I Want To Be Your Girlfriend
10 Tell me what I wanna hear
Notas iniciais
–Como assim não vai ter despedida de solteiro? – berrou Havoc, assim que o coronel Mustang fez o anúncio de que uma das comemorações mais esperadas do ano estava cancelada – Não, cara, você não pode fazer isso com a gente! E a striper do bolo?
–Olha, eu tenho muita coisa pra pensar, tá bem? A essa altura, a última coisa da qual eu preciso é de uma festa desse tipo – retrucou Roy, mal-humorado – Não sei nem se vai ter casamento ainda...
–Do que é que você tá falando? – perguntou Maes, numa genial inocência fingida.
–É que eu não sei mais o que eu sinto pela Trista – respondeu o coronel, quase envergonhado, o que fez com que Maes escondesse um sorriso de triunfo – Aconteceram umas coisas que me estão me tirando o sono – ele ficou um tempo em silêncio, e depois, inseguro, perguntou – Diga-me, se você estivesse comprometido com alguém, mas descobrisse que na verdade está apaixonado por outra pessoa que também está apaixonada por você, o que você faria?
–Pode me contar, quem é a dama? – o outro deu uma risada.
–Não é ninguém, é só uma pergunta hipotética! – agora, Roy se aborreceu.
–Sinceramente, acho que eu seguiria meu coração – respondeu Maes sabiamente. Apesar de ainda ter o plano em mente, ele era um dos poucos caras que acreditavam plenamente no amor dos contos de fada, aquele que surge à primeira vista e que toma conta de você completamente – Nunca saberia me perdoar por ser infeliz e fazer duas pessoas infelizes. Eu nunca poderia fazer feliz a pessoa com quem estou, e a pessoa que eu deixei me odiaria para sempre. Sinceramente, eu jogaria tudo para o alto e seguiria o meu coração, e se quer saber a minha opinião, você deveria fazer o mesmo.
–Tem certeza? – Roy não sabia se ficava feliz com o conselho do amigo ou se ficava ainda mais apreensivo – Sei lá, estou com medo...
–Confie em mim – o outro sorriu – Vai dar tudo certo, você vai ver. Mas, como seu melhor amigo, acho que tenho pelo menos o direito de saber quem é a felizarda.
–Jura que não conta pra ninguém? – o primeiro o obrigou a jurar, e respondeu apenas movendo os lábios – É a Riza...
–A Riza? – Hughes disse em voz alta, atraindo para si a atenção de todos os que estavam em volta. Roy corou furiosamente, e movendo os lábios disse “eu vou matar você” – Caramba, eu nunca teria imaginado! Vocês convivem há tanto tempo... Mas quer saber de uma coisa? Vá em frente! Ela é uma pessoa extraordinária, e você merece alguém como ela.
Um pouco depois, a ala feminina do Quartel-General Central entrou na sala de Roy (nota da autora: vocês perceberam que a sala dele é mais movimentada que estação de ônibus, não é?). A primeira foi Sciezka, seguida por Melissa e, logo atrás das duas, Riza. Fuery teve que chutar a canela de Havoc e de Falman para que os dois engolissem as risadinhas que poderiam entregar o plano deles. Ela corou furiosamente assim que o olhar dela cruzou com o do coronel.
–Olá, meninas. Melissa, feche essa blusa – ele, tentando dar aparência de normalidade ao momento, cumprimentou as três (e aproveitou para censurar Melissa pelo decote, como fazia com freqüência) com cortesia – Sciezka, o relatório que eu te pedi está...
–... bem aqui senhor – ela estendeu uma pasta – Também tomei a liberdade de anexar uma tabela com dados mais recentes.
–Oh, obrigado – ele pegou a pasta, sorrindo – E... olá, tenente Hawkeye...
–Coronel Mustang, será que podemos falar em particular? – ela gaguejou, e algumas vezes precisou que Melissa lhe desse uma cotovelada nas costelas para que ela terminasse de falar. Prontamente, o coronel concordou, e os dois foram até a sala dela.
Assim que deram as costas, Ed, seguido por Al, entrou na sala e fechou a porta atrás de si. Apesar de ainda exibir uma enorme mancha roxa sob o olho (que ele jurava de pés juntos que era fruto de uma queda no chuveiro), o galo de três centímetros que exibia na cabeça desde a noite do cinema já havia diminuído bastante. Assim que a porta fechou, ele abriu um sorriso enorme e fez um sinal de positivo para os outros.
–É isso aí, galera, deu certo! – ele disse, sem caber em si – Depois de um mês, a gente conseguiu botar juízo na cabeça oca do Roy!
–E bota oca nisso – concordou Melissa, para a surpresa dos demais – Agora sim parece que as coisas estão entrando nos eixos. Finalmente!
–Gente, gente, vocês precisam ver isso! – Al chamou todos em volta da janela – Não olhem agora, mas parece que o tempo acaba de fechar!
–Fechar? Fechar? Droga, cara, isso é uma tempestade de granizo! – exclamou Maes, olhando na mesma direção de Al – A bruxa está aqui, e aparentemente trouxe a liga do mal toda junto com ela!
Todos correram até a janela (sendo que Ed se viu obrigado a subir nas costas de Havoc para conseguir enxergar qualquer coisa), e viram que, de um carro, descia a sra. Odete Mustang, a srta. Trista McLamure e, atrás das duas e parecendo extremamente relutante, o sr. Adrian Mustang. Atrás dele, estava Percy, andando empertigado.
–Mas que droga! Era tudo o que a gente precisava – bufou Sciezka, com as mãos no rosto – Alguém tem que ir avisar a Riza. E o Percy, aquele desgraçado, está com elas!
–Acho que ele traiu a gente... – disse Falman, afundando numa cadeira – E se ele tiver feito isso, ah, cara, eu vou acabar com a raça dele!
–Não só você – grunhiu Mellie, batendo a mão na mesa – Eu vou lá dar um jeito nisso.
–É melhor todos nós irmos – sugeriu Ed, se levantando – Todo mundo. Agora mesmo.
E, rezando para que chegassem a tempo, todo o grupo de conspiradores saiu correndo em direção à sala de Riza. Havia muita coisa a se perder naquele momento. Muita coisa mesmo.
Um pouco antes, na sala de Riza...
–Você queria falar comigo, Riza? – disse Roy, levemente corado, assim que ela fechou às suas costas a porta de sua sala – Então, pensou no que eu disse?
Riza estava se sentindo outra vez uma adolescente. Finalmente, colhia os frutos de todo o seu esforço e dedicação, e estava sentindo um agradável friozinho na barriga. Finalmente, as coisas começavam a se encaixar. Finalmente, ela poderia respirar aliviada e dizer “eu consegui”. Finalmente, ela podia manifestar livremente seus sentimentos, ao lado de alguém que sentia o mesmo por ela e que era capaz de fazer de cada dia uma experiência única e maravilhosa.
–Pensei – respondeu ela, corada, jogando o cabelo para cobrir o rosto – E sabe de uma coisa? Eu aceito. Nós dois merecemos ser felizes juntos. Eu te amo, e faço questão de dizer isso sempre.
–Deixe eu ver o seu rosto – ele pediu, num tom meigo – Tire o cabelo da frente do rosto, por favor.
–Tá bem – tímida, ela puxou o cabelo para trás, revelando um rosto violentamente corado – E você, o que vai fazer quanto à Trista?
–Hoje mesmo vou dizer a ela tudo sobre nós – respondeu ele, com um sorriso – E, se ela não aceitar, que se dane! Agora, temos uma coisinha pra resolver...
Ele se aproximou dela, lentamente, um brilho de malícia no olhar. Agora estava tudo bem, pensou Riza, imitando-o e também chegando mais perto. Nada mais poderia dar errado. Ela já conseguia até sentir o calor que emanava do rosto dele, e estava prestes a beijá-lo quando...
–Rodney, temos um assunto de suma importância a tratar! – de repente, a porta se abriu com violência, revelando os quatro personagens citados anteriormente. A matriarca Mustang, assim que viu Riza, estreitou os olhos, raivosa – O que é que você está fazendo aqui, Hawkeye?
–Eu é que te pergunto, raios que o partam! – rebateu Riza, que não estava nem um pouco de encarar as fuças gordas de sua futura sogra, ainda mais num momento como aquele.
–Riza, a gente tem que... – naquele momento, Ed apareceu na porta, vermelho, mas assim que viu a reunião da família Mustang na sua frente, recuou, dizendo – Danou-se...
–Posso saber o que está acontecendo aqui? – então, Roy se manifestou, levantando-se – Primeiro, todo mundo invade a sala, sabendo que se trata de uma conversa particular, e agora ficam com essa história de avisar não sei quem... Quero uma explicação, e quero agora mesmo!
–Acredite em mim, você não vai querer saber da explicação... – sussurrou Ed, desesperado.
–Como eu dizia, temos um assunto de suma importância a tratar aqui – a expressão de triunfo de Odete era insuportável, e Riza teve que usar seu autocontrole para não descer o braço nela – É sobre o seu casamento com Trista.
–Mãe, tenho um anúncio a fazer! – Roy começou a dizer, todo orgulhoso e pimpão, mas Odete o cortou, botando um gravador sobre a mesa.
–Depois, Rodney, antes tenho que te mostrar uma coisa – ela deu o “play” no gravador.
O som que saiu dos alto-falantes deixou todos gelados de pavor. As vozes eram todas dos conspiradores, planejando, confabulando, combinando o próximo passo. O silêncio caiu, enquanto Percy avançava um pouco a fita, dizendo que a melhor parte ainda estava por vir. E ela realmente veio, levando embora o resto da cor do rosto não só de Riza mais de todos os que estavam na porta:
–“Quatro fases do plano estão concluídas, mas a quinta é decisiva” – a primeira-tenente gelou ao ouvir a própria voz no gravador, levemente metálica – “É por isso que preciso que vocês continuem falando mal dela. Lancem a desconfiança. Digam que viram ela passeando com um cara desconhecido, sei lá, usem a criatividade. Com um pouquinho de sorte, ela vai rodar antes do casamento.”
–Sua bruxa nojenta e baixa! – berrou Melissa, vermelha – Como você se atreve a nos espionar?
–E isso ainda não é tudo, Rodney – continuou Odete, sem dar atenção à Mellie, enquanto pegava o gravador e avançava um pouco.
–“É que, de uns tempos para cá, estou dando de cara com a porta da Trista mais vezes do que eu gostaria, e isso me deixa louca. Quero me livrar dela logo. Agora, é melhor vocês irem embora, ou alguém vai perceber.” – dessa vez, foi a voz da caçula dos Mustang que soou nos alto-falantes do gravador. Depois disso, Percy desligou o aparelho.
O silêncio que se seguiu foi tenso e muito carregado. Todos estavam aparvalhados, não só com a traição de Percival, mas com a atitude da sra. Mustang, que parecia satisfeitíssima com o que havia acabado de fazer. Mas quem parecia mais fora do ar era Roy que, pálido e com os olhos arregalados, não conseguia dizer nada. Então, quando ele voltou a articular as palavras, rugiu:
–Expliquem-se.
–A idéia foi minha, Royie – Melissa deu um passo à frente – Vimos o quanto a Riza ficou transtornada com essa história de casamento e percebemos que tinha algo no ar. Então, resolvemos ajudar a juntar vocês dois.
–É, eu também ajudei a planejar tudo isso – Maes ficou ao lado de Mellie – Enquanto elas ajudavam a Riza, eu ia fazendo a sua cabeça.
–E nós ajudamos o Maes – quem entrou na dança foi Fuery, seguido de Falman e Havoc – A gente achava que vocês dois formavam um casal perfeito, e não dava pra deixar passar.
–É, e eu também ajudei! – para o espanto de todos, Ed também tomou a dianteira – Eu era o garoto de recados deles, e ajudava a dar algumas idéias.
–Eu também – Al ficou do lado do irmão – Riza não tem nada a ver com isso, a culpa foi nossa, toda nossa, então o senhor não pode fazer nada a ela.
–Parem vocês todos! – Riza cortou-o, ficando na frente de todos. Os olhos dela estavam levemente vermelhos, como se estivessem prestes a chorar – Fico grata pela atitude de vocês, mas esse é um assunto que eu tenho que resolver sozinha – ela levantou os olhos e encarou Roy diretamente – É, é isso mesmo. Estávamos planejando, sim, mas a idéia foi minha. O plano das cinco fases foi idéia minha, e nenhum deles deve ser responsabilizado. Nenhum. – ela botou ênfase na última palavra quando Mellie fez menção de falar qualquer coisa – Eu me responsabilizo por tudo o que aconteceu.
Os conspiradores observaram a líder daquela confusão toda com um misto de respeito e pena. Era óbvio que ela dizia tudo aquilo com o coração partido. Eles tentaram defendê-la, fazer com que Roy pensasse que ela havia sido manipulada tanto quanto ele, mas a primeira-tenente não aceitou. E eles sabiam que haveria conseqüências, provavelmente para todos.
–É melhor você começar a explicar toda essa história, tenente Hawkeye – o coronel enfim se manifestou, com a voz rouca de raiva e decepção – Agora mesmo.
Então, ela começou a descrever todo o plano, e sempre que podia escondia a participação dos amigos naquela história. Eles, porém, não deixavam. Ed contou sobre o dia da invasão ao quarto de hotel, Sciezka contou sobre a investigação que fez sobre a vida de Trista, enfim, ao final a postura de todos os conspiradores ficou bem clara para o coronel Mustang. Riza terminou dizendo:
–...mas quero que saiba que fiz tudo isso porque estava desesperada. Vi a única pessoa que amei em toda a minha vida indo para os braços de outra e não pude ficar parada. O que eu disse para você sobre os meus sentimentos é verdade, e se quer saber, nunca menti para você.
–Não mentiu? – ele deu uma risada de escárnio que encheu Riza de ódio – Não mentiu? Caramba, você me manipulou! Vocês estavam me usando, tentando me convencer de uma coisa que nunca poderia acontecer! Se quer saber, Riza, essa é a atitude mais baixa que eu já vi alguém tomar! – e, para os outros, ainda acrescentou – Isso é traição, isso sim!
–Traição seria deixar você se casar com essa vaca ruiva! – Melissa interveio, furiosa – Você não a ama, ela não ama você, e eu não sei por que diabos vocês estão se casando. Será que você a engravidou e não contou para ninguém? A propósito, Trista, você tá meio gordinha...
–Não diga bobagens, Melissa! – retrucou Roy, entre os dentes – Mamãe estava certa sobre vocês todos. Você, Hawkeye, é uma oportunista, e você, Melissa, é uma manipuladora! E todos vocês são cúmplices! – ele subiu o tom de voz – Todos sofrerão punições!
–Como é que você pode ser tão idiota? – Ed interveio, raivoso – Eu não admito que você diga esses disparates da tenente Hawkeye! Ela foi sincera o tempo todo! A única pessoa que mentiu aqui até agora foi você! Você disse que a amava, e agora trata ela assim? Qual é o seu problema, hein?
–Ed, controle-se – Maes também entrou na conversa, primeiro para acalmar o alquimista de aço (que visivelmente estava contando até mil para não voar no pescoço do coronel) e depois para advogar a favor de Riza – O Ed tá certo. Todos nós fizemos isso porque nos preocupamos com vocês dois. Eu sou seu amigo desde não sei quando, Roy, acha mesmo que eu o trairia? E sei que você é incapaz de dizer “eu te amo” a uma mulher que não ame de verdade.
–Isso... isso não vem ao caso! – agora, era visível que Roy começava a perder um pouco o controle da discussão – Eu vou me casar com a Trista, ouviram? Com a Trista! E nenhum de vocês vai impedir!
O silêncio caiu novamente. Riza controlava-se ao máximo para não chorar. Estava decidida a não dar mais esse gostinho para a sapa gorda, mas era quase impossível. A pessoa que ela amava havia acabado de chamá-la de oportunista, mentirosa e traidora, as únicas três coisas do mundo que Riza podia dizer com toda a certeza que não era, nunca fora e nunca seria. Ed e Maes a defenderam, e Mellie estava pronta a sair no tapa por ela, mas nada mudaria o fato de Roy ter formado uma opinião sobre ela. Com a voz engrolada, ela disse:
–Então é isso, coronel Mustang? Você realmente não sente nada por mim?
–E deveria? – retrucou ele, com acidez na voz. Agora, foi preciso até que Falman e Fuery segurassem Maes e Ed.
–Você disse que me amava, lembra? – ela deu um sorriso de profunda dor – E, agora, parece que você está dizendo que isso é mentira. Então, a mentirosa aqui não sou eu, é você.
–Mentiroso? Eu? Quem é você para me chamar de mentiroso? – ele quase berrou.
–Alguém que já viu seu lado mais doce, um dia – respondeu ela – E que, agora, está convencida de que tudo aquilo foi encenação. Nunca menti para você, Roy Mustang, nem eu, nem eles, lembre-se disso. E a sua noiva nunca será tão boa quanto eu poderia ser, mas parece que você prefere jogar fora um sentimento verdadeiro em troca de uma bonequinha de porcelana, não é?
–Como se atreve a... – ele começou a rebater, cada vez mais vermelho, mas ela cortou, dizendo:
–Vai encontrar um pedido de transferência sobre a sua mesa ainda hoje, coronel Mustang, e espero que o senhor assine – e, depois de uma pausa, ainda acrescentou – Por favor, precisam que saiam da minha sala porque tenho algumas gavetas para limpar.
Ela deu as costas, escondendo o rosto. Odete deu um sorriso nojento de triunfo completo, um sorriso imitado por Trista. Adrian, por sua vez, observava os conspiradores com pena no olhar. Ele era um bom sujeito, todos pensaram, era uma pena que havia escolhido uma megera tão megera assim para se casar. Depois que a poeira baixou, Roy começou a proferir as sentenças ao grupo:
–Melissa, vou providenciar a sua transferência de volta para a Cidade do Oeste logo depois do casamento – ela tentou retrucar, mas ele não deu brecha – Ed, você está proibido de fazer suas viagens até segunda ordem. Fuery, suas férias seriam mês que vem, não é? Pois bem, elas serão adiadas para o ano que vem. Havoc e Falman, os dois passarão a fazer parte da carceragem do quartel. Hughes, pode parar de se considerar meu padrinho de casamento a partir de agora. E, Sciezka, nem pense em chegar perto da biblioteca até segunda ordem minha.
–Qual é a sua, hein? – sem poder agüentar mais, Mellie explodiu – Quer dizer que todos nós vamos pagar pela sua burrice?
–Nem tente argumentar, major Mustang! – ele se levantou, e apontou o dedo diretamente para o rosto dela – Fique feliz por eu não pedir uma suspensão para todos vocês!
Mas, naquela hora, a major Mustang não estava nem aí para mais nada. Sem pensar duas vezes, ela se jogou sobre Trista, as mãos ameaçadoramente no pescoço da futura cunhada. As duas começaram a rolar pelo carpete da sala de Riza, Mellie espancando, Trista defendendo e revidando o tempo todos. Instantes depois, a briga se tornou generalizada, com Ed tentando acertar Roy, Fuery e Havoc dando um corretivo em Percy e Riza avançando para cima de Odete. Esta, assustada pela atitude quase assassina da primeira-tenente, tentou recuar, mas acabou encontrando o corpanzil de Al no meio do caminho. Riza deu um sorriso perverso ao ver a oponente indefesa, e...
POF!!!!!!!!!!!!!!! Um gancho de direita do tipo que seria capaz de ganhar um cinturão de boxe, e Odete cambaleou para trás até cair, totalmente zureta (Nota da autora: Essa parte foi colocada atendendo à pedidos de certas pessoas que lêem a fic e estavam doidas pra ver a Odete levando umas porradas pra aprender a ser gente. Tá certo, eu é que queria fazer isso pessoalmente, mas fico feliz que a Riza, enfim, tenha uma vingança digna e a Odete, uns dentes a menos). A matriarca dos Mustang se levantou, com cara de quem não acreditava no que estava acontecendo.
Enquanto isso, Melissa tentava estrangular Trista. A ruiva até tentou acertar alguns golpes na outra, mas tudo o que conseguiu foi arranhar o rosto da alquimista com as unhas. Mellie, por sua vez, estava descarregando toda a raiva reprimida em cima da noiva do irmão, e depois de alguns socos bem dados agora estava tentando quebrar o pescocinho branco e fino da cunhada. Roy não estava tendo melhor sorte, porque Maes resolveu se juntar a Ed e os três estavam engalfinhados numa luta feroz. Quanto a Fuery e Havoc, sem problemas: Percy saiu correndo antes de o barraco começar pra valer, e os dois nem precisaram fazer nada. Por fim, Adrian (que estava fazendo de tudo para ficar longe daquela bagunça toda) berrou:
–CHEEEEGAAA! – de repente, todos pararam, e o encararam assustados – A raiva de vocês até se justifica, mas ficar batendo uns nos outros não resolve nada.
–Eu não quero simplesmente bater nela, eu quero matar ela! – grunhiu Melissa, entredentes, relutando muito em soltar o pescoço de Trista.
–Mellie, você se lembra do que a gente tinha combinado antes de entrar na escola? – Adrian insistiu, solícito – Você pode até ficar com raiva dos coleguinhas, mas tentar estrangulá-los não é a resposta – quando o sr. Mustang falou isso, ela soltou o pescoço da cunhada, não sem antes bater com a cabeça da ruiva no chão uma última vez. Roy também foi deixado de lado, e Odete se escondeu atrás do filho. Ele disse, num tom de sentença:
–Todos vocês foram avisados. Agora se mandem!
–Essa sala é da Riza, seu estúpido! – disse Ed, que estava se coçando de vontade de voltar para a briga e dar mais uns sopapos no coronel. Al o segurou bem na hora, e o carregou para fora da sala. Os outros o seguiram, relutantes, e a última a sair, Mellie, fechou a porta atrás de si. Riza saiu antes de todos, e sumiu nos corredores.
Eles não se falaram, mas foram juntos até a parte externa do quartel. Fazia sol, mas ninguém nem pensava no belo dia que estava. Estavam todos muito abatidos, e a decepção estava estampada no rosto de todos eles. Eles não falaram por um longo tempo, mas em determinado momento, sem conseguir ficar quieto, Melissa explodiu:
–Mas que droga! O que foi que a gente fez de errado?
–A gente não fez nada de errado, Melissa – respondeu Fuery, com suavidade – No final das contas, toda a história foi uma sucessão de erros. A gente tentou se meter na vida deles e entramos pelo cano, foi isso que aconteceu. Não devíamos nem ter começado.
–Mas foi legal, não foi? – argumentou Sciezka, com um sorrisinho – Por um momento, cheguei a pensar que a gente iria conseguir. Mas agora... Agora eu não sei mais.
–Sempre seremos os conspiradores, Sciezka – observou Havoc, com doçura – Sempre. Riza não vai esquecer o que fizemos por ela. E eu também não – ele sorriu – Foi demais, sabe? A gente acabou convivendo muito, e nos tornamos amigos. No final das contas, pelo menos alguém saiu ganhando.
–Pois é, não é? – ela corou um pouco. Os outros trocaram olhares maliciosos, mas resolveram não dizer nada. Al não se conformava com o acontecido, e dizia:
–Será que não tem nada mesmo que dê pra gente fazer? Sei lá, pelo menos tentar convencer a Riza a não ir embora. Isso não é justo!
–O mundo não é justo, Al – disse Ed, num tom tristonho – Agora é encarar o castigo... Mas ninguém vai ficar se lamentando pelos cantos, certo? Vamos provar para o Roy que não vai ser nenhum desses castiguinhos estúpidos deles que vai fazer a gente se arrepender do que fizemos.
Então, eles viram Riza sair, enxugando os olhos. Melissa correu até ela, e a segurou pelo braço. A primeira-tenente estava com o rosto vermelho e os olhos inchados, mas ao ver a amiga forçou-se a dar um sorrisinho amarelo. A alquimista engoliu em seco, penalizada com o estado da amiga, e disse:
–Olha, se tiver alguma coisa que a gente possa fazer por você, é só dizer. Todo mundo aqui tá do seu lado, sabia? – e apontou para o grupo, que acenou – Aqueles caras podem ser meio burros às vezes, mas todos nós gostamos muito de você.
–É, eu sei – a loura acenou afirmativamente com a cabeça – Obrigado, tá? Por tudo. E agradeça aos outros por mim. Agora preciso ir para a casa e começar a planejar a viagem.
–Você vai mesmo? – de repente, Melissa sentiu um nó começar a se formar em sua garganta – E para onde?
–Sei lá, talvez a Cidade do Leste, ou outro lugar em que estejam precisando de mim – a outra deu de ombros – Não é tão ruim. Mudanças são boas de vez em quando. E você, o que vai fazer?
–De acordo com o Roy, voltar para a Cidade do Oeste. Mas eu é que não vou embora daqui, e ele que não pense que vai ficar livre de mim – os olhos dela soltaram faíscas, mas ao encarar a loura, sua raiva diminuiu – Como é que você está, hein?
–Como você acha que eu estou, hein? – os olhos de Riza começaram a se encher de água novamente – O idiota do seu irmão estragou tudo, Mellie. E eu, estúpida como fui, achei que poderia ser diferente. Mas as coisas sempre voltam ao seu normal, não é?
Melissa observou Riza, totalmente penalizada. Como Roy podia ser tão imbecil? Ele conseguiu estragar tudo. Naquele mês, as coisas atingiram extremos o tempo todo, mas nunca haviam estado num ponto tão baixo. Ela mesma já havia ficado com o coração todo partido por amor, uma vez, por alguém que havia desaparecido. O que mais a machucava não era a simples ausência daquele a quem amava, e sim a falta de notícias. Havia sacrificado tudo – sua saúde, sua felicidade, quase a sua sanidade mental – para tentar descobrir o que havia acontecido, inutilmente.
E agora, ao ver que o mesmo poderia acontecer a Riza de uma maneira muito mais cruel, seu coração doía muito. Mellie estava se recuperando, de uma forma lenta e dolorosa, mas o que aconteceria à sua amiga? Ela ainda tinha a esperança de, um dia, ver o seu querido John de volta, mas como a outra reagiria, sabendo que provavelmente Roy a odiaria injustamente pelo resto da vida? Sem que desse conta, sentiu seus próprios olhos ficarem úmidos. Não, ela não poderia deixar que isso acontecesse nunca! Ela abraçou Riza, com força, e disse:
–Não deixe que isso te abale, amiga! Nunca! – ela precisava chorar há muito tempo. As duas precisavam. E, sem que houvesse ninguém para censurá-las, deixaram que as lágrimas reprimidas há tanto tempo rolassem livres – Sei que você é forte, que você é uma guerreira, e que vai saber se recompor logo. Não fique igual a mim, Riza, pelo amor de Deus, nunca fique igual a mim.
–O que eu vou fazer, Mellie? – disse a primeira-tenente, num tom abafado – Apostei todas as minhas fichas, e perdi. Não sou como você…
–Não, você é maior que eu! – a alquimista a cortou – E vai saber dar a volta por cima, como sempre fez. E, no que você precisar, vou te ajudar. Sempre, ouviu bem? Sempre!
As duas ficaram lá, desabafando em silêncio todas as mágoas. Era bom ter alguém com quem contar, e elas podiam contar uma com a outra. A amizade de Riza e Melissa havia surgido meio que por acaso, mas depois se tornou um elo muito forte. A princípio, Riza a via como a versão feminina hiper-expansiva e meio doida de Roy, mas com o tempo percebeu que havia muita força e caráter naquela alquimista sempre sorridente e meio desmiolada, alguém de quem sempre se pode esperar uma atitude surpreendente. Depois de algum tempo, elas se separaram. A alquimista encarou a primeira-tenente com profundidade no olhar, e disse:
–Não derrame mais nenhuma lágrima pelo inútil do Roy, porque ele provou que não merece. Sei que você pode ser feliz pelo seu próprio esforço, e que você vai tentar.
–Valeu, Mellie, de coração – a loura concordou – Eu vou tentar, prometo. Se você quiser ir lá em casa hoje, vou gostar de receber a sua visita.
–Mais tarde eu vou – a outra deu um sorrisinho – Até mais. Se cuida, tá?
Riza foi embora, e Mellie, enxugando os olhos na manga do casaco, voltou a se reunir com o grupo. Todos eles, assim que a viram chegar, tentaram perguntar como a pobre primeira-tenente estava, mas a alquimista se recusou a responder. Ela só disse:
–É melhor a gente voltar ao trabalho. Fizemos o que podíamos, agora é só esperar por um milagre.
Enquanto isso, na sala de Roy, o coronel olhava pela janela, pensando em tudo o que havia acontecido. A princípio, estava satisfeito com a atitude que tomou, mas depois, quando parava para pensar, cada vez mais chegava à conclusão de que havia agido errado. Ele viu Havoc e Fuery voltando para o quartel, Maes indo para a seção de arquivo, e Melissa e Sciezka indo embora. Ed e Al ficaram um pouco mais de tempo do lado de fora, mas também voltaram para o quartel. E, um pouco antes, Riza estava indo embora, caminhando a passos vacilantes. Ela realmente fez o que disse que ia fazer, e sobre a mesa do alquimista das chamas havia um pedido de transferência. A parte do destino desejado fora deixada em branco, indicando que ela queria ir para qualquer disposto a aceitá-la.
“Ah, meu Deus…”, ele suspirou, sem tirar os olhos da janela. “Acho que acabei de cometer o maior erro da minha vida.”
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