I Want To Believe
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Anos trabalhando no Arquivo X, presenciando as coisas mais estranhas e bizarras, mas no fim totalmente explicáveis pela ciência, e agora... Eu simplesmente não sei o que pensar sobre as dezenas de círculos e símbolos intrigantes que se estendem pela fazenda da família Barden.
Apenas continuo os observando, com Mulder ao meu lado no catavento, como se a qualquer momento fôssemos encontrar a resposta para tudo isso. Como se a resposta estivesse bem na nossa cara.
A princípio, quando vi apenas o primeiro círculo, bem mais simples do que estes que meus olhos exploram agora, pensei sim que tudo não passasse de um fenômeno natural. Fabuloso, mas natural e relativamente comum.
No entanto, agora tenho plena certeza de que seria impossível que a mãe natureza produzisse tais desenhos no milharal. Está claro para mim que tais símbolos foram feitos através de tecnologia.
Que tipo de técnica produz resultados tão perfeitos e impressionantes, sem deixar vestígios para trás, ainda não sei, mas pretendo descobrir. É para isso que estou aqui afinal, certo?
Ainda não descartei a hipótese de fraude. Aliás, acho que é a possibilidade mais plausível no momento. Porém, confesso que nunca vi uma fraude tão perfeita.
É difícil precisar quantos homens foram necessários para realizar tal trabalho. Mais difícil ainda é responder como eles fizeram isso. Com que tipo de máquinas? Quando fizeram? Quanto tempo levaram para fazer todos esses desenhos tão precisos? Como ninguém os viu enquanto agiam?
É ao me fazer essas perguntas, que uma hipótese surge em minha mente. E, embora eu saiba que o meu parceiro não vai gostar nem um pouco de ouvir, tenho que expô-la:
— Mulder, você conhece mesmo... Digo, conhece bem o Sr. Barden?
Quase no mesmo instante, Fox olha em minha direção e só então percebo que nossas mãos ainda estão unidas.
Mas, como se o meu questionamento tivesse o despertado de alguma forma, ele solta a minha mão prontamente, estreita o olhar sobre mim e rebate:
— Como assim? O que você está insinuando, Scully? — a resposta deve estar estampada em minha face, já que, na sequência, Mulder arrisca visivelmente insatisfeito: — Que Chris tem alguma coisa a ver com isso? Que ele fez tudo isso?
Tentando evitar uma discussão, mas também querendo expor os meus motivos para duvidar da veracidade de tais símbolos e desenhos na plantação, articulo com calma:
— Não me leve a mal, mas nós temos que considerar todas as possibilidades aqui.
Visivelmente indignado, Mulder retruca prontamente:
— Inclusive a possibilidade de que o meu amigo está mentindo para mim? A troco de que ele faria isso?
— Não é óbvio? — o desafio, começando a me alterar um pouco. — Ele é um ufólogo, Mulder, e você um agente federal disposto a fazer qualquer coisa para provar a existência de extraterrestres. Talvez Christopher Barden tenha enxergado isso em você quando te conheceu, talvez ele esteja se aproveitando de você para... Sei lá... Alavancar a carreira? Ficar famoso?
Assim que termino de falar, me arrependo um pouco de tais palavras, já que pela expressão do meu parceiro está claro que eu o magoei com elas.
Isso se confirma, quando Fox questiona com a voz um pouco mais baixa:
— Então é isso o que você pensa de mim, Scully? Que eu sou ingênuo a ponto de deixar as pessoas me enganarem desta forma?
Tento me explicar e reverter o efeito negativo do que eu disse, recomeçando:
— Mulder, eu não quis...
No entanto, sou interrompida na sequência por um Fox Mulder visivelmente desapontado e um pouco nervoso:
— E é isso o que você pensa do Chris?! Que ele não passa de um aproveitador?! Você não sabe nada sobre ele, Scully, para tirar esse tipo de conclusão.
— Então me diga! — esbravejo quase sem perceber.
Embora a última coisa que eu queira seja me desentender com Mulder, a sua fé cega em vida alienígena e em quem acredita nisso me irrita profundamente e não é de hoje.
Sendo assim, me ouço pedindo sem muita paciência:
— Me diga, Mulder. Por que você confia tanto nele? O que une vocês exatamente? Só essa crença ridícula em homenzinhos verdes vindos de planetas tão tão distantes?
Droga... Eu não devia ter dito crença ridícula...
— Crença ridícula?! — Fox esbraveja, visivelmente ofendido e possesso, dando um passo em minha direção. — Eu não acredito que em todos esses anos de Arquivo X e agora diante desses malditos símbolos, você não consiga nem ao menos cogitar a ideia de que eu posso estar certo, Scully! Droga... Em quantas espaçonaves nós vamos ter que tropeçar para que você acredite que nós não estamos sozinhos nesta droga de universo?!
— Isso é ridículo, nós estamos discutindo em um catavento! — opino, perdendo a calma de vez. — E pior! Por algo que nem ao menos existe! — completo, sabendo que Mulder não gostou nem um pouco de ouvir isso.
Em seguida, ficamos no mais absoluto silêncio, apenas nos encarando mutuamente e sentindo o soprar do vento em nossos rostos.
Aos poucos, eu me acalmo e sinto que Mulder também se recompõe. Com certeza, ele está achando essa discussão tão ridícula quanto eu.
Nem sei por que insistimos tanto em bater de frente deste jeito, sendo que no final, ele continua com as suas crenças e eu com o meu ceticismo, como ele mesmo diz. Nem sei por que discutimos assim, sendo que, no final, sempre acabamos nos entendendo de novo. Por algum motivo, não conseguimos ficar com raiva um do outro por muito tempo.
Mas, apesar de tudo isso, percebo que Fox ainda está magoado por eu ter duvidado do caráter do seu amigo ufólogo e insinuado que ele é ingênuo por acreditar em tudo o que lhe contam.
Essa mágoa se confirma quando Mulder me dá as costas, se afasta e começa a descer do catavento.
Respiro fundo, reviro os olhos e hesito um pouco, antes de seguí-lo.
Meu parceiro chega ao chão primeiro e caminha na direção de onde viemos antes, num claro sinal de que não está a fim de conversar agora.
Meus coturnos atingem o solo na sequência e, mesmo sabendo que poderei ficar no vácuo, arrisco:
— Mulder. — para minha surpresa, ele detém o passo, me levando a prosseguir: — Você ainda não me disse por que confia tanto no Sr. Barden.
Mesmo de costas para mim, consigo imaginar a expressão do meu parceiro neste exato momento. Consigo sentir a sua hesitação em conversar comigo ou em seguir o caminho de volta para a casa da família que o acolheu em suas férias.
Por sorte, parece que Mulder não está a fim de discutir ou me ignorar, já que se vira em minha direção, me encara por alguns instantes e finalmente relata, visivelmente mais calmo:
— Chris tem uma irmã. Ela foi levada da casa deles quando os dois eram crianças.
Penso por alguns segundos, me lembrando do porta-retrato que vi no dia anterior e que mostrava Christopher ainda criança com uma garotinha ao seu lado.
Então, desconfiada do que Mulder está insinuando, lhe peço:
— Defina levada.
Mulder hesita, talvez por saber o que eu penso deste assunto, mas, por fim, resolve responder:
— Abduzida, como Samantha foi. Aliás, as duas foram abduzidas quase na mesma época.
A incredulidade deve estar estampada em minha face, já que logo depois, Mulder articula:
— E eu sei, você não acredita. Eu também sei o que você vai dizer, Scully. Que foram dois casos de sequestros distintos, por motivos distintos e que talvez Chris esteja usando isso para me enganar, já que eu sou muito ingênuo para perceber certas coisas, mas quer saber? Eu acredito nele. Eu acredito com todas as minhas forças e convicções que nossas irmãs, por algum motivo, foram abduzidas por homenzinhos verdes, como você faz questão de frisar. E eu acredito que a resposta para esse mistério pode estar aqui, nesta fazenda, nestes malditos símbolos. — após uma breve pausa, me encarando seriamente, Mulder demonstra que ficou mesmo magoado: — A única coisa na qual eu não acredito é que eu te chamei aqui. Desculpe por ter te feito perder o seu tempo, Scully.
Em seguida e sem dizer mais nada, meu parceiro me dá as costas de novo e retoma a caminhada.
Depois de respirar fundo e pensar um pouco, me dou conta de que me exaltei, vou atrás dele e peço:
— Mulder, espera. — Assim que ele para, eu dou mais alguns passos, fazendo uma volta em torno dele e paro na sua frente. — Me desculpe — lamento sinceramente, o fitando nos olhos, antes de acrescentar: — Eu não quis duvidar do seu amigo e não acho que você seja ingênuo, me desculpe. Você confia nele e eu confio em você, então... Eu vou tentar confiar em Chris Barden também. E eu já disse, não é perda de tempo ajudar você. Nunca é. Você é mais do que meu parceiro, Mulder, você é o meu melhor amigo. É por isso que eu estou aqui. E é claro que eu quero te ajudar a desvendar este mistério.
Ficamos em silêncio de novo, nos encarando como no catavento.
Por um momento, penso que Mulder não vai aceitar as minhas desculpas e que vai passar o resto do dia me evitando. Porém, este não seria o Fox Mulder que eu conheço e admiro tanto.
O Fox Mulder que conheço não guarda rancor por muito tempo. O Fox Mulder que conheço, sorri levemente e brinca:
— Você vai me abraçar agora, Scully? Para selar a paz entre nós?
Inevitavelmente, sorrio de volta, achando o que ele disse engraçado e aliviada por termos deixado aquela discussão ridícula para trás.
Por um momento, até penso em dar mais um passo à frente e abraçá-lo, no entanto, fico um pouco sem graça com a forma como Mulder me encara e resolvo que é melhor mantermos o foco no trabalho.
Sendo assim, pigarreio e recomeço:
— Olha, eu sei que você não gosta disso, mas antes de considerar a possibilidade de... Visitantes alienígenas, eu preciso interrogar algumas pessoas. Funcionários da fazenda, a Sra. Barden e... O seu amigo Chris também.
Posso estar imaginando coisas, mas tenho a impressão de ver certa decepção no semblante de Fox. Não por eu ter dito que preciso interrogar o seu amigo, mas por outra coisa.
Será que Mulder estava falando sério sobre o abraço?
— Okay — ele assente, desviando do meu olhar e observando tudo em volta, um pouco desconfortável ao que parece.
Imito o seu gesto mas, antes que o silêncio se torne constrangedor, comunico:
— E... Eu também preciso recolher amostras do solo, fotografar os símbolos e pedir ajuda ao FBI porque...
— Nós não podemos fazer isso — Mulder discorda prontamente, voltando a me encarar.
Confusa, franzo o cenho e decido lembrá-lo:
— Eu pensei que você quisesse descobrir o que está acontecendo nesta fazenda.
— Eu quero, mas eu não confio no FBI para isso, Scully — Mulder esclarece de um jeito firme. E um pouco paranoico também. — Nós dois já tivemos provas mais do que suficientes de que há pessoas infiltradas no FBI que não querem que a verdade venha à tona.
Neste ponto, Mulder está certo. Não é de hoje que tenho a impressão de que o trabalho investigativo de determinados Arquivos X esbarram em manobras burocráticas de pessoas do alto escalão do instituto. Como o Canceroso, por exemplo. Um homem cujo nome verdadeiro Mulder e eu não sabemos, mas que parece ter grande influência junto a diretoria do FBI.
Ele está sempre rondando nossas reuniões com membros da diretoria, sempre saindo de salas e escritórios onde entraremos logo depois, sempre esbarrando conosco pelos corredores do FBI e sempre, sempre mesmo, com um cigarro aceso em mãos. A fumaça se espalhando a sua volta e lhe dando um ar traiçoeiro e misterioso.
Não estou dizendo que acredito em extraterrestres e no paranormal, mas, às vezes, tenho sim a impressão de que o FBI, sob influência do Canceroso e de outros figurões como ele, quer que eu continue desta forma, totalmente cética em relação a determinados casos, e Mulder totalmente desacreditado. É como se quisessem nos manter sob controle, nos jogando um contra o outro.
Às vezes, penso que isso é só paranoia da minha cabeça. Provavelmente pelo convívio com Fox. Mas, em outras vezes, cada vez com mais frequência, sinto que ele pode estar certo. Nós estamos mesmo sendo vigiados e manipulados.
Tentando encontrar uma solução, já que realmente precisaremos de ajuda com este caso, sugiro:
— Nós podemos falar com o Skinner.
Meu parceiro discorda quase no mesmo instante, levantando algumas questões:
— E colocá-lo em risco por nos ajudar? E se ele estiver sendo monitorado de alguma forma?
Querendo muito que ele me diga que estamos sendo paranoicos, rebato:
— Mulder, você não acha que está exagerando?
— Não — afirma sem pestanejar e me fitando nos olhos com a mesma segurança. — E eu agradeceria muito se você deixasse as coisas assim, Scully. Que não comentasse nada disso com ninguém, enquanto nós não descobrirmos o que exatamente está acontecendo neste lugar. Não confie em ninguém, lembra?
Sim, eu me lembro. Não é a primeira vez que ouço este conselho. E não é a primeira vez que sinto que devo seguí-lo sem questionar.
Então, contrariando a parte de mim que quer acreditar que tudo não passa de paranoia, assinto:
— Tudo bem — e após uma breve pausa, digo mais relaxada: — Então, se você me dá licença, eu vou interrogar algumas pessoas por aí... Isso eu posso fazer, certo?
Mulder sorri em concordância e abre a boca para responder, mas não chega a dizer nada. Isso porque, antes que as palavras saiam de sua boca, ambos ouvimos ruídos no milharal a nossa volta e ficamos em alerta automaticamente.
— O que foi isso? — indago, olhando ao nosso redor em busca da origem do tal barulho, que se assemelha a passos.
Quando o ruído se torna mais próximo e alguns pés de milho se movem perto de nós, Mulder pega a sua arma no coldre, a aponta em direção à misteriosa movimentação e indaga em alto e bom tom:
— Quem está aí?
Diante do silêncio que se segue, ele me lança um olhar significativo e meneia a cabeça, indicando que é para eu me preparar também.
— Eu perguntei quem está aí? — ele reforça impacientemente.
Embora eu ache que Mulder está exagerando, resolvo confiar em seu instinto e procuro pela arma em minha cintura.
Meus dedos chegam a tocá-la, mas não preciso retirá-la do coldre, já que no instante em que faria isso, o mistério chega ao fim...
Algo se movimenta na plantação, afastando alguns caules, e logo um labrador se aproxima de nós. Deduzo que seja o cachorro de Mia, Toby, e me abaixo em sua direção, lhe fazendo um carinho em seguida.
Toby abana o rabo e lambe a minha mão em agradecimento e em busca de mais carinho.
Tenho que controlar a vontade de rir, antes de olhar para o meu parceiro e debochar de sua desconfiança excessiva:
— Oh... Mulder, veja só! Será que é um cachorro de outro planeta?
Volto a acariciar o animal, enquanto Fox abaixa e guarda a arma.
— Não tem graça — ele resmunga baixinho.
Mais tarde
Sentada em uma cadeira em meu quarto, de frente para o notebook sobre a escrivaninha, olho fixamente para a tela do relatório em branco diante de mim. Toda vez que tento escrever algo, travo. Simplesmente não sei o que escrever, por onde começar, nada.
Se ao menos o dia tivesse sido mais produtivo no que diz respeito a investigação, mas, infelizmente, sinto que apenas andei em círculos e mais círculos. Tanto no sentido figurado, quanto no literal.
Explorei o máximo que pude a plantação e os desenhos misteriosos. Ao lado de Mulder. Sempre acompanhados pelo labrador Toby, que parece ter gostado mesmo de mim.
Depois, conversei com os seis funcionários que trabalham na fazenda, cuidando do gado e das plantações, e também com o Sr. Barden e sua esposa. Mas, não cheguei a nenhuma conclusão sobre os círculos e desenhos que foram feitos no milharal.
Resumo da ópera: ninguém sabe de nada, ninguém parece estar mentindo sobre não saber de nada, ninguém tem nenhuma pista concreta que possa servir como ponto de partida para resolver este mistério, e todos parecem convencidos de que foram mesmo visitados por seres inteligentes de outros planetas.
Impaciente e um pouco cansada, respiro fundo e me recosto na cadeira. Passo as mãos pelo rosto e quando volto a olhar para a tela do notebook, percebo que o relógio no canto inferior marca duas horas e um minuto. Da madrugada.
A casa da família Barden está completamente silenciosa, o que me leva a concluir que apenas eu estou acordada até esta hora.
Miminizo a tela em branco e dou mais uma lida em algumas reportagens sobre círculos em plantações ao redor do mundo. Depois, acesso remotamente alguns documentos dos Arquivos X sobre este tipo de ocorrência, porém, mais uma vez, não chego a qualquer conclusão.
A verdade é que eu não sei o que está acontecendo nesta fazenda. E isso está começando a me enlouquecer.
Ainda mais cansada, desisto de tentar entender qualquer coisa hoje, abaixo a tela do notebook, me levanto da cadeira e caminho até a mala, aos pés da cama.
Estou decidida a finalmente desfazê-la, arrumar todos os meus pertences dentro do guarda-roupa, tomar um bom banho e depois me deitar, quando algo chama a minha atenção. Um clarão forte e incômodo que invade o quarto através da janela, seguido por um vento relativamente intenso, mas que desaparece tão rápido quanto surgiu.
Fico imóvel por alguns instantes, me perguntando o que terá sido isso, até que ouço Toby latindo lá fora e caminho até a janela, querendo entender o que está acontecendo.
O animal late, insistentemente, na direção do milharal. É tudo o que vejo.
Ele late tão alto e sem parar que me pergunto se não vai acabar acordando os donos, os funcionários da fazenda e Mulder. Mas, claro que a pergunta que mais me intriga é: por que ele está latindo?
Alguns segundos se passam e vejo uma luz se acender no andar de baixo da casa, iluminando parcialmente a varanda, sob a minha janela.
Logo, a figura de Mia surge no lado de fora, vestida com uma camisola infantil e descalça. Mesmo com os altos latidos de Toby, consigo distinguir a sua voz doce. Ela está tentando atrair o animal de volta para a sua casinha, na varanda, e tentando acalmá-lo ao mesmo tempo.
Mas, Toby não só continua latindo e ignorando os pedidos da menina, como, de repente, rosna para o vazio e corre em direção ao milharal em disparada, se embrenhando na plantação e desaparecendo das minhas vistas.
Quando Mia corre atrás do animal de estimação, chamando por ele, eu deixo o quarto às pressas, decidida a ir atrás dela.
Nem me lembro de bater na porta do quarto do Sr. Barden e sua esposa, ou de acordar Mulder. Simplesmente corro pelo corredor em direção ao andar de baixo.
Hesito, quando olho para um relógio na parede da sala. Ele marca duas horas e um minuto. Exatamente. Assim como o meu notebook, há minutos atrás. E os ponteiros deste relógio na parede estão, estranhamente, parados.
Estranhamente?
Nem sei por que pensei isso, mas acho que foi porque eu me lembrei das teorias de Mulder sobre o fenômeno que ele chama de Missing Time.
Claro que não acredito nisso. Claro que o tempo não pode parar. É cientificamente impossível. Claro que a bateria do relógio apenas chegou ao fim da sua vida útil.
Convencida disso, corro em direção à porta e logo saio da casa.
— Mia! — grito, enquanto sigo na direção em que a vi correndo antes. — Mia!
— Toby! — ouço sua voz ao longe em meio aos latidos do cachorro, também distantes. — Toby, volta aqui! Toby!
— Mia! Onde você está? — chamo novamente, adentrando a plantação e desviando das folhas como posso.
Não sei quantas vezes a chamo, nem quantas vezes ela grita pelo cachorro, muito menos por que ele continua latindo, cada vez mais alto e insistente. Simplesmente continuo correndo e me embrenhando no milharal na direção onde eles parecem estar até que... Um novo clarão surge, mais forte e acompanhado por um vento mais intenso, me levando a proteger o rosto com a mão e olhar para cima.
Não sei o que vejo. Ou se o que vejo é real. Tudo o que sei é que algo passa sobre mim e suas luzes me cegam por alguns instantes. A princípio, penso se tratar de um helicóptero, mas o objeto é silencioso demais.
Vejo o que parece ser uma parte metálica com algumas luzes brancas em volta e, logo depois, o objeto se afasta mais um pouco, se movendo pelo céu rapidamente, a cerca de trinta metros do chão, até desaparecer do meu alcance de visão.
Estou tentando entender que tipo de objeto é esse, quando ouço Mia gritar:
— Ah! Socorro!
— Mia! — grito de volta, voltando a correr na direção de sua voz, enquanto Toby continua latindo.
Só então percebo que o som da sua voz veio da mesma direção para onde o objeto seguiu.
Empurro alguns pés de milho, corro mais um pouco e logo alcanço um círculo na plantação. Tropeço em um dos caules retorcidos e meu corpo vai de encontro ao solo.
Ergo a cabeça no mesmo instante e sou cegada pelas luzes de novo. Protejo o rosto como posso e estreito o olhar em direção a algo que parece ser... Que parece ser... Me sinto ridícula, mas aparentemente estou diante de um... OVNI. O mesmo que passou por mim instantes atrás.
Não sei o que pensar ou como agir. A tensão, a surpresa e a confusão dominam cada terminação nervosa do meu corpo, me impedindo de tomar qualquer atitude ou mesmo processar o que está acontecendo a minha volta.
O que está acontecendo a minha volta? Isso é real? Ou eu estou apenas tendo um pesadelo muito estranho?
Sem conseguir responder tais perguntas, tudo o que faço é olhar para a frente, para o centro do círculo.
E é então que eu presencio algo, cientificamente, inexplicável. Algo que eu não acreditaria, se não estivesse vendo com os meus próprios olhos. Algo humanamente impossível.
O que vejo é Mia, completamente imóvel e com os olhos fechados, enquanto o seu corpo flua no ar, levitando pouco a pouco em direção ao objeto não identificado. A camisola infantil balançando à medida que o vento proveniente dele a atinge.
Toby late na direção das luzes esbranquiçadas em volta da menina e corre de um lado para o outro no círculo, como se quisesse por um fim naquilo.
Não sei o que está acontecendo. Ou talvez, eu até saiba, mas não consigo admitir.
Então, tudo o que faço é me obrigar a agir, afinal, alguma coisa está tentando levar Mia, e mesmo que eu não entenda o quê, como é possível e por que, me levanto rapidamente e corro até ela.
Sem pensar duas vezes, me impulsiono para a frente, agarro o seu corpo franzino, quando ela já está a uns dois metros do chão, e a puxo para baixo, para perto de mim.
Sinto uma espécie de choque ao tocá-la. E então as luzes se apagam. Todas as luzes. Inclusive aquela simbólica que me mantinha consciente.
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