I Hate You Too!
25 XXV- Dois Beijos
Notas iniciais
Minha mãe e Paulo chegaram muito tarde, devia ser quase uma da manhã e João havia saído dali a pouco tempo, ele me contou com mais detalhes como foi o encontro com Yuri no meio da rua e para onde ele iria o levar essa noite. Mamãe chegou meio alterada, talvez possivelmente bêbado e Paulo estava também meio alto...É né? Um delegado e uma advogada também infligem as leis, não é mesmo?
–Vou ver o Has! –Minha mãe falou da sala, eu estava em pé perto da porta ouvindo tudo. Ouvi um barulho como se ela tivesse tropeçado em algo e logo os dois começaram a rir.
–Ele tá dormindo, amor... Vamos pro quarto! –Ouvi um beijo estalado e mais risadas... É parece que eles estavam meio bêbados mesmo.
–Só vou dar um beijinho nele...
–Vem dar um beijinho em mim! –Paulo reclamou e logo mais risadas. –Vamos por quarto? –Abri a porta de leve e vi que os dois estavam próximo de subir as escadas. Minha mãe já estava sem salto alto e Paulo com a camisa toda amarrotada. As mãos dele prendiam minha mãe em seu abraço e as bocas dos dois estavam bem próximas...
Foi inevitável não imaginar a mim a ao Jonathan ali. Jonathan parecia muito com o pai e eu querendo ou não tinha muitos traços da minha mãe.
–Vem, vamos dormir! Vem deitar com o seu tigrão! –Paulo sorriu galanteador e minha mãe gargalhou.
–Eu... Eu não devia ter te dado esse apelido...
–Eu enlouqueço sempre que você me chama de tigrão. –As duas mãos de Paulo apalparam a bunda da minha mãe e eu acabei fechando a porta, em choque, antes que as coisas esquentassem ali mesmo.
–Vamos dormir então, meu tigrão! –Logo depois disso teve mais risadas e esbarros durante a subida nas escadas.
Resolvi tentar tirar aquela cena da minha cabeça, afinal querendo ou não, os dois eram meus “pais” e era meio tenso imaginar seus “pais” transando. Fui deitar, afinal no outro dia iria ter aula de manhã e como eu bem esperava, Yuri iria se sentir, iria vir até mim e iria se vangloriar por estar quase saindo com o João, ao qual ele acreditava ser meu ex. Aquela vadia loira iria se arrepender.
[...]
Intervalo, a hora em que todas as turmas se encontrariam e o Yuri encheria minha paciência. Estava lá, sentando numa mesa junto com Camila, que estava com o cabelo castanho, ela até que estava sobrevivendo bem sem o Jonathan, algumas pessoas até andavam dizendo que ele estava com outro jogador de futebol, que eu nem tenho ideia de quem seja.
Midas e Luck estavam com o time de vôlei, conversando e rindo, como sempre. O namoro dele não poderia ir melhor, os dois sempre estavam juntos e se mantinham cúmplices. Vini estava ali perto também, mexia no celular incessantemente e parecia bem entretido nessa atividade, incrível como ninguém se incomodava com isso, parecia que aquilo era tão normal que ninguém ligava.
–Que chato o professor de português ter pegado no seu pé, Has... Você é sempre tão bom com a gramática! –Camila falou terminando de beber seu suco. Ela falava sem parar e eu só concordava ou dizia apenas o necessário, ela já até havia percebido esse tipo de atitude de minha parte.
–Ahh, nem liguei... Poxa, eu só não estava prestando atenção na droga da aula dele, o que isso tem demais, metade dos alunos não presta atenção e ele não encara como problema.
–Que chato não é, Hassanzinho! –Ai Deus, aquela voz... Tava até demorando. Virei para o lado e vi Yuri, com o seu sorriso fingido e os cabelos voando e aquela carinha de menino bonzinho. –Oi Camila...
–Olá Yuri...
–Você não quer ir dar uma voltinha, não? Sei lá, procurar algo o que fazer, eu quero conversar particular com esse estúpido aqui.
–Não... Não vou deixar o Has aqui sozinho!
–Vaza logo, menina! –Yuri sentou em outra cadeira na mesma mesa, estávamos frente a frente agora. –Ainda não sumiu daqui? –Ele quase gritou, o que deixou Camila temerosa.
–Vai, Camila... Eu quero ver o que ele quer... –Camila levantou e logo saiu se encaminhando para um grupo de garotas um pouco longe. Yuri permanecia me olhando, no olho, com o sorrisinho vitorioso de sempre. –Por que me enchendo?
–Hahaha... –Gargalhou falsamente. –Ai, você é uma das pessoas que eu mais adoro irritar, sabia? Sei lá, você é sempre tão... Atingível...
–Por que você não fala logo há que veio?
–Como estão os dias de solteiro? Ainda de luto por que o seu loirinho viajou e o seu moreninho agora não liga mais pra você?
–Ahh, faça-me o favor... Agora você quer vir falar de pessoas que não fazem mais parte da minha vida, o que eu ganho sabendo delas? –Ameacei levantar pondo as duas mãos sobre a mesa, mas ele segurou meu pulso.
–Você não quer levantar!
–Você não sabe das minhas vontades! –Falei logo em seguida, ele permanecia segurando meu pulso e me olhou friamente.
–Sabe, o Jonathan está nos Estados Unidos, mas um corpo é um corpo... E não é por que ele está longe que ele não deixou de ter matado aquele garoto! –Alarmou ridiculamente alto, felizmente não tinha ninguém perto e todo mundo estava preocupado demais com seus problemas.
Aquilo era um golpe, era óbvio que ele queria me controlar com a história do corpo, mas ele não sabia que eu já havia desenterrado, literalmente, toda essa história. Resolvi então brincar o joguinho dele e voltei a me sentar.
–Melhor assim!
–Por que você veio me irritar mesmo?
–Não sei se você soube dos últimos acontecimentos...
–Relacionados a você? Prefiro continuar sem saber!
–O seu ex-motoqueiro e namorado, agora anda dando bola pra mim, acredita? –Ele me olhou com a cara de vitorioso e parecia realmente que ele estava caindo na lábia de João, fiz a minha melhor cara de espanto para demonstrar que estava tão surpreso com a notícia e digamos que ele caiu como um patinho.
–O que te leva a pensar que ele é meu ex-namorado? Nunca nem o beijei.
–Agora quer tirar o seu da reta? Não se faça de fingido, árabe estúpido. Todo mundo sabe que vocês se pegaram...
–Você é doente...
–Ele mesmo assumiu! –Interrompeu-me e eu acabei chocado com aquela afirmação, talvez minha expressão sincera de choque tenha sido bem valorizada, aliás.
O sinal de retorno às atividades escolares soou e aquilo ocasionou o nosso fim de papo. Levantei-me, mas Yuri segurou meu antebraço novamente.
–Nosso papo não acabou!
–Vai curtir o seu novo brinquedinho motorizado! –Puxei meu braço com força e comecei a caminhar de volta a sala de aula. Como Midas e Luck se separavam por estudar em turmas diferentes, Luck se aproximou de mim e tocou meu ombro.
Ele aparentava estar assustado com uma expressão de dúvida, talvez por medo de que eu acabasse saindo no braço com o Yuri, o que eu queria muito, ás vezes.
–Has... Tudo bem? Você parece meio transtornado! –Continuamos caminhando lado a lado. Yuri já ia bem mais à frente, Midas e Vini voltavam juntos também, só que atrás de nós.
–Aquela... Coisa loira que me enche a paciência! –Reclamei e continuamos andando, subindo as escadas e indo até as salas. –Que aula é agora? Esqueci meu horário de aulas em casa.
–Biologia, uma porcaria...
–Eu curto biologia, vamos entrar logo antes que a professora reclame de atrasos! –Comentei e logo entramos, pouco tempo depois Camila chegou e ficamos conversando nós três até a professora entrar e tomar a nossa atenção.
[...]
(POV: LUCK)
Depois do dia cheio de aula e um treino de vôlei pesado, eu tinha chamado Midas pra jantarmos fora, afinal era bom sair com o seu namorado, não é? Era meio surpresa, afinal eu só disse que ia passar na casa dele em nenhum momento falei que íamos jantar fora. Era um jantar casual, num restaurante de comida italiana bem legal que eu conheci há poucos dias. Havia acabado de chegar à casa de Midas e o seu pai foi quem atendeu.
–Boa noite, sogrinho... O Mid tá?
–Tá lá em cima, Luís Gustavo. Está tão arrumado, vocês vão sair? –Perguntou olhando pras minhas roupas, eu não estava tão arrumado, só não estava tão desarrumado como eu costumava estar quando ia para a casa do meu namorado.
–Vamos jantar fora... Algum problema? –Perguntei antes que ele me aparecesse com alguma surpresa.
–Não, tudo bem, filho... Contanto que vocês voltem cedo, eu prefiro vocês dormindo aqui do que em qualquer motel por aí. –Falou e eu segui até o quarto de Midas antes de responder qualquer coisa, afinal era meio constrangedor falar dessas coisas com o pai do seu namorado, não?
Subi as escadas da grande casa do psicólogo e logo cheguei em frente à porta do quarto do Midas. Abri sem bater e encontrei o belo moreninho deitado e dormindo. Tinha roupas jogadas por ali e ele parecia um anjo, dormindo apenas de cueca e camiseta preta.
Ele dormia de bruços, com os cabelos pretos bagunçados sobre o travesseiro e seu corpo se mexia devagar e ele respirava devagar. A janela estava aberta e entrava um vento forte, se ele continuasse ali por mais algumas horas, com certeza, ficaria resfriado. Fui até a janela e a fechei sem fazer muito barulho. O cobertor estava mais no chão do que na cama.
Caminhei lentamente até a cama e me ajoelhei com cuidado no pequeno espaço que tinha entre o moreno e o resto da cama, me inclinei sobre o seu corpo, retirando os seus fios do seu rosto e dei leves beijos em sua bochecha.
–Amor... Acorda... –Disse entre beijos, aos poucos ele foi mexendo, mas não abriu os olhos. –Você está acordado... Abre os olhos, pare de se aproveitar dos meus beijinhos... –Reclamei dando um beijo mais demorado na bochecha e ele abriu os olhos.
–Bem que eu poderia ser acordado assim todos os dias, não? –Ele virou ficando de barriga pra cima e o ereção saltada na cueca, demonstrando que ele havia acabado de acordar.
–Eu que poderia cuidar disso todas as manhãs, não? –Falei segurando seu membro e dando um leve aperto. Midas se contorceu na cama, porra, como ele conseguia ser sexy com tão pouco.
–Por que tão arrumado? –Perguntou olhando para minha roupa. –Sapatos, calça jeans e polo? Você nunca vem pra cá assim, vai sair?
–Vamos sair... Nós dois!
–COMO ASSIM, LUCK! –Midas levantou rápido e eu gargalhei. Era de se esperar que ele tivesse aquela reação louca e histérica. –Para de rir, eu estúpido... Você não pode chegar assim, dizendo que vamos sair do nada! Eu nem me arrumei, nem sei o que usar, nem sei pra onde vamos... Pra onde vamos? –Falou me olhando tirando a camiseta e ficando apenas com a cueca.
–É surpresa. –Levantei-me e abracei seu corpo... –Relaxa, vamos só comer fora, não vamos pra nenhum tapete vermelho do Grammy! –Beijei sua bochecha e ele suspirou baixinho.
–Só você mesmo! -Trocamos um beijo apaixonado e Midas se encaminhou para o banheiro.
Segundo ele, ele precisava de um bom banho e pensar em que roupa usaria, apesar de ser um jantar bem normal, eu sabia que ele iria querer ir super produzido e pensaria sobre o que usaria. Midas nem era tão vaidoso, mas depois que começamos a namorar, ele começou a se importar mais sobre o que vestir e sobre como apareceria para as pessoas, já eu não ligava tanto pra isso.
–LUCK, ME FALA PRA ONDE VAMOS! –Gritou de dentro do banheiro e logo abriu a porta do banheiro, saindo todo molhado e com uma toalha.
–Nós vamos apenas num restaurante, Midas. Relaxa! –Ele entrou no closet e eu saberia que demoraria três séculos para sairmos.
[...]
Depois de experimentar cerca de quatro trocas de roupas diferentes. Midas decidiu ir com a primeira que havia experimentado... Isso era revoltante, mas ao mesmo tempo hilário, o ver suspirando irritado com as roupas...
–Sério, como você me deixou vir assim? –Perguntou irritado, já estávamos no restaurante e já tínhamos até feito o nosso pedido. –Essa camisa branca está horrível e essa lavagem desse jeans está estragando tudo.
–O que você queria que eu dissesse?
–Algo diferente de “você está lindo, amor.” todas as roupas que eu experimentei você disse exatamente a mesma coisa. Até parece que nem liga pras roupas que eu visto.
–O que eu posso dizer se você estava lindo em todas mesmo? –Falei segurando sua mão sobre a mesa e logo ele ficou vermelho.
–Você que é um exagerado...
–Eu sou sincero! Sempre fui! –Comentei e logo rimos. O jantar era só uma forma de fugir da rotina, afinal eu quase sempre ia pra casa de Midas, ficávamos lá e não saia muito disso e eu não queria que nosso relacionamento caísse na rotina tão rapidamente. Já que nos vemos todos os dias é melhor eu ser criativo e arrumar formas de sair. Midas de repente perdeu o sorriso e ficou olhando para o restaurante. –O que foi?
–Seja discreto... Olha quem está sentando naquelas mesas ali perto da janela da esquerda... –Esperei alguns segundos antes de olhar e virei meu corpo para ver.
E não era que o Yuri frequentava algo não tão chique assim? Poxa, o restaurante que estávamos era lindo, limpo e muito bem administrado, mas estava longe dos grandes restaurantes que o loirinho era acostumado a frequentar. Pelas colunas sociais, a família do loiro só ia a restaurante francês caríssimo. Tão chocante quanto esse fato é ver com quem que ele está. O tal amigo motoqueiro do Has... João, se não me engano, e bem os dois conversavam, como estava longe não dava para ouvir, mas pareciam bem íntimos.
–Luck... –Senti a mão de Midas segurando o meu queixo. –Chega de olhar, ele vai perceber... E é ótimo que o Yuri esteja com alguém, que assim ele larga de nos azucrinar.
–Você tem razão, vamos continuar nosso jantar...
–Aquele cara é o amigo do Hassan?
–Sim...
–Será que ele sabe que o amigo dele também é amigo dessa vadia, talvez o Has esteja sendo enganado, não Luck? Pode ser que esse carinha esteja sendo pago pelo Yuri, você não acha?
–Eu vou sim falar com o Has... Agora vamos jantar, amor... –Falei tentando o fazer esquecer o Yuri e o amigo do Has que agora parecia amigo do Yuri.
[...]
(POV: JOÃO)
Yuri primeiramente olhou feio para a fachada do restaurante e quase não quis descer da moto, além de ele ter feito cena de irmos de moto ao restaurante, por que ia desarrumar todo o seu cabelo por causa do capacete e um monte de outras coisas. Cada vez mais eu penso em me livrar desse moleque e dizer pro Has que não, não rola, mas só de pensar que o Has pode acabar pensando em ficar comigo, eu já me sinto menos pressionado a descobrir coisas desse insuportável loiro.
Agora já estávamos dentro. Se ele fosse um pouco suportável seria melhor de falar com ele. Yuri estava lindo, os cabelos bem penteados, o rosto lisinho, uma camisa comum preta e uma calça jeans bem colada que marcava bem o corpo bonito que ele tinha. Eu sempre fui fã dos magros e o Yuri era um belo garoto, assim como o Has.
–Huum... Espero que esse lugar não me decepcione, bartender... –Ele resmungou e logo sentou numa mesa ali perto da saída mesmo, ao lado de uma janela que dava para rua. Era uma rua pouco movimentada, então não atrapalharia nossa conversa.
–Não vai... –Pegamos os cardápios e começamos a ler e tentar ver o que iriamos pedir. –A comida daqui é maravilhosa, não vai se decepcionar...
–É, já vi que não! –Ele comentou vitorioso e eu olhei para ele em busca de entender. Percebi que ele olhava para duas pessoas que estavam numa mesa mais para o meio. Eram alunos da escola dele e um deles era bem amigo do Hassan.
–Quem são? –Perguntei despretensioso.
–Não te interessa. –Respondeu direto e continuou olhando.
–Você não acha que eles vão perceber que você tá olhando muito, não? –Falei tentando fazer o loiro esquecer aquele outro casal, ele ponderou o que eu falei e resolveu seguir meu conselho.
–Você tem razão, João...
–Ué, falou meu nome?
–Prefere bartender?
–Não... –Ri das respostas rápidas, aquele garoto seria difícil de ser domado. –Só achei que você fosse superior demais pra falar, João... Mas me fala, quem são? –Apontei sem ser percebido pelo casal e o loiro olhou novamente e me olhou, como se ponderasse contar, ele sorriu, sabia que viria bomba.
–São namorados. O moreninho estuda comigo, se chama Midas e o loiro estuda com o Has e é ex-namorado dele... Acho que o Has gosta dos loiros, não? Por isso terminou com ele? Se negou a pintar os fios?
–Eu nunca namorei o Hassan!
–Não foi o que ele me disse hoje! – Suspirei chocado, será que Has havia mesmo dito que tínhamos namorado apenas pra deixar Yuri mais interessado? Ou era um blefe do loiro? Esse garoto é inacreditável. –Luck, o loiro, era piradinho no Has, mas depois que levou uma surra do Jonathan, ele largou o idiota e resolveu se engraçar com o moreninho ali.
–Então eles namoraram mesmo?
–Por que acha que eu mentiria? –Perguntou ainda olhando nos meus olhos, que mania que ele tinha de encarar. –O suspeito aqui é você, não eu...
–Suspeito de que? –Ele olhou de relance e percebeu o olhar do casal.
–Sorri e me dá sua mão!
–O que?
–Dê um sorriso e coloca a porra da sua mão na mesa! –Ele parecia sério na voz, mas estava com um dos seus melhores sorrisos no rosto... Que dissimulado! Vamos lá, João, se tá na chuva é pra se molhar de verdade.
Coloquei a mão em cima da mesa e ele colocou a sua sobre a minha. Sorri e ele permaneceu sorrindo. Um ator, era isso o que ele era. Um puta ator.
–Você é melhor do que eu esperava! –Comentou ainda com o sorriso e logo pegou o cardápio...
Parecia que eu estava começando a ganhar a confiança do loiro e ele estava começando a baixar a guarda, mas como o Has disse, ele põe espiões no nosso encalço no meu definitivamente não será diferente. O loiro lia os pratos e cada vez mais parecia mais surpreso com o que tinha naquele restaurante iniciante. Olhou para o casal novamente.
–Não olha, mas eles estão olhando pra nós...
–Hã?
–Não olha, porra! –Antes que eu virasse meu rosto pra olhar, ele falou isso e eu me concentrei em não olhar. –Agora me beija!
–Hã?
–Eles estão olhando, levanta e me beija, porra!
–Você é louco, seu...
–Faz isso logo, seu idiota!
Levantei-me da cadeira, minha vontade era ir embora, mas não... Não iria, Me inclinei levemente sobre a mesa e dei o tal beijo em Yuri... O beijo mais seco da minha vida, nossas línguas não sabiam para onde ir e ele parecia mais se importar se o casal estava ainda olhando do que se o nosso beijo parecia verídico ou não... Tentei aprofundá-lo, mas Yuri me cortou, dando um tapinha no meu rosto, indicando que chega.
[...]
Já estávamos quase no fim do jantar. O outro casal também parecia que já estava terminando. Yuri me contou um pouco mais sobre os dois. Eram jogadores de vôlei, Luck era quase o pior inimigo de Jonathan, mas eu aposto que na verdade o pior inimigo de Jonathan é ele. Já de algo pessoal dele, não era tão fácil arrancar. O loiro não falava da família, não falava dos amigos e nem dele próprio e me perguntou coisas sobre mim, resolvi me manter sigiloso também e perguntou sobre o Has. Ponderei sobre o que dizer e achei que era mais seguro falar de mim, do que falar do árabe.
–Então você trabalha no clube por que é órfão?
–É... Depois que saí do orfanato aos dezoito, eu precisava de um emprego, afinal eu tenho uma casa que o advogado do meu falecido pai tinha mantido no meu nome e tinha um dinheiro que deu para comprar uma moto. O resto tô batalhando pra comprar.
–E o clube?
–Consegui depois de algumas entrevistas, primeiro como bartender e depois quero ver se consigo alguma coisa melhor... Um instrutor de golfe, sei lá... –O loiro gargalhou alto e me olhou com um sorriso cínico... Maldito idiota.
–Algo melhor como instrutor de golfe? Esses são seus planos pro futuro? Que planos, hein?
–Eu não tenho um papai milionário para me pagar uma faculdade cara pra eu ser alguma coisa de formação... Sem família é o melhor que eu estou tendo, já que eu que me sustento e sem ajuda de nada. Não tenho pensão, não tenho nada... Sou só eu e meu trabalho e eu o acho bem digno...
–Eu só acho que alguém como você merece algo melhor... Por que não pensa em modelar?
–Isso é algum tipo de brincadeira?
–Não, claro que não... –Deu um sorrisinho e logo ficou sério e como sempre, me olhando nos olhos... –Olha pra você... Você é bonito, tem um porte legal, faria sucesso se modelasse para algumas marcas masculinas... Aliás, meu pai tem muitas influências... Se quiser posso conseguir um teste pra você... –Falou e antes que ele começasse todo o papinho de riquinho e aquilo era uma forma de eu me ver eternamente grato a ele, resolvi cortar.
–Não, eu já prometi a mim mesmo que vou correr com minhas próprias pernas e isso significa sem ajuda, senhor riquinho...
–Meu pai me chamava assim quando criança... –E baixou o olhar... Baixou o olhar... A família era algo que talvez machucasse o loiro, até o momento ele estava altivo e falando me olhando nos olhos, mas falar do pai o fez baixar o olhar, seria o ponto fraco dele? –Dizia que eu era loiro e tinha tudo que queria como o Riquinho...
Levei minha mão até o seu queixo e levantei o seu rosto. Os olhos azuis desafiantes estavam meio amedrontados e sem aquele brilho altivo e, por vezes, hostil. Ele me olhou nos olhos dessa vez e acho que consegui reconfortá-lo pelo olhar também. Dei um meio sorriso e ele retribuiu com um igual, porém meio entristecido.
–Eu sinto falta do meu pai... Ele era um cara genial e perdê-lo no mesmo dia que perdi a minha mãe, ambos no mesmo momento, era como uma facada dupla no coração, entende? Mas... Com quinze anos eu tinha que ser adulto, aguentar ser órfão e depois que saí me virar na vida, sem família, sem amigos, sem nenhum suporte... E você me parece tão frágil, como se sentisse exatamente o que eu senti, embora você ainda tenha os seus dois pais...
E como num susto, Yuri se inclinou sobre a mesa e me beijou... Um beijo de verdade, não era o beijo falso que havíamos dado minutos atrás. A língua do loiro se mostrava verdadeira, uma das suas mãos estava sobre a mesa e a outra segurava meu rosto. Seus lábios eram macios e bons de beijar e o garoto parecia afobado demais. Tentei acalmá-lo ao por minha língua dentro da sua boca e ele passou e me deixar comandar, como estava sentado, segurei seu rosto com as duas mãos e ao final do beijo colei nossas testas e ele sorriu de verdade.
–Não vai se acostumando... –E riu no final... Os olhos me encaravam, mas as bochechas estavam avermelhadas... Definitivamente, talvez ele valesse mais do que eu achava.
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