I Hate You Too!
62 LXII - Almoço
Notas iniciais
(POV: HASSAN)
Mais um dia de aulas. Já estávamos terminando a primeira aula da manhã. A professora era uma senhora simpática, devia ter perto de sessenta anos, embora aparentasse menos. Era bem mente aberta, o que era de certa forma, um pouco novidade dentro do corpo docente do curso e sem falar do corpo discente também.
Isa fechava o caderno e Felipe que estava sentado ao lado dela analisava cada movimento que a menina fazia. E eu só conseguia lembrar da conversa que havíamos tido, em que ele falou dos sentimentos que tinha por Isa e de como a história com o irmão dele era um grande empecilho nisso tudo. Eu havia sentado na fileira de trás por ter chegado atrasado.
Isa acabou derrubando uma das canetas e quase como o “The Flash”, Felipe se abaixou e pegou no chão a entregando. Bem heróico… Sorri com o pensamento.
—Obrigado, Lipe… -Ela agradeceu.
Se eu não soubesse dos sentimentos de Felipe, eu iria soltar algo como um “arranjem um quarto…” mas agora sabendo de tudo eu não poderia ser negligente e ir falando tudo que vinha na minha cabeça. Ainda mais sabendo como os sentimentos estavam sendo coisas que não estavam necessariamente agradando o negro, principalmente pela possível não aceitação.
Nós éramos quase como o grupo de desajustados dentro dos perfeitos alunos do curso de Medicina. A maioria eram pessoas brancas, ricas e que vinham de colégios caros e eram os filhos perfeitos que todos os pais gostariam de ter.
Eu era gay. Felipe era negro e Isa… Basicamente era a única garota “perfeita” que era legal com a gente. Por mais que eu fosse uma pessoa branca e não tinha muitos problemas com o dinheiro no geral, ser homossexual fazia com que alguns certos hipócritas ficassem longe, maioria das vezes, era difícil se aproximar, por mais que os tempos atuais parecem mudar sobre isso, não necessariamente aquilo acontecia.
—Has…
—Hã?
Acordei dos meus pensamentos com Felipe ao meu lado e Isa também próxima. A imensa maioria de pessoas da turma já estava saindo da sala e eu estava lá divagando sobre essas pequenas coisas que estavam no meu pensamento.
—Você tava ai olhando pra frente igual um idiota… -Isabela riu com o próprio comentário e eu comecei a guardar minhas coisas.
—Deixa, eu te ajudo… -Felipe falou pegando um dos cadernos e colocando na minha bolsa.
—Vocês dois se amam, hein?
—E você tá com ciúme? -Falei o mais rápido que podia e Felipe me olhou com os olhos arregalados.
Eu não falei aquilo com intenção de jogar os sentimentos dele na roda, foi só o primeiro comentário que me veio a mente e obviamente Isa não iria entender aquilo como algo negativo, apenas como uma brincadeira.
—Óbvio que não, eu lá vou acabar com a fantasia homossexual de vocês dois. -Isa comentou dando de ombros e Felipe pareceu relaxar com a brincadeira dela.
—E os planos pra hoje de tarde? -Perguntei.
—Então, eu vou pra casa mesmo. Preciso tirar um cochilo e começar a estudar pra prova de amanhã, né? -Afirmou Isabela.
—Eu também irei pra casa…
—Sério? -Falei para os dois. -Achei que a gente ia almoçar e acabar ficando um pouco pra estudarmos juntos, não? Isso não parece uma boa ideia?
—Has, meu pai já tá vindo. -Confirmou Isa.
—É… E eu acho que se eu for pra casa logo, consigo chegar mais rápido. Se eu deixar pra ir mais tarde o trânsito vai tá muito ruim…
—Caraca, vocês vão me deixar almoçar sozinho?
—Ohhh... -Isabela gemeu alto me dando um abraço de lado e Felipe sorriu divertido. -Você está crescendo bebê, pode comer o seu almoço sozinho, meu neném…
Me afastei empurrando-a também rindo. Era sempre isso, por ser poucos meses mais novo que ela, eu era sempre tido como o bebê.
—Ok, até amanhã então! -Falei me despedindo enquanto os dois seguiam para fora da sala.
Peguei meu celular antes de sair e comecei a visualizar algumas redes sociais, enquanto caminhava para fora do bloco didático. A maioria das pessoas ali estavam andando sem se importar com o próximo e às vezes o telefone me era um ótimo escudo, onde eu podia me esconder de olhares e de possíveis falas com pessoas desagradáveis. A juventude de hoje em dia é realmente desligada de contatos sociais.
Comecei a visualizar os stories das pessoas, a maioria eram alguns colegas da escola, poucos membros da faculdade e pessoas que eu conheci em grupos virtuais pelos assuntos de gostos similares. Até chegar naquele… Jonathan, deitado na cama, com o cobertor azul, de olhos fechados e a velha legenda…
“Preguiça”
Lembrei das primeiras vezes que eu vi aquele rosto ressonando no quarto, quando eu acordava cedo para ir a escola e ele continuava deitado até o último grito do seu pai exigindo que ele levantasse e fosse se aprontar.
Comecei a lembrar do nosso último contato juntos, como ele estava atencioso e necessitado por atenção e principalmente carinho, aquilo era estranho, de certa forma reconfortante. Jonathan era majoritariamente sexual e arredio, muito arredio.
Contatos feitos fora do sexo geralmente não lhe agradavam e mesmo que ele não refutasse, ele geralmente colocava uma expressão que deixava claro que não lhe agradava. Mas o que aquilo necessariamente queria dizer? Será que Jonathan estava finalmente se entregando aos sentimentos e deixando de ser o garoto frio ou ele só estava usando de um dos possíveis artifícios para conquistar a minha confiança e me deixar novamente a mercê das suas necessidades? Jonathan era um incógnita e minha cabeça era um grande embaralhador de cartas velhas que não deixavam as coisas simples.
Mas será que essas coisas conseguem ser simples?
O caminho até o Restaurante Universitário era longo, principalmente pelo bloco de Medicina ser bem no centro do Campus e o Restaurante mais próximo da extremidade. Poucos eram os alunos de Medicina que comiam lá, tanto pela distância quanto por comodidade mesmo. Eu e Lipe comíamos lá todos os dias, era barato e até gostoso, o único problema era as imensas filas pois existiam apenas dois restaurantes para toda a população daquele campus.
Segui o caminho pelos passeios sombreados pelas grandes árvores, aquele campus era uma das poucas reservas naturais que tinham na cidade. Parecia um grande bosque perdido no meio daquela cidade grande. Saí do aplicativo de imagens depois de pensar aquelas coisas sobre Jonathan, geralmente essas coisas tomavam mais do que poucos minutos de pensamento na minha cabeça, porém eu não queria pensar sobre isso. Durante a caminhada, quase no restaurante eu senti uma presença atrás de mim e virei rápido.
Cabelo loiro comprido, preso no topo da cabeça, olhos verdes vibrantes e alguns pêlos crescendo numa barba ralinha… Sorriso… Ele parecia um pouco mais magro que anteriormente, mas nada gritante. Senti seus braços me puxarem pra um abraço rápido, embora eu continuasse apenas o olhando.
—Has… Como está? -Aquela voz grave, sempre o mesmo tom amigável e aqueles belos dentes brancos e sorridentes…
—Oi, Luck…
Sim, Luck… Um amigo que eu não falava tinha uns bons meses, o primeiro rolo amoroso o qual me envolvi, mesmo já sabendo que eu gostava do Jonathan. Luck foi de um primeiro amigo, para um primeiro “namorado” e depois para um desafeto, no fim, toda a nossa relação foi reconstruída, mas ainda assim com os entravamentos que os percalços que passamos trouxeram pra nós.
Imediatamente lembrei de Camila, a garota que foi de minha amiga, a namorada de Jonathan e acabou não sendo nada demais no fim. Camila já não falava mais comigo e nem com Jonathan, provavelmente nem com Luck. A vida dela havia mudado completamente pelo que fiquei sabendo atualmente, algo sobre morar em outro estado.
—Luck é um apelido muito infantil, não acha? -Comentou brincalhão. -Agora, eu atendo por Luís. Acho menos informal.
—Ok… -Confirmei achando estranho. -Luís então.
Na realidade, alguém chamado Luís Gustavo ter o apelido de Luck era bem estranho mesmo, mas não fui eu quem criou as regras na escola, quando eu cheguei elas já estavam estabelecidas.
—Vai para o Restaurante? -Perguntou o loiro.
—Isso… Você também? -Ele confirmou com a cabeça sorridente. -Vamos juntos então?
—Seria ótimo… Muito tempo que não nos vemos, não? Uns 3 meses?
—Desde o final da escola, mais ou menos… Íncrivel, né?
—Exatamente, achei que seriamos amigos para sempre.
Gustavo passou a mão pelo meu ombro e fomos andando abraçados pela pequena distância até o restaurante e aquilo foi no mínimo… Estranho.
Era estranho estar perto de alguém que você conhecia a um certo tempo, porém estava distante, mas não deixava de ser um contato que nós dois sempre tivemos, quando estávamos de boa. Luís Gustavo sempre foi muito sociável e sem problemas com toques e embora eu fosse uma pessoa que gostasse de ser e de receber carinho, eu nunca conseguia ser a pessoa que iniciava esse carinho sem me questionar muito, principalmente por sempre ter sido tímido e retraído.
Era estranho saber que os dois garotos que eu me envolvi mais intimamente, por intimamente, eu não queria dizer apenas sexualmente, mas sim, sentimentalmente, eram completos opostos. Jonathan era um cubo de gelo com pontos de fogo sexual. Era quase como se ele fosse uma bomba gelada passível de explosão que conseguia tanto lhe matar de frio ou de calor. Já Luís era sempre um amor de pessoa, mesmo que por vezes parece superficial e até de certa forma poderia soar falso, mas Luís sempre estava disposto a tudo que você quisesse, ele era parceiro e aceitava as coisas quase que sem questionar.
Ambos possuíam aspectos positivos e negativos, mas eu nunca havia conseguido elencar melhor quem era o mais certo pra mim, naquela relação. O que eu estava pensando agora era… Será que existe isso de mais certo? Às vezes a visão romântica acaba com as nossas relações, vai ver Jonathan e Luís nunca iriam parecer certos pra mim, até porque… Esse negócio de certo parece algo tão fajuto. Quase como se, na realidade, eu precisasse de alguém “certo” para que as coisas pudessem dar certo… Não existe isso de certo, existe?
—Olá?? -Luís perguntou.
Já estávamos na fila do Restaurante, talvez dali a três minutos já estivessemos nos servindo.
—Ás vezes eu esqueço que tu é muito avoado! -Falou dando um peteleco na minha testa. Luís era extremamente carinhoso e isso era uma das coisas que eu mais sentia falta dele. Lembrar disso me fez ficar emocionado e eu acabei dando um abraço de lado nele. -Nossa, o que?
—Nada… Só quis te dar um abraço!
—Poxa… Obrigado, né? -Falou passando os braços contra meu corpo e apertando. -Melhor a gente se afastar, né?
—Isso! -Falei me soltando dele e voltando a respeitar a fila. -Vai que seu namorado aparece, né?
—É… -O semblante dele mudou completamente.
Tristeza?
Será que eu tinha falado alguma besteira…
—Tenho que te contar uma coisa…
—O quê?
—Quando a gente sentar, eu te falo…
Depois disso apenas silêncio.
Continuamos na fila e fomos seguindo o fluxo das pessoas que conversavam animadas. Talvez o tal Midas, namorado de Luís fosse uma questão na vida dele, da mesma forma que Jonathan era na minha? Mas Midas parecia tão apaixonado pelo Luís… Não era?
Resumir a relação deles ao que eu via era… Injusto, no mínimo. Todo casal vive uma vida de aparências, mesmo que não deseje isso, talvez eles tivessem apenas dado um tempo ou pensado em abrir o relacionamento. Já que isso parecia uma nova coisa dentro dos jovens recém universitários. Jonathan e eu nem namorávamos como seria se vivêssemos um relacionamento aberto?
Continuamos na fila e começamos a nos servir. Peguei um pouco de arroz e feijão e Luís uma montanha de salada e feijão. Eu preferi optar por um pequeno filé de peixe e ele acabou pegando uma mistura de legumes aleatória que era a opção de vegetarianos do Restaurante.
A área onde ficavam as mesas era enorme. Tinha várias mesas com cerca de vinte lugares cada espalhadas nas laterais do grande salão. Ao fundo era a área de devolução de pratos e a saída. O ambiente era refrigerado, mas pela quantidade de pessoas geralmente era quente ali, não tão quente quanto lá fora, mesmo assim. A maioria das pessoas sempre sentavam em grupos e acabavam que algumas mesas sempre tinham uns 3 ou quatro lugares que ninguém sentava porque a maioria sempre andavam em grupos grandes de oito a dez pessoas. Continuamos caminhando e fomos até as mesas compartilhadas e enormes, optamos por um lugar bem próximo do canto, onde a possibilidade de pessoas sentarem do nosso lado era bem menor.
—Como tá a faculdade de Medicina? -Perguntou sorrindo e eu sorri de volta.
Ok, talvez o assunto namorado não fosse retratado agora.
—Tudo indo, meio puxado… Tô estudando igual um louco o tempo todo para as provas, mas é um assunto que eu gosto bastante, você sabe que eu sempre fui mais pra biológicas e química, não?
—É… E eu era um rato da história.
—Que está fazendo Engenharia Civil, não?
—Pois é, meu pai… Sabe como é né? Ter que agradar o velho… -Comentou sorrindo. -Mas eu tô até gostando. Percebi que meu ódio a matemática era mais preguiça do que burrice mesmo.
—Você não é burro, Luís… Por favor!
—Você me chamando de Luís é estranho pra porra…
Rimos.
A conversa parecia leve e isso era bom, sinal que ainda tínhamos sincronia.
—Como tá sendo a adaptação? Eu não soube de ninguém da nossa turma que passou em Medicina, só você, nerdão!
—Eu fiz uns bons amigos… Não era como se eu tivéssemos muitos amigos na escola né? Basicamente me lembrou bem a gente no começo, também fiz amizade com um garoto e uma garota.
—E você também ficou com ele e ela namora o seu novo amor? -Falou sorridente e eu dei um tapa no seu braço.
Era bem isso que aconteceu com a gente. Eu fiquei com Luck, enquanto Camila namorava Jonathan… Ahh, o ensino médio.
—Ele é hétero e inclusive, os dois muito possivelmente vão se pegar logo logo. -Falei sorridente e ele deu de ombros. -E você? Como tá com os amigos do curso?
—Então… Ainda não fiz nenhum de verdade. -Falou como se aquilo fosse plenamente normal. -Engenharia né? Um bocado de marmanjo homofóbico que acha que qualquer intimidadezinha já pode ser escroto e chamando todo mundo de viado. Ainda não consegui me encaixar direito e nem assumir que sou gay, aliás… Eu sou gay?
—Como assim? Tu tá com dúvida em relação a isso?
—Pera… Eu não sei. Eu tô!
—Luís…
—Os únicos dois caras que eu me interessei foi você e o Midas e bem… Depois disso nenhum outro garoto me chamou atenção e antes disso eu só gostava de meninas, será que eu sou Midassexual e Hassanssexual? -Dei outro tapa no braço dele.
—Tu tá muito engraçadinho, não?
Falando do Midas no passado… Será que aquilo era realmente o fim do namoro deles?
—Luís…
—E o Jonathan? -Me interrompeu novamente. Sorrindo. Ok, talvez ele não queira falar.
—Vai bem, sabe? Não estamos mais juntos.
—Não?
—Basicamente ele ficou com outra pessoa e eu descobri isso de uma forma bem ruim e discutimos bastante e estamos meio afastados. Ele veio pedir desculpas e não sei se devo desculpar, você sabe… É o Jonathan!
—Isso parece ser o Has racional falando e o Has emocional?
Certo…
E o Has emocional?
Será que nada do emocional eu vinha levando em consideração? Claro que vinha, eu havia deixado ele entrar, tinha beijado ele! Deixado ele me beijar! Isso não era claramente algo que apenas o Has racional estava tomando a frente, mas… O Has emocional está sendo certo em aparecer nesses momentos.
—O Has emocional está confuso… Sobre Jonathan!
—E…
—Cala a boca! -Falei rápido e ele arregalou os olhos verdes me olhando assustado. -Você já está na metade da comida e eu mal toquei nela porque você não para de me fazer perguntas e agora é minha vez! -Ordenei e ele balançou concordando.
—Ok… Manda!
—Como você tá? Tá tudo bem?
—Sim…
—Sem monossílabos, Luís! -Reclamei.
—Ok… -Respirando tomando um gole do suco que pegamos e eu fiz o mesmo. O loiro me olhava e seu olhar parecia… Preocupado e até amedrontado… -Coisas mudaram bastante, Has.
Ele baixou o olhar e olhou pra comida, eu deveria começar a me preocupar?
—Desde o final da escola eu andava meio perdido. Vinícius queria me meter nos rolos dele lá com drogas. -Surpresa… Então Luís sabia a situação de Vinícius com as drogas. -E eu já tenho um irmão viciado que vive indo e voltando para tratamentos e clínicas. Fiquei perdido no vestibular, meu pai queria que eu fizesse engenharia e eu não queria na real, mas só de ver a barra que meu irmão dava dando pra ele, eu não queria ser mais um fardo, sabe? Além do que, ele nem sabe ainda que eu sou gay, se é que eu sou gay mesmo… E aí tem o Midas…
Suspirou pesadamente pegando uma garfada de salada e enfiando na boca.
—O que tem o Midas?
—A gente andou se desentendendo… Principalmente pelo fato dele ter conhecido novos amigos num curso de fotografia. Novos amigos e gays e… Eu sou muito ciumento, você sabe? Acabamos nos desentendendo muito. Ele queria mais confiança e queria se envolver mais na minha família, porque eu já conheço o pai dele e o velho é muito gente boa, mas ele também queria conhecer meu pai, aliás, ele conhece né? Mas queria conhecer como namorado e eu ainda nem contei pro meu pai que sou gay, imagina só contar, mostrar que além de gay o meu melhor amigo é meu namorado.
—Então, vocês ainda estão namorando?
—Na verdade não. Nossa última briga foi muito feia, falamos coisas que não devíamos um pro outro e acabou que estamos até sem nos falar. Eu tive uma crise de ciúmes depois de ver que um tal Caio tava sempre mandando mensagens pra ele e ele via e ria e os dois ficavam conversando. Ás vezes, eu ficava do lado deitado só vendo ele conversar com ele, enquanto eu estava lá.
—E isso faz quanto tempo?
—Mais de um mês.
—E agora? Você não acha que com a cabeça fria, vocês dois não devem conversar?
—Não dá mais… Midas viajou para fazer intercâmbio, eu não tenho nem ideia de quando ele volta, só descobri isso porque ainda mantenho uma boa relação com o pai dele. Eu acho que foram esses amigos dele que ficaram enchendo a cabeça dele sobre esse negócio de eu me assumir e tal e isso me irrita tanto, porque eu nunca achei que Midas fosse tão influenciável.
—Mas, Luís… É bem injusto você culpar os amigos dele por uma decisão que ele pode ter tomado sozinho, sabe?
—Mas isso nunca foi uma questão antes…
—E o seu ciúmes foi uma questão antes? -Ele suspirou e sorriu.
—Eu esqueci como tu é o dono da razão! -Falou divertido. Agora aquilo era uma brincadeira, mas antes quando estávamos mais próximos não era.
Luís sempre reclamava de como eu sempre parecia ter razão em tudo e como eu sempre defendia muito meus pontos de vista, por mais absurdos que eles parecessem às vezes, vai ver isso vinha do sangue de advogada da minha mãe.
—Por mais que isso tenha acontecido, acho que existem coisas boas que podem ser tiradas disso, sabe? -Luís suspirou terminando o almoço e me encarando. Eu ainda comia e ele iria possivelmente me esperar para sairmos. -Meu relacionamento era muito próximo, tão próximo ao ponto de que eu vivia em função de Midas e isso acabou me mostrando como eu fui, não sei… Fraco? Has… É muito errado viver em função de alguém. Pra mim era como se a minha felicidade dependesse da felicidade dele, se ele tivesse mal e eu ganhasse na loteria, eu ficava mal só porque ele tava, de certa forma, esse namoro tava sugando muito da minha existência. Não que ele tenha sido abusivo, longe disso, mas… Eu facilitei muito pra que ele fizesse essas coisas comigo. Agora eu ando muito mais focado. A Universidade tá sendo muito objetivo principal e eu acho que é isso que eu tenho que fazer mesmo, sabe? Principalmente por não me dar tão bem com matemática e física, assim eu tenho que me desgastar mais ainda.
—Poxa, Luís… Não sabia que você tinha essa visão do seu próprio namoro…
Aquilo era… Quase como um reflexo do meu relacionamento com Jonathan, será que na realidade todo relacionamento era assim? Será que eu também não vivia demais em função do Jonathan. Sendo que… Pra ser honesto, Midas ainda se importava com Luís, mas e Jonathan? Ele se importava comigo? Talvez quando o nosso rolo não estivesse tão bem, mas e quando estava?
Não era eu quem sempre tinha que ceder e me esforçar pra que tudo continuasse nas nuvens? Não era eu quem sempre tinha que ficar fazendo a felicidade dele acontecer, enquanto a minha poderia esperar um pouco?
Será que eu estava sendo tão “Luís” no meu relacionamento com Jonathan?
E o pior. Eu não estava recebendo nem um “Midas” de volta?
Ok. Talvez, aquela conversa tenha sido esclarecedora. A Universidade era pra ser meu foco. O meu futuro. Onde eu gasto tempo e energia e não necessariamente Jonathan.
Eu que sempre fui tão focado, estava fazendo tudo errado! Me deixando levar por um sentimento de alguém que estava muito bem obrigado…
Mas o pedido de desculpas? Jonathan realmente mudaria?
—Vamos indo, Has? Vai ter aula hoje à tarde?
—Não. Vou estudar em casa pra prova… Inclusive, melhor eu já ir indo, Luís… -Levantei pegando a bandeja e ele também.
—Ok, nós vamos nos esbarrando por aí né? Já que estamos nesse mesmo campus.
—Sim. -Sorri pro loiro que sorriu de volta. -Até!
—Até!
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