I Never Learn
4 No longer love
Notas iniciais
No dia seguinte, levantei cedo para correr. Era domingo e tudo o que eu queria era alguma distração que puxasse minha mente para longe dos problemas. A música dos fones de ouvido era alta a ponto de me fazer ir para outro lugar enquanto dava passadas rápidas e monótonas pela calçada. Por um longo tempo fiquei assim, sem prestar muita atenção no que acontecia à minha volta, apenas correndo. Então o sol apareceu e eu reparei que estava indo rápido demais. Diminuí o ritmo para uma caminhada rápida e então voltei para o apartamento.
Chegando lá, tomei um banho quente. Eram oito horas da manhã ainda. Havia um longo dia pela frente, muitas coisas com que lidar. Eu precisava ser forte e encará-las. Tinha que assumir que o que havia entre eu e Carol acabara e que um novo começo seria inevitável.
Usei o tempo livre da manhã para fazer uma maquete da faculdade. Tive que sair para comprar material, mas depois retornei e consegui terminar tudo. Aproveitei e continuei de onde tinha parado a leitura do meu livro sobre aerofotogrametria. No fim, acabei fazendo bastante coisa e senti que minha mente ficara um pouco mais leve. Mas o peso do que tinha acontecido ainda estava lá.
Rafael ligou para mim, perguntando se podia passar no meu apartamento. Eu disse que sim, e meia hora depois ele estava na minha frente. Recebi-o com um beijo demorado. Era o que eu estava precisando. Senti-me melhor quando com a presença dele. Mas precisávamos conversar.
— Senta aí — eu disse, e ambos nos aconchegamos no sofá. Puxei-o para perto de mim, envolvendo-o com um braço. — Eu fiz. Terminei com ela.
Ele inclinou a cabeça, me olhando.
— Sinto muito — disse ele. — Que pena que as coisas tiveram que acabar assim.
— Era assim que precisava acabar — comentei, suspirando. — Não tinha outro jeito.
— Como ela reagiu?
Lembre-me de toda a sequência que se sucedera, de Carol entrando no quarto e revirando a cama. De seus olhos vermelhos e furiosos me encarando com desprezo.
— Como você reagiria? — perguntei, esquivando-me da resposta. — Seja sincero.
— Eu não gostaria — disse ele. — Mas não posso dizer mais que isso... não sei o que faria no lugar dela.
Ficamos em silêncio por um tempo. Começara a cair uma chuva fina do lado de fora.
— E você? Como está se sentindo? — quis saber ele.
— Não sei. Ainda não caiu a ficha.
Rafa passou a mão em meu cabelo levemente, e depois pousou-a em meu ombro.
— Você falou sobre a gente?
Não sabia muito bem como explicar o que havia acontecido.
— Mais ou menos.
— Como assim?
— Ela pensa que você é uma garota.
Encarei a parede. Rafael demorou a responder.
— Ah. — Foi só o que ele disse.
— Desculpa. Mas é que as coisas já estavam péssimas.
— Tudo bem.
— Você se incomoda?
— Não sei.
— O que eu devo fazer?
Ele suspirou. Tirou meu braço detrás de seu pescoço e me olhou.
— Você está realmente disposto a ficar comigo?
— Estou — respondi.
— Então é nisso que devemos focar — ele se inclinou e pôs as mãos na minha cabeça, encostando seus lábios macios e quentes nos meus.
Retribuí o beijo, envolvendo-o em meus braços. Freneticamente, nós nos permitimos cair no sofá, nossas línguas explorando aquela sensação de toque. Rafa se afastou momentaneamente para tirar a camisa, e pude sentir as curvas de seus músculos em meus dedos. Passei-os pelas suas costas, percorrendo um longo caminho até mais embaixo. Apertei as nádegas dele, nossa respiração cada vez mais rápida. Tirei minha camisa também, e então ele foi me beijando lentamente, primeiro no queixo, depois na clavícula, descendo até o peitoral e o abdome até chegar em minhas calças. Nesse momento, Rafa passou as mãos por um dos bolsos, onde eu tinha uma camisinha.
— Responsável — disse ele, arfante, e abrindo um sorriso malicioso.
*
A chuva aumentara seu ritmo, mas ainda assim continuava tranquila. Rafa e eu estávamos aconchegados na cama agora. Meus pensamentos vagueavam muito longe dali, para onde eu não queria que fossem. Imaginei o que Carol estaria fazendo agora. Se teria contado pra alguém. Se as pessoas da faculdade já sabiam. Ela cursava Letras na UFPR — e não Utfpr, onde eu fazia Arquitetura. Um t que fazia diferença — mas nós tínhamos muitos amigos em comum. Era provável que alguns soubessem.
Peguei meu celular e chequei o perfil dela no Facebook. Ainda marcava que estava em um relacionamento sério comigo. Será que eu devia desmarcar? Também não mexera em meu próprio status. De repente, pensar em nossa vida virtual tornou-se tão banal que resolvi largar o celular. O que importava mesmo era a realidade.
Rafa me abraçava por trás, e eu podia sentir sua respiração leve e tranquila no pescoço.
— O que você tava olhando? — perguntou ele.
— Só o Facebook. — respondi. O perfil dela.
Senti vontade de ver Carol novamente. Não daquele jeito, naquele último e péssimo momento que tivemos. Queria que eu pudesse dizer adeus a ela de uma forma que não fosse tão inapropriada quanto aquela. De alguma maneira, mesmo não sendo mais seu namorado, eu sentia a necessidade de confortá-la. Mas como podia protegê-la de mim mesmo? Como poderia ajudá-la contra algo que eu mesmo provoquei?
Eu não a amava. E isso me deixava triste. Era como se eu realmente quisesse amá-la. Ela era uma boa pessoa, só tinha sido fria comigo porque eu a estava decepcionando. Nosso caminho juntos não seria difícil: carinho, casamento. Família, emprego. Era fácil me imaginar passando o resto da vida com ela. Quem sabe depois de alguns anos eu passasse a amá-la. Mas seria algo tremendamente injusto da minha parte, enganá-la. Mesmo que a verdade a machucasse, com certeza era a melhor das opções.
Uma súbita curiosidade me veio à mente.
— Rafa... Qual é a diferença entre amar e se apaixonar?
Ele suspirou e acariciou os meus dedos por alguns instantes.
— Não sou especialista nesse assunto — disse ele. — Alguns dizem que a paixão é egoísta. Como se você quisesse a pessoa só para você e não se importasse realmente com a sua felicidade.
Pensei bastante naquela resposta.
— E o amor?
— Imagino que seria algo mais sólido... Um sentimento que dura muito tempo e que não envolve apenas o seu lado. É algo mais mútuo e recíproco, que faz você se sentir diferente. Mas sei lá. Pra mim os dois são quase a mesma coisa. Você não acha?
— Talvez — respondi.
— Você tá pensando nela? — indagou Rafa, e eu sabia muito bem a quem se referia.
— Sim — resolvi não esconder.
— O que sente por ela?
Refleti. O que realmente eu sentia por Carol? Como descrever o que se passava dentro de mim? Parecia que tudo andava confuso. Mas encontrei uma palavra satisfatoriamente significante.
— Certeza.
— Hum — disse ele em tom compreensivo — Que tipo de certeza?
— Com ela as coisas são estáveis. Previsíveis. É como se tudo estivesse em seu devido lugar. Você entende?
— Acho que sim — respondeu ele.
E ficamos em silêncio. Era estranho passar por aquela situação. Em pouco tempo aconteceram mais coisas do que eu podia processar.
Quem sabe eu gostasse de um pouco de previsibilidade.
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