_Onde estamos mesmo? – Julie olhava em volta, curiosa. As duas recém chegadas já haviam desembarcado há vários minutos, e estavam em um táxi a caminho do hotel. Brenda apreensiva só olhava pela janela. – Brenda... você está no planeta?

_Ah... o que foi? – Brenda prestou atenção na amiga pela primeira vez. Ela ainda não tinha se conformado... ela conhecia aquela paisagem; era como se nada tivesse mudado.

_Onde estamos? – Julie insistiu.

_Hong Kong. – Novamente, perdeu-se na paisagem cinza da cidade. Sim, nada tinha mudado.

_Ok, aconteceu alguma coisa? Você ficou completamente fora de si desde que ficou sabendo que viríamos para a Ásia! Pensei que você quisesse conhecer o lugar tanto quanto eu... pensei que curtisse as coisas aqui tanto quanto eu. O que houve?

_Eu curto... não houve nada. – Brenda mentiu. – Mas... bem, tem coisas que você não sabe ainda, é isso.

_E você não vai me contar, pelo visto. – Julie emburrou. Nunca vira Brenda tão misteriosa.

_Vou. Mas a tempo.

O táxi as deixou no hotel que fora reservado pela companhia para as duas primeiras semanas em Hong Kong. Se tudo desse certo, elas ficariam em um apartamento alugado. Julie estava bastante fascinada, tudo era muito novo. Ela nunca tinha saído do Brasil, seu país natal, quando foi chamada a New York. E desde então nunca saiu da cidade. Viajava pouco, trabalhava o tempo todo. Ela gostava do trabalho... mas estar do outro lado do mundo era fascinante.

_Agora vamos ter que arrumar um tradutor... – Julie desarrumava as malas e já pensava nas dificuldades em não falar chinês.

_Eles falam inglês, fique tranqüila.

_Como sabe?

_Foram colônia inglesa. – Brenda sorriu. – Lembre-se, sou nerd.

_Ah, isso eu sei. E você sabe se nosso contato também fala inglês?

_Certamente.

_Ok de novo! Você vai ou não me contar o que houve? Além de estar estranha, você está sabendo coisas demais. Não está?

Julie colocou uma pilha de roupas no armário e sentou-se em uma cadeira, encarando Brenda, que tentou esquivar-se da conversa. Mas Julie não aceitava não. Ela sabia que a amiga escondia algo, e que começava a se tornar difícil de manter oculto. Brenda confessou que Julie não sabia de tudo, e mesmo tendo dito que falaria as coisas no tempo certo, Julie não tinha muita paciência.

_Eu sei coisas demais porque morei aqui por sete anos. – Brenda confessou, sem encarar a amiga. Aquela revelação certamente seria um choque. E foi. Julie levou alguns segundos boquiaberta encarando a amiga até conseguir falar alguma coisa.

_O QUE? – Julie arregalou os olhos. – E você ia me contar isso quando fôssemos embora? Como assim você morou aqui por sete anos?

_Não. Eu ia contar. Mas é que...

_É que?

_Não tenho tantas boas memórias daqui. Foi uma época complicada... eu era muito jovem...

_Então você fala mandarim?

_Fluentemente.

_Mais algo que eu deva saber?

_Falo coreano e japonês também. Bem, mais ou menos... eu sou bem ruim em japonês. Mas eu bem que tentei aprender.

_Ah claro! E você tem um marido chinês? – Julie estava indignada. Brenda lhe escondera que morou quase uma vida do outro lado do mundo... e justo quando elas estavam se preparando para ir até lá.

_Marido não. Mas um ex-noivo... – Brenda pensou que poderia falar em Alex.

_EX NOIVO???? – Julie se levantou, indignada. Começou a rodar de um lado para o outro, gesticulando apressadamente. – EX NOIVO! VOCÊ QUASE SE CASOU AQUI!! E nunca me contou nada!! E fizemos um projeto... então o projeto não era arriscado! Você já sabia de tudo! Você conhece o mercado aqui, você estudou aqui!

Julie deixou Brenda no quarto e saiu, da mesma forma atabalhoada que entrou. Ela não sabia para onde ir, nem entendia uma palavra do que era falado naquele lugar, mas não ficaria no mesmo lugar que Brenda. Sentia que a amiga era um tipo de traidor. Deixou de lhe contar fatos que, se um dia foram irrelevantes, desde que se envolveram no projeto Ásia passaram a ser fundamentais. Brenda tinha que ter confiado em Julie o suficiente para se abrir sobre tudo aquilo... afinal, elas estariam arriscando muito ao se mudarem para Hong Kong, mas a verdade era que Brenda aparentemente já tinha tudo sob seu controle.

Enquanto Brenda pensava se ia atrás de Julie ou deixava que ela espairecesse, seu celular tocou. Ela nem se lembrava onde tinha deixado o celular, mas reconheceu o toque estridente do seu Motorola. Respirou fundo quando viu que se tratava de um número local. Números locais... ela sabia que não era seu contato ligando. “E eu só acabei de chegar...” pensou, enquanto atendia.

_Wei.

_E se não é minha garota preferida. – A voz suave que deixava Brenda sempre enlouquecida ecoou.

_Bom dia, Alex. Como me achou?

_Você me disse que vinha.

_Disse? Não me lembro.

_Você anda muito esquecida... precisamos nos ver. – Alex, sempre direto.

_Alex, eu só acabei de chegar! – Brenda colocou o telefone no viva-voz e continuou sua arrumação. – Estou no hotel guardando minhas coisas... e vim a trabalho, não a passeio. Estou sob efeito do fuso horário ainda... completamente tonta.

_Eu sei... e você sabe que o HomeBoy está a sua disposição.

_Vamos trabalhar juntos... isso já me será suficiente.

_Continua difícil...

_Vamos, ligou para me importunar?

_Vamos sair. Te pego às sete.

_Nem sabe onde estou!

_Sempre sei onde está, Brenda. Vamos... não seja chata. Pego você às sete.

_Estou com uma amiga... não vou deixá-la no hotel, apesar de não saber se ela está interessada em sair comigo, depois de tudo.

_Eu levo um amigo, então.

Brenda sentiu o ar lhe faltar pela segunda vez em menos de um mês.

_Não, obrigada. Seus amigos me dão arrepios.

_O que é isso... está sendo cruel. Estou falando de um amigo que você ainda não conhece... se chama Van.

_Tá bom. Agora me deixe terminar, ou desisto de passeios. Leve quem quiser, você sabe quem é proibido e quem não é.