I Hate You Too!
21 XXI- Voltando a rotina
Notas iniciais
IMPORTANTE: Gente, a fic está entrando na segunda fase... Iremos ter algumas mudanças, como por exemplo, POV's de alguns personagens e não só do Hassan e também irei tentar mostrar um crescimento pessoal do Hassan, dessa vez, ele vai crescer sozinho, sem a sombra do Jonathan, muitas pessoas falaram que ele estava sendo muito dependente e muito sem ação, agora é vez do Hassan de mostrar a que veio! É também uma forma de eu demonstrar que o Has é que é o personagem principal, mesmo não sendo o mais carismático, nem o mais lindo, ele continua sendo o pivô de toda essas loucuras que eu, um pobre aspirante a escritor, escreve!
[...]
Os primeiros dois dias foram os piores. E acho que não só para mim, Paulo estava tão triste, quase não falava e sempre ia para o trabalho com uma expressão de cansaço e tristeza profunda. Minha mãe também não estava feliz, ficava sempre ao lado de Paulo, o apoiando dando suporte a ele, estava fazendo seu papel de esposa, mas Paulo não melhorava a tristeza continuava, talvez pelo fato de Jonathan não ter feito nenhum tipo de contato.
Eu também estava um caco. Minha aparência estava um lixo e eu só conseguia chorar todas as noites. Uma noite eu fui até o quarto de Jonathan e mexi em seu guarda-roupas para pegar uma de suas camisas favoritas, era uma camiseta ele preferiu levar roupas menos tropicais. Levei a camiseta até o meu quarto e passei o resto da noite inteira dormindo agarrada a ela, como se assim pudesse me sentir mais perto de Jonathan.
Jonathan não havia dado nenhum contato ainda. Paulo só soube que ele estava bem porque seu pai havia ligado e dito que ele chegou bem, mas estava ainda se adaptando com o fuso horário e segundo o avô de Jonathan, depois de uns cinco ou seis dias, ele se acostumaria perfeitamente com o clima, fuso horário e todas as diferenças entre Brasil e Estados Unidos.
Eu queria, realmente queria muito falar com o loiro. Dizer para ele que o que ele viu entre mim e João não era nada, nós dois éramos apenas amigos, mas Jonathan era cabeça dura e com certeza não quis ver que entre o meu abraço com João não tinha nada além de amizade.
Hoje era o terceiro dia, eu tinha que voltar a escola, embora não me sentisse preparado e nem com vontade de voltar àquela rotina, eu não poderia me dar ao luxo e ficar de “luto” em casa, sendo que depois dos dois primeiros dias, Paulo já havia voltado à rotina e minha mãe também. Eu havia conversado com o João nos dois primeiros dias e ele estava meio revoltado, estava se culpando, dizendo que ele havia sido o culpado de toda a bagunça entre eu e Jonathan, mas óbvio que não era. Pedi que ele me levasse para escola, eu não estava ainda me sentindo cem por cento bem... Aliás, aquela situação havia agravado minhas crises de asma, não me pergunte como...
Acordei cedo, tomei banho, me vesti e fui até a cozinha. Minha mãe estava terminando de comer, estava desarrumada, sinal de que ficaria em casa. Durante esses dois dias não falamos mais sobre a minha orientação sexual e nem sobre meu romance com Jonathan, mas ela ainda continuava me dando forças.
Paulo estava comendo e já quase pronto para sair, de terno e gravata e com uma maleta cheia de papéis extremamente importantes. Ele e outras duas delegacias da cidade estavam investigando um caso muito sério lá pelos lados onde João morava, alguma coisa referente a drogas e que movimentava uma grana preta.
–Bom dia, meu amor...
–Bom dia, Has!
–Bom dia, mãe... Paulo! –Sentei-me já me servindo de café e torta de chocolate, era bem doce mais eu estava mesmo a fim de me empanturrar, afinal não é sempre assim? Problemas em relacionamentos são descontados em chocolate.
–Está para voltar pra escola, amor? Ontem mesmo você teve uma crise tão forte de asma...
–Não posso ficar faltando aula, mamãe... Preciso recuperar as aulas e estudar, afinal Medicina é muito difícil. –Falei comendo e Paulo deu um meio sorriso, saber que Jonathan estava bem havia o feito ficar mais feliz, por vezes a noite ainda o ouvia entrar no quarto do loiro e encarar as paredes e talvez vivendo suas lembranças sobre o loiro mais novo.
–Isso mesmo, Has... Temos que ter um médico na família... –Paulo estava feliz com a minha escolha por Medicina, minha mãe era que ainda sonhava comigo no Direito.
–Mãe, você não tem serviço hoje?
–Não, amor. A audiência que teria hoje foi adiada para três dias, esses dias ficarei em casa e já estou morrendo de saudades do trabalho, felizmente irei reler os processos e quem sabe ganhar de vez essas duas causas que estão me deixando louca. –Mamãe estava em duas causas difíceis, mas ela sabia articular bem e sempre foi uma advogada extremamente competente. A parte ruim é que pra ela, serviço sempre viria antes de mim, mas eu já havia me acostumado com isso, embora ela sempre negasse e dissesse que eu era e sempre fui o primeiro lugar em tudo pra ela...
Conversamos por poucos minutos, até eu ouvir João buzinar com a moto... Levantei e fui até o quarto pegar minha mochila, mas antes de sair de casa fui interceptado por minha mãe.
–Quem é?
–Um amigo.
–Que amigo?
–Da escola, mãe. Já vou indo não quero me atrasar... –Dei um beijo na bochecha dela e acenei para Paulo e logo saí de casa.
João estava sobre a moto, com a sua típica jaqueta de couro e jeans, eu não vi o rosto dele já que ele estava de capacete, mas dava para ver seus olhos claros. O clube estava passando por algumas reformas e João ganhou dois meses livre. E foi até bom tudo isso, pelo menos eu teria um ombro amigo nesse período conturbado.
–Bom dia, árabe... –Ele tinha essa mania de me chamar de árabe, o que era uma droga. Devia ser por causa do meu nome afegão. Ele me estendeu o capacete.
–Bom dia, João. –Peguei o objeto e coloquei e em seguida subi na moto. –Vai ficar mesmo sem trabalhar, esses dias?
–Sim... Vamos? –Perguntou já ligando o motor da moto.
–Vamos. –Ele acelerou e logo começamos o percurso até minha escola.
–Então, o clube me pagou pelos dois meses de férias, afinal eu não tenho culpa se eles resolveram reformar...
–Verdade, então você vai ficar só em casa esses dias? Sei lá, não vai ser tedioso...
–Ahh, pelo menos eu tenho você pra me tirar do tédio... –Ahh, eu não suportava quando João falava assim, parecia que ele ainda queria alguma coisa comigo, querendo ou não eu me sentia triste por isso, imagina, eu só queria a amizade dele e ele meio que parecia querer algo a mais.
–João... Você sabe que somos só amigos, né? –Chegamos à escola e eu desci da moto dela, alguns alunos já estavam por ali, ele pegou o capacete da minha mão.
–Claro, Has... Eu sei que somos só amigos e você sempre faz questão de enfatizar isso.
–Mas... É que eu não quero que você crie esperanças de uma coisa que provavelmente não vá acontecer... Eu amo o Jonathan você sabe disso, não sabe?
–Sei sim, mas... Sei lá, ele está longe e só Deus sabe o que ele sente por você, você não tem medo de tipo... Ele conhecer alguém lá e acabar se apaixonando, afinal ele nunca foi sincero com o sentimento que sente por ti, eu sou... –É... Em certo ponto João tinha razão e era aquilo que me magoava, João gostava de mim e Jonathan eu apenas esperava que gostasse... Afinal, ele nunca me disse coisas que deixasse claro que gostava de mim, tudo bem que ele era carinhoso quando estávamos em momentos íntimos, mas... Eu precisava de palavras e isso Jonathan não podia me dar por enquanto... –Porque aquele moleque fica olhando pra ti?
João olhou para entrada da escola e eu acompanhei o olhar até ver aquela vadia loira olhando para nós e sorrindo descaradamente... Eu sabia que Yuri iria dizer alguma coisa quando eu me aproximasse para entrar na escola. Já estava na hora daquele filho de uma mãe tomar uma lição e claro, que ninguém naquela escola faria alguma coisa contra a vadia loira, aquilo só poderia caber a mim...
–É só um invejoso qualquer! –Olhei para João e ele continuava olhando pra mim, com aqueles olhos claros tão lindos e eu só me sentia mal por isso... Afinal era péssimo saber que alguém gosta de você e você não consegue retribuir os sentimentos dessa pessoa, realmente era péssimo... –João... Você vai realmente passar dois meses sem trabalho?
–É... Estou pesando em conseguir um bico qualquer, afinal mais dinheiro vai ser bom e ficar em casa é muito entediante.
–Você vai passar aqui pra me pegar? –Ok, eu estava abusando da boa vontade de João, mas realmente eu não queria ficar sozinho depois das aulas. João sorriu e colocou o capacete.
–Passo sim, agente pode sair à tarde...
–Eu preferiria ficar em casa, agente pode assistir um filme. E eu estou pensando em algo...
–Me fala! –Sorriu curioso e eu comecei a andar no caminho da escola.
–Não, só mais tarde! –Falei caminhando e ele acabou dando partida... Estava sorrindo e claro, a minha felicidade ia acabar, com aquela coisa loira.
Continuei caminhando, minha intenção era passar sem nem olhar pra aquela coisinha, mas ele ficou na minha frente, como se me desafiasse. Detestava essa confiança exagerada do loiro.
–Bom dia, Has!
–Cara, qual é a tua? –Desafiei, me chamem de louco, mas eu estava farto. –Olha só, você queria o Jonathan, ele foi embora, já que ele foi embora não tem mais porque você me encher a paciência... Posso entrar?
–Calma, Hassanzinho. Olha querido, irritar faz parte da minha sina diária, se eu passar um dia sem te encher a paciência, é como se eu não estivesse tido um bom dia, não leve pro lado pessoal...
–Sorte sua, eu não ser a favor de agressões, porque se eu fosse, eu juro que você já tinha perdido metade desses dentes e parava de sorrir. –Ele se aproximou e encostou a boca no meu ouvido.
–Que agressivo... É uma pena você não chegar nem perto do meu estilo! –Aproveitando essa aproximação, eu também sussurrei no seu ouvido.
–Eu não sou de ameaças, mas agora que o Jonathan não está mais por aqui, acredite, se você continuar a me irritar, eu irei dar motivos pra você ter ódio de mim de verdade!
–Eu adoro ameaças, Hassanzinho! –Falou e logo saiu de perto de mim, mas antes de entrar no prédio da escola, ele fez o favor de deixar um último recado. –Só saiba que, ameaças devem ser cumpridas ameaças por ameaças eu não tenho medo... E mais, se você tentar alguma coisa contra mim, pode ter certeza que quem vai sofrer mais, embora longe, é o seu loirinho, afinal eu tenho alguns podres dele embaixo da manga! –Ele devia estar falando da morte forjada, é uma pena ele não saber que eu sei de toda a verdade, e Jonathan também. Não tinha ninguém perto, o que fazia com que nossa conversa fosse sigilosa. Entrei em seguida e já me encaminhei para minha sala. Não havia ninguém, eu felizmente sempre chegava cedo o suficiente para ficar alguns poucos minutos sozinho.
Hoje seria o dia em que eu ficaria sozinho em casa, sem o Jonathan, embora ele trabalhasse e ficasse pouco em casa, a presença dele no almoço era importante, eu me sentia mais feliz, mas completo com ele ali, compartilhando refeições comigo. Éramos “irmãos” brigávamos, xingavamos, ficávamos com raiva um do outro, mas no fundo nos gostávamos muito. E a prova disso, eram as nossas noites de sexo, os nossos beijos desesperados e o nosso curto período de namoro. Eu necessitava daquilo, de Jonathan perto, se não fosse fisicamente que fosse pelo menos no seu interior e eu, infelizmente, acho que perdi os dois, já que o loiro acabou interpretando mal o meu abraço com João. Jonathan agora poderia estar livre nos Estados Unidos, conhecendo alguma garota linda, ou se encantando por outro garoto.
–Oi... Bom dia, Has! –Camila chegou feliz, seu cabelo estava diferente, não estava mais ruivo, ela deveria ter pintado de castanho, alguma coisa assim... Era uma mudança aparente. –Percebeu que eu mudei a cor? –Falou virando de costas e mostrando o cabelo castanho levemente claro, estava liso, não dava uma volta sequer e permanecia impecável. –O Jonathan sempre disse que meu cabelo era lindo, mas eu já havia notado que ele preferia as garotas de cabelo castanho, o que você achou?
–Ah... Tá... Muito lindo, Camila.
–Ai que bom que você achou, Has! –Falou colocando a sua mochila na cadeira que estava na minha frente, e logo ficou em pé de novo. –Eu tenho que ver o Jonathan, ele veio contigo? Eu ainda não o vi com os meninos do futebol, sabe se ele vai faltar hoje? Há três dias ele não aparece, será que ele tá doente? –E por fim, ela respirou e que bom que faltou ar... Como falam as garotas!
–Mila... O Jonathan viajou, ele foi... Pra Nova Iorque? –A sala logo começava a ganhar vida. As pessoas chegavam e sentavam e pouco ligavam para a nossa conversa.
–Mas... Como assim? –Ela sentou-se novamente e olhava para mim, Luck chegou logo em seguida e se aproximou de mim, sentando na cadeira de trás. –Ele foi embora? Mas por quê? Me explica, Has!
–A avó dele está muito doente e faz tratamento em Nova Iorque, e bem... Ela está bem mal e pediu... Pediu pro Jonathan ir vê-la. Pra que, talvez, ela possa se despedir.
–Mas... E o ano escolar? E o trabalho? Como o Jonathan vai conseguir terminar tudo assim? Has...
–Eu não sei, Mila... –Acho que tava na hora de demonstrar que eu não me importava, para não dar muita bandeira. –E não me importa, afinal, nós nunca nos demos bem e assim, pelo menos ele me deixa em paz por uns tempos... –Doía dizer aquilo, a última coisa que eu queria era ficar longe do Jonathan, mas eu tinha que dizer esse tipo de coisa para as pessoas.
O silêncio se instalou, Camila estava triste, bem triste dava para ver nos olhos dela. Ela estava quase chorando... Mesmo sendo uma garota chata e que virou as costas para Jonathan quando ele mais precisou, dava para ver que ela sentia alguma coisa boa por ele e assim, acaba sendo minha rival. Luck estava apenas vendo tudo, não dizia nada, nem demonstrava nada no olhar. E logo o professor entrou. A primeira aula era de História...
[...]
A manhã demorou séculos para passar, eu já estava pensando em ir embora ao meio da última aula e só ter que voltar para aquilo lá no próximo dia, mas para uma pessoa que almeja algo grande como eu, desprezar uma aula por mais inútil que pareça é uma idiotice. Aliás, meus estudos não estavam como antes, o que dava muita vantagem aos meus concorrentes. Finalmente chegou ao fim e eu me encaminhei direto para a saída, João estava estacionado apenas me esperando, com a mesma roupa da manhã, com um capacete na mão e outro na cabeça. Me aproximei e ele logo sorriu.
–Como foi à aula?
–Normal, como todos os dias!
–Como todos os dias, eu sei que não foi, olha só sua carinha...
–É... Talvez, não tenha sido como todos os dias, mas... Vamos logo embora? –Eu estava evitando que a vadia loira parecesse e resolvi olhar ao redor, para ver se ele estava me olhando, mas tive uma surpresa... Yuri estava afastado de todos, sozinho, sentado num banco, até um pouco distante da escola. Falava no telefone, pela cara triste dele, ele estava discutindo. E logo desligou, sua aparência remetia a uma solidão intensa e pela primeira vez, eu via aquilo.
Yuri era uma pessoa sozinha, mesmo com todos os seus sorrisos e suas ameaças, ele era um garoto sem amigos, ninguém gostava dele, falavam com ele por ódio e medo, mas ninguém nunca havia se aproximado por ele, por vontade própria. E aquilo, me deu uma ótima ideia...
–Você vai subir ou não, árabe? –Acordei do meu transe, com João me dando um capacete e já pronto para partir...
–Vou... Vamos! –Falei sorridente e ele sorriu também, já estava na hora de alguém dar um basta no poderio da vadia loira e como, eu não teria o Jonathan para me tomar tempo... Todo meu tempo seria convertido em vingança... A vadia loira iria aprender que se meter com Hassan Mebarak poderia ser bem pior do que ela imaginava!
Chegamos em casa rapidinho. Minha mãe estava saindo de casa e reparou na moto que parou em frente a sua casa. Olhou sem entender e logo sorriu a me ver descer e tirar o capacete.
–Filho, que bom que chegou. Já estava indo no mercado comprar um refrigerante para o nosso almoço. Quem é esse garoto? –Minha mãe perguntou normalmente e eu corei... Talvez vocês não entendam, mas agora minha mãe sabia que eu era gay e gostava de garotos, talvez ela poderia pensar que eu era algum tipo de promíscuo que já estava dando em cima de outro cara, já que Jonathan foi embora.
–Ahh, mãe... Esse é o João, ele é um amigo meu... –João tirou o capacete e sorriu. Aquele belo sorriso conquistador, João já era muito bonito e ainda tinha um sorriso de tirar o fôlego. –João, essa é minha mãe, Gabriela.
–Bom dia, Dona Gabriela, tudo bem? –Falou estendendo a mão e minha mãe apertou a mão do moreno. Os dois sorriram.
–Tudo ótimo, garoto... Você tem carteira, não tem? Não quero que meu filho ande infringindo a lei!
–Sim senhora, eu tenho carteira sim...
–Você almoça conosco? Estamos só nós dois...
–Ahh não, não quero incomodar. –Falou o moreno coçando a nuca visivelmente nervoso.
–Fica, João...
–Vai, Has... Abre a garagem enquanto eu vou comprar nosso refrigerante, João pode estacionar a moto na garagem, tem lugar pra sua moto!
Minha mãe saiu e eu entrei em casa indo até a porta que existia lá na sala. Dava na garagem. A garagem era gigante, cabia três carros e duas motos, claro que era exagerada, mas existiam mesmo três carros naquela casa e as vagas de moto ficavam livres. Ao entrar lá, vi o belo carro do Jonathan e me lembrava como ele adorou ter ganhado um carro e como Paulo estava orgulhoso do filho. Só tinham dois carros ali, o da minha mãe e o de Jonathan. Abri a garagem por dentro, já que eu não tinha o controle do portão e João entrou com a moto ali dentro.
–Uou, belo carro... –Falou olhando o carro de Jonathan.
–É do Jonathan, acho que ele vai ficar algum tempo parado ou então o Paulo vai usá-lo. Vamos, eu estou exausto e vou tomar um banho... Você quer?
–Tomar banho contigo? –Ele não perdia a oportunidade e eu fiz uma careta, tentando ignorar o comentário dele. João era lindo e tomar banho com ele definitivamente deveria ser algo excitante, mas não quando a pessoa que você ama é um loiro lindo e chato que está atualmente a milhões de quilômetros de distância.
–Não né? Eu vou tomar banho lá em cima... E você pode ficar no meu quarto...
–Eu quero usar o banheiro antes... Vamos?
Saímos da garagem e fomos até meu quarto, peguei minhas roupas e toalha e fomos para o banheiro do primeiro andar. A porta do banheiro era próxima da porta do quarto de Jonathan e era óbvio que aquela porta chamou a atenção do moreno. João olhou para porta, mas apenas entrou no banheiro e fez suas necessidades, ao sair, ele resolveu me perguntar sobre a porta.
–Uma porta preta... Muito intimidador...
–É do quarto do Jonathan... É... Eu vou tomar banho, tá? –Ele apenas acenou que sim com a cabeça e continuou olhando a porta preta.
Tava na cara que ele queria entrar ali dentro, mas eu não queria... A última coisa que eu queria era ficar me martirizando, mais ainda diga-se de passagem, pelo loiro. E aquele quarto não iria apenas me lembrar do loiro, como também me lembraria dos nossos poucos momentos juntos ali dentro... Me despi e aproveitei os momentos deliciosos embaixo do chuveiro.
Eu lembrava-me de Jonathan, da nossa última e incrível noite juntos, como ele estava feliz e como eu me sentia bem perto dele, mesmo que ele não demonstrasse, eu sabia que ele sentia alguma coisa forte e boa por mim, meu banho foi rápido, logo me sequei e me vesti, saindo e não encontrando o João ali fora, eu sabia onde ele estava, mas ia perguntar só para ter certeza.
–João?
–Aqui dentro... –Falou de dentro do quarto de Jonathan, a porta estava entreaberta e eu tive que entrar... As coisas estavam do jeito que ele havia deixado. Bagunçadas...
O moreno estava sentado na cama de Jonathan. Olhava tudo atentamente e dava pra perceber certa força de Jonathan ali dentro, também era possível sentir o cheiro de Jonathan ali dentro, os lençóis dele ainda eram os mesmos que Jonathan havia usado na nossa última noite e estavam exatamente da mesma forma. Eu não estava me sentindo bem... Não mesmo...
–João... Vamos descer? Estou com fome...
Na verdade, eu tinha perdido toda a minha fome, mas eu não queria continuar ali. João levantou logo e juntos descemos. Minha mãe já estava pondo a mesa e estava sorridente, eu estava com uma bermuda qualquer e uma camiseta larga, acho que era uma das roupas do Jonathan que minha mãe costuma levar pro meu guarda-roupas enganado. Isso era comum e até bom, afinal eu usava sem ter que dar uma explicação de porque eu peguei.
–Estão com fome, garotos? –Minha mãe perguntando trazendo a última travessa de comida, era um macarrão maravilhoso. Tinha arroz, feijão, salada verde e frango grelhado.
–Nossa, que mesão, hein? –Falou João já sentando e eu sentei ao seu lado. Minha mãe sentou em frente a mim.
–Pode se servir a vontade, João.
Começamos a nos servir todos logo, João fez um prato gigantesco e com tudo aquilo que tinha ali na mesa. Eu coloquei um pouco de tudo e minha mãe apenas se serviu de salada e um pedacinho de frango.
–Então, João... Você estuda na escola do Has? –Perguntou olhando para o moreno, parecia que ela tinha gostado dele, falando francamente, João era uma pessoa confiável e adorável. O moreno me olhou, como se quisesse dizer que sim, que estudava, talvez por achar que minha mãe pudesse achar ruim que eu estivesse andando com alguém que não fosse do meu nível social, o que era uma tremenda besteira, pelo meu olhar ele compreendeu que poderia dizer toda a verdade...
–Não, na verdade eu já terminei o ensino médio, Dona Gabriela.
–Pode me chamar só de Gabriela, por favor... E então, você faz faculdade? Ou trabalha?
–Eu trabalho no Clube e eu não faço faculdade, por enquanto...
–Que interessante, um rapaz trabalhador, você faz o que no Clube?
–Por enquanto eu sou bartender, mas quero ser instrutor de golfe...
–E as namoradinhas? –Sorriu e eu fiquei vermelho na hora... –Ou você é assim, como o Has, gosta de garotos...
–Na verdade, eu sou bissexual...
–Ahh...
–Mãe! –Interrompi antes que ela piorasse o nível de perguntas. –A senhora está constrangendo o João... –Eu já havia terminado de comer e resolvi sair logo, antes que as perguntas acabassem por me envolver, na verdade, minha mãe devia ainda estar se acostumando com a minha homossexualidade e talvez, estivesse tentando se sentir mais por dentro do assunto coagindo um amigo meu, o que não era nada legal... –Tô indo pro meu quarto!
–Calma, filho! Mamãe só está tentando conhecer um amigo seu...
Entrei no quarto deixando aqueles dois conversando e claro, minha mãe constrangendo João. Deitei-me na minha cama e apertei a camiseta que eu usava, mesmo lavada e no meu corpo, eu ainda sentia a presença de Jonathan ali. Como se ele tivesse usado ela há pouco tempo. Como será que ele estava lá nos Estados Unidos agora? Lá ainda era mais cedo, então ele poderia estar dormindo... Deve ter passado a noite passada numa festa norte-americana... Deve ter transado com alguma garota durante a noite, ou pior... Um garoto. Um belo garoto loiro, assim como ele, que deve ter se sentido atraído pela beleza de Jonathan, que embora seja um pouco europeia, graças aos genes da mãe dele, ainda era bem brasileira, puxando um pouco os traços de Paulo.
–Árabe? –Acordei do meu transe com João entrando e me vendo, deitado na cama, encolhido e apertando a camiseta contra meu corpo. Ele devia estar pensando como eu era fraco, e era verdade, eu estava me saindo uma garotinha virgem... –Qual é? Lembrando-se do Jonathan?
–Tá tão na cara assim? -Minha voz estava embargada, eu iria chorar logo, se João não estivesse chegado.
–Não fica assim... O Jonathan ainda vai voltar e vocês vão se acertar... Você vai ver, embora eu não quisesse que isso acontecesse. –Falou sentando ao meu lado na minha cama, eu continuava encolhido e era até engraçado. João todo esparramado na minha cama, ele alto, forte e cheio de si e eu ali, todo encolhido, meio choroso e com uma camiseta maior do que eu.
–Pode pegar meu notebook, está em cima daquela mesa. –Apontei para a mesa perto do guarda-roupas e João foi até lá e trouxe o aparelho eletrônico. Abri e ele já estava ligado e conectado no Facebook. Eu não tinha Jonathan nos meus amigos do facebook, mas eu sabia o perfil dele e poderia ir lá sempre ver as últimas postagens dele. Ainda não tinha nada, apenas uma música que ele havia publicado antes de viajar. “Ramones” uma das bandinhas hétero que ele gostava.
Deitei-me na cama e João cedeu seu colo para que eu pudesse apoiar minha cabeça, o moreno mexia nos meus cabelos que estavam molhados pelo recente banho, pelo menos ele não iria destruir meu topete, já que ele não estava feito. Ele ainda estava todo empacotado com as roupas que usava e eu, como um péssimo amigo nem lhe ofereci uma muda de roupas, embora minhas roupas ficassem bem justas nele, pelo seu tamanho e corpo.
Continuei vendo as atualizações até chegar à última de Yuri, era uma piadinha... Eu havia aceitado o convite dele no facebook, quando ainda não sabia a vadia que ele era. Era uma indireta muito bem clara para mim.
“Nível de vadiagem: O namorado viaja e já vai dar para o bartender do clube”.
Não tinha curtidas, nem comentários, mas era notável que era para mim. Aquilo me deu um ódio tremendo e a minha vingança tinha que ser fria e sanguinária... Eu ia fazer ele se arrepender... E uma ideia apareceu na minha mente!
–João! –Levantei o assustando e quase derrubando meu aparelho eletrônico. –Tive uma ideia... No mínimo brilhante... –Sentei-me ao seu lado e ele me olhou com os olhos claros arregalados e sem entender nada.
–O quê? Ideia pra quê?
–Como fazer a vadia loira se dar mal!
–Vadia loira? Quem é a vadia loira? –Ele continuava a me olhar. –Has, eu não tô entendendo...
–O Yuri... Tive uma ideia de como fazer ele se arrepender de tudo que já fez pra mim e pro Jonathan e claro, o que ele planeja fazer com você!
–Comigo? Como assim?
–Ele vai fazer algo contra você, por você estar do meu lado... Ele me odeia e é óbvio que odeia você também, então é melhor planejarmos algo contra ele, antes que ele inicie fazendo algo que eu não queira que aconteça, principalmente contra você.
–Has, eu ainda não compreendo nada... Pelo amor de Deus, fala direito!
O facebook me atrapalhou, com aquele barulhinho típico de notificações... Peguei o aparelho para olhar o que havia ocorrido e me surpreendi... Olhei para João que permanecia como um dois de paus parado e sem entender nada com nada.
Jonathan Maserati havia me convidado no facebook para ser amigo dele... O que será que fez Jonathan me convidar no facebook?
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