I Hate You Too!
29 XXIX - Ecstasy
Notas iniciais
(POV: Jonathan)
Eu estava cansado dessa cidade maldita. Minha avó continuava no mesmo estado, desacordada. Era incrível a diferença entre os países. Enquanto no Brasil, ela estaria em um hospital toda entubada e desenganada pelos médicos, aqui ela estava numa unidade de terapia intensiva com todos os aparelhos dentro do seu próprio quarto, com atendimento médico dia sim e dia não, atendimento fisioterapêutico todos os dias, exceto domingos, com três enfermeiros que faziam jornadas diárias de oito horas cada, fora que se fosse necessário um atendimento de urgência, uma equipe chegaria em menos de 5 minutos. Talvez por isso meus avós morassem tanto tempo nos estados unidos, a atenção da saúde de idosos era muito diferente da do Brasil.
Era três enfermeiros. O tal Caleb que foi o primeiro que eu conheci, insuportável... Como ele tinha um pai brasileiro falava português super bem e não era possível eu ter uma plena privacidade, já que qualquer coisa que eu fizesse ele entenderia. Nem mandar ele pra puta que pariu eu podia, por que o filho da mãe entenderia. Tinha o Adolf, que era um descendente de alemão com um pai neo-nazista, que era responsável e tímido, só vinha e fazia seu serviço e ninguém reclamava, nunca nem o via direito e tinha o Adam que era o que ficava durante a noite, eu nem o conhecia... Geralmente, ele chegava e eu estava dentro do quarto e quando ele largava, eu estava dormindo.
Nesse momento, era o turno de Caleb e ele devia estar com meu avô no quarto da vovó, ou mexendo no telefone, afinal os enfermeiros ficavam aqui mais por precaução do que qualquer motivo.
Era por volta de uma da tarde aqui... Estava até que fresco hoje, eu estava deitado na cama, esperando o tempo passar... Era horrível ficar num país em que você não conhece ninguém, não tem pra onde ir, não sabe como passar tempo. A TV era até legal, tinha a internet também, mas depois de um tempo, você meio que cansa de tudo.
Resolvi então ligar o computador e talvez papear com algum amigo que tinha deixado no Brasil. Conectei a internet, ao Skype e ao facebook e para minha surpresa, meu pai estava online. O que era muito esquisito.
Como eu tinha saudades do meu velho, mesmo ele sendo muito exigente comigo e mesmo que a gente brigasse pra caramba, eu sentia falta. Sentia falta do meu quarto, dos meus desenhos, do meu carro novo que eu mal tive tempo de ganhar e já tive que viajar pra cá... Do Hassan, se bem que, aquele garoto nem merecia as minhas saudades... Iniciei a chamada com o meu pai e até que ele demorou pra atender. E como Deus era sacana demais, não era meu pai que estava ali... Era aquele árabe ridículo, com os olhos verdes e tão vivos, o velho topete de sempre, a pesar de nem estar montado como ele gostava, o mesmo rosto, o mesmo nariz, aquela boca...
—Oi...—Falou quase que com o sussurro tímido.
—O que está fazendo conectado no Skype do meu pai? Onde ele está? Você não tem vergonha de fazer isso de propósito, Has? –Era normal eu explodir assim. A cara de susto dele não devia tá diferente da minha cara de panaca, mas eu sempre tinha que parecer mais agressivo.
—Eu vim usar o computador do escritório e não sabia que o Skype do seu pai conectava automaticamente... Eu não roubei o Skype de ninguém pra falar com você, não.—Perdi a fala... O árabe não era de ouvir as coisas e ficar na sua, mas pela primeira vez eu senti uma força na voz dele. Ele não estava se escondendo atrás de nada, tinha sido o Hassan que falou aquilo. –Jonathan...
—Você tá diferente... –Não era fisicamente... Hassan estava meio crescido. Talvez tenha sido a perda, ou não... Talvez tenha sido o próprio João, era esse o namoradinho dele, não?
—Você também...
—Cadê meu pai? Sua mãe? –Era bom trocar o assunto
—Estão no trabalho, eu vim pro computador, pra passar tempo, acho que ia jogar League of Legends...—Hassan pareceu desconfortável ao dizer aquilo, então era bom infernizar ele um pouco.
—Nerd desgraçado...
—Idiota.
—Como tá o namoradinho? –A pergunta tinha saído antes mesmo que eu pudesse formular ela melhor, pelo menos eu tinha falado com o tom usual de desdém. O que não deixou com um ar de ciúmes... Eu tinha ciúmes dele?
—Jonathan... Eu não namoro o João... Temos que...
—Hassan... Esquece! Minha avó anda mal, eu nem sei como dizer ao meu pai a situação dela... Muito possivelmente eu só vou sair daqui quando ela melhorar, se ela melhorar ou quando ela falecer... Eu acho que é melhor você seguir em frente, continua com o bartender lá e...
—Você seguiu em frente?
Eu segui? Essa era a pergunta que não queria sair da minha mente. Hassan deve ter ficado com o bartender, não é difícil imaginar. Eu tinha brigado com ele, basicamente eu viajei e o deixei sozinho. Has sempre foi meio fraco. Não era difícil para o tal motoqueiro dar força pra ele, força suficiente pra fazer ele se apaixonar por ele. E eu continuava aqui... Largado num país ridículo, sofrendo por uma situação e pela minha própria cabeça. Talvez...
—Vou ter que desligar...
—Jonathan... Espera!
Eu desliguei... Estados Unidos era meu novo país, Hassan era meu antigo envolvimento brasileiro e agora talvez seja hora de ter um novo envolvimento, não necessariamente brasileiro. Talvez fosse até bom... Ficar com alguém e quando tudo se acertasse voltar ao Brasil e voltar a minha antiga vida e não se lembrar do rolo nos Estados Unidos. E ao voltar ao Brasil? Hassan deixaria de ser um possível passado?
Larguei as porras dos meus pensamentos inúteis na cadeira e me levantei para tomar banho. Seria melhor... Entrei no banheiro e relaxei. Liguei o chuveiro e deixei toda a merda que rondava minha mente ir ralo abaixo junto com a água. Nada de pensar em Hassan mais. Ao sair do banheiro de toalha e tudo, vejo quem eu menos gostaria de ver. Caleb estava sentado na minha cama e mexia no telefone, parecia bem à vontade e eu odiava a petulância dele.
—Confortável? –Falei em português mesmo, ele não merecia nem que eu gastasse meu inglês com ele. –Parece pelo menos.
—Já estive em camas melhores. –Respondeu em português também, sem tirar os olhos do aparelho. –E você? Melhor?
—Melhor? –O que ele queria dizer. –Que merda tá falando?
—O tal... Hassan? É assim que se fala? Parecia bem intimo dele... Sim ouvi sua conversa. –Ri, e não era como sinal de nervoso.
Era como sinal de ódio, eu queria arrancar minha toalha e voar em cima daquele garoto com aparência nativo americana e puxar cada fio do cabelo castanho dele. Aquilo era minha vida e ele a andava invadindo como se eu estivesse na porra de um reality show.
—Você é muito corajoso né? –Falei irritado. Peguei uma calça por ali pelo quarto e uma cueca e invadi o banheiro me vestindo. Caleb me olhou até a parte que eu entrei e esperou eu sair sem tirar os olhos da porta. –Não tem medo de morrer?
—E você me mataria?
—Se continuar invadindo minha privacidade e vida, sim... Posso pedir ao vovô pra te demitir...
—Um moleque mimado como você não faria mais que isso... –Comentou irônico. –Pessoas como você sempre precisam de terceiros, nunca conseguem vencer sozinho. –Ri irritado de novo.
—Cara, você é muito maluco. Vaza do meu quarto vai!
—Você parece sofrer por causa do garoto que estava falando. Ele é bonito? Te traiu? Pareceu que sim...
—Vai bancar o psicólogo agora? –Caleb guardou o telefone no bolso da calça branca e levantou, odiava o fato dele ter a minha altura e sempre parecer tão dono de si, assim como eu. O nativo americano se aproximou e colocou uma das mãos sobre o meu ombro.
—Sabe o que a gente poderia fazer...
—Não vou fazer nada disso com você! –Falei batendo com a mão no antebraço dele, para tirar sua mão do meu corpo.
—Não... –Riu sozinho. –Isso ainda não! –Dessa vez colocou as duas mãos, uma sobre cada ombro e me olhou nos olhos. –Conheço um bar com uma música legal, você precisa se libertar, cara... Vamos tomar umas!
—Quem disse que eu preciso de você pra alguma coisa? –Tirei novamente as duas mãos dele do contato comigo.
—A quem você quer enganar? Você já tá nessa cidade tem um tempo e não conseguiu conhecer ninguém, não tem amigos... A única família que você tem aqui são seus avós, você é jovem e não tem ideia do quanto essa cidade também é! Vamos fazer uma trégua? –Falou estendendo a mão direita. –Você saí comigo hoje e te apresento o meu bar favorito, se você curtir a minha companhia e o bar saímos outra vez. Se você não gostar do bar, mas gostar da companhia, saímos pra outro lugar, se você gostar do bar e não da companhia, vai lá sozinho ou com qualquer outra pessoa que você conhecer. Sério, é impossível você ficar sozinho hoje à noite... Que tal, aceita?
Era uma proposta tentadora pra mim hoje. Sair e conhecer novas pessoas, me enturmar, ser jovem de novo. Vovô ia adorar e eu também ia gostar. Era com Caleb, tudo bem, nem tudo é perfeito, mas ele talvez fosse a minha melhor chance de começar uma nova vida nos Estados Unidos. Se eu saísse sozinho alguma merda poderia acontecer... Definitivamente aconteceria.
—Feito! –Estendi a mão e apertei a mão de Caleb e o nativo americano deu um sorriso de lado.
—Passo por aqui as oito. Até mais tarde, loiro.
Será que eu iria me arrepender disso?
[...]
Caralho, era óbvio que eu iria me arrepender disso. Era a porra do Caleb.
Já era quase oito horas. Eu estava no meu quarto, já pronto. Vovô havia me feito jantar e estava radiante de felicidade porque eu ia sair. Ele havia me dado dinheiro, para caso Caleb não me trouxesse, eu pudesse pegar um taxi e voltar pra casa. Falou que se eu não fosse voltar por algum motivo, ligasse avisando que não teria problema, ele só não queria ficar a noite toda preocupado.
—Você liga, tá Jonathan? –Falou mexendo na minha camisa e passando a mão no meu rosto. Parecia aquelas mães zelosas com as suas filhas na festa de casamento.–Isso me remete tanto... –E logo começou a chorar. –Me faz lembrar-se da festa de formatura do seu pai, ele estava tão feliz. Já estava namorando sua mãe, eles faziam um casal tão lindo...
—Vovô... Não vai passar mal!
—Tá tudo bem, filho. –Falou sentando na minha cama. –Como é sua madrasta, Jonathan?
Dois toques de buzina foram ouvidos do lado de fora, aquilo era minha salvação. Não ia ter que falar sobre Gabriela e nem sobre o Hassan para meu avô, pelo menos não naquele momento.
—Deve ser o Caleb. Tô indo, qualquer coisa eu ligo!
—Sim. –Meu avô levantou e segurou meu rosto, abaixando para sua altura e dando um beijo na minha testa. –Vai sim, meu garoto. Cuidado, tá? Não vai fazer as besteiras que teu pai fez na tua idade!
Ele estava falando sobre engravidar a namorada, mas tudo bem. A última coisa que eu faria era engravidar alguma garota. Desci e fui até a parte de fora da casa. O carro de Caleb era bem comum, mas não deixava de ser um bom carro. Entrei e logo foi possível ver um Caleb bem diferente, dei um meio sorriso.
—Que porra é essa? –Caleb estava com o cabelo preso em um coque alto, os olhos tinham um lápis de olho preto bem delimitado, usava uma camiseta muito cavada e preta e uma calça jeans bem surrada, parecia que aquela calça tinha uns dez anos, numa boa. –Parece um maluco do metal.
—Quem disse que eu não sou, filhinho de papai? –Aumentou o som e deu pra ouvir uma coisa bem underground, algo que eu escutava no dia-a-dia até. E o filhinho de papai, claro que veio pela minha roupa. Eu usava apenas uma camisa branca normal e um jeans preto qualquer. –Eu deveria saber que você ia vir todo bom garoto, por isso trouxe isso. –Caleb apontou para a parte de trás e eu vi uma jaqueta de couro com spikes e porra... Aquela merda custava caro.
—Porra, enfermeiro nesse país da tanta grana assim?
—Não. –Falou sem tirar os olhos da rua. –Era do meu ex, que infelizmente foi roubada por mim.
—Você roubou a jaqueta do seu ex?
—Você nunca roubou nada do seu? –E ele me olhou.
Engoli em seco, era estranho falar tão repentinamente sobre meus envolvimentos homossexuais, todos os meus amigos eram heterossexuais e nenhum sabia que eu ficava com outros caras, o único com quem eu era eu mesmo durante aquele tempo todo era com o Has.
—Não, porque eu nunca tive um ex. Só namorei garotas...
—Ahh claro. –Foi irônico. –E o tal... Hassan? Caralho de nome é esse?
—É árabe, e ele não era meu ex... Foi só um rolo.
—Adoro os rolos, são os melhores.
O resto do caminho foi mais silencioso do que aquilo, mas nem demoramos a chegar e nem adianta me perguntar em que merda de lugar chegamos, eu não conheço nada nesse país.
Era um bar bem interessante, a maioria do público se vestia como Caleb estava e se não fosse a jaqueta que ele me emprestou, definitivamente eu seria todo olhares, porque qualquer pessoa que não estivesse a caráter se sentiria o centro das atenções. O lugar era amplo embaixo e tinha um pequeno bar em cima também, que parecia ser para pessoas que pagam mais caro. O palco estava apagado, mas era possível ver alguns instrumentos, o que denunciava música ao vivo. Caleb abraçava mil pessoas e eu estava do lado com cara de pamonha e depois de alguns abraços e pequenos momentos de conversa chegamos ao bar.
—Quer alguma coisa, loiro?
—Cerveja, pode ser?
—Nada underground, mas ok. Me dá uma cerveja e o de sempre pra mim! –Falou para o cara do bar que comia ele com os olhos.
—Nada discreto...
—Como se ele já não tivesse feito sexo comigo... –Comentou rindo e logo tirou o pequeno elástico que mantinha o coque e deixou o cabelo cair de qualquer jeito, meio desarrumado e um aspecto até de sujo, apesar do cheiro forte de shampoo que era perceptível. –Mas você tá fazendo até um certo sucesso... –Caleb balançou a cabeça apontado para trás de mim e eu virei o rosto para analisar o que ele estava dizendo.
Tinha um garoto branquelo com olhos grandes e um meio sorriso olhando pra mim, do lado de algumas amigas. Ele usava uma roupa bem preta e pela distancia não dava pra perceber que tipo de peças eram, mas os olhos estavam bem marcados com lápis, o que deixava a cor verde bem acentuada.
—É algum tipo de clube secreto esse lápis nos olhos?
—Nada, é só pra ganhar alguns carinhas. É um visual bem atual, sabia? –Comentou e logo nossos drinks chegaram. –Olha, se você não veio caçar, eu vim! Tem muita gente aqui que eu quero conhecer, então... Beijos, tô indo pra pista. Vê se deixa as pessoas chegarem perto de você! –Comentou e logo saiu com o drink na mão a caminho da pista de dança que até tinha alguns representantes.
Balancei a cabeça em negação. Talvez eu fosse tímido ou só reservado demais pra me sentir bem em ambientes tão diferentes assim. Algumas pessoas se agarravam por ali, casais homo, casais hetero, Caleb dançava feito um maluco, os cabelos balançavam e ele já estava conversando com um carinha um pouco menor que ele. Pedi ao cara do bar o mesmo drink que Caleb estava bebendo. Eu definitivamente deveria me divertir assim e logo o drink chegou.
—Oi. –Ouvi alguém dizer ao meu lado e virei. Tinha um sorriso enorme e os olhos verdes bem marcados. Era o garoto da mesa. –Kyle! –Falou estendendo a mão.
—Jonathan... –Apertei a mão dele.
—Belo nome. –Riu. –Você é novo na cidade? E tem um sotaque bem diferente. –Riu de novo, ele parecia bem envergonhado.
—Sim, eu sou brasileiro. Vim morar com meu avô.
—Legal... –O garoto riu novamente.
—O quê?
—Você é muito gato. Nem acredito que tá no bar gay mais conhecido da cidade.
—Vim com um amigo. –O tal Kyle tomou um gole da sua bebida, ele parecia fraco pra bebida, pois logo seus olhos pareciam meio querendo se fechar e a voz dele já soava meio arrastada. Bêbados são iguais em qualquer país.
—Mas você é gay, não é? –Não respondi a priori e ele continuava me olhando com uma expressão maluca. –Meus amigos apostavam que eu não conseguia te beijar, vamos fazer um trato?
—Hm... –Sorri. Aquele garoto era maluco. –Fala.
—Você me dá um beijo aqui e agora e em troca, eu te dou algo.
—O que?
—O beijo primeiro...
O que eu tinha a perder? A bem da verdade, eu estava ali para me divertir, então qualquer coisa nova ou até mesmo algo que eu já havia feito, que era beijar um garoto, deveria ser aproveitada. Eu não estava mais na porra do Brasil, estava na hora de perder essas amarras. Peguei o garoto pelo pescoço e puxei para perto de mim dando um beijo nele. A boca dele era meio pequena, o que acabava meio que dificultando as coisas e ele não deveria ter muitas experiências em beijos, porque ele estava fazendo as coisas meio esquisitas. Depois que terminei o beijo, ele estava todo sorrisos e tirou um pequeno saco do bolso da camisa, com algumas balinhas coloridas. Olhou pra mim, jogou a pequena bala no drink que eu havia pedido e sorriu de novo.
—Que merda você pôs aqui?
—Cara, é ecstasy. Toma esse drink e daqui a pouco, você vai estar vivendo a melhor noite da tua vida. –Kyle riu de novo e riscou num pequeno guardanapo algumas coisas. –Meu telefone, vamos marcar de sair? Você precisa de um guia aqui na cidade, já que é novo e quem melhor que um guia turístico como eu pra te acompanhar? –Riu de novo.
Tomei um gole do meu drink e sorri pra ele e logo Kyle sumiu.
[...]
Que merda aquela bala fazia. A música estava alta demais, parecia que a bateria estava tocando direto nos meus tímpanos. Algumas pessoas continuavam na pista de dança, incluindo Caleb. Eu tinha ido ao banheiro e tinha visto uma cena bem nova pra minha realidade. Dois caras estavam se pegando, um estava fazendo sexo oral no outro, caralho como aquilo parecia bom de invadir.
—Ei...
—Oi! –Falei um pouco alto demais, até para o barulho que estava ali e Caleb me olhou torto. –Que?
—Que diabos tu usou? Isso não é efeito de álcool. –Ele se aproximou e segurou meu antebraço, o cara do lado dele não curtiu muito, talvez os dois estivessem ficando, mas eu estava maluco demais pra me importar. –Tu usou cocaína algo assim?
—Um cara me deu uma bala...
—Ecstasy! –Ri logo depois que ele falou o nome da bala e ele começou a me puxar. –Vamos... Vou te levar pra casa antes que isso dê mais merda do que pode dar.
—De jeito nenhum. –Apresentei resistência, até que consegui me segurar, o que era até demais pro meu presente estado. –Vai curtir... Eu vou continuar curtindo! –Consegui fazer ele me soltar e ia sair dali, se ele não tivesse me segurado de novo. Porra como eu queria meter a mão na cara desse enfermeiro do inferno.
—Vai continuar se drogando, né? –Ironizou.
Tentei me desvincular de Caleb, mas não estava dando muito certo. O nativo americano continuava me segurando e todo aquele puxa e segura só poderia dar naquilo... Caleb me puxou com mais força, eu não estava no meu pleno estado de consciência então acabei sendo levado pelo puxão do enfermeiro o que me fez ficar com o corpo colado no dele. E o que aquele maldito tinha de insuportável, tinha de atraente. Os olhos escuros dele olhavam dentro dos meus e quando dei por mim... A língua dele já estava invadindo minha boca e eu não estava nem mostrando resistência quanto aquilo... Pelo contrário. Eu estava invadindo a boca dele também. Me apoiei no corpo de Caleb e continuávamos nos beijando, naquela multidão de pessoas na pista e com todas aquelas luzes neon de todas as cores na nossa cara.
Caleb me soltou, talvez ele ainda tivesse algum senso e sabia que nos odiávamos suficiente pra brigarmos no outro dia sobre aquilo... Mas quem disse que o meu nível mental deixaria isso ficar impune? Caleb tinha um beijo maravilhoso... Um beijo tão maravilhoso quanto... Quanto o do árabe maldito. E Hassan não ia ser o que ia me impedir...
Puxei Caleb de novo e dessa vez fui eu que invadi a boca dele...
[...]
A cabeça doendo talvez fosse a pior coisa que me aconteceu no dia seguinte. Acordei com a mesma camisa, com a mesma calça, mas sem o sapato e meia. Felizmente estava no meu quarto, mas nem adianta perguntar, não tenho ideia de como cheguei vivo no meu próprio quarto, nem sei como meu avô chegou a me ver e nem que merdas eu fiz ou falei pra ele. Massageei meu cabelo e tentei sentar.
—Bom dia, bela adormecida... –Aquela voz... Caleb sabia irritar.
—Bom dia, bruxa má! –Comentei irritado e ele riu. –Que horas eu saí do bar? Porra como eu cheguei vivo?
—Chegou porque eu te trouxe pra casa, te passei pela porta e seu avô estava dormindo no sofá, te trouxe até aqui, tirei teu sapato e te coloquei na cama.
—Obrigado então... –Falei, quis levantar mais a tontura não me deixava. –Maldito ecstasy!
—Maldito mesmo! Estragou minha noite de sexo. –Olhei para Caleb e não entendi direito se aquilo era uma indireta por ele ter tido que me trazer e perdido alguma foda ou se por que eu estava drogado, eu não seria a tal foda. –Você lembra?
—Ah... –Eu não ia aumentar o ego dele, o beijo foi bom e tudo, mas... –Eu lembro de ter ido ao banheiro e visto dois caras lá... Eles... Tavam fazendo algo, mas depois disso tudo é um grande borrão!
—Ahh, tá!
Caleb saiu e eu permaneci com a dor de cabeça e a expressão de vitória. Tinha ficado com Caleb, ele achava que eu não lembraria e apesar dele ser repugnante, ele era até bonito. O que era algo bom, além do número de Kyle estar guardado no meu bolso, o que facilitaria caso eu quisesse voltar ao bar ou sair com alguém diferente... Talvez o Estados Unidos não esteja se mostrando tão ruim assim.
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