I Never Learn
3 My one heart hurt another
Notas iniciais
Fui no Christian's logo depois que Rafael saiu. Não para beber — minha ressaca ainda incomodava —, apenas para passar o tempo conversando. Não suportava a ideia de ficar trancafiado no meu apartamento sabendo que em poucas horas o mundo iria desabar.
— Por que essa cara? — indagou Christian, enquanto limpava o balcão com uma flanela.
— Preciso fazer uma coisa muito difícil hoje.
Ele me analisou com olhos compreensivos. Não perguntou que coisa era aquela de que eu estava falando. Acho que preferiu não invadir minha privacidade.
— Sempre que precisar fazer algo que acha difícil — começou Christian, esboçando um sorriso leve. — Lembre-se de que existem vários médicos iniciando uma cirurgia nesse exato momento. E vários catadores de latinhas carregando o lixo em uma carroça que puxam nos ombros.
Ele inclinou a cabeça para observar a minha reação. Não consegui sorrir.
— Comigo funciona — disse ele. — Não vai beber nada?
— Não. Já bebi pela semana inteira ontem.
— É. Eu vi. Não quer comer nada também?
— Me vê, sei lá, um pão de queijo.
— Ok.
Comi com o estômago revirando. Pensei em Rafael e em Carol. Pensei em não fazer absolutamente nada. Se eu saísse correndo agora, sem destino algum, o que aconteceria? Tive vontade de ligar para Carol e dizer que estava tudo bem, que não precisávamos conversar sobre nada. Mas além de ter deixado o celular no apartamento, fazer uma coisa dessas seria um ato de extrema covardia da minha parte. Afinal, o que eu queria para mim?
*
Às três horas da tarde retornei ao meu apartamento. Eu tinha mesmo que dar uma arrumada naquele lugar. Quem sabe depois saísse de novo, ou então aproveitasse pra terminar meu projeto da faculdade. Havia várias coisas que eu poderia fazer para me distrair. Porém, quando abri a porta, tive que descartar todas essas possibilidades imediatamente.
Carol estava lá.
— E então? — Carol estava sentada no sofá, as pernas cruzadas. — Podemos conversar?
Fechei a porta atrás de mim. Ela tinha uma cópia da chave e podia entrar e sair quando quisesse. Mas não esperava que ela aparecesse tão cedo.
— Combinamos às oito — foi a única coisa que consegui falar.
— Um compromisso surgiu pra mim nesse horário — disse ela, secamente. — Tive que vir mais cedo. Eu liguei, mas você não atendeu.
— Esqueci o celular — falei, me sentindo muito idiota. — Desculpa.
— Tudo bem — ela disse, e indicou que eu me sentasse também. — Fale logo o que tem que falar.
Começar era a pior parte. Eu podia facilmente enganá-la, fingir que não podia morar com ela por outro motivo qualquer. Por um instante eu considerei essa possibilidade. Mas depois pensei no que o Rafael diria quando soubesse, e que provavelmente ele me veria como um completo covarde.
— Eu vou ficar aqui.— foi o que consegui dizer. — Não vou morar com você.
Ela me encarou, a expressão totalmente neutra.
— Por quê?
Sentei-me ao lado dela. Se não respondesse a essa pergunta, tudo iria por água abaixo e eu continuaria preso naquele relacionamento. Se não respondesse, tudo continuaria igual. Aquela tinha de ser a hora, e eu precisava arranjar coragem para dar a Carol uma resposta justa. Porque eu tinha sido injusto com ela. Ela não merecia nada disso. Você vai contar pra ela?, dissera Rafael mais cedo. O motivo verdadeiro pelo qual está fazendo isso?
Carol, eu não te amo.
Carol, eu nunca te amei.
Carol, eu não quero isso.
Carol, eu estou me apaixonando.
Carol, eu estou me apaixonando por um homem.
— Carol — eu disse, por fim. Seus olhos me queimavam, mesmo que sua expressão fosse a mais indecifrável do mundo. — Não posso mais continuar com isso.
Ela continuou me olhando friamente por vários segundos. Logo depois, desviou o olhar para o chão. Pigarreou, encarou as próprias mãos. Pôs uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha enquanto suspirava, e depois voltou a me olhar. Dessa vez, seus olhos estavam um pouco úmidos.
— Você não sabe... — começou ela, a voz ligeiramente trêmula. —... o quanto eu estou brava com você...
— Eu sei.
Senti que eu deveria ter ficado quieto.
Carol voltou a encarar o chão, engolindo em seco. Em seguida, cobriu os olhos com as mãos e esfregou-as pelo rosto. Quando falou novamente, ela não me olhou.
— Você... pode me dizer.... o porquê?
Senti minha testa suando.
— Eu realmente sinto muito — falei. — Me perdoa, por favor...
— Por quê, Kevin? — ela insistiu.
Não tinha mais escapatória alguma. Precisava contar a verdade. Era como as coisas deveriam ser. Era minha sina. Não havia um jeito bom de terminar aquilo, mas com certeza havia um mais viável. Respirando fundo, enfrentando o medo da melhor maneira que pude, disse tudo numa torrente de palavras:
— Eu não te amo — comecei, e era como se minha boca estivesse cheia de espinhos. — Eu não posso fazer isso com você. Já faz algum tempo que eu venho pensando na nossa relação... E eu não estou preparado pra morar com você, não estou preparado pra sequer ficar com você. É uma estupidez minha. Você não tem nada a ver com isso, o problema vem de mim. Não quero te envolver nisso, mentir na cara dura, ser um idiota. No começo do nosso namoro eu estava apaixonado, mas nunca passou disso. Achei que eu iria desenvolver um amor tão grande por você a ponto de te colocar em primeiro lugar, mas... mas não aconteceu.
Parei de falar. Eu me sentia horrível. Carol não olhou pra mim por nenhum segundo. Lágrimas escorriam de seus olhos avermelhados enquanto ela encarava o chão. Esperei uma resposta dela, algum manifesto, mas nada veio. Depois do que pareceu ser muito tempo na minha cabeça, ela enxugou as maçãs do rosto e se virou, espetando os olhos em mim.
— Tem mais alguma coisa que você gostaria de contar?
Minha língua travou. Eu não disse absolutamente nada, apenas encarei o chão. E então Carol se levantou rapidamente, atravessando o pequeno corredor que ia em direção ao meu quarto. Levantei-me também, seguindo-a. Quando entrou no quarto, Carol foi em direção ao pequeno criado que havia ao lado da cama, onde havia um porta-retrato com nossa foto.
— Não vai precisar mais disso, certo? — disse ela, agarrando-o e colocando-o dentro da bolsa. Em seguida ela foi até outro canto do cômodo, abrindo meu guarda-roupa. Procurando, ela encontrou algumas roupas dela que deixava comigo para quando dormia aqui, colocando-as em volta do braço.
— Como você vai levar tudo isso agora? — perguntei, mesmo sabendo que provavelmente ela não voltaria mais.
Sem dizer uma palavra, ela se encaminhava para a porta do quarto...
Mas parou no meio do caminho. Ao invés disso, encarou a cama desarrumada com um olhar misto de raiva e dúvida.
— O quê... pode me explicar o que é isso? — indagou, indicando-a com um gesto da cabeça.
— Bem, eu... não tive tempo de arrumar. — Se você não tivesse chegado tão cedo, pensei.
— Por que dois travesseiros? — Carol perguntou, e logo que ela disse isso, um calafrio indescritível me atravessou. — Alguém dormiu aqui além de você?
Engoli em seco.
— Uma garota dormiu aqui? — ela pareceu ficar sem fôlego por um momento.
Eu não falei nada.
Carol soltou a bolsa e as roupas, deixando-as cair no chão como se fossem lixo. Aproximando-se da cama, ela mexeu no edredom, como se estivesse esperando encontrar alguma pessoa lá por baixo. Mas o que ela encontrou foi quase tão ruim quanto isso.
— Uma camisinha? — ela disse, ao ver o preservativo jogado na roupa de cama. Acho que deve ter ficado debaixo dos lençóis logo depois que usamos. Dá uma procurada lá. A voz de Rafael ecoava em minha cabeça.
Carol virou-se para mim. Seu olhar me fez sentir a pessoa mais suja desse mundo. Eu não me atrevi a falar nada. Dizer que era um homem ao invés de uma garota só pioraria as coisas. Fiquem em um silêncio profundo, a vergonha e o desprezo por mim mesmo queimando em meu interior.
— Vai se fuder — foi só o que ela disse.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Carol como se eu a tivesse batido. Quando vi, eu mesmo estava com os olhos encharcados, mas era por raiva. Não dela, não de Rafael. De mim. Sentia-me um lixo, um homem sem palavra.
Carol pegou a bolsa e suas roupas. Ainda chorando, ela passou por mim, furiosa, e foi em direção à porta de entrada. Destrancou com sua chave, e em seguida atirou-a no chão. Ela não voltaria nunca mais, eu sabia. Não se despediu, não disse absolutamente nada.
Não fui atrás dela. Fiquei parado, não sabia o que fazer. Fechei a porta. E chorei.
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