I Want To Believe
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Eu não tenho a menor ideia de como ou por que Mia e Scully foram parar no meio da plantação em plena madrugada, mas o fato é que eu, Chris e sua esposa acordamos com os latidos insistentes de Toby e fomos checar a sua origem. Então, com a ajuda dos funcionários da fazenda, que também acordaram com os latidos do animal, nós conseguimos localizar as duas, desacordadas no centro do mais novo círculo formado no milharal.
Tenho plena certeza de que o desenho não estava lá no dia anterior, quando eu e minha parceira examinamos cada trecho daquela verdadeira obra de arte alienígena várias vezes. Isso significa que o círculo é recente, feito nesta madrugada, talvez há menos de uma hora. E isso significa que talvez eu tenha sim uma breve ideia de como Mia e Scully foram parar lá. Com certeza, elas foram atraídas para o local por algo e por algum motivo. Talvez Toby tenha chegado lá primeiro e as duas seguiram os seus latidos, assim como nós.
Seja como for, tudo isso perde a importância para mim, já que a preocupação com Scully me domina e fala mais alto neste momento.
Ao vê-la desacordada no milharal e agora diante de mim no sofá, me arrependo profundamente de tê-la envolvido neste caso. Foi um erro, afinal. Não sei o que houve com ela no meio da plantação, mas o seu estado inerte só intensifica a sensação de que ela não deveria estar aqui. Me sinto culpado porque eu insisti, praticamente exigi, que Scully viesse me ajudar nas investigações de algo que só era importante para mim e para as minhas crenças. Se alguma coisa aconteceu ou acontecer com ela por causa disso, eu não vou me perdoar nunca.
Também estou muito preocupado com Mia que, neste momento, está no outro sofá, perpendicular ao que Scully se encontra deitada. A menina, assim como a minha parceira de FBI, encontra-se completamente inerte e inconsciente. Todas as tentativas de acordá-las foram inúteis.
Mary, por sua vez, está inconsolável, enquanto acaricia os cabelos da filha e a chama constantemente em meio aos soluços.
Depois de dispensar os funcionários, completamente assustados e confusos diante desta situação toda, Chris se juntou a esposa e, neste momento, tenta acalmá-la enquanto a abraça e observa a filha com uma expressão culpada.
Não acredito que o meu amigo tenha qualquer culpa no que aconteceu com a menina, mas sei que ele deve estar se martirizando mesmo assim. Talvez esteja pensando que se não tivesse enchido a cabeça de Mia com as histórias de OVNIs, ela não teria se levantado durante a madrugada e ido parar no meio do milharal.
Queria poder lhe dizer algo neste momento. Lhe dizer que mesmo que ele tivesse protegido a filha do seu trabalho de ufólogo, isso teria acontecido, afinal, não existe um padrão para que essas coisas aconteçam. Samantha foi levada da nossa casa, diante dos meus olhos e eu não pude fazer nada para impedir. O mesmo aconteceu com a irmã de Chris, Alice, poucos meses depois, e ele também não pôde fazer nada. Nós nunca podemos fazer nada porque a questão alienígena foge do nosso controle, essa é a verdade.
E quando as pessoas tentam expor o que lhes aconteceu e pedir ajuda, são taxadas de malucas e desacreditas por autoridades cujo único interesse parece ser acobertar esses incidentes. De alguma forma e por algum motivo, as autoridades são coniventes. E pela minha experiência até aqui, o governo também. Eles sabem de alguma coisa, mas não querem que a população saiba.
Estou refletindo sobre tudo isso, enquanto troco um olhar preocupado com Chris. Já não tenho mais tanta certeza se ele vai continuar empenhado em provar a existência de seres alienígenas. Não depois do ocorrido nesta madrugada. Não depois do que aconteceu com a sua própria filha.
Por outro lado, conheço Christopher Barden o suficiente para afirmar que, neste momento, ele está pensando o mesmo que eu. Que nós devemos isso a Samantha e a Alice. Nós temos que continuar buscando a verdade por elas e por pessoas como elas. Por Mia e por Scully também, já que, apesar de continuarem aqui conosco, com certeza, elas vivenciaram algo atípico naquele milharal.
De repente, minha parceira suspira profundamente e se mexe um pouco no sofá, me despertando de tais pensamentos. Então, me volto em sua direção no mesmo instante, afasto algumas mechas de cabelo ruivo do seu rosto estranhamente pálido e a chamo num tom baixo de voz:
— Scully?
Suas pálpebras se movem sutilmente e ela respira fundo, antes de abrir os olhos aos poucos e, na sequência, por completo, percorrendo o ambiente em volta com o olhar, mas sem se concentrar em nada em específico.
De soslaio, vejo que Mary e Chris estão olhando em nossa direção, tão aliviados e curiosos quanto eu. Principalmente quando Scully arregala os olhos e se senta no sofá com um movimento rápido e um tanto brusco, visivelmente assustada, enquanto indaga ofegante:
— Mia?! Cadê a Mia?!
— Calma, Scully — tento tranquiliza-la, colocando as mãos em seus ombros e levando-a a me fitar nos olhos. — Ela está bem aqui. — Indico o sofá onde a filha do meu amigo e Mary se encontra.
Minha parceira olha imediatamente para lá, mas não parece mais aliviada por conta disso. Muito pelo contrário, Scully ainda parece bem assustada. Em todos esses anos de Arquivo X, eu não me lembro de tê-la visto como agora. Dana Scully parece bem impressionada e seu olhar perdido oscila entre mim e Mia no outro sofá.
— O que aconteceu no milharal? — Chris indaga, fazendo a pergunta que estava prestes a sair de minha garganta.
Scully hesita, olha para mim por um breve instante e em seguida murmura visivelmente confusa e atordoada:
— Eu não sei se sou capaz de explicar.
Insatisfeito com a resposta evasiva e, com certeza, muito preocupado e querendo entender o que houve com a filha, meu amigo insiste, alterando-se um pouco:
— Como assim você não sabe explicar?! O que houve lá?! O que aconteceu com Mia?!
Dana abre a boca, mas as palavras não saem de sua garganta. É como se ela estivesse em um grande conflito interno e simplesmente não soubesse o que dizer. Como se o que tivesse visto no milharal contrariasse tudo o que ela acredita, tudo aquilo em que ela ainda parece se agarrar desesperadamente — a sua ciência, a sua racionalidade.
Tentando tranquilizá-la e incentivá-la ao mesmo tempo, apoio a mão em seu ombro, estreito meu olhar no seu e articulo com calma:
— Está tudo bem, Scully. Você pode me dizer qualquer coisa. O que você viu lá fora?
Novamente, minha parceira abre a boca e seus lábios se mexem por um instante, antes de se fecharem mais uma vez. Em seguida, ela olha para Chris e Mary por um breve momento, volta a me fitar nos olhos e finalmente responde, com uma dificuldade palpável:
— Eu vi... Eu vi algo que não faz o menor sentido, Mulder, algo que eu nunca pensei que veria, algo que eu sequer acreditava que existia. Até hoje. — E após um instante de hesitação, ela conclui: — Eu acho que... Eu vi... A verdade.
Sei que dadas as circunstâncias, eu não deveria ficar feliz com as palavras de Scully, mas é mais forte do que eu. Ela viu algum tipo de atividade alienígena e está admitindo isso em voz alta, então eu tenho muito o que comemorar sim. Finalmente, depois de tantos atritos entre nós, depois das minhas inúmeras tentativas de fazê-la abrir os olhos e enxergar o que estava bem diante de nós, Scully viu por conta própria. E agora ela não pode negar a existência de extraterrestres, pois ela viu. Ninguém lhe disse, ninguém manipulou fotos e vídeos, ela viu. Com os seus próprios olhos. Ao vivo e a cores.
Então, essa onda de satisfação dentro de mim se mistura com a minha natural curiosidade, e eu me ouço perguntando:
— Você pode ser mais específica, por favor?
Diante do meu pedido, Scully olha de mim para Chris e sua esposa novamente, depois respira fundo, abaixa o olhar e conta meio sem graça e impressionada ao mesmo tempo:
— Isso é ridículo, mas eu acho que... Acho não, eu vi algo muito parecido com uma... Espaçonave. Eu gostaria muito que fosse apenas... Eu não sei, algum tipo de drone militar talvez, mas eu tenho certeza que não era isso. Porque não há nada na Terra semelhante ao que eu vi. E tem mais...
De repente, Scully para de falar, engole em seco e olha de relance para Mia no sofá.
Chris e Mary estão apreensivos, visivelmente interessados no que minha parceira tem a dizer, assim como eu. Mas, por algum motivo, Scully continua em silêncio, provavelmente procurando as melhores palavras para continuar o relato.
Ainda mais curioso, eu seguro a sua mão direita com certa força e a incentivo:
— O que mais você viu?
Minha parceira olha para nossas mãos juntas por um instante, mas não faz nenhuma objeção ao gesto. Muito pelo contrário, Scully permite que seus dedos se entrelacem aos meus, respira fundo mais uma vez, relaxa um pouco, me fita nos olhos e responde pausadamente:
— Alguma coisa tentou levar a Mia. E naquela hora, Mulder, eu só conseguia pensar na sua irmã. Você me disse que quando ela foi levada, havia uma forte luz branca, certo? — Assinto rapidamente com um meneio de cabeça e Dana revela: — Havia uma luz como essa em torno da Mia. E ela estava flutuando bem diante dos meus olhos, bem no centro do círculo na plantação. Flutuando pouco a pouco na direção da... Espaçonave.
— Meu Deus... — Chris murmura com um pânico palpável, enquanto Mary volta a chorar e a acariciar o rosto e os cabelos da filha, lhe dando um beijo emocionado na testa em seguida. — Nós quase a perdemos. Assim como eu perdi Alice — ele completa, se aproximando mais da esposa e da menina.
Desvio o meu olhar de tal cena e me volto na direção de Scully, que retoma o relato:
— Por um momento, eu não soube o que fazer, Mulder. Eu fiquei tão assustada... Mas então eu consegui me aproximar e segurá-la no ar, antes que Mia fosse... Levada por o que quer que havia dentro daquela espaçonave. E então tudo ficou escuro e nós duas desmaiamos, eu acho. — Depois de hesitar um pouco, como se quisesse me dizer algo, mas não soubesse como, Scully recomeça meio sem jeito: — Olha... Eu só quero que você saiba que... Sobre a sua irmã, eu... Eu acredito que você pode estar certo, Mulder. Eu sinto muito por ter duvidado de você por tanto tempo, mas eu não conseguia conceber a sua versão dos fatos. Soava fantasioso para mim, mas agora... Depois do que eu vi, agora não soa mais.
Um alívio profundo toma conta de mim e me faz lançar um discreto sorriso para Scully. Sei que eu não podia exigir que ela acreditasse na abdução de Samantha, mas confesso que sempre me senti triste em relação a sua descrença. Principalmente porque eu sabia que era verdade, eu sabia o que tinha visto naquela noite em que minha irmã foi arrancada de nossa casa por forças misteriosas e exteriores. Eu sabia, eu tinha certeza, mas não tinha como provar. Ainda não tenho, mas, pelo menos agora, depois do que vivenciou, Scully acredita em mim. E isso por si só já me deixa profundamente satisfeito. É como se um peso tivesse saído das minhas costas, é como se eu não estivesse mais sozinho nesta busca pela verdade. Agora, finalmente, a cética Dana Scully está cem por cento ao meu lado. Ela acredita em mim. Ela acredita no que eu acredito.
— Talvez o que aconteceu com Samantha não tenha sido um sequestro, afinal — ela articula, me despertando de tais pensamentos. — Talvez tenha sido o que quase aconteceu com Mia esta madrugada. Eu não sei por que, na verdade, eu ainda estou digerindo o que vi naquele milharal, mas talvez a sua irmã e também a irmã do Sr. Barden tenham sido levadas por um motivo. O mesmo motivo para Mia ter sido...
— Escolhida? — arrisco ao perceber que Scully procura as palavras certas para explicar o que quase aconteceu com Mia. — Quase abduzida, se você não tivesse impedido? — sugiro na sequência.
Scully não responde nada, mas, pela sua expressão percebo que ela concorda comigo, que ela acredita em mim e no que viu. Minha parceira e amiga sabe que presenciou uma tentativa de abdução. E assim como eu, agora também acredita que todas as abduções ocorridas ao longo dos anos tem alguma relação, alguma motivação em comum, alguma razão para terem acontecido e para terem sido acobertadas pelas autoridades imediatamente.
Há uma razão para os círculos nas plantações desta fazenda também. E para tantos outros ao redor do mundo. Tudo está interligado e a explicação para tudo isso está em algum lugar, em algum detalhe dessas ocorrências.
Como se tivesse lido os meus pensamentos, Scully respira fundo, solta o ar com força e questiona:
— O que está acontecendo, Mulder? O que essas... Coisas querem de nós?
Tudo bem, eu adoraria que minha parceira dissesse a palavra certa — extraterrestres —, mas acho que vai levar algum tempo até ela assimilar que a raça humana realmente não está sozinha no universo. É tudo muito novo para ela.
Seja como for, já estou feliz pelo fato de Scully ter dito espaçonave, momentos antes, e por finalmente acreditar nas minhas histórias malucas sobre visitantes de outros planetas.
E eu queria muito saber responder as suas perguntas, mas apenas me pego me questionando a mesma coisa. A mesma coisa que sempre me intrigou, aliás.
Por que determinadas pessoas são abduzidas? Por que o missing time ocorre? O que os círculos e desenhos ao redor do mundo significam? O que esses seres inteligentes estão tentando nos dizer? O que está acontecendo? O que eles querem?
De repente, paro de pensar em tudo isso, já que sou tomado por um sobressalto. Assim como Scully, Chris e Mary. Isso porque, Mia finalmente desperta. Mas é a forma como ela faz isso que nos assusta.
Mia se senta no sofá rapidamente, abre os olhos, mas suas órbitas estão completamente brancas, vidradas em lugar algum. Seu rosto está pálido e sua voz soa meio mecânica, quando ela finalmente se pronuncia:
— Colonização. Invasão. Eles estão vindo. Colonização. Invasão. Eles estão vindo.
— Mia? — Mary chama a filha, tentando despertá-la desta espécie de transe.
No entanto, a garotinha apenas continua repetindo aquelas frases intrigantes, deixando todos nós apreensivos e sem saber o que pensar direito:
— Colonização. Invasão. Eles estão vindo. Colonização. Invasão. Eles estão vindo.
Seu corpo balança para a frente e para trás, enquanto Chris e Mary entram cada vez mais em pânico diante do que estão vendo e ouvindo. Um pânico que os deixa paralisados e atônitos.
E então, de repente, Mia solta um sonoro e perturbador grito de agonia, fecha os olhos e cai nos braços da mãe aos prantos.
Quando ela abre os olhos novamente, eles estão completamente normais. Mas, independente disso, está bem claro para todos nós que o que aconteceu com Mia a marcou de um jeito que, dificilmente, ela será capaz de esquecer.
Falando por mim mesmo, eu nunca esquecerei o seu olhar esbranquiçado e vazio de alguns instantes atrás. Muito menos as palavras que saíram de sua boca e que ainda ecoam em meus ouvidos e mente. Palavras estas que, subitamente, começam a ganhar sentido. Um sentido sombrio e preocupante, mas ainda assim, um sentido.
Eles estão vindo.
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