Notas iniciais
Comecemos com Clarke Weasley( não, não sou potterhead, da Erudição.

Aquele deveria ser o dia mais feliz da vida de todos na casa de Clarke.Um dia antes, sua irmã mais nova, Linna, havia passado por um teste para a escolha de sua facção e teria de escolher.Clarke já passara por isso.Havia quase dois anos desde que escolheu a Erudição, sua facção de sangue.Por que escolhera a mesma facção na qual havia nascido ela não sabia.Talvez porque ela fosse covarde demais para abandonar sua família.Audácia?Covardia é seu "contra-lema".Franqueza?Depois de tudo o que passou, de todas as mentiras que contou para si mesma, não se daria muito bem lá.Amizade ou Abnegação?Simplesmente não se encaixava.Era orgulhosa e egoísta demais para isso.Ora, todos não eram?Fora criada em meio a pessoas que se achavam melhores, pessoas que eram de fato melhores.Essa "cultura" de superioridade já a tinha perseguido tanto, que Clarke achou melhor não mudar.Era acostumada ao costume.Mudanças lhe causavam um desconforto descomunal, chegavam a lhe dar ânsia de vômito e deixá-la com febre.Tamanha era sua aversão por qualquer tipo de revolução ou evolução.Mas ela tinha de evoluir, aprender e transformar, era parte da Erudição.Os membros da facção, os inteligentes, o que fazem é mudar, produzir, criar e re-criar.Era complexo seu modo de pensar, e diferente de todos, mas ela não conseguia explicar.

O dia chegou mais cedo do que ela esperava.Queria ficar na cama, quieta, dormindo.Não passaria por tudo de novo.Claro, era ótimo ver pessoas e mais pessoas, da sua ou de outras facções, vindo ou permanecendo na Erudição.Isso ajudava a construir o ego de todos.Mas naquele dia, especialmente, não queria sair de casa.Se sentiu muito triste consigo mesma.Iria abandonar Linna num dia tão especial?Então tomou a decisão de deixar a si mesma por sua irmã.Um calafrio percorreu sua espinha.Era um pensamento um tanto como típico da Abnegação, e isso era horrível.A Erudição e a Abnegação tinham uma rixa.Bem, a Erudição tinha.O poder, o controle, tudo estava nas mãos "amigas" e "socialistas" da Abnegação.Enquanto a Erudição, que era provavelmente a mais preparada para isso, não tinha nada.Era uma facção bem economicamente.Isso por causa do pensamento capitalista e egocêntrico que mantinham.Ela não entendia, ninguém além dos fundadores deveria entender, apenas seguia.

Clarke levantou da cama e se vestiu.Blusa azul, saia azul, terninho azul.Tudo azul, a cor dos loucos.Não era pra fazer sentido.Até o olho dela era azul.Bom, pelo menos um era.Clarke nascera com um defeito muito bonito, heterocromia. Tecnicamente esse defeito deveria ter sido radicalizado, mas haviam exceções.Por causa da heterocromia, um de seus olhos era azul, o outro, um castanho quase vermelho.Nesse ela usava uma lente tão azul quanto o outro.Ela tinha de parecer perfeita e conseguia.Era muito bonita com seus cabelos escuros e lábios tão vermelhos quanto sangue- que só ficavam assim por conta de três passadas de batom.Era linda e inteligente.Uma mistura incomum, porém possível.

Clarke saiu do quarto cheirando a rosas.O pai, a mãe e sua irmã Linna estavam sentados à mesa em silêncio, como de costume.Apesar do ar monótono que rondava a cozinha, era possível perceber a alegria estampada no rosto de Linna.Era um dia importante para ela e Clarke sabia como se sentia.
-Bom dia- Clarke disse secamente, quebrando o silêncio.
Ela adorava fazer isso de quebrar a monotomia da família.Bem no íntimo, Clarke tinha o espírito de rebeldia comum em todos os adolescentes.
-Bom dia!-Linna responde animada, soando um pouco desafinada.
Todos riram.Clarke nem se lembrava da última vez que havia visto sua mãe sorrindo, muito menos gargalhando.A alegria de ver sua filha mais nova indo escolher sua facção deveria ser muito empolgante.Clarke sorriu e colocou a longa franja loira de sua mãe atrás da orelha.Effie era jovem, ou pelo menos aparentava ser.Mas, mesmo que parecesse para as outras pessoas, não era uma mãe muito carinhosa, porém, nem um pouco ruim.Nem se fala no pai.Bill era o típico pai erudito.Homem de poucas palavras, preso a pensamentos e sempre estudando, lendo ou escrevendo.Mas nenhuma de suas filhas tinha nada do que reclamar a seu respeito.
-Então, Linna.Está animada para a cerimônia?-Clarke pergunta.
-Estou em pânico.É uma decisão muito difícil e...
-Difícil?-O pai interrompe.-O que há de difícil nisso?Escolherá a Erudição.
Clarke o olhou com ódio nos olhos, bateu a mão na mesa, pegou seu prato e se levantou.Ele não tinha o direito de dizer isso."Facção antes do sangue".Linna tinha o direito de escolher o que fazer, que facção seguir.Effie se levanta, coloca seu prato na pia e diz:
-Linna e Clarke, podem tirar a mesa.
-Eu ainda não acabei de comer-Bill retruca.
-Sim, Bill, você já acabou.
O pai se levanta e joga o prato na pia, irritado.Effie o segue até o quarto e fecha a porta.A família era muito bonita e unida, para os outros.A verdade mesmo era que dentro de casa havia várias intrigas, a maioria delas envolvendo Clarke e o pai.Eles não se davam muito bem e o motivo nunca ficou muito claro.
-Eu te ajudo com isso-Linna diz tomando o prato da mão de Clarke assim que vê seus olhos cheios d'águas.
-Obrigada.
Ela tentava ser forte e realmente não era de chorar, mas as vezes era complicado.
-Vamos falar sobre o teste!-Clarke sugere, limpando os olhos.-Você não disse nada.Qual foi seu resultado?
-O mesmo de todos na família.
Clarke segura os ombros de Linna e se coloca de frente para ela, entre seu corpo e a pia.Sabia que estava mentindo.
-Não minta pra mim, Linna-Clarke diz seriamente.-Pode confiar em mim.
Linna engoliu seco.Clarke entendia que estava diferente.Que não era tão simples.Ao mesmo tempo sabia das regras, mas nenhuma se importava mesmo.
-Meus resultados foram inconclusivos, Clarke- Linna disse finalmente.-Eu sou divergente.
A respiração de Clarke falha.Linna.Divergente.Era demais para ela.Seu pai jamais aceitaria.A sociedade jamais aceitaria.Divergentes ameaçavam o sistema de facções.Não era possível.Os grandes olhos azuis de Linna a estavam fitando em busca de uma reação, e Clarke tinha certeza de que não apresentava nenhuma.O horror estava em seu pensamento, por ser cuidadosa o suficiente para aprender a controlar as reações faciais.O que iam fazer?
-Escute, Linna- Ela disse tomando fôlego e coragem.-É perigoso o que está dizendo.Você tem plena certeza?
A irmã assentiu.
-Com quais foi compatível?
-Erudição, Amizade, Franqueza e...-Ela hesita.-Abnegação.
A Abnegação.Exatamente a que não poderia ser compatível.Não poderia culpá-la, o teste só mostra quem são, mas não poderia evitar a raiva.
-Linna, você não pode contar a ninguém.Ninguém.
-Eu sei, Clarke.Não se preocupe quanto a isso.
-Tudo bem.
-Só há um possível problema-Linna diz.-Quem aplicou meu teste era da Franqueza.Revelar creio que não iria, a menos que o perguntem.É aí que mora o perigo.
-Sendo assim, reze aos céus para que não o perguntem.
Clarke passa a mão no rosto de Linna.A irmã herdou a alegria da mãe.Era idêntica a Effie em tudo.Longos cabelos loiros, grandes olhos azuis e uma ótima postura.Era linda, muito mais bonita que Clarke.Essa, por sua vez era parecida com o pai, para o terror de sua má língua.O mesmo cabelo castanho quase preto, mesmo formato de rosto, mesmas bochechas que ficavam marcadas quando sorria.O último ela não sabia de como sabia, uma vez que seu pai nunca sorria.Apenas sabia.
-Linna- ela continuou- Divergente...
Um tiro surdo arranca a porta da frente.Três membros da Audácia, em suas roupas pretas e cheios de tatuagens na cabeça e no pescoço, carregando grandes e pesadas entram pelo imenso buraco na porta.Dois deles se posicionam ao lado de uma parede, em fila.O outro para do outro lado.Uma mulher da Erudição, de cabelos curtos e vermelhos, firmes olhos cinzentos e fortes marcas de expressão, entra e se coloca no meio da Audácia, com um sorriso triunfante no rosto.
-Linna Weasley?-Ela chama com uma voz doce totalmente oposta ao estrago que fez.
Effie e Bill saem do quarto apavorados.Vizinhos curiosos se reúnem no quintal, provavente se perguntando: "O que diabos o governo quer com a respeitável família Weasley, chegando ao ponta de fazer um estrago como esse?". Ora, eles não eram do governo, mas davam tanto medo e agiam como tal.
-Sou eu-Linna diz, dando um passo a frente.
-Venha comigo, querida- A mulher estende a mão.
-Espere!-Grita Clarke.-Quem é você e o que quer com a Linna?Ela tem de estar na Cerimônia da Escolha em exatamente...-ela olha no relógio de pulso-duas horas.
A mulher sorri docemente.O sorriso branco como a Franqueza causa arrepios em Clarke.Algo nela lhe soava bondoso como uma avó, ao passo que dava medo como um filme de terror.Ela escolheu a segunda opção.
-Não se preocupe, querida-Ela toca no ombro de Clarke.-Linna não se atrasará para a Cerimônia.Sou a Dra. Runner.Houve uma alteração no teste de Linna e ele precisará ser refeito.
Clarke afasta o ombro.
-Eu não sou sua querida-diz chegando bem perto do rosto da mulher.
-Clarke...-Bill chama com cautela.-Deixe que ela faça o que deve ser feito.
Ela o lança um olhar suplicante.Eles não entenderiam.Não esperava que entendessem.Mas não perdeu a esperança.Se permitisse que Linna fosse com a Dra. Runner, não se atrasaria para a Cerimônia, porque simplesmente não apareceria.Divergentes ameaçam o sistema, por isso morrem.Eles a matariam.
-Linna não vai a lugar algum- Clarke rosna.
-Clarke, está tudo bem-Linna diz, já começando a chorar.-Eu vou ficar bem, certo?
-Certo.
Ela se liberta da mão da Dra. Runner e dá um abraço apertado na irmã mais velha.Suas lágrimas quentes caindo no ombro de Clarke.
-Haja o que houver-Linna sussurra- eu te amo Clarke.Obrigada por tentar me ajudar.
-Eu também te amo, Linna.Prometa...Prometa que tentará voltar.Não dê nada a eles.Não.Haja.Como.Uma.Divergente.
-Eu sei.Obrigada.
Clarke aperta ainda mais o abraço, temendo ser o último.Ela solta a irmã para que possa se despedir deles.
-Eu amo vocês!-Grita ao entrar no carro de Runner.
Linna acena e chora.Pisca com um dos olhos para Clarke, e ela entendeu:Era um adeus definitivo.

Notas finais
Qualquer erro de digitação, perdoem-me.Escrevi pelo celular.
Obrigada por ler.