I Want To Be Your Girlfriend
11 I don’t wanna hear you say her name ever again
Notas iniciais
Riza não conseguiu dormir um único segundo aquela noite. A cada minuto, ficava pensando em tudo o que tinha acontecido, se virando de um lado para o outro, tentando esquecer, tentando entender. Como pôde ser tão tola e crédula ao achar que aquele plano absurdo teria, algum dia, uma chance de dar certo? Como pôde agir daquela forma? Como?
Quando deixou sua transferência sobre a mesa de Roy, esperou que ele dissesse “por favor, espere”, mas só viu o olhar gelado dele. Nem quis olhar para trás quando saiu, e preferiu dar as costas rápido, sem falar com ninguém. Enquanto caminhava para casa, os olhos turvos e úmidos, refletia sobre o que acabara de acontecer.
Ele a havia acusado de mentirosa. E, no final das contas, era isso que ela era. Ela mentiu sobre seu namoro com Arthur, mentiu várias vezes para tentar fazer parecer que não estava acontecendo nada, mentiu, mentiu, mentiu. E daí que ela teve intenções boas? De boas intenções o inferno estava lotado. E ela não só mentira como também induziu todos os seus amigos a mentirem, e sem querer colocou dois dos melhores amigos que conhecia, Roy e Maes, um contra o outro.
“Não que o Maes não quisesse bater no Roy, antes...”., ela pensou, perversamente. Ela se lembrava de Hughes dizendo qualquer coisa parecida com “levar um soco de um amigo é dez mil vezes melhor que de um inimigo, porque um amigo só bate em você quando você pisa feio na bola”. E era inegável que Roy tinha pisado na bola. Mas será que ele não havia sido induzido a agir daquele jeito por ela mesma?
Estava tão perto... tudo poderia ter dado tão certo... Ela não conseguia pensar no que poderia ter acontecido se seu plano não tivesse sido descoberto. “Se aquela megera não tivesse feito aquilo, a essa hora eu estaria com Roy. Se eu tivesse sido menos tola, e não tivesse confiado naquele rato do Percy, nada dessa confusão teria acontecido. Se... Se... Se...”. No dicionário, se você procurar pela palavra “se”, vai descobrir que ela é uma conjunção, que serve para unir duas orações. Mas pessoas não são frases de livros de português, e no caso delas o “se” só serve para atrapalhar e separar. E, no caso de Riza, o “se” servia também para oprimi-la, enchê-la de remorso e de dor.
Agora, sabia, tudo seria diferente. Nem que fosse até ele e implorasse para que ele a perdoasse, sabia que nunca mais teria a confiança e o companheirismo dele. E, sabia, não tinha nem o direito de cobrar essa confiança outra vez. Aquela sombra a seguiria para qualquer lugar que fosse, por mais longe que fosse. Não poderia simplesmente ignorar tudo agora que sabia que amava muito Roy Mustang para esquecê-lo, e por isso precisava partir. Ela não queria ir embora, e se dissesse que queria estaria mentindo mais uma vez. Enquanto continuasse na Cidade Central, teria uma chance, mínima, ínfima, quase invisível, mas ainda assim uma chance. Mas, a partir do momento em que embarcasse no trem, poderia nunca mais vê-lo, e assim, nunca mais reconquistá-lo. No fundo, ela tentava se convencer de que aquilo seria o melhor para todos, pois um não poderia mais ferir o outro, à distância.
I've been living with a shadow overhead (Eu tenho vivido com uma sombra sobre mim)
I've been sleeping with a cloud above my bed (Eu tenho dormido com uma nuvem em cima da minha cama)
I've been lonely for so long (Eu tenho estado sozinho por tanto tempo)
Trapped in the past, I just can't seem to move on (Presa no passado, parece que simplesmente não posso ir em frente)
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Riza, porém, não era a única insone da noite. Longe dali, numa casa pequena e meio bagunçada, havia alguém na janela, olhando o céu noturno e estrelado. O olhar dessa pessoa estava distante e perdido, como se estivesse procurando alguma coisa além de tudo aquilo. E ninguém precisa ser Einstein e saber o que significa E=mc² para saber que, nesse momento, essa pessoa não poderia ser outra além de Roy Mustang.
Ele também pensava no que havia acontecido horas antes, na sala de Riza. Ao tentar analisar o comportamento de todos ali, dela e até dele mesmo, percebia que simplesmente não havia entendido absolutamente nada do que havia acontecido. De todas as pessoas do mundo, ela era a última de quem esperaria uma atitude tão estranha e passional como aquela.
Sim, porque passional era o único adjetivo capaz de classificar aquela atitude. A princípio, ele tinha milhares e milhares de adjetivos para classificar Riza: mentirosa, traidora, manipuladora e outros tantos que certamente fariam alguns leitores mais puritanos corarem (Nota da autora: certamente esse não é meu caso, já que eu uso esses mesmos adjetivos para classificar boa parte dos meus professores todo dia). Mas, com a cabeça bem mais fria, começou a pensar que, talvez, ele tenha exagerado em sua reação.
Aquela, aliás, era uma tendência dele. Roy era o tipo de pessoa que escondia suas emoções e sentimentos o máximo que podia, mas nos momentos em que eles resolviam se revelar, quase sempre o forçavam a tomar uma atitude cega, precipitada e extremamente idiota. E, sempre que percebia que tinha feito uma burrice, era tarde demais para consertar.
“Riza deve estar pensando na mudança dela, a essa hora”, ele pensou, olhando pela janela como se procurasse pela casa dela. E, então, sentiu como se houvesse um cinto cada vez mais apertado em volta do seu coração. Só então, percebeu que, se ela partisse, talvez nunca mais a veria, e essa certeza o deprimiu profundamente.
Ele a amava, isso era fato. Ele havia dito isso a ela, havia confessado todo o seu sentimento, e assim sentiu-se a pessoa mais feliz do mundo. Pela primeira vez, sentiu-se totalmente livre e verdadeiro, completo. E soube exatamente o que queria pelo resto da vida: ficar com ela, amá-la cada dia de sua vida, viver por ela, morrer por ela. A sensação de clareza e de certeza foi tão maravilhosa e extraordinária que, comparando-a às armações que Riza e os outros provocavam, inocentava todos de seus crimes.
E ele também havia errado, por ser tolo e inseguro, por confiar demais em pessoas que não mereciam e de menos em pessoas que só queriam ajudar, por ser injusto e tomar decisões precipitadas. Pedir desculpas, ele sabia, não iria adiantar nada, só serviria para fazê-lo parecer mais hipócrita ainda.
“Tudo o que eu queria era consertar tudo, agora”, ele pensou, suspirando, sentindo-se cada vez pior. “Mas parece que sempre acabo estragando tudo em que toco... Tudo o que eu queria, agora, era ter coragem de ir até aí e pedir para você me perdoar”.
I've been hiding all my hopes and dreams away (Eu tenho escondido todas as minhas esperanças e sonhos)
Just in case I ever need em again someday (Apenas em caso de eu precisar deles de novo um dia)
I've been setting aside time (Eu tenho vivido fora do tempo)
To clear a little space in the corners of my mind (Para clarear os pequenos espaços na minha mente)
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Riza desistiu totalmente de dormir, e resolveu se levantar e ir até o quintal. O jardim de sua casa era privilegiado: amplo, extremamente bem-cuidado e com a grama mais macia de toda a vizinhança, era um lugar perfeito para se deitar e olhar as estrelas. Talvez elas, pensou, fossem capazes de dar uma resposta que ninguém foi capaz ainda.
“Não seja burra, as estrelas não falam e não estão nem aí para você”, disse uma voz já muito familiar na cabeça dela.
“Você de novo? Já não te bastou estragar a minha vida, agora quer acabar com o meu momento de autopiedade também?”, retrucou Riza, em voz alta, pouco ligando se alguém iria passar na rua e achar que ela era louca.
“Calma aí, isso é jeito de tratar a sua Consciência, srta. Hawkeye?”. Consciência não gostou muito da maneira, digamos, rude que a sua dona a tratou. “Ainda mais depois de tudo o que eu fiz por você. Devia era mostrar um pouco mais de gratidão, isso sim.”
“Gratidão? GRATIDÃO? Você tá brincando, não é?”, Riza protestou alto. “Você destruiu toda a minha vida! Agora, graças a você, o Roy me odeia! Está feliz agora?”.
“Ele não te odeia, só está confuso”, argumentou a Consciência.
“Nossa, que maneira legal de indicar confusão, gritando, xingando e tentando estrangular as pessoas.”
“Ele não tentou estrangular ninguém. Na verdade, os outros é que tentaram estrangulá-lo”.
“Como se isso mudasse alguma coisa”.
“O que eu tô tentando dizer é que você não precisa se preocupar. Ele ainda te ama, e não foi essa bobagem que mudou isso.”
“Se ele está confuso, imagine como eu estou. Que droga, ele não se decide!”
“Os homens são assim, Riza, e eu pensei que você já soubesse disso”.
“Mas ele disse que me amava!”
“E ele não mentiu, acredite em mim. Mesmo agora, se você voltar lá e prestar atenção, vai ver que ele sente por você tudo aquilo que disse que sentia.”.
“Não posso voltar, será que você não entende? Ele ainda vai se casar com aquela maldita McLamure. Não vou conseguir continuar vendo-o todo dia, conversando com ele, sentindo ele bem pertinho de mim... Não dá! Preciso tentar refazer a minha vida em outro lugar e deixá-lo viver em paz com a noiva dele”.
“É nobre da sua parte... mas também é muito idiota”.
“Você sabe bastante sobre ser idiota, não sabe?”
“Pense no que eu disse, tá bem? Garanto que, se você voltar até lá, ele vai te receber de braços abertos e vai esquecer de tudo o que aconteceu”.
“Será mesmo? Às vezes eu acho que ele nunca mais vai querer falar comigo...”
Mas Consciência não respondeu. Riza ficou lá, olhando para as estrelas, pensando em cada palavra da sua amiga-mais-inimiga-que-amiga Consciência. Talvez ela estivesse certa. Talvez, se ela voltasse e pedisse perdão e prometesse que tudo voltaria a ficar bem, ele a perdoaria. Talvez, ela finalmente encontraria aquele lugar pelo qual procurou por tanto tempo, e que finalmente encontrou ao lado de Roy Mustang.
I've been watching but the stars refuse to shine (Eu fico olhando, mas as estrelas se recusam a brilhar)
I've been searching but I just don't see the signs (Eu tenho procurado, mas simplesmente não vejo os sinais)
I know that it's out there (Eu sei que estão logo ali fora)
There's got to be something for my soul somewhere (Deve haver algo para minha alma em algum lugar)
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Roy permaneceu com os olhos fixos na janela, observando as casas e as ruas. Os olhos dele se demoraram nos pontinhos de luz vindos das casas. Havia poucas casas em que ainda havia luzes acesas, e dava para ver a casa dela da sua janela. Havia uma luz acesa no lado de fora, bem no jardim cheio de flores premiadas dela.
Ele se lembrava de quando a vira cuidando do jardim pela primeira vez. Enquanto cavava a terra, arrancava plantas daninhas e plantava novas flores, Riza se transformava, e deixava de ser a primeira-tenente séria e dedicada ao trabalho. Ao invés disso, tornava-se delicada e extremamente cuidadosa, dedicando-se a cada plantinha com um cuidado todo especial. E sorria, totalmente deliciada, apreciando o momento.
Era aquele o tipo de mulher por quem Roy sempre fraquejava: alguém simples mas que tivesse luz própria, alguém que soubesse ver beleza nas menores coisas e torná-las grandes, alguém leal e honesta, que tivesse opinião e atitude. Enfim, era de uma mulher como Riza que Roy precisava. Trista era parecida com muitas daquelas com quem ele já tivera pequenas aventuras, e a cada momento a idéia de entregar sua vida a alguém como ela parecia tola e sem sentido.
Quanto mais pensava, mais percebia que precisava tomar uma decisão, e que essa decisão mudaria sua vida radicalmente. Se, por um lado, queria jogar tudo para o alto e ficar com Riza pelo resto da vida, por outro tinha um compromisso com Trista, e era um homem que honrava os compromissos e as promessas acima de tudo. Se escolhesse a primeira-tenente, magoaria Trista, e se escolhesse a ruiva, a outra jamais o perdoaria.
Naquele momento, já não se importava mais com o que o resto das pessoas diria. Sua mãe odiava Riza. Melissa detestava Trista com todas as forças. Arthur só queria que o irmão se decidisse, e seu pai queria que ele fosse feliz. E ele, Roy, o que queria? Ele só queria saber o que fazer. Se tivesse uma decisão formada naquele momento, estaria satisfeito, mesmo que ela o magoasse profundamente. Tudo o que queria era ter alguma idéia do que fazer.
I've been looking for someone to shed some light (Eu tenho procurado alguém para emitir alguma luz)
Not somebody just to get me through the night (Não apenas alguém para passar a noite)
I could use some direction (Eu poderia usar alguma direção)
And I'm open to your suggestions (E eu estou aberto para suas sugestões)
“Droga, eu a amo demais...”, ele pensava. “E se eu tentasse ir até lá? Talvez, se a gente conversasse um pouco... Ah, não, esquece, ela me acha um panaca, como eu iria procurá-la? É melhor deixar tudo como está.”
“NÃO ACREDITO QUE VOCÊ TÁ DIZENDO ISSO, IMBECIL!”, berrou a Voz em Off do capítulo 9. “VÁ ATÉ LÁ E CONSERTE TUDO ISSO!”.
“O que é que você tá fazendo aqui?”, retrucou Roy, aborrecido. “Não tá vendo que essa é uma reunião particular, ô cabeçudo?”.
“Tecnicamente, eu sou você, porque sou uma voz na sua cabeça, o que quer dizer que posso participar dessa sua conversinha particular.”
“Isso é doideira demais para a minha cabeça...”
“Sei que é, mas você precisa se decidir logo.”
“Tô com tanto medo de fazer a coisa errada”
“Esse é um risco que você tem que correr”.
“Tem certeza disso?”
“Confie em mim”.
Confiar... era só o que estava faltando. Confiar em alguma coisa, em alguém, em qualquer coisa que fosse mais segura e mais firme do que seus temores. Um caminho, talvez, que o levasse para algum lugar. Um caminho de volta para o amor.
All I want to do is find a way back into love (Tudo que eu quero fazer é achar um caminho de volta para o amor)
I can't make it through without a way back into love (Eu não posso ir até o fim sem um caminho de volta para o amor)
And if I open my heart again (E se eu abrir meu coração de novo)
I guess I'm hoping you'll be there for me in the end (Eu acho que espero que você esteja comigo até o fim)
E, de repente, tudo ficou claro para Riza também. Tudo ficou totalmente claro. Sentindo-se mais segura do que nunca, correu até o telefone, tirou o fone do gancho e discou rapidamente os números para a casa de Roy. Tocou uma vez... Duas... E, na terceira...
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Triiiiiiiiiiimmmmmmmm!
“O telefone! Será que... Será?”. Assim que ouviu o trinado irritante do telefone, levantou-se com um solavanco. Com o coração cheio de esperança, correu até a sala, escorregando no tapete do corredor e tropeçando em tudo o que via pela frente. O telefone tocou pela segunda vez, quando ele estava entrando na sala. “Por favor, por favor, não pare de tocar. Não pare! Não pare!”.
E então, pela terceira vez, o telefone tocou. Ele nem deixou que o som da campainha do aparelho parasse, e com as mãos trêmulas tirou o fone do gancho. Nos primeiros segundos, não ouviu nada, só a respiração baixa e compassada do outro lado. Precisava ter coragem... precisava ter coragem...
_Alô?
_Roy, é você? – ela ouviu a voz dele, levemente metalizada, do outro lado (nota da autora: dããã! Ela ligou pra casa dele, então quem ela estava esperando que atendesse, a Madre Teresa?).
_S-s-sim – ele gaguejou, odiando-se profundamente pela sua covardia – O q-q-que vo-você quer?
_Conversar um pouco... Esclarecer as coisas... – respondeu ela, vaga.
_Que... que bom, eu também queria... esclarecer... as coisas... – o ar começava a faltar para ele, e seu maior medo era dizer qualquer coisa muito estúpida que a fizesse se magoar e bater o telefone na cara dele.
_Aquilo que eu disse, sobre você ser covarde... me desculpe, não era a minha intenção – a tenente dizia tudo aquilo com dificuldade, mas sabia que tinha que continuar – Eu perdi a cabeça, disse coisas que não queria, fiz coisas que não queria...
_Ah, vai dizer que não queria bater na minha mãe? – retrucou ele, sem pensar, e logo depois mordeu a língua. “ROY, COMO VOCÊ CONSEGUE SER TÃO BURRO?!?!”, a voz em sua cabeça berrava insana. Mas, aliviado, percebeu que, do outro lado da linha, ela riu.
_Tá, essa parte a gente pula... – o tom de voz dela voltou a ficar sério, quase triste, e Roy começou a ficar apreensivo – Não quero que me interprete mal, só isso. E preciso muito que me perdoe por ser tão estúpida e cabeça oca. Me perdoe pelas mentiras, pelas armações, por tudo. Por favor...
Na parte do “por favor”, a voz dela baixou de repente, ficando reduzida a quase um sussurro. Ao fundo, Roy ouviu um soluço, rapidamente abafado. Sua apreensão cresceu ainda mais, e de repente começou a sentir que, talvez, as notícias que ela lhe daria por telefone poderiam não ser as melhores. Respirou fundo e respondeu:
_Claro que perdôo, Ri. Nós dois erramos, e acho que precisamos deixar essas bobagens de lado, afinal de contas – ele se forçou a rir – E, se quer saber, acho até engraçada essa história toda. Até parece o roteiro de uma comédia romântica da Sessão da Tarde.
_Roy, preciso que se decida – ela disse de supetão – Por favor, sei que não tenho direito de pedir nada a você, mas se tudo o que você me disse for verdade, diga agora.
_Riza, eu... eu... – ele gaguejou, sem estar preparado para aquela pergunta. Então, decidiu ser o mais sincero que podia – Olha, nada do que aconteceu mudou o que eu sinto por você. Eu te amo, é sério, mas existem outras variáveis pra considerar...
_A nossa vida não é uma equação, Roy – ela cortou, a voz gelada de repente – Só tem duas respostas possíveis: sim ou não. Eu já te respondi, lembra? E vim aqui pedir para que tudo volte a ser como antes. Mas, para isso, preciso saber se você realmente quer.
_Riza...
_Eu só quero uma resposta, Roy. Só uma resposta. E, se o que você diz for verdade, essa não é uma decisão tão difícil assim de se tomar.
“Isso é você que pensa...”, pensou ele, desesperado. “Se é tão fácil assim para você, por que não troca de lugar comigo?!”
_Eu preciso de mais tempo, Ri – ele disse, depois de alguns segundos em silêncio – Só preciso de mais tempo. Se você puder esperar mais um pouco...
_Não dá, Roy. Eu já esperei tempo demais – ela soluçou outra vez – Parece que você já tomou a sua decisão, de qualquer forma.
_Não, espere! – foi nesse momento que ele viu que estava prestes a perdê-la para sempre – Por favor, não desligue! Eu nem tive tempo de absorver tudo, preciso de mais tempo!
_Por favor, pare com isso! – a voz dela estava trêmula – Você nunca se perdoará se deixar Trista para trás e magoá-la, eu sei disso. Você se orgulha de manter a sua palavra acima de tudo.
_Não, Ri, não me entenda mal! – ele começava a se desesperar – É só que...
_Está tudo bem, Roy. Cada um de nós segue o seu próprio caminho, sem ressentimentos – a voz dela era a de quem estava prestes a chorar – Não vou mais te atrapalhar, nem te magoar, nem mentir para você. Está tudo bem, é sério.
_NÃO ESTÁ NADA BEM, RIZA! – então, ele explodiu – VOCÊ NÃO ENTENDE A POSIÇÃO EM QUE EU ESTOU? NÃO IMPORTA A DECISÃO QUE EU TOME, SEMPRE VOU MAGOAR ALGUÉM! E ISSO ESTÁ ME DEIXANDO LOUCO!
_Siga a sua vida, Roy – ela só pôde dizer isso – E seja feliz ao lado de Trista. Tente fazê-la feliz, também. Em breve, você aprenderá a amá-la, e eu... eu vou seguindo a minha vida.
_Mas, Riza...
_Adeus, Roy. A gente se vê por aí – ela nem esperou que o outro retrucasse, e desligou o telefone. Por vários minutos, ele ficou ouvindo o “tuu... tuu... tuu...” incessante do aparelho, paralisado. Depois, desligou-o, totalmente trêmulo. Não demorou muito, e o rosto dele começou a ficar encharcado pelas lágrimas dele mesmo.
Ela o havia dispensado definitivamente. E não sem motivo. Se ele tivesse tomado uma decisão, se tivesse dado o primeiro passo, talvez... Mas agora era tarde demais. Tarde demais. Sentou-se no chão, ao lado do telefone, as mãos sobre o rosto, chorando como uma criança perdida, sentindo-se a criatura mais miserável da face da terra.
O que ele nem imaginava era que a pessoa do outro lado da linha também estava com o coração totalmente despedaçado, e que também estava se desmanchando em lágrimas. Riza simplesmente não acreditava no que havia acabado de fazer. Por que diabos ela o havia dispensado? Por que ela não deu a ele mais tempo para pensar? Por que havia entregado os pontos tão facilmente?
“Porque sei que, no futuro, usaremos isso um contra o outro. Sempre que brigarmos, vamos jogar os nossos erros um na cara do outro, e vamos ficar presos a eles”, ela mesma se respondeu quase imediatamente. “E não quero ficar presa a alguém por culpa. Apesar de termos perdoado um ao outro, um pouquinho de mágoa vai acabar ficando para trás. É melhor continuarmos separados, e quem sabe consigamos começar tudo de novo com outras pessoas”.
Mas ela sabia, melhor do que ninguém, que seria quase impossível começar tudo de novo.
There are moments when I don't know if it's real (Há momentos que eu não sei se isso é real)
Or if anybody feels the way I feel (Ou se alguém se sente do jeito que me sinto)
I need inspiration (Eu preciso de inspiração)
Not just another negotiation (Não outra negociação)
Esse deve ser o momento em que você, amigo leitor, totalmente possesso de raiva, berra (depois de uns bem-colocados e impublicáveis palavrões, talvez) “POR QUE DIABOS ESSES DOIS NÃO SE ACERTAM DE UMA VEZ E PARAM COM A ENROLAÇÃO?”. E eu respondo a vocês:
Primeiro: se fosse tão fácil assim não teria graça.
Segundo: relacionamentos que começam com tanta coisa pendente, como o deles, geralmente está fadado ao fracasso.
Terceiro: onde estaria aquele final todo cheio de armações e surpresas que geralmente as histórias românticas têm?
E quarto: qual é, gente, eu prometi pelo menos doze capítulos e não posso parar no onze!
Explicações dadas, voltemos à história, que é o que interessa. Os nossos dois protagonistas estavam chorando suas pitangas, como vocês já sabem. Riza, porém, era a que estava mais abalada. Ela não acreditava no que havia acabado de fazer, e estava totalmente arrasada. Mas então, percebeu, achando até um pouco de graça (isso é, se você gosta de humor negro, é claro), que estava se sentindo leve como há muito tempo não sentia. De repente, ela percebeu que precisava fazer isso há muito tempo, precisava cobrar uma decisão dele.
Isso, porém, não diminuiu a tristeza e a dor que ela sentia. Era como se tivessem cortado um braço dela fora, e a deixassem lá, sangrando, sem poder fazer nada. Mas, no fim das contas, era o certo a se fazer. Iria embora, para uma nova cidade, com pessoas diferentes, lugares diferentes, todo um mundo diferente. Sem que percebesse já abria a gaveta e começava a pegar um dos muitos bombons que escondia perto do telefone. Mas, então, percebeu o que estava fazendo.
“Não... não dessa vez...”. Então, forçou-se a respirar fundo e a enxugar as lágrimas do rosto.E olhou fixamente para o bombom em sua mão, antes de guardá-lo novamente dentro da gaveta. “Vamos começar tudo do zero, sem nada em que descontar as minhas mágoas. E não vou mais precisar de chocolate sempre que ficar triste, ou com raiva. Tenho que aprender a cuidar dos meus problemas sem precisar disso”.
Agora, havia um mundo novo à sua frente. Era um mundo no qual precisaria aprender a viver, sem Roy. E ela o enfrentaria, pronta para tudo, como sempre.
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