I Hate You Too!

65 LXV - Vulnerável


Notas iniciais
Sim... Eu sei... Alguém ainda está por aqui? — Gente eu real tinha desistido da história, sendo formado com 27 anos e tendo que seguir minha vida a última coisa que eu pensei foi em escrever, mas houve algo que me abrilhantou e me trouxe de volta. — Heartstopper da Netflix, essa serie trouxe de volta o autor que vos fala quando começou, com 14 anos lá em 2010 e eu lembrei o que me fez escrever, que foi a falta de ver personagens gays jovens sendo felizes e vivendo o que eles podem viver. Hassan e Jonathan foram criados em 2011/2012, então eles já tão com 10 anos por aqui, mas na história seguem como adolescentes de 18/19 anos. — Pra quem não viu Heartstopper, pra mim foi um sopro de esperança e de sentimentos bons que eu não sentia há anos. Eu recomendo ver a série, ler os comics e tudo que você possa, porque esse universo criado por Alice Oseman me trouxe uma esperança que eu já achei que não existia mais. — Em todo caso, pretendo terminar essa história até novembro, que é quando ela faz o aniversário de 10 anos (eu sei, prometi terminar muitas vezes, mas 10 anos são 10 anos né?) kkk — Enfim, caso tenha alguém ainda por aqui, boa leitura!!!

(POV HASSAN)

Sabe quando seus dias estão tão ruins que parece que o tempo está respeitando seu estado de espírito, pois é… Já chovia pra caramba usualmente nessa época do ano, mas esse ano parecia que estavam tentando bater o recorde de maiores chuvas.

O vento chicoteava a porta de vidro da varanda e ela tremia com o vendaval, fora o barulho da chuva em contato com o vidro e o céu em perfeita escuridão dizendo que isso não ia acabar tão cedo.

A única coisa boa de dias assim era que a Universidade liberava a aula, para evitar que algum aluno ou professor sofresse algum acidente.

Metade da cidade estava alagada, as áreas pobres todas estavam passando pelos problemas comuns da chuva e às vezes eu agradecia por ter uma vida confortável e não me preocupar se o teto da minha casa vai cair sobre a minha cabeça.

Essas paradas me fazem lembrar coisas e lembrei do João… Ele morava no começo da maior favela da cidade, será que estava tudo bem com ele? Por mais que tivéssemos afastados pela minha vingança ridícula com o Yuri, e o fato de atualmente os dois estarem juntos, eu ainda tinha lembranças dele.

Ele e Yuri eram bem opostos e aparentemente seguiam se dando bem, pelo menos era o que o Instagram mostrava, mas o Instagram nem sempre mostra tudo sinceramente, né?

Já a minha vida estava uma bagunça.

De uns dias pra cá, descobri que minha mãe havia sido dispensada do emprego e que a gravidez dela era de alto risco. Aquilo era a situação perfeita para economizar e melhorar a situação dela, porém eu ia seguir sendo o filho que estava sendo bancado fora de casa e basicamente sendo um gasto.

A vontade de voltar a ficar próximo dela e entender esses conflitos todos dando apoio diário deveria ser o que eu devia estar fazendo e não sendo o estorvo financeiro que eu sou… O egoísmo já está aí não? O velho Hassan egoísta.

Por mais que o apartamento fosse da minha mãe e o gasto com o aluguel fosse nenhum, ela ainda me supria em todo o resto, contas mensais, alimentação e algum dinheiro extra para emergências e acho que estava na hora de eu tentar ser um pouco mais independente. Conseguir alguma renda poderia pelo menos amenizar…

Com toda essa confusão, eu acabei tomando bomba numa prova importante e possível teria que fazer uma outra prova para não reprovar e que merda…

Reprovar no primeiro semestre, seria quase como uma prova de que eu estava fazendo tudo errado. Talvez o nerd de antes não seja mais tão nerd, ou as bombas da minha vida estejam destruindo a minha paz de espírito e minha possibilidade de estudar.

E como se nada tivesse tão ruim que não pudesse piorar, ainda tinha os garotos.

Jonathan e Felipe…

Os dois garotos que deixavam minha cabeça louca. Felipe era hétero e isso é inegável, mas o que eu estava construindo com Felipe era o máximo… Éramos amigos, confidentes, tínhamos uma relação de perfeita sintonia, troca de humor e planos para a vida…

Diferente do Jonathan… Que nunca foi próximo ou meu amigo, em primeiro lugar… Talvez toda a construção tenha sido sexual… De interesse sexual, mas como resolve isso? Talvez nunca tenha sido meu amigo.

A chuva que já estava forte aumentou… Junto com a confusão mental, era melhor eu continuar deitado e tentar não pensar em nada.

O sofá era confortável e com o clima bem nublado, não tinha muita luz dentro da sala, era perfeito para cair no sono.

Eu estava coberto pelo edredom e o barulho da chuva e do vento na porta, por mais alto que fosse ainda assim era agradável, eu sempre amei chuva, até essas que me assustavam. A chuva era a representação perfeita de transbordar emoções… Se as lágrimas eram a emoção do rosto, a chuva era a emoção da natureza.

Era melhor eu dormir…

Fechei os olhos e comecei a deixar meus pensamentos irem embora, me desligar do mundo poderia ser bom para tentar apagar todos esses pensamentos. Minha mãe com gravidez de risco e sem trabalho, o que faria eu depender unicamente do homem que me agrediu. Isso já era ruim o suficiente…

Antes que eu chegasse a pegar no sono o meu telefone começou a tocar e eu nem conferi o nome, apenas o peguei e atendi.

—Oi?

Has?—Jonathan? Levantei e fiquei sentado ainda coberto e com um ponto de interrogação na cabeça, aquele realmente era Jonathan? -Has?

—Jonathan?

—Oi?—Ele riu, uma risada abafada, aquilo era novidade. —Surpreso?

—Um pouco… Você não é de ligar. -Por um momento, eu me desesperei. -Tá tudo bem? Aconteceu algo com a minha mãe? Cês tão no hospital?

—Não, não, calma! Tá tudo bem, sua mãe tá deitada aqui no quarto, eu liguei…

Silêncio, eu devia perguntar?

—Ligou… ?

—É…—Suspirou, quase como se estivesse tomando coragem. O que será? —Queria falar contigo, sabe?

Como se tivesse lendo minha mente ele me ligou, tinha acabado de pensar nele e ele liga querendo falar comigo, mas… Falar comigo? Sobre o quê?

Jonathan e sua incrível maneira de se lembrar do próximo só quando ele precisa.

—E se eu não quiser… Se eu não quiser falar contigo? -Perguntei e ele ficou em silêncio.

—Eu respeito…

Essa foi uma surpresa… Jonathan tava sendo a pessoa que liga agora? Não tinha como não ser algo sério…

—Aconteceu algo? Eu não tô entendendo.

—Queria falar com você? Mas…—Silêncio… Respiração… —Seria bem melhor se fosse pessoalmente, é importante… Eu finalmente fiz algo certo e quero ter uma conversa contigo… Uma conversa de verdade…

—Jonathan… Eu não acho que devemos nos ver…

—Mas, Has…

—Não… Por causa da chuva, eu digo. Não é seguro você vir até aqui, a cidade tá toda alagada e não seria responsável…

—Você sempre sendo muito sensato…

—Mas, pela previsão, a noite vai dar melhorada, então acho que podemos sair…

—Para?

—Conheço um bar bem legal, te mando o endereço por mensagem, podemos nos ver às 8?

—Eu te pego…

—Não precisa, é no Centro… Fica mais fácil nos encontrarmos lá.

—Ok… Te vejo à noite…

Ok… Essa ligação foi aleatória. Se antes eu estava querendo tirar pensamentos e tentar dormir, agora eu não conseguiria na verdade… Jonathan e sua incrível forma de ser vago demais pra me deixar perdido, se existe alguém que contenha esse papel de ser misterioso o suficiente para fuder com seu juízo, Jonathan era essa pessoa…

Como eu ia conseguir relaxar… A chuva que estava fazendo o barulho suficiente decidiu que trovejar era o momento, os barulhos que antes eram da água batendo, agora eram ritmados com os sons de trovoadas e o clareamento do céu pela carga de energia.

Perfeito… Falei ironicamente para mim mesmo, levantei e comecei a andar pela sala de casa, o chão estava gelado, muito frio e a pequena fresta aberta da porta aberta deixava entrar um pouco da brisa fria da chuva e molhava um pouco o chão…

O que eu poderia fazer agora? Esperar a boa vontade da chuva diminuir e a noite poder encontrar com Jonathan, no bar que eu já fui com o Felipe…

E lá vem o Felipe…

Decidi ir até o quarto e pegar meu fone de ouvido… A melhor coisa que eu poderia fazer era ligar meus fones e ser consumido pela música e esquecer isso por enquanto… Não enlouquecer sozinho numa manhã chuvosa, não ficar ansioso é o objetivo.

[...]

Chegou a noite…

Conforme a previsão indicou, a chuva deu uma parada e agora o clima de frio persistia, a cidade seguia muito molhada e algumas áreas ainda estavam bem alagadas. Já eram quase 8 da noite e eu já estava pronto.

Sentado no sofá da sala mordendo meu lábio interior de ansiedade e arrumado. Como ainda estava bem frio, decidi usar uma camisa de mangas longas preta e uma jaqueta jeans, além das usuais calças e sapatos pretos que eu tanto amava.

O que aconteceria hoje? Porque eu seguia tão nervoso e sem saber como lidar com esse "encontro" com Jonathan. Já havia indicado o endereço para ele e ele disse que sairia de casa em 5 minutos.

Respira, Hassan…

Seja forte, seja incisivo, não seja hipnotizado por aqueles olhos azuis… Jonathan é uma máquina de persuasão às vezes, então o máximo que eu possa ter de autocontrole eu devo manter, afinal eu ainda estava receoso com esse encontro. Jonathan não era uma pessoa fácil e se eu vacilar, ele poderia se aproximar novamente e me magoar de novo.

"Já tô saindo de casa, devo chegar em 10 minutos"

Recebi a mensagem do Jonathan e já fui logo pedir o meu transporte para não chegar muito tempo depois. O carro chegou rápido.

O translado foi tranquilo e silencioso… Meu coração estava muito acelerado absolutamente do nada. Se minha cabeça já me deixava pirado com tantas coisas, meu coração era outro inimigo por ser descontrolado.

Respirei fundo quando cheguei ao bar.

Jonathan ainda não estava lá, mas não deveria demorar. A noite estava linda, o céu estava nublado, o vento era fresco e frio, parecia que já estávamos no inverno, me abracei sozinho e fiquei esperando, até que um carro preto parou e Jonathan saiu.

Nossa…

Esse garoto não devia ser tão bonito quanto é. Jonathan estava com uma calça bem escura preta e relativamente justa, marcando bem suas coxas e sua bunda, a camisa era de manga curta e branca, o seu casaco estava no braço e ele usava uma espécie de gorro escondendo o cabelo ralo, já que ainda estava curtinho, a barba um pouco rala de fios aloirados e ele sorriu.

—Demorei? -Perguntou chegando perto de mim e me olhando. -Você fica ótimo de preto.

—Obrigado. Não demorou não, eu cheguei tem uns 5 minutos no máximo. Gostei do gorro.

—Meu cabelo tá estranho, as desvantagens de ter raspado, agora ele tá num tamanho ridículo. Que lugar é esse? -Perguntou já olhando pra entrada do bar. A frente era singela, com um porta de acesso e um segurança, a fila tinha no máximo 5 pessoas, talvez pela noite fria que fez com que a maioria das pessoas ficassem em casa.

Jonathan passou pelo segurança e logo foi entrando no bar, comigo atrás, o ambiente estava relativamente vazio. Embora tivesse uma quantidade de pessoas, não estava lotado.

—Uau…

O loiro disse olhando para o bar. A decoração estava mais avermelhada, com luzes vermelhas e alaranjadas, no fundo do bar uma mulher tocava violão e cantava músicas autorais e algumas pessoas ouviam.

—O bar tem uma vibe mais de rock, mas hoje é a noite de MPB, acho que por isso que está mais tranquilo. -Expliquei e ele me olhou.

—Eu gostei daqui, não tem muito sua cara, como conheceu? -Perguntou enquanto andávamos do meio de bar para o balcão.

—Vim uma vez com o Felipe…

—Felipe?

—Sim, aquele meu amigo da faculdade…

Jonathan acenou, percebi que falar do Felipe deixou ele desconfortável, mas não ia mentir.

—Parece um bar alternativo bem legal, nunca tinha vindo… -Jonathan encostou no balcão e pediu dois drinks e logo foi atendido. -Vamos sentar naquelas mesas?

Comecei a caminhar no sentido das mesas. Eram a parte mais silenciosa e intimista do bar. Lá a luz era mais amarelada e leve. A música soava numa altura ambiente e a maioria das pessoas que estavam ali estavam dialogando entre si.

Sentei numa mesa de canto e o loiro sentou na minha frente, colocando os dois drinks na mesa. Ele tirou o acessório da cabeça e pôs sobre a mesa e deu pra ver se cabelo loiro estava crescendo, ainda estava bem curto, mas já era perceptível na cabeça dele. O loiro tomou um gole do drink.

—Bom gosto tem esse Felipe…

—E hoje nem é a noite que ele costuma vir, que é no dia do metal… -Bebi um gole da bebida que ele trouxe pra mim e estava leve, ainda bem. -Eu vim aqui só uma vez e gostei bastante daqui.

—É bem legal mesmo. -Suspirou tomando um gole e pondo as mãos sobre a mesa.

—Como que a minha mãe está? -Era melhor começar por outro assunto, antes de Jonathan começar a falar. Talvez até como uma estratégia de quebrar o gelo, principalmente ao pensar que nossos últimos contatos tinham sido... Um pouco conflituosos, por exemplo.

—Ela tá bem, só um pouco preocupada com a gravidez por ser de risco e também um pouco decepcionada por não estar podendo trabalhar, ela realmente gosta de trabalhar. -Suspirou tomando um gole do drink e eu aproveitei para fazer o mesmo. -E a faculdade? -Me perguntou arqueando as sobrancelhas. -Uau, esse drink é bom hein?

—Gostou? -Ri. -Tomei bomba numa disciplina…

—Você tá zoando? -Perguntou me interrompendo. -O nerd árabe se fudeu na faculdade? Isso é hilário…

Clássico Jonathan…

—E eu tô indo bem na escola? Será que suguei sua inteligência te beijando?

Wow…

Surpresa?

—Ok… Não estava esperando por essa. -Ele riu dessa vez.

—Inclusive faz tempo que eu não sugo sua inteligência. -Falou sugestivo com um sorriso no canto da boca…

Nossa, esse garoto era um filha da mãe de um garoto bonito.

—Calminha, senhor. -Desconversei.

Jonathan era isso, sensual e sugestivo. A vibe dele transparecia isso e da pior forma possível eu descobri que isso era o meu calcanhar de Aquiles, Jonathan sabia dizer algo de uma forma sensual sem parecer necessariamente vulgar, pelo menos quando ele queria. Porque ele também tinha uma bela boca suja, às vezes.

Talvez fosse a inconstância que me fizesse gostar daquele garoto… A surpresa e o fato de que eu nunca saberia o que viria dele, apesar de isso também ser o motivo dos meus temores.

Jonathan não era um grande demonstrador, então viver na incerteza, às vezes parecia o usual, ao se relacionar com ele…

—EI! -Falou alto me fazendo me atentar de volta. -Eu esqueci que tu viaja sozinho, às vezes… Pelo menos assim economiza com as drogas.

—Idiota. -Reclamei, tomando um outro gole do drink.

—Tá bebendo rápido, hein? Felipe te transformou num alcoólatra de merda?

—Você gosta de falar dele, hein? -Entrei na brincadeira. -Parece que quem tá apaixonado por ele é você e não eu.

Os olhos se arregalaram e ele ia falar algo.

—Eu tô brincando! -Deixei claro, embora ainda dava pra ver uma certa desconfiança dele nessa afirmação.

—Você tá apaixonado por ele?

—Não, era só pra você ficar atento que eu não tô morto, viu? -Falei sugestivo também. -Minha bebida acabou.

—Vou pegar mais. -Falou já levantando e pegando meu copo vazio.

—Jon…

Quando eu pensei em falar, ele já tinha saído, sua silhueta começou a se misturar com a da multidão e eu fiquei admirando. Saquei meu celular rapidamente e dei uma rápida olhada nos aplicativos. Selecionei o contato do Felipe e mandei uma mensagem rápida para ele, informando que estava com o Jonathan. Aquilo com certeza seria o assunto do nosso próximo encontro na Universidade.

Segui mexendo nas redes sociais, até o Jonathan voltar com mais dois drinks.

—Melhor a gente conversar logo… Antes que você fique bêbado.

Okay… Então ia ser agora?

Jonathan sentou-se e me deu o drink e eu já tomei logo um primeiro gole, que fez ele rir.

—Calma, não vai sair correndo…

Rimos e logo ele também tomou um gole.

—Has… -Jonathan parecia… Ansioso, o que era até uma novidade pra mim, ele geralmente era meio apático e poucas vezes demonstrava… Não é mesmo? Ele parecia deslocado, olhava para os lados e mexia com as mãos na mesa. Levei minha mão direita até a mão dele e segurei.

—Tá tudo bem?

—Has… -Ele apertou minha mão. -Eu me assumi de vez pro meu pai e pros meus amigos mais próximos, deixei claro que gostava de você pro meu pai e não quero mais não ser sincero. -Arregalei os olhos depois disso. -Assim… Eu fiz muita merda contigo.

—Jon…

—Não! Deixa eu falar tudo. -Confirmei com a cabeça apenas. -Numa das últimas vezes que a gente se falou, nós falamos coisas muito ruins um para o outro, foi quase como se a gente tivesse tentando mostrar quem era superior e… No fundo, eu sempre faço isso com as pessoas, mas tu fazer isso comigo foi surpreendente. Porque você é sempre uma pessoa muito sensata e sempre põe o outro antes de qualquer coisa, então eu acho que aquela explosão na verdade era algo que não tinha mais como ser suportada… Eu sei muito bem que eu não sou lá dos mais fáceis de se lidar, eu sou travado, sou grosso, não gosto de conversar e nem de ouvir e nenhuma relação dura com essas características, tanto que você foi o único que ficou mais tempo próximo de mim e isso nem foi tanto assim…

—Jon…

—Ei! Eu vou falar… Então, essa coisa de segredo e de esconder quem eu sou e sei lá, quem eu posso ser… Parece que tava me aprisionando, eu estava confortável em ser gay dentro de casa e contigo ali, no meu quarto, ou no teu quarto, mas a ideia de que isso pudesse passar daquilo era difícil. E quando você saiu de casa, eu não tive como lidar com isso… Afinal, a gente não tava mais junto todas as noites e nem acordando na mesma casa e mantendo uma relação diária. Has…

Respirou.

—Tá muito confuso? Eu sou muito confuso?

—Jonathan… Eu entendo.

—Eu tô sei lá, meio entendendo e meio resolvendo tudo, ao mesmo tempo. Acho que ainda tem muita coisa na minha vida desajustada, desde alguns bons anos, na verdade. E eu nunca fui uma pessoa que queria resolver essas questões, mas ai quando tu apareceu e tudo virou uma bagunça na minha vida, eu percebi que não dá pra acumular problemas. Principalmente depois de te conhecer e conhecer tua mãe. -Ele suspirou de novo. -A forma como vocês lidam com conflitos é o exato oposto de como eu e meu pai sempre nos tratamos e eu percebi que se eu quisesse fazer tudo dar certo entre a gente, eu não podia continuar sendo o Jonathan filho do meu pai, tinha que ser mais parecido…

Jonathan virou o rosto e suspirou. Os olhos dele pareciam bem molhados e ele ia… Ia chorar?

—Jonathan… -Apertei a mão dele. -Não precisa disso tudo…

—Você lembra das primeiras semanas lá em casa? -Me perguntou e eu confirmei. -Pode me chamar de Jhonny?

Tremi.

Numa das nossas primeiras brigas, eu chamei ele de Jhonny e isso me rendeu uma agressão física e muita dor, mas o Jonathan de agora não parece o Jonathan que me bateu do ano passado.

—Mas, por quê?

—Jhonny era o jeito que minha mãe me chamava e eu nunca permiti que ninguém me chamasse assim, porque ninguém nunca ia me amar daquela forma. Ver minha mãe morta é algo que até hoje me aterroriza, saber que a pessoa que você ama pode só… Ir… Me fez ser essa pessoa incompreensiva e pouco sentimental, por medo… Has… Eu morro de medo… Minha mãe era a única pessoa que eu conseguia dialogar e que parecia que eu era importante pra ela, até mesmo do que meu pai. Meu pai só começou a me tratar melhor depois que minha mãe se suicidou e acho que tinha muito mais uma culpa atrás disso, do que realmente um amor. E acho que a única pessoa que eu posso ter essa relação de cumplicidade é…

—Jonathan… Você… O quê?

Eu tava confuso… Como que a pessoa que sempre me tratava mal após uma briga e que era super instável tava sendo super sincero e sei lá… Vulnerável? Aquilo não fazia sentido… E se tudo fosse uma ilusão? Jonathan era confuso e instável e agressivo!

Fofo, simpático e amável não faziam parte dele, nunca fizeram.

—Cara o que é isso que tá acontecendo? -Soltei a mão dele e passei no meu cabelo. Jonathan levantou e veio até a minha frente, se agachando ali, me olhando nos olhos.

MALDITOS OLHOS AZUIS APAIXONANTES!

—Jonathan…

—Johnny! -Me corrigiu.

—Por que você tá fazendo isso? Eu…

—Has… Eu só quero que você entenda uma única coisa… Minha mãe morreu quando era muito criança, já tem mais de dez anos que eu não… -Engoliu as palavras. -Me importo… Com alguém como eu me importava com ela.

Ele ia dizer aquilo? Ele ia dizer que me ama? Era isso?

—Mas… Tudo isso não parece…

Real?

Tudo isso não parece real… Jonathan não parecia ser real nesse momento… Essa vulnerabilidade me era nova e até… Assustadora, num sentido de que eu não sabia se ela ia durar e como eu ficaria após.

—Eu…

—Tudo bem! -Ele segurou minhas duas mãos e apertou firme. -Tá sendo uma bagunça na sua cabeça isso e eu entendo, tá sendo na minha também… Eu só quero que você saiba que é a pessoa mais importante da minha vida, eu não sei se consigo lidar com tudo que tão jogando em cima de mim, sem te ter do meu lado, Has… Eu errei muito contigo e sei que isso faz tu ficar receoso, mas eu não quero mais errar, eu quero… -Ele aproximou minhas mãos da sua boca e deu um beijo em cada uma delas. -Você livre e pronto pra tudo, porque eu quero estar assim… Eu quero que você veja o quanto eu estou disposto em fazer a gente dar certo.

Segui calado… Era surpreendente aqui, num nível que me assustava até.

—Vou pegar mais bebida…

No meio da nossa conversa fomos bebendo e eu nem me toquei que os copos já estavam vazios. Foi tudo tão intenso.

Respirei fundo e levantei. Precisava me esticar e sei lá, pensar.

Sentei novamente e peguei no meu celular. Felipe ainda não tinha respondido, mas nem imaginei que ele responderia logo.

Aquilo tava sendo uma confusão, uma mistura de sonho com pesado… Era difícil imaginar que algo tão bom poderia tá rolando, ao mesmo tempo em que o medo que tudo não passasse de um delírio e logo desse tudo errado não me deixava em paz… Jonathan sempre foi confuso e incontrolável, então será que cair nisso ia de alguma forma me fazer me arrepender, quem sabe? Eu não sabia, nem de longe eu sabia.

Eu tava até um pouco angustiado, mas não… Era melhor eu relaxar e sei lá refletir.

—Eai, gatinho. -Uma voz grave soou próximo de mim e eu levantei o olhar. -Esqueci como tu era gato, que bom que apareceu de novo.

Rico…

—Oi… -Respondi sem graça e levantei dando um rápido abraço no dono do bar. Aquilo poderia dar muito errado. -Tudo bem, Rico?

—Melhor agora, lindo. -Sorriu galanteador e sentou no lugar a minha frente, onde Jonathan estava sentado. -Eu estava até assustado, achei que tinha odiado o bar.

—Não… Sabe como é né? Faculdade, aulas, provas… Tô tentando focar…

—E o que te trouxe aqui nesta fria noite?

—Atrapalho… ?

Puta que pariu.

Jonathan chegou com dois drinks em mãos e uma cara de que não estava gostando da cena a sua frente.

—Jonathan, esse é o Rico, o dono do bar.

—Oi Jonathan. -Sorriu galanteador. -Que bom que está recomendando bar pra pessoas tão interessantes, Has.

—Rico…

—Has, qual é a desse cara?

—Jonathan…

—Tô atrapalhando então. -Rico levantou e tocou no ombro do Jonathan. -Desculpe! Não queria atrapalhar a conversa entre você e seu…

—Namorado!

—Jonathan!

—Nossa! -Rico afastou-se de Jonathan e começou a rir.

Nossa, ele estava muito se divertindo com tudo isso, o que era uma merda. Aquilo ia dar numa merda.

—E aquilo que rolou entre a gente, Has?

Puta que…

—O quê? Que história é essa?

Jonathan investiu pra cima de Rico, porém me coloquei no meio. O dono do bar colocou as duas mãos levantadas em direção, embora estivesse rindo e Jonathan estava alterado.

—Jonathan, calma! -Pedi com as duas mãos no peito do loiro que estava com os olhos flamejantes, as bebidas já estavam pela metade, a outra metade simplesmente tinha caído no chão. -Há algumas semanas, eu e o Rico ficamos aqui no bar, mas foi só isso e eu e você não estávamos juntos, não foi nada além disso!

—Não pareceu ser só isso do jeito que você tava gemendo enquanto eu apertava sua bunda!

Esse cara tava pedindo.

Jonathan quis avançar, mas eu ainda estava firme entre os dois.

Rico era quase da altura do Jonathan, embora o loiro fosse mais alto. Porém Rico era mais encorpado, eu era o menor e mais magro, tentando segurar a situação dos dois.

—Ei… -Falei pra Jonathan que me olhou. -Calma! -Sibilei para o loiro que leu meus lábios.

Virei para Rico, mantendo meu corpo quase que colado com o de Jonathan.

—Rico, a gente ficou aquele dia, mas não significou nada. Eu gosto do Jonathan e a gente está namorando, então… Por favor… Podemos continuar aqui de boas? -Falei tentando ser razoável.

Jonathan e eu não éramos namorados, mas era melhor eu “tratar” o loiro de forma melhor, numa tentativa de evitar conflitos futuros.

Rico levantou as mãos e pareceu compreender.

—Tudo bem! Posso receber um abraço de despedidas então? -Falou sorridente e eu fui até ele.

Rico me abraçou forte, passou as duas mãos pelas minhas costas e me apertou e logo eu senti sua mão descendo e dando um aperto na minha nádega esquerda…

—CARA TU QUER MORRER NÉ?

Jonathan novamente veio pra cima e o dono do bar começou a rir da investida do loiro.

—Jonathan! -Falei alto, ainda entre os dois mais altos.

Felizmente consegui empurrar Rico que deu alguns passos pra trás.

—CHEGA!

Falei alto.

—Rico, tchau… Certeza tem mais gente aí pra você azarar.

O mais velho logo saiu sorrindente.

—E você! -Olhei pra Jonathan com as duas mãos no peito do loiro. -Hora de ir pra casa!

O loiro me olhou surpreso.

—Pra casa?

—Pra SUA casa! -Deixei claro. -Eu quero pensar e resolver essa situação. -Respirei. -Sozinho!

Jonathan pareceu entristecido.

Passei meus dois braços ao redor do corpo do loiro. Jonathan estava mais magro do que quando estávamos juntos, mas eu imaginava o motivo.

—Obrigado por hoje! -Falei sorridente e apoiei minha cabeça no ombro dele. -Mas preciso dormir sozinho e pensar em tudo isso, tá bem?

O loiro passou os braços no meu corpo e me abraçou.

—Tudo bem.

Levantei minha cabeça e o olhei.

—Obrigado… Jhonny!

O loiro sorriu e me beijou, ali no meio do bar, mesmo que no meio da confusão ainda estávamos ali.

E isso era bom!

Notas finais
É isso... Pelos meus cálculos, eu tenho mais 5 ou 6 capítulos pra escrever e se der TUDO CERTO, eu termino até novembro, mas juro que se vocês comentarem e ainda existirem por aqui, vão realmente estimular esse pobre escritor de 27 anos de idade com muitas contas a pagar! — Enfim, boa noite pessoal! VEJAM HEARTSTOPPER
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.