I Hate You Too!
64 LXIV - Libertação
Notas iniciais
(POV: JONATHAN)
Chovia pra porra lá fora!
Era uma quarta-feira e eu estava no hospital com a Gabriela, meu pai ainda iria chegar e o Has… Bem, ela pediu pra não avisar ao Hassan o que aconteceu, muito possivelmente para que ele não saísse da Universidade ou ficasse nervoso com isso e se desse mal nas mil provas que ela disse que ele tinha que fazer. Enfim, Has sempre seria o bebezinho dela e não importava nada mais que isso…
Ok, comentário péssimo.
Eu acho que só eu estava sabendo disso porque ela precisava de ajuda. Gabriela estava no terceiro mês de gravidez e como tinha certa idade precisava ter atenção redobrada. Houve um sangramento e ela veio correndo pro hospital comigo, talvez por medo de ter rolado um aborto espontâneo e toda a única felicidade daquela casa que consistia no novo membro que ia chegar iria acabar.
Sim, estava tudo um caos. Na verdade, esse caos jamais parecia que iria ter fim.
Gabriela e meu pai não conversavam direito um com o outro, o casamento feliz de antes agora parecia apenas uma situação de conveniência. Continuei ali sentado, com o terno que eu usava pra trabalhar e mexendo no celular, na primeira imagem que apareceu no instagram era uma foto dele…
Has estava sorrindo com o amigo atrás também sorrindo e uma legenda que dizia “nem parece que viramos a noite estudando”, aquele tal de Felipe era bonito e poxa, será que rolava algo entre eles? Viraram a noite estudando… Devem ter se agarrado um bocado.
Eu devia curtir a foto… Aquilo iria ser entendido como ciúmes? Aliás, existia ciúmes?
Não existia ciúmes, eu não tinha posse das decisões do Hassan e nós não tínhamos nada, eu mesmo era a pessoa que tinha dito isso…
E isso era o que me deixava mais puto, puto por a única pessoa que eu permiti se aproximar, agora deixo ir.
—Jonathan… -Meu pai chegou entrando correndo e me encontrando no corredor. -Onde ela está?
—No consultório, deve tá fazendo algum exame…
—E porque você não entrou junto.
—Não deixaram… -Continuei mexendo no celular e ignorando a presença do meu pai que agora deveria estar me olhando com uma cara de pouquíssimos amigos.
—Qual o consultório…
—Não sei. -Balancei os ombros em negativa, outra coisa que eu sabia que irritava ele demais. -Pergunta na recepção…
Ok, eu estava exagerando. A situação era séria e eu estava demonstrando zero preocupação, apesar de estar sim bem preocupado, mas meu pai merecia.
Ele fazia os outros sofrerem ao fazer com que eles engulam suas opiniões e decisões, então eu me sentia no direito de fazer o mesmo. Eu nem sabia como foi que ele soube disso, talvez a Gabi tenha informado a ele e ele apareceu preocupado como o bom marido que ele acha que é.
Entrei no perfil do Has e desci um pouco, cerca de umas 10 postagens tinha um foto que me agradava muito.
Era no meu quarto, ainda quando nós dois dormíamos lá. Era uma foto da janela mostrando a grande árvore do quintal e um pouco do céu nublado, Has adorava dias nublados, mas o importante daquela foto era eu.
Na verdade, eu nem estava como ponto focal, mas dava para ver, meu corpo deitado na cama, dormindo virado para a janela. Dava para ver um pouco da camiseta preta que eu uso para dormir e alguns fios de cabelo loiro soltos pelo travesseiro.
Se aquela foto ainda existia ali, era porque ele não tinha desistido de nós…
Nós…
Existe algum nós?
É difícil saber se existe nós quando a gente não controla a cabeça do outro, não é? Aquelas velhas histórias de gostas de alguém que não gosta de você, mas será que essa pessoa realmente não gosta de você? Será que os nossos inimigos internos não tentam nos destruir e estragar os nossos próprios desejos e sentimentos.
Inimigos internos…
Viver basicamente é acreditar que tudo que a gente pensa é porque estamos certos disso, mas às vezes, tudo que a gente pensa é algo montado pra gente se dar bem ou se dar mal em alguns assuntos. Todos temos inimigos internos…
Decidi então entrar no meu instagram e ver algumas fotos, a maioria eram minhas sozinho ou acompanhado de amigos, sempre com algum drink na mão e a única foto minimamente do Has, que eu nem sabia porque tinha postado era uma foto do chão do quarto, em que tinham algumas roupas minhas amontoadas e sujas e bem no cantinho estava lá. Um par de sapatos dele deixado organizadamente no cantinho do quarto.
Eu bagunceiro e o Has organizado.
Enquanto toda a minha pilha de roupas que metaforicamente podia representar meus sentimentos e minhas ações estavam ali, o Has representava um porto seguro, um pequeno gesto e simples. Um sapato meticulosamente posto num cantinho, porém já representava muita coisa.
Levantei o olhar e Gabi vinha de cadeiras de rodas com meu pai carregando. É… Parece sério…
—Jonathan. -Meu pai chamou e eu me aproximei.
—Eai, Gabi… Melhor? -Falei me aproximando dela e deixando meu pai no vácuo eterno que ele merecia.
—Sim, querido, estou sim. Vamos para casa?
—Mas e o trabalho? Você pegou atestado?
—Na verdade, eu não vou poder mais ir trabalhar… -Baque. Aquilo com certeza iria me afetar no trabalho. -O médico receitou que esses últimos meses fosse de descanso total, para evitar complicações.
—Mas…
—Não precisa se preocupar querido, eu estou bem, é só que o trabalho exige muita entrega pela leitura e envolvimento com os casos e isso afeta os hormônios já muito alterados. Ele sugeriu que era melhor evitar grandes emoções boas e ruins…
Grandes emoções ruins… Quer pior emoções do que morar naquela casa, acho difícil.
—E o estágio? E o Hassan?
—Sobre o estágio, eu vou falar com o Castro, ele está precisando de um assistente mesmo, com certeza ele vai pegar os meus casos, já que trabalha numa área parecida com a minha e não acho que ele vá reclamar de te ter como assistente, você é muito competente.
—Bem, então vamos para a casa, né? -Meu pai falou tentando animar. -Jonathan, leva a Gabi na cadeira até o estacionamento, eu vou pegar as receitas na enfermaria agora.
Peguei a cadeira e segui até a saída do hospital, Gabi estava calada com as mãos descansando sobre o colo. Era estranho ver ela assim… Principalmente por ela ser tão forte e cheia de vida, agora parecia triste… Imagine se ela tivesse tido um aborto, não sei como ela iria reagir.
—Você consegue levantar? -Falei oferecendo ajuda e abrindo a porta do carro. Ela apenas levantou e se apoiou no meu ombro e logo entrou no banco de trás sentando novamente. -Gabi, tudo bem?
—Tudo, querido. -Claramente ela estava mentindo. Entrei no carro pela porta da frente e fiquei esperando meu pai.
Parecia que as coisas nunca deixariam de desandar. Eu queria que tudo voltasse aos trilhos, um pouco. Minha péssima relação familiar, minha falta de sinceridade com meus amigos e meus grandes tropeços com o Hassan, tudo isso afetava um bocado a minha existência.
Meu pai estava voltando e eu fui logo colocando os fones de ouvido. Era melhor ouvir qualquer merda do que ele tentando se comunicar.
O caminho pra casa foi silencioso, Gabi estava calada apenas olhando pra frente, meu pai concentrado na direção e eu estava mexendo no celular fingindo fazer algo de relevante. Por mais que eu não quisesse eu não conseguia ficar sem entrar no Instagram do Has. As últimas fotos eram variadas, mas a presença do tal Felipe era corriqueira, principalmente nas fotos postadas que duram 24 horas, o que só demonstrava como eles estavam juntos.
Aquilo estava começando a me afetar… Has parece que estava melhor com Felipe do que comigo, será que eu deveria ir lá e falar com ele sobre isso? Deixar claro que eu poderia abrir mão de tudo isso e deixá-lo ir…
Deixá-lo ir…
Como se em algum momento eu tivesse permitido ele ficar. Não só ficar como adentrar e ser realmente próximo. Ninguém era próximo. Exceto minha mãe, mas isso já faziam anos. Muitos.
Ao chegarmos em casa, eu fiz questão de ajudar Gabi a sair do carro e de sentá-la no sofá. Ela falou que falaria com Castro ainda hoje e que talvez amanhã eu já tivesse que ajudar ele nos processos, a priori ela pediria para que eu ficasse com os que eu já estava trabalhando. A maioria eram fáceis, principalmente vinculados a contratos quebrados entre empresas e pessoas e problemas relacionados a separação, pensão e guarda de filhos.
Gabriela era especialista em pequenas causas e direito de minorias, principalmente mulheres, além de direito familiar. O que fazia com que ela ganhasse menos pelo porte dos processos e tivesse que trabalhar muito para conseguir uma remuneração boa. Enquanto um grande advogado se debruçava sobre um grande caso ou dois no máximo. Ela lia e trabalhava em cinco casos pequenos ao mesmo tempo, as vezes eu não entendia como ela conseguia não se embananar toda naquelas coisas.
Meu pai trouxe a bolsa, o sapato e o casaco dela e sentou-se ao seu lado. Eu não queria participar daquele diálogo e resolvi subir logo. Entrei no quarto e logo subiu aquele cheiro.
O cheiro da saudade.
Eu ia morrer por causa daquele quarto. O Hassan não sabia, mas eu havia pegado duas camisas dele no dia da mudança e ele saiu tão apressado que não sentiu falta desses itens, além do fato dele ter camisas para vestir um batalhão partindo para uma guerra. E aquele cheiro simplesmente tomou todo o meu quarto, porém não era como se eu me incomodasse, apenas sentia falta.
Deitei na cama e saquei o celular… Novamente entrei nas redes sociais para ver se ele havia postado alguma novidade da sua vida de estudante de Medicina. Nada de novo, o que deixava claro que ele ou estava ocupado ou estava curtindo com o tal Felipe…
Felipe…
Aquele garoto parecia a maior representação de um rival que eu poderia ter. Rival? Era a melhor palavra aplicável? Ele estava tendo tudo que poderia ser meu, óbvio, se eu não tivesse sido um filho da mãe. A atenção, o carinho e talvez até os sentimentos do Has.
Sentimentos…
E se o tal Felipe tivesse sentimentos pelo Has também…
Levantei rápido e corri pra baixo, precisava tomar uma água.
Isso talvez fosse a pior percepção que eu poderia ter. Eu não deveria deixar esse tipo de baboseira entrar na minha cabeça. Principalmente quando eu tenho que ser a pessoa que tem que resolver toda essa loucura.
Peguei o copo de água e bebi.
Jonathan, temos que fazer a coisa certa dessa vez. Finalmente. Era isso. Nada de saudade, nada de medos, nada de ciúmes.
Sabe quando as pessoas dizem que você tem que tomar o controle das suas próprias ações e ter noção das suas próprias responsabilidades… Era isso. Tinha eu que tomar o controle e ter noção do que eu tinha que fazer para acertar na vida.
Acertar talvez pela primeira vez.
Respirei fundo e fui até o quarto do meu pai. Gabriela estava grávida e em uma situação de risco e conversar com meu pai na frente dela ia ser apenas pior, mas estava na hora de eu jogar os medos e os problemas todos para fora, não?
Bati na porta e logo ele veio atender, ficando apenas possível vê-lo pela pequena fresta.
—Oi, Jonathan…
—Pai… Podemos conversar? -Perguntei, no máximo de defensiva que eu conseguia, talvez evitar contato bruto fosse o mais sensato a se fazer. Ele me olhou com uma expressão de nervoso, talvez por não esperar um contato tão amistoso vindo de mim.
Principalmente pelos nossos contatos sempre se resumirem em conversas frias ou brigas a fio.
—Claro.
—Sala? -Virei-me e comecei a caminhar de volta para a escada e percebi que ele me seguia.
—Ainda acho você estranho com o cabelo raspado.
—Já está crescendo. -Avisei e logo virei. -Quer sentar? -Apontei para o sofá…
Talvez não fosse a melhor decisão. Aquele sofá foi onde eu e Hassan estávamos nos pegando e quando ele descobriu e todo o trem descarrilhou depois daquilo. Ele sentou e eu sentei na poltrona em frente.
—O que houve? -Ele perguntou.
—Acho que eu preciso dizer algo… Na real, deixar algo mais do que claro… E acho que essas coisas não foram ditas ainda.
Ele me olhava com cara séria e curiosa.
—Pai, eu sou gay e eu gosto do Has… De verdade, não é fase e nem nada do tipo, eu aprendi muitas coisas com ele e aos poucos eu vou tendo mais certeza dos meus sentimentos e por mais que você não aprove esse tipo de coisa, sendo bem sincero, eu não preciso da sua aprovação…
—Jonathan…
—Eu não terminei pai… Eu quero assumir algo sério com o Has…
—Isso é loucura, Johnny…
—Pai, sem Johnny! Você nunca me chamou de Johnny e você nem deve! -Levantei para impor respeito, não por estar puto…
Meu pai conseguia me deixar puto com a maior facilidade do mundo.
—Porque você não consegue entender…
—Filho, e a Camila? E todas as meninas? O Has…
—O que tem o Has?
—O Has é seu irmão!
—Não viaja, pai! Eu e o Has nos conhecemos com quase vinte anos na cara, não temos nenhum laço sanguíneo compartilhado… -Cheguei perto dele, mas não o suficiente para caso ele quisesse voar em cima de mim e me bater, não era idiota. -Sobre as garotas… Foram passatempos, envolvimento sem sentimentos, não significaram nada…
—E você sente algo pelo Has ou é apenas a sua vontade de me contrariar? -Ele levantou e ficou me encarando, bem firme, com os olhos brilhando…
—Não acho que isso seja algo pra te contrariar. E eu já disse, eu não quero sua permissão, eu apenas estou lhe informando…
—Filho. -Ele encostou as duas mãos no meu ombro e suspirou. -Você… Eu… -Ele suspirou de novo. -Eu não quero isso pra você…
—Pai…
—Mas… Darei meu melhor pra te respeitar. -Ele me puxou para um abraço apertado e eu apenas senti seu peito bater no meu e seus braços me cobrirem, eu não consegui fazer nada com aquela resposta. -Sua mãe faria isso e já que ela não está aqui, eu tenho que fazer isso…
Meu pai sendo apoiador em algo que eu queria… Aquilo parecia inédito demais.
—Pai…
—Isso não é fácil pra mim, eu tinha… Outros planos por você, outros objetivos e outros sonhos… Mas filho, você é um pedaço de mim… -Ele me deu um beijo no rosto e ficou afagando minha bochecha, algo que minha mãe fazia antes de morrer. Aquilo me fez lembrar dela e de como os dois eram amáveis comigo antes de tudo acontecer em nossas vidas. -Mas você não é como eu, você tem que ter seus desejos, seus sonhos e seus objetivos e eu só posso… Te amar e respeitar, me desculpe por ter sido duro contigo todos esses anos.
—Eu… Não sei o que… Dizer.
—Não precisa dizer nada, eu não vou negar, esse começo é meio difícil e complexo pra mim, mas… É sua vida… Só, seja feliz!
[...]
Eu estava de frente ao espelho do quarto, ajeitando a gola da camisa azul escura para aquela noite, felizmente eu tinha diminuído em 20 minutos o tempo de me arrumar, já que eu não tinha mais cabelo para ficar pondo de um lado para o outro até ficar milimetricamente do jeito que eu gostava.
Era noite né e eu tinha combinado de ver meus amigos Rafael e Danilo, os dois caras héteros que faziam parte do grupo de futebol e que eu conhecia já tinha uns bons anos.
Se eu tava pensando em fazer algo certo, eu tinha que fazer completo.
Danilo e Rafael eram os meus amigos mais chegados e para continuar com a conversa de mais cedo, eles precisavam saber de tudo aqui também.
Por mais que Danilo e Rafael não fossem homofóbicos de verdade, o clássico de piadinhas sobre viados eram comuns e nunca havia me afetado realmente, porém assumir que eu gostava de homens e de um especificamente iria fazer com que certas coisas acabassem por mudar.
Rafa havia mandado a mensagem dizendo que já havia chegado e eu respirei fundo. Nós íamos para o barzinho de sempre, tomar umas cervas e geralmente paquerar umas garotas, mas parece que daquele em diante, as coisas mudariam.
Será que eu ainda ia ser chamado depois disso? Será que as pessoas ainda gostariam de me ter por perto? Sacudi a cabeça, não era hora de deixar o medo vir e tentar me derrubar, eu tinha coisas a fazer, deixar tudo claro comigo mesmo e com as pessoas próximas, era hora de fazer a coisa certa.
Desci as escadas em silêncio, toda a casa estava escura, meu pai e Gabriela estavam no quarto e poderiam estar conversando ou vendo algo na Tv. Ultimamente, eles estavam passando o tempo juntos sempre vendo tv, talvez como uma forma de evitar discussões, principalmente com Gabriela tendo uma gravidez de risco.
Saí da porta e encontrei o carro preto de Rafa estacionado na frente de casa e logo o vidro da frente baixou mostrando os dois.
—Eai viadinho! -Falou Danilo rindo em seguida.
Engoli minha própria saliva antes de responder aquela saudação. Eu sabia que não tinha como eles desconfiarem e falarem aquilo com alguma dúvida, era apenas o velho costume hétero de “minimizar” o amigo.
—Eai… A gente vai pra onde? -Falei entrando no banco de trás e sentando ignorando o comentário dele.
—Cara, não lembra? -Rafa virou do banco do motorista, antes de dar a partida. -Hoje é o karaokê das gostosas, daquele bar do David, lá no Centro. -Comentando como se fosse a coisa mais óbvia, uma péssima festa para me assumir.
O karaokê das gostosas era simplesmente o evento mais machista de um dos bares mais machistas do Centro. Consistia, basicamente em um karaokê onde apenas as mulheres poderiam cantar e, dependendo do bom desempenho delas na música ou de quão interessante elas fossem visualmente, algum malandro ia lá e pagava uma rodada de bebida pra ela e para algumas amigas que poderiam estar junto.
Isso facilitava para ambos os lados, homens que acham que conseguem mulheres por serem mão aberta e mulheres que se acham espertas demais por estarem bebendo na conta de um imbecil, sendo que geralmente ela pagaria isso mais tarde numa noite de sexo.
E é isso… Esse é o tipo de evento que eu e meus amigos costumávamos ir…
Quando você tem interesse por pessoas do sexo oposto isso era até legal, um jeito fácil de conseguir transa, mas eu não estava mais nessa vibe, quem não se surpreenderia se eu dissesse que preferia estar com o Has vendo alguma merda na Netflix na cama dele…
Quem te viu, quem te vê, Jonathan…
—E quem vai estar por lá hoje? -Perguntei desinteressado.
—Cara, eu ouvi falar que a Andressa ia aparecer. -Danilo falou todo interessado. -E que ia levar umas primas dela também…
Perfeito!
Tudo que eu precisava!
Andressa era a foda fixa de Danilo e qualquer encontro que ela ia com as amigas ou primas terminava com todo mundo arranjado com alguém. Uma bela enrascada que eu tinha me metido, me assumir na noite em que iriamos pro karaokê das gostosas e Andressa ia levar as amigas dela para o rolê.
—Ahh, hoje eu passo…
—Cê tá brincando? -Rafa falou indignado. -A Bruninha vai, cara?
Tem como ficar pior?
Bruna ou Bruninha no caso, era uma das garotas que eu acabava ficando e não sendo filha da mãe, mas ela beijava muito bem. O que iria acabar de vez com a minha ideia, já que eu teria que dar um fora nela.
—Rafa…
—Chegamos, manos. -Danilo impediu a minha fala e logo fomos descendo.
O tal bar era bem legal. Ficava numa esquina numa rua que sempre era animada do Centro durante a noite, no meio daquela caralhada de prédios e pontos comerciais, ali era a parte que mantinha uma vida noturna cheia de jovens, bebidas e outras drogas.
Rafa sacou um cigarro ao descer e Danilo saiu cumprimentando algumas pessoas. Me aproximei de Rafa e fiquei olhando a frente do bar. Era simples, tinha um ar de casarão antigo com uma varanda enorme que agora tinha se fechado pra ser espaço para os clientes. Lá dentro era bem climatizado e tinha um pequeno palco onde aconteciam os karaokês.
Já dava para ouvir uma garota estragando alguma música qualquer de sertanejo e que se fosse gostosa logo ia ganhar uma bebida de algum malandro.
—Cansado desse tipo de rolê… -Falei enquanto via Rafa soltar a fumaça densa dos pulmões.
—Sério? -Deu um sorriso de lado. -Da última vez que a gente veio tu falou que adorava o bar do David…
Eu tinha que parar de dizer tantas mentiras…
—É… Mas faz tempo né? — Desconversei.
Rafa deu de ombros e seguiu fumando o seu cigarro.
Será que aquela era uma boa hora? Ele tava sóbrio, levaria o que eu fosse falar a sério e talvez até acertassemos algo para um futuro próximo ou seria melhor eu esperar eles beberem um pouco e aí sim soltar alguma informação que talvez ficasse perdida pelo o uso da bebida?
Arriscar falar algo sério com eles bêbados não era o sensato a se fazer, ainda mais agora. Eu queria me libertar e só sendo sincero eu conseguiria chegar nessa liberdade.
—Cara… -Ele virou o rosto e me encarou, com a sobrancelha arqueada permitindo a continuação da minha fala. -Cê tem algum amigo gay? -Ele deu um sorriso de lado. -Cara…
—Qual é, Jonathan? Quer cortar pro outro lado? -E riu logo em seguida. Permaneci olhando pra ele sem dizer nada. -Bem que a galera achava estranho tu tá morando com aquele nerd lá da escola.
Um soco no estômago, então a minha relação com o Has já havia sido pauta entre os grupos de amigos da escola?
—Como assim?
—Até acharam que cê foi embora pra deixar de ser viado…
Pera… Aquilo era informação demais pra mim, naquele momento, então aquele tipo de assunto já tinha sido pauta e ninguém tinha retratado isso comigo, então das duas uma, ou eles acreditaram naquilo de vez ou nem passou pela cabeça deles que aquilo poderia ser real.
—Mas como isso não chegou em mim?
—Ué, Jonathan? Acha que alguém ia ter peito de chegar pra ti e falar que tu tava comendo aquele viadinho lá? Num acha que a gente ia quebrar a cara desses otários?
É… A situação não tava muito boa pra me assumir agora pelo jeito, mas… Eu não podia dar pra trás agora. Deus sabe quando eu teria peito pra fazer isso de novo.
—Mas e se eu fosse? -Rafa cerrou os olhos com raiva. Se aproximou de mim com rapidez e me empurrou contra a parede segurando o meu pescoço.
—Tu não vai me inventar de virar viado depois de eu ter deixado claro pra meio mundo que o meu melhor amigo não ia tá sendo bichinha por aí, é isso que você tá me dizendo mesmo, Jonathan? -Ele falava baixo e calmo, embora estivesse com a mão segurando firme no meu pescoço contra a parede.
—Rafa…
—Fala, seu merda! -Ele aproximou a boca da minha orelha e sussurrou. -Se assume viado então!
—Sim… Eu sou isso que cê tá falando.
—Seu pau no cu!
Rafa me puxou pela camisa com raiva e eu fiquei sem reação. Então eu ia sofrer a merda de homofobia pela primeira vez e logo pelo meu melhor amigo? Rafael me puxou pela camisa e me levou até a lateral escura do bar, ali não tinha ninguém e era apenas a entrada para o palco, onde a banda que iria tocar entrava com os instrumentos, mas naquela noite não haveria banda, porém era noite de karaokê.
Rafa me empurrou novamente e era isso, ele ia me dar um soco no meio do rosto e eu não conseguia fazer nada e era isso. Ao me jogar na parede, ele veio e me…
Beijou.
Senti seus lábios encontrando com os meus e sua língua invadindo a minha boca. Deixando minha boca com o gosto do cigarro de cravo que ele acabara de fumar. Uma das suas mãos estava no meu peito e a outra apoiada na parede e …
Não, aquele não era o ponto daquela conversa.
Empurrei o corpo dele pra frente.
—Que merda é essa, Rafa?
—Que merda é essa é tu, Jonathan! Seu idiota! -Ele deu alguns passos pra trás e parecia nervoso.
—Como que tu vem todo com o papinho de eu não ser viado e faz uma coisa dessas?
—Eu não sei… Jonathan… -Ele parecia meio nervoso. -Você é um filho da puta, Jonathan.
E saiu… Apenas saiu…
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