ainda que não tivesse tanto interesse no que ele poderia falar.

—Porque eu queria uma resposta.- respondeu e me assustei de imediato por causa de sua voz bem mais próxima que antes.

Virei meu rosto para o encarar, perdendo o ritmo de minha respiração ao nota-lo tão perto de mim, com seus olhos azuis me analisando. De qualquer forma, não queria me afastar.

Ele indicou minhas pernas, ao que sua atenção se voltara para o lugar também.

—Como foi isso?

Eu olhei para o suporte de ferro, não demorando para encarar seu rosto novamente.

—Minha primeira guerra. Eu desmaiei e simplesmente arrancaram.

Comecei a vestir a blusa branca que havia pego, ao que quando terminei, nossos olhos se encontraram de novo.

Tentava não pensar no fato de que estávamos perto, e precisava somente um dos dois se inclinar o bastante para que estivéssemos nos beijando. Naquele momento, se continuássemos sem falar nada, eu seria essa pessoa que não perderia tempo para me inclinar.

Olhei para sua boca, num ato completamente automático, esse que Jack percebera. Eu o observei ficar tenso bem em minha frente, logo voltando meus olhos para os seus de imediato.

Quando o vi começar a dar meia volta, sabia que tinha estragado tudo. Sabia que tinha o assustado.

Minha mão alcançou a sua, e de cara percebi a temperatura baixa. Era tão gelada, o que me causou um arrepio que fez-me desejar soltá-lo na mesma hora. Todavia, não o fiz.

Ele continuou sem me encarar, ao que continuei segurando sua mão gelada.

Nós ficamos naquela posição, uma vez que busquei por algo para poder lhe dizer. Talvez me desculpar por ter o olhado daquela forma, e o ter deixado pensar errado sobre minhas intenções.

Não achei nada, de qualquer forma, ao que Jack virou novamente em minha direção, depois de alguns segundos.

Eu o encarei, desejando que meus olhos passassem o que eu queria dizer. Todavia, fui traído quando novamente minha atenção desceu até sua boca inevitavelmente.

Dessa vez, eu o deixaria ir.

Esperei pelo momento em que seus passos iriam vir e logo depois se transformariam em um voo para longe de mim.

Isso não aconteceu.

Meus olhos devem ter se arregalado demasiadamente, isso por finalmente ter entendido que ele não iria se distanciar.

Voltei a atenção até os lábios entreabertos e extremamente vermelhos, como se ele os tivesse mordido muito. Eram lindos; como eu me lembrava.

Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, ou sequer olhá-lo nos olhos novamente, minha boca estava na sua.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.