I Hate You Too!
26 XXVI - A Boate
Notas iniciais
Já era tarde da noite quando a droga do meu telefone resolveu tocar e pra piorar ainda era um número desconhecido. Estava tudo escuro e só o visor do meu celular clareava o quarto. Tinha um pouco de bagunça e eu estava com muito sono, mas deveria ser importante ou um trote. Resolvi atender sem mais delongas, me espreguiçando, antes de falar algo.
–Alô... –Minha voz saiu meio rouca, devido às horas de sono dormidas.
–Has... Sou eu, João... Desculpe pela hora!
–Hm... O que houve? Problemas? Que número é esse? –Falei me sentando mais reto e com todo o edredom sobre a cama ainda. Baguncei meu cabelo que deveria estar todo desarrumado já.
–Esse é o número novo que eu arrumei, fiquei receoso, talvez Yuri já tenha grampeado meu número, você sabe... Vai que ele tenha sido mais rápido do que nós achamos...
E como um estalo, eu lembrei que aquela noite seria a noite do jantar entre os dois e que o plano já estava em sequencia... Se tivéssemos tido sorte, talvez João já tenha conquistado um pouco da confiança de Yuri e isso seria perfeito para o desenrolar do meu plano.
–E como foi? Foi um bom jantar?
–Yuri se mostrou resistente no começo, mas eu já acho que já estou começando a ganhar a confiança do loiro... Eu sei que pode parecer rápido demais, só que estamos caminhando a passo até que largos... Eu acho que por ele achar que nós dois já namoramos, ele estava querendo me usar para te fazer algum dano, entende... Ele já até me beijou!
Meu coração palpitou... João e Yuri já tinham se beijado... Um beijo em um jantar, quase pulei da cama ao ouvir aquilo. João poderia se envolver com Yuri... De verdade, digamos assim... E como eu ficaria nessa história... Desde que Jonathan foi embora, João tinha sido mais do apenas um amigo, ele tinha sido um grande suporte para aquela perda... E bem, tendo em vista as últimas noticias que eu tive do loiro de olhos azuis, a última coisa que ele poderia querer comigo era algo sério... Jonathan estava curtindo nos Estados Unidos... Sendo feliz e vivendo sua vida... E possivelmente o meu único grande amigo no Brasil, poderia estar se envolvendo com o meu pior inimigo, e não apenas como parte do plano.
–Me liga amanhã, conversamos melhor!
–Mas...
E antes de qualquer coisa desliguei e me levantei da cama. Subi as escadas o mais silenciosamente possível e fui até o quarto de Jonathan... Tudo estava numa penumbra muito bonita, as venezianas da janela estavam abertas e a luz da rua conseguia entrar por ali e deixar um clima de... Solidão. Fui até o banheiro que até que estava arrumado e me olhei no espelho da pia. Meu cabelo tava meio bagunçado, devido às horas dormidas, mas eu estava pouco ligando pra isso.
O plano... A minha vida se resumia a um plano, desde que Jonathan havia ido embora... E eu realmente não tinha certeza de nada que queria ainda, mas... Eu estava estagnado. Talvez, não exista nada pior na vida do que estar estagnado... Parado no meio do tempo e do espaço, como se sua vida não tivesse nem uma gota de sentido mais. E acho que chega de pensar assim, já estava mais do que na hora de eu sair dessa posição de “ponto-morto” e guiar minha vida... Não, isso não significava que eu deveria esquecer todo o plano e pensar na vingança... Afinal, eu reconheço que eu preciso saber o que o Yuri fez para esconder tudo aquilo do Jonathan e óbvio, saber como usar aquilo ao meu favor e acabar com a vida da vadia loira, mas eu também devia parar de ser tão centrado num único que ser, que não está centrado em mim... Jonathan! Desde que foi embora os meus dias se resumem a pensar, remoer e repensar sobre um loiro alto que não está mais ligando pra minha vida... Enquanto eu estava em ponto-morto, Jonathan estava com a na quinta marcha e acelerando... Indo e seguindo e eu estagnado...
Molhei as mãos e joguei no meu cabelo e rosto, a água geladinha da torneira deixou todos os meus fios caídos sobre a testa e mesmo que aquele visual fosse super ridículo, eu achava bonito, ter os cabelos lisos e bem negros, escondendo um pouco o rosto. Às vezes, o topete me cansava e... A quem eu queria enganar? Era óbvio que o assunto cabelo era o menor dos meus problemas. Saí do banheiro e voltei ao quarto. A cama estava lá... Pra mim, fazia tanto tempo desde que Jonathan havia se deitado ali pela última vez. Nem pensei em deitar ali, resolvi apenas descer e voltar ao quarto.
Era óbvio que o meu medo era ficar sozinho... Quem não tem esse medo afinal? Com Jonathan longe, tudo tinha ficado mais complexo na minha vida, Jonathan não era uma boa companhia no geral, ele nem sempre era carinhoso e seus sentimentos por mim até hoje são duvidáveis e bem, agora era que eu não conseguiria nada de sincero com ele... Com ele lá no norte do globo e eu aqui, no sul... João era a única pessoa que estava do meu lado naquele período. Luck era um bom amigo, mas eu creio que o relacionamento com o melhor amigo dele deveria ser algo muito bom, afinal nos falávamos pouco. E João agora estava se encaminhando dentro do plano, mas como eu não poderia ter pensado que aquilo é uma faca de dois gumes? A possibilidade de Yuri gostar de João é tão válida quanto à de João gostar de Yuri...
Sentei na cadeira do computador no meu quarto e fiquei pensativo. Tão pensativo que só percebi que o dia amanheceu quando a minha mãe veio entrando no quarto para me acordar para a escola.
–Ué, filho... Já acordou? –Perguntou indo até onde eu estava.
–Sim, faz pouco tempo... –Falei tentando não preocupá-la. –Já vou me arrumar!
[...]
Era sábado pela manhã. Havia passado poucos dias e eu ainda não tinha tido outras notícias de João, se ele havia falado com Yuri novamente ou se o próprio Yuri havia ido atrás dele. Eu não queria saber por enquanto... Na escola, Yuri não me perseguiu, se quer havia o visto... O que era... Bom? Não sei, nada que aquele garoto faz ou não faz é bom.
Paulo havia falado com Jonathan outra vez durante aqueles dias, mas eu não estava em casa no momento, só soube no jantar e pelo que Paulo falou, ele nem perguntou por mim ou por minha mãe... Realmente, outro país estava fazendo bem a ele.
–Paulo... Tira todos esses papéis da mesa! Eu já vou colocar o almoço! –Minha mãe brigou, ela estava bem estressada hoje. Vai ver é aquela coisa de TPM. Paulo estava lendo um processo sobre a mesa e era muita coisa. –Hassan, vem comer! –Ela gritou alto e eu estava apenas na sala, que era ali pertinho. Ela estava mesmo estressada.
–Mãe, eu tô aqui! Se tiver um Hassan em qualquer lugar do bairro, com certeza ele vai aparecer aqui para almoçar...
–Engraçadinho...
–Has... Me ajuda a levar esses papéis pro escritório?
–Claro! –Peguei algumas pastas com Paulo e fomos juntos até o escritório, antes de sairmos Paulo fechou a porta e sentou-se na cadeira passando a mão pelos fios loiros. -É... Aconteceu alguma coisa?
–Has... Eu esqueci o aniversário da sua mãe ontem! –Falou Paulo preocupado. Felizmente, eu não havia esquecido. –Ela está louca comigo por causa disso, percebeu?
–É... Percebi, ela até gritou comigo e isso é bem raro... –Falei e ele levantou novamente, mas sem tirar as mãos do cabelo.
–Toda essa história da minha mãe doente em outro país, do meu filho lá... Isso está me deixando doido, até no trabalho enfrento problemas...
–Você deve ser sincero então, Paulo... Olha, minha mãe é uma pessoa muito compreensiva... Você poderia... É...
–O ALMOÇO TÁ NA MESA! –Dona Gabriela gritou, mais uma vez... Realmente ela está bem alterada.
–JÁ VAMOS MÃE! –Gritei em resposta e continuei falando com Paulo. –Você poderia sair hoje à tarde, comprar um bom presente, reservar um jantar num restaurante e pedir desculpas... Minha mãe, mais do que ninguém, sabe o que você tá passando... Toda essa situação do Jonathan e tal, ela vai compreender e perdoar...
–Eu sei que você também sente a falta de Jonathan... –Engoli as palavras. Paulo sabia de algo entre eu e Jonathan... Não, era impossível. Minha mãe não falaria e nem ele aceitaria tão bem. –Dá para ver que vocês estavam se tornando bons amigos...
–É...
–Acho que vou utilizar sua ideia... Tomara que ela me perdoe mesmo...
–Claro que vai!
–Você é incrível, Has. –Paulo me puxou para um abraço, o que foi bem... Diferente. Um abraço apertado e com um calor diferente... Um calor de pai... –Eu amaria ter conhecido sua mãe naquela época e eu não acho que eu teria a engravidado tão cedo, mas eu adoraria ser seu pai de verdade...
–Ah... Obrigado... Paulo... Você é um ótimo pai para o Jonathan... E com certeza, seria pra mim...
–Eu me acho um pai muito incompleto, Hassan... –Eu senti a voz do maior embargada, mas não conseguia olhá-lo, talvez por vergonha, afinal meu corpo estava bem preso naquele abraço apertado... – De qualquer forma, vamos voltar logo? Quero evitar maiores conflitos.
E assim, eu e Paulo saímos do escritório e fomos até a mesa de jantar, onde o almoço estava posto. Era sempre tão chato ter um lugar vazio...
O almoço foi bem calmo e silencioso. Minha mãe não estava falante como sempre e Paulo parecia realmente arrependido de ter esquecido o aniversário dela, além do recente momento íntimo de pai e filho que tivemos.
Depois do almoço resolvi que era melhor dormir um pouco, chega de pensar tanto e não fazer nada. Pelo menos dormindo eu me desligava do mundo e de mim mesmo. E durante o entardecer recebi uma ligação que era no mínimo inesperada...
-Oi Has...
–Alô? Luck?
–Oi... E ai, como tá?
–Numa boa, vivendo com o tédio do sábado e você?
–Bem também, quer vir aqui em casa?
–Na sua casa?
–É... Traz umas roupas e vamos sair. Você anda meio retraído e seria legal sair, já estava planejando sair com o Midas e ele topou te chamar. Vamos a uma boate na cidade vizinha.
–Uma boate? –Uma boate seria algo legal e novo pra mim, mas... -Não sei ao certo...
–Relaxa, meu tio é o dono, não vamos nem pegar fila.
–É... Ok então.
–Te passo pra te pegar, você pode se arrumar aqui em casa, pode ser e eu... Quero te falar algo também...
–Tudo bem, você passa em dez minutos?
–Ok, até já...
–Até.
Avisei a minha mãe que iria dormir fora e ela foi bem compreensiva, a raiva já tinha passado, agora ela parecia apenas decepcionada com o fora que o marido dera. Arrumei uma mochila com algumas roupas legais para a tal boate e poderia ser uma noite divertida. Paulo havia saído, possivelmente para comprar um presente e reservar o restaurante.
–Amanhã eu volto, tá mãe?
–Ok, bebê... –E logo a buzina do carro que Luck dirigia foi ouvida e eu me encaminhei para a saída.
Entrei e Luck usava uns óculos escuros, uma camiseta preta e jeans, devido ao calor. Midas não estava com ele, ou devia ter ficado na casa do loiro ou só nos veríamos na noite.
–Carro legal... Novo?
–Do meu irmão, como ele está sem poder usar, está comigo... –Durante meu namoro com Luck eu havia ouvido pouco sobre o irmão dele, sabia apenas que se chamava Miguel, que era moreno, diferente do irmão e que era um problemático. –Pegaram ele com as drogas, sabe? Meu pai ficou transtornado...
–Imagino...
–Você vai adorar a boate gay do meu tio...
–Seu tio tem uma boate gay?
–Não uma só... –Luck foi acelerando e pegando ruas pouco movimentadas para que chegássemos logo, felizmente morávamos no mesmo bairro e com poucas quadras de distância. –Ele tem muitas e em vários estados... Ele diz que é bom mercado pra ele, já que ele gosta de trabalhar a noite e não durante o dia.
–Mas ele é gay?
–Não... Mas sabe sobre eu, assim como meus pais... Ele me dá muita força, até.
Luck foi entrando pelo portão grande e logo estacionou perto do carro dele e de outro carro. Saímos e entramos na casa pela entrada principal. O pai de Luck estava sentado na sala de estar lendo um livro e sorriu para mim, afinal ele me conhecia.
–Vou pegar algo na cozinha, vamos?
–Ok... –Caminhamos até a cozinha e Luck abriu o armário para tirar alguma coisa de comer. E logo um garoto moreno e muito magro entrou na cozinha. Ele tinha cabelos bem bagunçados e olheiras bem fundas. Parecia viver numa situação deplorável.
–Ué, trocou de bichinho, Lulu? Ou melhor, de bixinha?
–Ahh, esse aí é o Miguel, Has...
–Cadê o Mid? –Falou caçoando e logo Luck agarrou o pescoço do irmão e empurrou para a parede. Miguel era mais alto, mas parecia mais debilitado. –Vai me bater, irmãozinho?
–Qual é, Miguel? Vai tentar estuprar o Has assim como tentou fazer isso com o Midas?
–Você não sabe as merdas que fala... –Miguel empurrou o irmão. –Seu namoradinho que estava me dando bola!
–Vai ao inferno! –Luck comeu aquilo que tinha pegado do armário e logo agarrou meu pulso para que fossemos para seu quarto.
O quarto de Luck parecia igual a quando namorávamos o que já faz alguns bons meses... A mesma bagunça, as mesmas cores, o mesmo computador no mesmo lugar. O loiro deitou-se sobre a cama e eu coloquei a minha mochila com algumas roupas ali perto no chão.
–E você queria me falar?
–Ah... –Luck levantou. –Has, senta... –Sentei na cama e Luck me encarou, com os fios loiros bagunçados e os belos olhos verdes. –Olha... Eu fui jantar com o Midas, dia desses e pela nossa infelicidade acabamos por topar com o Yuri no mesmo restaurante, mas ele não estava sozinho... Ele tava com aquele seu amigo motoqueiro... João...
–Ahh... –Me espantei de verdade, o que foi útil... Então Midas e Luck sabiam que João estava saindo com Yuri, mas bem... Seria confiável contar a Luck sobre o plano? Talvez sim, mas talvez não... Seria arriscado para mim, envolver novas pessoas nessa ideia... Luck poderia ser de confiança, mas muito possivelmente ele falaria tudo aquilo para o Midas e bem, aí já seriam mais duas pessoas envolvidas... Era arriscado demais, além do que, o plano envolvia toda a história do falso homicídio. –Então... João está saindo com o Yuri? –Perguntei como um leigo no assunto.
–É... Achei que você soubesse.
–Yuri comentou, mas não acredito em nada que ele particularmente fala...
–Pois é... –Luck baixou a cabeça e suspirou forte. –Vamos deixar esses dois de lado? Hoje nós vamos sair e vai ser bem divertido, você vai curtir a boate...
–Eu espero...
[...]
Já era noite... Por volta de dez horas, eu estava terminando de deixar meu topete levantado e estava dando trabalho. Luck havia tomado banho no banheiro social e já estava na porta do banheiro do seu quarto, batendo para que eu saísse.
–Vai demorar? Mid já chegou...
–Tô saindo, meu cabelo tá atrapalhando a minha vida... –Falei, saindo do banheiro com o cabelo melhor que podia.
Luck estava com o cabelo meio penteado e meio bagunçado, usava uma camisa xadrez e um jeans bem despojado, Midas usava um jeans escuro e uma camisa branca sem nada escrito ou desenhando e uma pulseira bonita que eu gostei muito. Eu tinha levado uma camisa preta e uma calça azul escuro que havia comprado há pouco tempo, além do clássico topete.
–Pronto, preparados? –Falou Luck abraçando o namorado.
–Ele não tá aqui?
–Trancado no quarto, felizmente... –Não sabia quem era ele, mas presumi que era o irmão mais velho de Luck. Era assustador saber que ele havia tentado estuprar o namorado do loiro. Como existem pessoas doentes no mundo... –Vamos logo, vai valer a pena...
Nós encaminhamos até a parte de fora de casa, Luck entrou no próprio carro e Midas foi ao lado dele e eu sentei no banco de trás. A cidade vizinha era cerca de 50 quilômetros de distância, então não demoraríamos muito a chegar lá. Durante o percurso, fomos conversando banalidades desinteressantes e tiveram alguns assuntos que apenas o casal entendia, como a partida de vôlei que jogariam na próxima semana. A cidade vizinha era tão grande como a nossa, mas tinha algumas particularidades diferentes, por ser mais velha.
Tinha uma história mais antiga e por isso um centro histórico mais rico, além de áreas culturais mais ricas. Como teatros, cinemas do século passado, igrejas grandes. Já a cidade onde morávamos era mais nova, não tinha tanta riqueza cultural, afinal ela havia crescido como polo industrial, principalmente.
Luck dirigia pelas ruas do centro da cidade até chegarmos à zona onde estava concentrada a maioria de boates. Era interessante ver como a cena gay era tão noturna. Comparada com as outras ruas, aquela estava sendo a mais cheia e tinha alguns prédios com um aspecto novo e cheio de fachadas luminosas e de cores vibrantes. Deveria ter cerca de cinco boates só naquela rua. Luck se encaminhou para um estacionamento e logo todos nós descemos e o loiro nos guiou até a boate que iriamos.
No caminho era divertido ver toda a diferença de homossexuais. Tinha alguns fortões com camisetas minúsculas e pareciam nem sentir frio assim, tinha alguns gays mais magros e com roupas curtas. Alguns até com peças femininas e maquiagem, embora conservassem um cabelo masculino e aparência de garoto. Também tinha algumas travestis e transexuais ali. Algumas até se confundiam com mulheres biologicamente nascidas. Alguns nerd’s, alguns hipster’s...
Nós encaminhamos para a fila da maior boate dali. Seven Sins era o grande letreiro que indicava o nome, tinha duas grandes entradas. Uma para a fila da pista e outra para o camarote. Ambas com filas organizadas e alguns seguranças na porta. A fachada era toda preta e apenas as luzes brilhantes com o nome clareavam um pouco aquela fachada. Luck se encaminhou para a fila do camarote e logo o segurança lhe sorriu e fez com que ele adentrasse na frente de todos. Alguns acabaram reclamando, mas o segurança gritou pedindo ordem novamente.
Ao entrarmos tinha poucas pessoas ainda. A maioria estava pegando bebidas no bar, para se encaminharem para a pista de dança. No térreo tinha um ambiente bem amplo, onde tinha um grande jogos de luzes e um piso diferente do resto da boate. No lado esquerdo tinha um bar enorme com cerca de cinco atendentes e várias pessoas comprando bebida, mais ao fundo tinha alguns sofás e mesas aonde já tinha algumas pessoas sentadas, seja conversando ou se agarrando. O público masculino era a grande maioria, mas era possível ver algumas mulheres acompanhando de outros homens ou de outras mulheres. Parecia que o ambiente era majoritariamente de gays homens, mas existiam alguns casais homo femininos e até heterossexuais. Perto daquela área mais calma, tinha uma grande porta preta, que Luck havia me dito ser um lugar os casais iam para se pegar e por vezes, sexo e ao lado da porta a escadaria que levava ao andar de cima.
–E então, gostaram do lugar? –Perguntou Luck que voltava com três copos com alguma coisa dentro. –Meu tio me falou que essa cidade é muito boa pros lucros, ela tá pensando em aumentar...
–Muito legal aqui... Mas e a outra pista? –Perguntou Midas e logo tomou um gole da bebida.
–A outra pista, a gente tem que ir pelos lados dos sofás, tem uma porta ali ao lado que liga aos banheiros e uma saída de emergência... -Tomei um gole daquele líquido meio branco e nossa... Que coisa terrivelmente forte... Fiz uma careta e Luck riu. –Calminha ai, isso aí não é Coca-Cola não! –Ele riu e tomou outro gole, percebi que aquilo se bebia rápido, sem sentir o gosto. O segundo gole eu fiz isso e foi bem menos terrível.
–Vamos dançar? –Midas puxou Luck pra pista de dança e eu acabei acompanhando o casal, mas sempre mantendo uma distância dos dois.
Eles como a maioria dos casais pareciam se comer dançando na pista. Afinal, aquele ambiente era definitivamente aberto a aquilo, uma caça. Midas segurava firme no pescoço de Luck, como se aquilo deixasse claro a todos os outros que o loiro estava acompanhado e o loiro também demonstrava aos outros que Midas estava com ele, afinal Luck não largava a cintura do namorado. Era perceptível que os não-acompanhados ficavam encarando os rapazes e talvez, ainda pelo pouco álcool, nem todo mundo ainda estava se pegando por ai. As músicas eletrônicas tocavam com batidas altas, do lado do camarote tinha a cabine de Dj’s, onde uma moça loira com um undercut ficava mixando e cantando alguma parte da letra daquela música.
O som era muito bom e audível e as pessoas dançavam como se o outro dia o mundo fosse acabar e bem, como ninguém parecia ligar com o que os outros faziam, eu me senti mais livre para dançar e não ligar tanto para que os outros fizessem e isso foi bom afinal, consegui me soltar e ninguém me julgou por isso.
Depois de algumas músicas e um pouco de cansaço, resolvi ir até um dos sofás vazios e sentar. Midas bebia alguma coisa sem parar e ria de algo que Luck lhe contava no ouvido e Luck havia tomado apenas uma dose de vodca no começo da festa, afinal, ele seria o motorista. Toquei meu celular e comecei a mexer, até sentir o sofá rebaixar ao meu lado com o peso de alguém, que eu imaginei ser o Luck ou Midas. Era de um cara, mas de um cara desconhecido. Um cara alto e com olhos castanho-escuros, cabelos cacheados e uma cara de alguém que não estava muito sóbrio.
–E ai, gato? Tá sozinho...
–Vim com uns amigos... Vo-você tá bem?
–Ahh, tô sim... –O cara passou a mão pelos meus ombros e meio que apertou com força. –Ei, cara... Tá vendo aquela porta ali... Sabe, lá tem umas coisas legais e eu tô precisando de uma forcinha aqui embaixo, sabe? Meu amigo tá querendo relaxar. –E com a outra mão ele apertou o membro que parecia bem excitado naquele momento.
–Olha, cara...
–O deixa em paz ai, mano! –Luck falou perto do sofá, com uma expressão nada boa e eu logo olhei para onde Midas estava, que parecia procurar pelo loiro. –Ele é meu amigo e não tá querendo se divertir contigo não...
–Qual é, cara! –O desconhecido levantou. –Eu vi você com um moreninho na pista... Deixa o garotinho aqui, que eu dou conta do recado. –O cara se aproximou e Luck não deu o pé atrás, apenas encostou a testa na testa do outro.
–Ele tá de boa, deixa o meu amigo de boa...
–Vai pra outra pista... –Ouvi Midas sussurrar no meu ouvido e ele não parecia satisfeito. Fiz o que ele pediu, embora meio hesitante, e bem o resto foi, apenas Midas puxando Luck de um soco que o desconhecido partiu para dar e logo a segurança apareceu.
Luck ainda quis revidar, mas Midas atrapalhou se metendo no meio e pela expressão, ele não estava feliz com o namorado. Bem, antes que a minha noite se tornasse melhor impossível, na nova pista. Onde tocava reggae e as pessoas estavam bem menos animadas que na pista de eletrônica, eu acabei esbarrando com alguém bem indesejado... E não, não era Yuri.
–Vinícius? –Falei ao perceber que esbarrei no moreno que estudava na minha escola e era amigo dos outros dois.
–Olha aí, o Hassanzito! –Falou o moreno me segurando pelos ombros. Os olhos dele estavam bem alterados.
–O que você tá fazendo por aqui?
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