I Hate You Too!
47 XLVII - Patético
Notas iniciais
(POV: HASSAN)
Estava na primeira semana de fevereiro, que convertia com a primeira semana de aulas da Universidade. Pra quem dizia que a primeira semana era calma e que era apenas apresentação e bobagens e trotes… Ledo engado. Eu já havia dito muitas aulas, algumas provas e trabalhos já estavam sendo marcados e tudo parecia correr.
Os veteranos que pareciam que nos dariam atenção e nos ajudariam por quase um semestre inteiro, sumiram no terceiro dia de aula e a maioria das coisas já foi perceptível, nós da turma teríamos que nos virar sozinhos. Uma turma enorme, até. Aquele semestre estavam sessenta alunos tendo aula. Felizmente as salas eram enormes e conseguiam abarcar a demanda de espaço. A maioria já estava começando a marcar alguns programas, mas era difícil fazer sessenta pessoas pararem conversarem e se darem bem ao mesmo tempo. Além das usuais afinidades que eram difíceis de acontecerem.
Felipe era o único que estava mais próximo de mim. As pessoas percebiam que ele era de fora e ele não conseguiu se agrupar. Além do usual estereótipo que as pessoas tinham. Felipe era um garoto negro, com dreads e carioca, algo não muito usual aqui na nossa cidade. Nós estávamos na sexta, lanchando no intervalo da tarde. Seria a última aula da semana e eu já estava pensando em como me organizaria para estudar todas aquelas bombas naquele fim de semana.
—Lá era bem mais quente que aqui… Acredite! -Felipe falava sobre o clima do Rio de Janeiro. Estávamos em fevereiro, geralmente era o mesmo mais quente do ano e estávamos falando sobre o clima. -Era bem difícil até sair, às vezes. Cara, é muito quente, você não consegue ficar na rua. -Felipe estava sentado na minha frente. Usava os dreads todos no topo da cabeça e estavam presos por dois dreads que ele enrolava e deixava todo o cabelo ali. Usava uma camiseta branca sem qualquer estampa e uma calça mostarda.
Eu estava com uma camisa normal e azul e uma calça jeans usual. Nada muito diferente. Felipe tinha muito estilo e um corpo típico de modelo e era bem confuso saber que ele trabalhava como modelo e havia deixado o Rio de Janeiro com um super mercado de moda, para vir pra cá. Uma cidade de interior, levemente grande, mas ainda sim com muitas barreiras.
No Rio de Janeiro deveriam morar sete milhões de pessoas, talvez. Aqui talvez apenas um milhão. Algo bem diferente, mas ainda não éramos próximos e Felipe parecia bem restritivo ao falar sobre a sua família e passado. Nesses poucos dias já havíamos percebido.
—Eu consigo imaginar quão quente deve ser o Rio, mesmo assim eu amaria conhecer…
—Posso te levar lá, mas não tenho nenhuma previsão de volta. Pode demorar. -Ele riu e tomou mais um gole do seu suco. Ele tomava suco de laranja, com um sanduíche que ele havia comprado e parecia bem saudável, enquanto eu estava com uma lata de Coca-Cola e um salgado de frango. Uma verdadeira bomba calórica. -Você não tem ideia de como essa cidade é incrível.
—Você acha? -Perguntou espantado.
—O Rio é lindo, cheio de praia, gente bonita e vários lugares legais, mas eu amo essa coisa mais pacata daqui. -Pacata seria a última palavra que eu diria pra cá, mas talvez comparando com o Rio, ela fosse realmente pacata.
—Você parece ser alguém que gosta de calmaria…
—Eu gosto. -Ele finalizou o suco e logo levantou. -Vamos voltar, né? Tem o período final da aula de Anatomia Humana Básica.
Levantamos e nos encaminhamos de volta para o nosso andar. A maioria das pessoas estavam voltando também e seriam as últimas duas horas de aula do dia. Felipe ia um pouco a minha frente. Ele andava calmo e com o corpo bem centrado, além de uma postura impecável. Ele levantou os braços até o cabelo e logo soltou parte dele, os dreads iam até o meio das costas dele. Deveriam ter demorado anos para chegar aquele tamanho. Felipe era uma grande incógnita.
Não falava sobre a família ou amigos. Eu não sabia com quem ele morava, se morava sozinho ou com alguém, se tinha família na cidade. O máximo da vida dele que eu consegui saber foi que ele trabalhava como modelo, às vezes e que gostava de tocar violão e malhar. Ele não falava sobre a orientação sexual, o que me deixava abismado. Ele não havia demonstrado interesse qualquer em nenhuma garota ou garoto. Nunca havia comentado sobre nada, embora umas duas meninas já haviam chegado perto de mim e perguntado sobre ele.
O máximo que consegui ao dizer pra ele isso foi seus ombros levantados e nenhuma resposta. Como se aquilo não fosse importante. Tentava ver se ele ficava visualizando algum garoto ou garota, mas seu rosto sempre estava em livros ou cadernos, ou na lousa ou slide do professor. Ele só falava olhando nos olhos das pessoas e nunca virava o rosto numa conversa. Já havia mostrado pra ele um garoto que havia me chamado atenção, embora eu não fosse ter nada com ele, mas ele apenas olhou e continuou a conversa depois disso. Aquele garoto era difícil de desvendar.
Felipe era muito atraente. Esse mistério todo ainda dava mais pontos para isso. Era difícil não achar um cara de um metro e oitenta e cinco, com uma pele bonita, o cabelo de dreads incrível e um corpo bem legal, lindo. Ele me chamava a atenção, embora eu não fosse ter nada com ele. Ele era bonito de se ver.
—Eita que você tá devagar hoje! -Felipe me fez acordar dos devaneios. Ele estava ali a frente. Olhando para mim que logo apressei o passo para entrarmos juntos dentro da sala de Anatomia.
A aula passou rápido, o professor acabou meia hora antes do esperado, o que talvez me ajudasse a chegar cedo em casa e não pegasse tanto trânsito no caminho. Geralmente, numa situação ótima, eu pegava dez minutos de ônibus e numa situação de trânsito pior demorava por volta de vinte a trinta minutos. Nada demais, porém como eu não morava mais com minha mãe, geralmente eu tinha que organizar meu próprio jantar, limpar toda a minha própria bagunça e isso tomava tempo, além de ter que estudar. Morar sozinho não era lá muito fácil.
Felizmente eu já estava mais acostumado. Conseguia resolver algo simples para jantar todos os dias, as vezes eu fazia comida para dois dias, e economizava tempo no dia posterior. Geralmente esse tempo eu usava para limpar a casa, varrer, tirar a poeira, algo assim. Mamãe disse que mandaria a diarista pelo menos uma vez por semana, para tirar o excesso, mas seria desumano demais da minha parte, deixar sempre a bagunça enorme para uma mulher, geralmente na faixa dos quarenta, por isso o básico eu conseguia limpar e deixava algumas limpezas que eu não fazia ainda, como a do banheiro.
Me separei de Felipe, afinal ele pegava outro ônibus para ir até sua casa e logo fui para minha parada. Como eu morava relativamente perto, geralmente eu poderia pegar até três opções, o que era ótimo. Sabe… Ônibus eram ótimos lugares para pensar. Eu sentei e logo comecei a ver como o trânsito iria me fazer demorar um pouquinho. Aquela rota era ótima, raramente eu iria em pé. O que era ótimo, principalmente quando voltava pra casa, com cadernos e mil livros.
Fazia uns bons dias que eu e Jonathan não conversávamos. A falta batia forte no meu coração. Dali a uma semana ou duas, eu faria um mês morando sozinho. E Jonathan não parecia interessado em ir me ver. Ele deve ter vindo para meu apartamento talvez… Duas vezes depois da última visita. O que era surpreendente, eu só conseguia imaginar que aquilo era Paulo infernizando a sua vida.
Mamãe também não me fazia visitas, mas eu entendia muito bem. Ela trabalhava como uma louca, agora grávida, ela estava agilizando o máximo para tirar as licenças sem deixar o trabalho desfalcado, mas na minha cabeça Paulo deveria estar infernizando a vida de ambos, em relação a mim. Eu estava interessado em alguns processos de bolsa, para conseguir alguma grana e não ficar tão dependente da minha mãe, porém era complicado. Ainda estar no primeiro semestre não me dava muitas oportunidades.
Jonathan andava muito distante. E eu questionava se aquilo tinha alguma explicação lógica. Será que ele estava cansado de me ver? Quando estávamos no mesmo lar era mais simples, no sentido principalmente dele voltar pra casa e eu estar lá. Não precisava sair para ter que me encontrar. Embora ele ainda não tivesse começado as aulas e tendo um certo tempo livre.
Quando dei por mim, estava bem perto do meu ponto de descer e fui me encaminhando até a frente. Como a rota estava bem tranquila, eu logo cheguei lá na frente e desci. Caminhando até a entrada do prédio. Ao entrar em casa já deu pra ver que tudo estava nos devidos lugares, mas tinha um pouco de sujeira e poeira acumulada. O que era uma droga para minhas doenças respiratórias, mas pelo menos eu ficava a maior parte do tempo no meu quarto, que geralmente era a parte mais limpa da casa. Algo que chega a ser milagroso até.
Era quase seis da tarde, optei por iniciar um macarrão rápido para que pudesse comer mais tarde. Apesar de ser sexta e eu ter a possibilidade de sair, eu não estava com disposição. No outro dia eu teria que estudar muito e aquilo era melhor fazer durante o dia do que a noite. Enquanto eu colocava o macarrão no fogo e saquei o celular. Ainda era possível o sol se pondo o verão estava acabando e o horário de verão também, mas o sol iria se pôr, talvez pelas sete da noite ou sete e meia.
Disquei o número de Jonathan, embora o meu dedo não respondesse quando eu iria apertar no botão de chamar… Será que era melhor eu fazer aquilo? Nós não estávamos brigados, não faria mal eu querer falar com ele. Apertei e logo levei o celular a minha orelha, enquanto mexia o macarrão na panela. A chamada corria apenas naqueles toques desesperadores e nada do loiro atender…
Poucos segundos e logo deu caixa postal. Pensei em insistir, mas para que? Eu apenas iria me decepcionar. Jonathan poderia estar ocupado, ter saído, estar no banho, ter deixado o telefone em outro cômodo, as opções eram várias e eu não deveria ficar pensando nisso. Continuei mexendo o macarrão para matar a minha ansiedade. Pior do que não falar com ele, era tentar e não conseguir. Aquilo me deixava mal.
Continuei fazendo os afazeres e tentando não pensar em Jonathan. Terminei o macarrão, lavei toda a louça suja, esquentei alguns pedaços de carne que tinham feitos do dia anterior, limpei a sala e meu quarto. Organizei a bagunça da minha mesa de estudos e coloquei todos os livros sobre essa mesa. Depois de tudo isso, percebi que estava morrendo de fome e que realmente já estava perto das oito da noite. Algo me dizia que aquela noite eu dormiria cedo.
A fome logo começou a atacar e eu resolvi por minha comida. Depois que já estava tudo no prato olhei para meu celular. Nenhuma chamada de retorno e… Meu coração tava muito fechado com isso. Disquei o número de casa em pensei em ligar.
Era o número de casa e eu tinha três opções. Mamãe era a opção mais certa, como ela sempre estava próximo da sala, ela poderia atender e acabaríamos conversando, era quase usual ela me ligar todos os dias. A segunda opção era bem menos provável, porém era a que eu menos queria. Paulo. Assim que eu percebesse que era ele, eu desligaria, o problema maior era perceber, afinal a voz dele era muito parecida com a de Jonathan, principalmente por ligação e a terceira opção era Jonathan, a que eu mais queria, porém a mais improvável. Jonathan nunca estava na sala e quando estava e o telefone tocava ele nem se mexia, por que sempre dava a desculpa que nunca era pra ele.
Eu poderia ligar direto para minha mãe e evitar alguns transtornos, mas ela falaria muito e quase não me deixaria perguntar sobre Jonathan e por mais que eu amasse a minha mãe, estar sozinho me fez perceber o quanto eu posso ser independente e o quanto isso está me ajudando atualmente. Apertei o botão de chamar e levei o celular até o ouvido. Os toques foram rápidos e eles iam batendo junto com o aumento do velocidade do meu coração.
—Alô? —Ouvi a voz feminina da minha mãe e pensei em fechar. O telefone não tinha identificador de chamadas, então ela não saberia que era eu, mas a minha curiosidade não me deixava.
—Mãe?
—Filho! Que bom que você ligou! Porque não ligou para mim? Meu telefone está desligado?
—Não, mãe. Eu liguei direto para casa porque queria falar com o Jonathan. Ele está aí?
—Não, meu amor… —Deu pra perceber pelo tom que ela ficou chateada, mas eu tinha que ser sincero. —Ele saiu tem meia hora e não levou telefone e nem saiu de carro, talvez ele só chegue pela manhã. Inclusive, eu até achei que ele iria te ver, mas não faria sentido ele não ir de carro, ele sabe que aí tem vaga?
—Sabe sim…
—Ele deve ter saído com os amigos então, mas você não tentou ligar para ele?
—Sim… Liguei hoje mais cedo, mas ele não atendeu, mas tudo bem. Falo com ele amanhã!
—Certo…
Silêncio.
—Mãe… Tá tudo bem por aí? -Perguntei tentando não deixar o assunto morrer.
—Sim, meu amor… Sinto muito sua falta, mas tudo está bem. Eu estou trabalhando bastante, principalmente pra tentar parar de trabalhar aos seis meses de gestação. Eu não sou mais uma garotinha, tenho que me atentar nessa gravidez. Afinal, fazem quase vinte anos que eu fui mãe, né?
—Vai ficar tudo bem, mãe… Qualquer coisa se você quiser tirar um tempo para ficar aqui, seria bom pra você… Se tiver muito pesado por aí.
—Não, meu amor. Paulo contratou uma diarista pra fazer o serviço aqui alguns dias da semana e eu não tô fazendo tanta coisa, mas eu vou sim lhe visitar antes do final da gravidez e você tem que vir aqui ver o seu futuro irmão ou irmã né?
—Uhum…
Só de pensar em ir naquela casa, meu corpo já ficava enojado. Acabei me despedindo da minha mãe depressa, dizendo que tinha que estudar e ela se despediu de mim. Resolvi ir comer e depois realmente tentar estudar, mesmo que o nome de Jonathan ficasse me rondando durante aquele ato.
[...]
No outro dia, tudo começou calmo. Eu havia arrumado parte da casa na manhã e lido coisas importantes sobre algumas disciplinas básicas, como “Biologia Celular” e “Introdução a Prática Médica”. Almocei cedo e logo resolvi descansar por pouco tempo. Já deveria ser por volta de uma hora e talvez… Eu finalmente conseguisse falar com Jonathan. Saquei meu celular e disquei seu número.
A possibilidade de ligar para ele durante a manhã existia, mas eu saberia que seria em vão. Jonathan havia saído, possivelmente chegado pela manhã e estaria dormindo durante a manhã inteira. Se eu ligasse para ele depois do meio dia, a possibilidade de encontrá-lo acordado e um pouco mais sociável fosse mais real. Assim o fiz, com pouco tempo ele me atendeu.
—Hm… —Resmungou com voz de sono, talvez eu o tivesse acordado.
—Jonathan? Tá acordado?
—Uhum… —Resmungou novamente.
—Te acordei? Desculpe.
—Não, não me acordou… —Ouvi o barulho das molas da cama, ele deveria estar levantando. -Eu estava deitado aqui, ainda tô meio cansado.
—Ia te perguntar… -Me calei por poucos segundos esperando a coragem e logo ela veio. -Sei lá, você não quer vir aqui? Eu ia estudar a tarde toda, mas a gente pode… É não sei, faz tempo que a gente não se vê, né?
—É… Eu ainda nem almocei…
—Aqui tem almoço… Eu fiz a mais! E também tem a vaga na garagem, pode vir dirigindo.
—Certo… Eu vou tomar banho e chego aí em trinta minutos, ok?
—OK. Até!
—Até!
O contato foi rápido, seco até. Jonathan não era muito fã de falar por telefone e como ele estava recém acordado, Aquilo deveria estar multiplicado. Acabei me apressando e indo esquentar a comida. Talvez, JOnathan chegasse logo com fome e seria bom a comida já estar pronta para ser servida.
Ri ao chegar no fogão e ligá-lo. Aquilo era o mais próximo de um casal que já havíamos chegados e já era um próximo até assustador. Depois que a comida foi esquentado, eu resolvi sentar ali na sala de estar e mexer no celular para passar tempo.
Jonathan não demoraria e eu estava não querendo ficar pensando muito, afinal aquilo só iria me deixar com ansiedade e ficar ansioso nunca era bom. Com pouco tempo de espera, pelo menos pareceu já que eu estava mexendo no celular, logo a campainha tocou. Levantei-me e logo atendi e realmente era Jonathan.
O loiro estava com a expressão de poucos amigos, com um óculos escuros no rosto e os cabelos molhados colados na testa, algo que eu sabia que ele detestava, uma camisa branca simples e uma bermuda escura. Os pelos loiros da perna dele quase não eram perceptíveis.
—Oi… -Falei normalmente ainda na porta e ele me deu um meio sorriso, logo entrando.
—Faz um tempo que eu não venho aqui, né? -Jonathan sentou-se no sofá e deitou a cabeça na parte de cima do assento, como se descansasse. -Seu porteiro deve ter me reconhecido, eu disse que iria entrar e estacionar e ele nem ligou pelo interfone nem nada.
—Eu disse para ele que você e minha mãe tinham entrada livre, qualquer outra pessoa ele liga. -Ele sorriu, um sorriso malicioso, mas permaneceu no mesmo lugar. -Porque você sumiu?
—Você começou a ter aulas, né? -Ele levantou. -Nossa, tô com fome.
—Vem… A comida tá quente! -Falei caminhando para a cozinha e ele me acompanhou.
—Nossa, eu quero água! -Jonathan invadiu a geladeira e pegando água para tomar.
Um claro sinal de que ele estava com ressaca. A vontade por água interminável, os óculos escuros. A noite deveria ter sido boa, mas eu não levantaria essa questão.
Jonathan pôs a comida e sentou-se para comer. Eu peguei um pouco de suco e coloquei no copo para tomar enquanto ele comia. O papo durante o almoço foi mais leve. Ele acabou querendo saber como estava sendo o começo das aulas e eu falei sobre as primeiras impressões, sobre as pessoas que eu consegui fazer algum tipo de ligação e perguntei como estava as coisas no escritório. Ele falou que todo mundo era profissional demais e que aquilo estava sendo uma experiência diferente das que ele tinha tido, que como a minha mãe estava correndo para agilizar os processos e ele acabou na correria. Perguntei o que ele faria depois que minha mãe entrasse em licença e ele respondeu que não sabia, mas que achava que iria ajudar outro advogado, talvez até o que pegasse os casos.
—Nossa… Tá muito bom! Você comprou?
—Não, eu fiz. -Com certeza eu estava vermelho, preferi tomar o suco para disfarçar.
—Caraca, tá assustando muito Masterchef então, hein? -Eu ri e Jonathan também.
Acabei pegando a louça e deixando na pia. Depois eu resolveria aquilo, era melhor aproveitar enquanto Jonathan ainda estava aqui.
—Vamo pro sofá! -O loiro falou e logo se encaminhou. Eu fiz o mesmo e sentei-me no sofá ao lado. -Por que tão longe? Vem pra cá! -Jonathan falou.
E eu fiz isso. Me levantei e sentei ao seu lado. O loiro deu uma fungada no meu cabelo e ficamos quase num abraço no sofá. Liguei a TV e conectei no Netflix, enquanto Jonathan passava pelas opções sem escolher nada.
—Seu cabelo fica muito estranho assim… -Levei minhas mãos até a testa dele e tentei tirá-los dali. Jogando para cima ou para trás. -Deixa eu dar um jeito nisso…
—Vai com calma! Tô com muita dor de cabeça. -Avisou enquanto ainda mexia nas opções.
—Ressaca? -Me afastei do loiro e ele deitou-se sobre o sofá, de lado, ainda olhando pra TV. O loiro apenas gemeu um “uhum” concordando.
Silêncio. O loiro acabou escolhendo algum filme, mas eu não dei atenção.
O que aquilo retratava entre nós? Jonathan seguia uma vida de sempre, saindo, se divertindo e bebendo, enquanto eu estava numa outra frequência. Frequência essa que eu sempre estava na minha vida, afinal, eu nunca tinha sido uma pessoa que gostava de sair ou de beber com alguns amigos. Aquilo não me era comum.
Mas como aquilo ficava entre nós? Como eu poderia lidar com a “vida de solteiro” de Jonathan, enquanto eu permanecia o mesmo apaixonado e calmo de sempre. Minha cabeça não era das melhores sobre esse assunto.
—O que houve? -Olhei para ele, ao perguntar aquilo. Ele seguia vendo o filme e percebi que fazia quase vinte minutos já. Eu havia pensado durante todo esse tempo?
—O que? -Questionei.
—Você calado, isso não é normal? O que aconteceu?
—Nada… Só pensando! -Ri sem graça e ele me olhou, eu seguia fazendo um cafuné leve nos seus cabelos.
—Você nunca está só pensando…
—É… Você me conhece.
Jonathan sentou e apertou no pause. O filme parou num momento em que um monstro ou demônio estava com a boca completamente aberta e uma mulher loira saia ou entrava dentro da boca, não dava para entender porque eu não estava vendo aquilo com atenção.
—Pra onde você foi ontem? -Perguntei olhando para meu colo.
—De que isso importa, Has?
Hm… Eu sabia que aquilo não iria para um bom lugar. Eu tinha certeza disso!
—De nada… Mas, você saiu e tal e eu liguei pra você e você não atendeu e aí… Você chega aqui hoje de ressaca porque ontem deve ter bebido demais.
—Eu saí com a galera da escola que terminou, mas que não passou na Universidade como você e que tá vivendo de farra agora, já que eu vou voltar para escola daqui a duas semanas basicamente, eu não posso me divertir.
—Pode… Eu só estava questionando onde você estava.
—Você não quer fazer uma cena de ciúmes, quer? -Jonathan e sua maneira fácil de lidar com brigas. Nada parecia ser resolvido com diálogo.
—Porque você diz isso?
Na verdade, eu estava puto. Ver como Jonathan levava a vida e como eu levava, só mostrava que dali a alguns bons anos, eu seria um cara que sempre pensaria, nossa… Eu não me diverti, eu não saí e eu não fiz nada que eu deveria ter feito na juventude, enquanto Jonathan nunca viveria esse problema. O grande problema não era o nosso comparativo de quem sair mais. O grande problema era pensar em como eu estava doando parte da minha vida para algo que não necessariamente eu sei se vai durar.
—Eu sair com meus amigos é muito ruim pra você?
—Você não falar comigo é o que é muito ruim para mim!
—Às vezes, você parece uma garota! -Era… Ele queria mesmo.
—Eu pareço uma garota… -Levantei e fui até a cozinha. Jonathan permaneceu sentado, peguei um copo com água e tomei… Era melhor eu respirar. Ao voltar encontrei o loiro ainda sentado, me olhando, eu estava no balcão apoiado. -Eu estar decepcionado por você ter saído e não ter me avisado me faz parecer uma garota, então me diz o que me faz parecer um homem, porque eu não consigo enxergar isso. -Eu estava sendo o máximo de irônico que eu conseguia e Jonathan franzia o cenho irritado, ele havia entendido tudo.
—Porque você quer brigar por isso?
—Porque você claramente merece isso! Se estivessemos em situações contrárias, você estaria tão chateado quanto eu, talvez já tivesse partido pra cima de mim.
—Has… -O loiro levantou irritado, mas suspirou para se acalmar. -Você está sendo patético…
Patético!
—Patético por ficar indignado por eu estar vivendo algo unilateral? -Questionei bebendo a água.
—Patético por estar fazendo uma ceninha de ciúmes, similar a uma garota de catorze anos com o primeiro namorado!
—O que eu posso fazer, hein Jonathan? -Me aproximei e fiquei bem de frente ao loiro. -Se você não lembra basicamente você foi o meu primeiro namorado e se você resume patético a uma pessoa que está irritada, eu gosto de ser patético!
—Olha, eu não preciso disso, não! Eu estou morto de dor de cabeça e a última coisa que eu quero é me irritar com você! Eu achei que você queria que eu viesse para cá para ter uma tarde tranquila, mas parece que você está mais preocupado em estragar tudo bancando o ciumento, eu não tô precisando disso, não!
—Então o que você ainda está fazendo aqui?
Silêncio.
Jonathan me olhou por mais cinco segundos, como se estivesse assimilando aquilo e realmente confirmando que havia ouvido aquela frase sair de mim. Para mim mesmo está até surpreendente. O loiro então virou e saiu dali sem sequer dizer nada. E aquela talvez fosse uma briga de término, talvez eu estivesse exagerando, mas com certeza, aquela fora uma das maiores brigas que já tivemos.
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