Quando Julie retornou ao quarto, já havia passado bastante da hora do almoço. Brenda estava deitada com um saco de gelo sobre a cabeça, querendo que o mundo parasse um pouco para ela descer. Sentia-se tonta, ela ainda não tinha se concentrado na diferença de fuso. E a ligação de Alex... ela tinha saudades dele, desejava vê-lo, mas ele trazia lembranças complicadas demais consigo. Ela tinha certeza, no entanto, que não conseguiria fugir dele. Julie se aproximou e sentou-se na cama. Pensou várias vezes o que diria. Mas precisava ser direta. Afinal, nem havia muito o que florear.

_Eu não acredito que mentiu para mim.

_Não menti. – Brenda sussurrou. – Eu simplesmente nunca disse nada sobre isso até agora.

_Nunca contou que morou aqui! Tudo bem que só te conheço de quando começamos a trabalhar na Venon, e tudo bem que você nunca falou nada do passado... mas não acha que morar aqui e conhecer tudo era importante para nosso trabalho?

_Julie... – Brenda se sentou, sem tirar o gelo da cabeça. – Meu período aqui não foi lindo. Eu tive problemas... coisas aconteceram. Por isso fui embora. Não teria saído daqui se não fosse... bem, mas eu ia contar. Desculpe se isso magoou você. Você vai conhecer o Alex hoje, pelo menos.

_Quem é Alex?

_Meu ex-noivo.

_Como assim vou conhecê-lo?

_Ele vem nos buscar para jantar.

_Ok... o que eu perdi?

_Eu o avisei que estávamos vindo, ele me ligou.

_Você é amiga dele? Mantiveram contato?

_Sim. Mas ele é de Taiwan... deve ter vindo a Hong Kong só para me perturbar.

_Sei, é uma relação de amor e ódio. – Julie caiu na risada.

_Na verdade, sim. – Brenda teve que concordar. – A relação de ódio e ódio é outra.

_Credo... nem vou perguntar do que se trata. Quer um remédio?

_Para que?

_Essa cabeça... você está com gelo.

_O gelo não é para dor... é para me acalmar.

_Nem vou perguntar de novo. Você está muito complicada esses dias.

As duas decidiram descansar. Brenda não dormiria, mas pelo menos tentaria se conformar com os fatos. Ela estava em Hong Kong; nada poderia ser feito. O compromisso era às sete, então bastava que esperassem. Porém faltando poucos minutos antes das sete horas, Julie estava pronta já. Não sabia o que vestir em sua primeira noite em Hong Kong, e Brenda não foi uma boa ajuda. Preferiu o básico, ou seja, preto. Já estava vestida, maquiada, penteada, pronta para ir a qualquer lugar. E Brenda ainda nem tinha entrado no banho.

_Vai se atrasar. – Julie olhou no relógio.

_Ligue a TV, pegue uma bebida no frigobar... em quarenta minutos ele chega. Você precisa ficar refrescada ou sua maquiagem vai derreter – Brenda abriu o chuveiro. Água bem fria, era preciso.

_Como tem certeza que ele vai atrasar?

_Alex é previsível como um relógio. Ele é taurino.

_Ah sim... e você acredita em astrologia?

_Sim, acredito. Ok, isso está virando o muro das confissões. Tudo que eu nunca disse está sendo revelado de uma forma muito súbita. Hong Kong causa esse efeito em mim.

Julie ignorou os comentários de Brenda, mas achou que deveria fazer o que ela dizia. Pegou qualquer coisa colorida no frigobar e sentou-se na frente da TV. Perda de tempo...tudo em mandarim. E sem legendas, claro. Legendas na China seriam... na língua local. Ela até poderia tentar localizar um canal internacional, mas... estava com preguiça até para isso.

No banheiro, Brenda pensava e repensava o quanto a idéia de sair com Alex era ruim. Sim, ele trazia memórias esquecíveis que ela preferia não precisar enfrentar no seu primeiro dia na Ásia. Mas ela não poderia fugir dele o tempo todo, então era melhor vê-lo logo. E que ele aparecesse mesmo com o amigo... Van. E que fosse um amigo bonito, para variar.

_Brenda, seu celular está tocando. – Julie entrou no closet, enquanto a amiga tentava terminar sua maquiagem.

_Atenda, por favor. É o Alex.

_Ok... – Julie apertou o botão verde e respondeu à ligação. – Alô.

_Ok, essa não é a Brenda. – A voz masculina.

_Não, é a Julie...

_A amiga. Muito prazer, Lee.

_Lee? – Julie ficou confusa.

_Ah... ela deve ter me apresentado como Alex...

_Sim, Alex. – Julie ficou ainda mais confusa. – Você tem dois nomes.

_Praticamente pode dizer isso. – Ele riu. – Por favor, avise a Brenda que estou chegando... sei que ela ainda está na maquiagem. Até daqui a pouco.

Alex desligou o telefone, e Julie continuava confusa.

_Ele sabe que você está se maquiando... você sabia que era ele... são quase sete e meia e ele disse que está chegando...

_Ele chega em dez minutos, porque deve vir pelo túnel.

_COMO pode? Vocês se conhecem tão bem!

_Quase nos casamos.

_Não justifica!

_Bem, a questão é essa. Nos conhecemos. Preciso terminar, ou ele chega e eu ainda não estou pronta.

A amiga deixou o closet, caminhou para o hall e esperou o relógio marcar sete e quarenta. Em segundos, a campainha tocou. No mesmo instante, Brenda apareceu no hall, vestindo seu melhor jeans. Julie atendeu a porta, sorrindo. Seu sorriso congelou como se tivesse aberto a porta de um freezer. Um homem alto, vestindo jeans e tênis surrados, cabelos muito lisos e muito pretos, com um enorme sorriso e carregando consigo flores, estava ali, em pé. Um homem lindo... como muitos que Julie desconhecia.

_Boa noite. – Ele disse. – Julie, certo?

_É... – Ela, monossilábica. Afastou-se um pouco para que ele entrasse, e não resistiu em observar cada movimento daquele corpo. Seus olhos estavam fixados.

_Vejam se não é a garota metamorfose. – Alex sorriu ainda mais ao ver Brenda.

_Sim... assim como o garoto eu-sei-quem-você-é-eu-vi-o-que-você-fez.

_Seus apelidos não pegam porque são muito grandes! – Ele gargalhou, entregando a ela as flores. – Você dessa vez quis me matar de saudades. – Brenda colocou as flores no vaso com água que ela havia preparado, sabendo que ele as levaria. Depois, jogou-se nos braços de Alex, deixando que ele a beijasse suavemente.

_E você não me beijava assim quando éramos noivos.

_Não tinha graça, então.

_É... – Julie ainda estava no mesmo lugar, vendo a mesma coisa, sem conseguir emitir sons inteligíveis. Brenda sentia-se culpada... ela era confusa, e acaba por deixar a amiga maluca.

_Ju... bem, acho que você já entendeu que esse é o Alex, meu ex-noivo. Também conhecido como Lee, ou Lee Hom...

_Enchanted. – Alex pegou a mão de Julie e beijou. E Julie ainda balbuciando qualquer coisa.

_Prazer...

_Seja lá o que Brenda contou de mim, é tudo mentira. Ela sempre exagera.

_Ela não contou nada. – Julie estava completamente fora da órbita terrestre.

_Nada? Que crueldade, Brenda... assim me sinto excluído de sua vida!

_Se fosse excluído não estaria agora me perturbando. – Brenda empurrou Alex para fora do quarto. – Vamos Julie... antes que eu comece a achar que esse jantar foi uma péssima idéia.

Alex as levou a um restaurante americano em Hong Kong. Ele tinha certeza que era cedo demais para que as meninas comessem comida Chinesa. Mesmo sabendo que Brenda não teria problemas, ela já estava desacostumada. Seria melhor algo... de casa.

_Então... Julie. – Ele se preparava para discursar, como de costume. Já estavam na mesa reservada, com serviço quase que exclusivo. Ninguém ousaria não atender com exclusividade Lee Hom. – O que mais Brenda não te contou?

_Ela não contou nada. – Julie ainda estava chateada com a amiga. Agarrou-se ao cardápio para escolher algo, pois estava faminta. – Nem que havia morado aqui.

_Típico da Sra. Metamorfose. Ela tem mania de deixar as etapas da vida dela para trás.

_Alex, cale-se. – Brenda manifestou-se. – Você sabe bem os motivos de querer esquecer certas coisas que vivi.

_Sim, sei. E os desconsidero... já faz muito tempo... você precisa encarar certos fatos de frente.

_Cale-se. – Brenda cerrou os dentes.

_Estou boiando desde que vocês se encontraram... parece que estou em um mundo paralelo!! E parece que Brenda não é a mesma pessoa desde que chegou aqui.

_Esse lugar é meio amaldiçoado. – Brenda resmungou. – Mas me desculpe... eu sabia que a Ásia me despertaria fantasmas adormecidos, deveria ter sido sincera com você. Existem muitas coisas que você nem imagina, mas eu te contarei... quando chegarmos ao hotel, ok?

Fizeram o pedido. O clima não estava tenso, mas estranho. Julie realmente se sentia estranha, pois Brenda possuída uma vida construída naquele lugar. Ela achou que estariam as duas na mesma situação, na situação de estrangeiras perdidas. Mas ela estava perdida, Brenda não. Decidiu comer hamburger com fritas, mesmo sabendo que deveria comer salada.

_Ela falou sobre Wannie?

_ALEX! – Brenda protestou, batendo com o garfo na mesa. Fez-se um estrondo, e algumas pessoas olharam para a mesa deles. – Não acredito que vá falar disso!!! O que te deu? Está com formigas na língua, não consegue ficar com ela guardada na boca?

_Ela poderia estar em outro lugar. – Ele foi irônico, metafórico e bastante maroto.

_Quem é, ou o que é, Wannie? – Julie começou a se interessar. Seja o que fosse, havia tirado Brenda do sério.

_Wannie é um amigo meu...

_CALE-SE! – Brenda agarrou Alex, tampando sua boca com os dedos. – Aliás, você não ia trazer um amigo hoje? Onde ele está?

_Ele não pode vir... então terão que se contentar comigo mesmo. Mas vamos... não acha que sua amiga precisa saber dele?

_Se vamos falar de Wannie, eu digo quem ele é. – A conversa estava entre eles, como se fossem um casal. E eram, sempre foram. Brenda virou-se para Julie, que estava um tanto quanto apavorada. – Wannie é o ser humano mais detestável que conheço. Uma praga, uma peste, um mala.

_Bela descrição. – Alex caiu na gargalhada. – Tudo a ver com ele, mesmo.

_Credo... agora tive até medo. – Julie assustou-se ainda mais. – Esse ser tão desprezível... existe?

_Ele não é nada disso. – Alex não parava de rir. – É só um escorpionino que deveria ter nascido sagitariano, e os astros ainda não o perdoaram por isso. A questão é que Brenda não o suporta.

_Ah...

_Eu não o suporto. Mas vamos parar de falar em Wannie. Nem deveríamos ter começado. A comida já chegou.