I Became the Villainess of my Favorite Otome Game!

2 Capítulo II – Ou Melhor, um Pesadelo


Não costuma empreender muito esforço em me vestir pela manhã, mas, talvez influenciada pela variedade de roupas que havia encontrado no armário daquele quarto, me permiti reservar alguns instantes para pensar no que usaria ao invés de simplesmente pegar a primeira camisa que encontrasse por aí, como normalmente faria.

Não havia encontrado uma única peça de tecido discreta ou uma jóia pequena o suficiente para passar despercebida. Era difícil conter o deslumbramento diante de tudo aquilo, nunca havia sequer imaginado ser capaz de tocar em roupas como aquelas.

Acabei pegando o que parecia ser um body preto com decote quadrado e uma calça jeans clara com pequenos detalhes em renda. Pareciam confortáveis o suficiente e era o mais próximo que havia encontrado de uma roupa que normalmente usaria.

Nunca havia sido confiante ao ponto de tentar algo muito ousado, então nem mesmo me dei ao trabalho de tentar encontrar algum acessório que combinasse – embora estivesse certa de que verde-turquesa era a cor perfeita para... Ela.

A cozinha estava logo a esquerda da entrada que ficava ao final das escadas que levavam ao primeiro andar. Nunca havia visto um café da manhã como aquele antes, talvez, é claro, em novelas ou filmes, mas o sentimento de estar diante de uma mesa de café que parecia ter sido pintada pelo próprio Heda era completamente diferente.

Rapidamente me sentei, pronta para aproveitar tudo o que aquele sonho tinha a oferecer.

— Ah, você já está aqui. — a mulher que havia visto mais cedo entrou na cozinha de súbito, sem quaisquer cerimônias, e quase engasguei com o suco que tomava. Desta vez, ela segurava em uma das mãos as chaves do que parecia ser um carro — Vou te levar para a escola hoje.

Deixei que a fatia de bolo que estava comendo caísse de volta no prato. Não havia me inscrito para estudar até mesmo em estado alterado de consciência. Já não bastasse na vida real, nem mesmo dormindo teria descanso?!

Abri a boca para contestar, mas, "Minha" mãe – como decidi chama-la na ausência de um nome próprio – me calou com um simples olhar, tão frio quanto persuasivo.

Apenas minutos mais tarde, quando já não poderia mais voltar atrás, que finalmente me dei conta de que havia sido atada ao banco do passageiro e arrastada, desafiando a minha própria vontade, para dentro do carro a caminho da escola.

Tentei não me preocupar muito com aquilo. Talvez fosse um pouco de arrogância, mas me julgava mais do que capacitada para desaparecer antes que alguém se desse conta, dado meu talento inato para faltar a aula – embora estivesse bem ciente de que não era algo do que me orgulhar.

Não tanto para minha sorte, conforme nós aproximavamos, mais e mais ficava evidente o quanto a escola era pequena, especialmente se considerado que o ginásio ocupava praticamente um terço do terreno da instituição. Sabia que aquele era uma comparação injusta, mas estava mais familiarizada ao campus da faculdade que exigia uma caminhada de horas a fio para ser cruzado a pé.

Também não reservei muito esforço em disfarçar minha expressão de mais absoluto desgosto, certamente não era uma opção me esconder dentro de um armário até o fim do dia. Apenas peguei a bolsa ciano de alça longa jogada sobre assento e me arrastei até o pátio em passos lentos.

Felizmente, logo que entrei pude localizar uma estufa rodeada de árvores e uma cerca viva florida na extremidade oposta a entrada. Não parecia ser um lugar muito frequentado, e o clima agradável ao ar livre talvez fizesse com que me sentisse melhor.

Talvez aquele fosse um dia promissor...

— Belo corte. — ouvi uma voz suave em tom zombeteiro dizer enquanto parecia conter um riso. Naturalmente, me virei em direção ao som de forma instintiva, dando de cara com uma garota alta de pele morena e cabelos lisos escuros que iam até a metade de suas costas.

Talvez fosse uma característica particular àquele sonho, mas todas as pessoas que havia visto até então eram excepcionalmente atraentes para os meus padrões – não que isso significasse muito.

Normalmente apenas agradeceria o elogio com um sorriso cortez, exatamente como havia feito mais cedo naquela manhã, mas a visão daqueles olhos azuis travessos que pareciam rir de mim em silêncio me deixaram sem idéia do que dizer. Apenas pude perceber que as coisas se encaminharam para um espetáculo conforme mais e mais pessoas se juntavam ao redor.

Nunca havia sido uma pessoa particularmente sociável, mas aquele tipo de desdém era algo novo mesmo em meus 20 anos de experiência. Estava acostumada a passar despercebida, quando não ignorada, mas nada nunca havia me preparado para lidar com uma demonstração pública de desprezo tão gratuita.

Mas infelizmente, para o azar dela, eu tinha um talento distinto em agir com cinismo.

— Obrigada, eu também adorei! — não que estivesse mentindo, mas tive de me esforçar para sorrir de forma tão radiante quanto o possível, embora pudesse apostar que minha expressão mais beirava o sinistro. Tinha quase certeza que, se consideradas minhas habilidades praticamente inexistentes de atuação, minha performance havia sido um fracasso, mas os olhares de perplexidade a minha volta apontavam o contrário.

A garota em especial parecia especialmente atordoada, piscando os olhos arregalados repetidamente como se não quisesse ter certeza de que não estava diante de uma miragem. Quase tive pena do estado de confusão estampado em seu rosto, mas me impedi a tempo.

Talvez fingir loucura fosse um golpe baixo, mas me sentia no direito uma vez que nem mesmo sabia o que estava acontecendo.

— Se não gostou eu posso tentar deixar um pouco mais curto. — talvez incomodada com

minha reação adversa, ela disse uma segunda, dessa vez em voz baixa – um aviso discreto para voltar a mim e seguir com o roteiro que esperavam.

Sequer me atentei a aquilo, minha atenção havia sido completamente monopolizada pela insinuação implícita naquela fala. Inconscientemente levei as mãos aos cabelos e contive o riso, finalmente as coisas começavam a fazer sentido; ela havia os cortado.

"Priya teve a coragem de fazer isso..."

Quase como se minha mente adquirisse autonomia própria, o pensamento veio a mim de forma inesperada enquanto ainda me esforçava para processar aquele sentimento estranho que se apossava da mim, mesmo que não fosse meu.

Em um único instante, o mesmo sentimento de raiva e humilhação que havia sentido ontem varreu a razão de meu corpo.

— Você realmente quer tentar de novo? — não queria perder o controle, ainda mais quando tinha medo daqueles pensamentos, mas sentia queimar dentro de mim um impulso sarcástico e cruel, quase irresistível, de devolver o favor que ela havia me feito. Para a minha sorte, antes que tivesse tempo de fazer algo que resultaria em no mínimo três meses de prisão domiciliar, uma gargalhada sonora interrompeu meu fluxo de pensamento.

— O que houve ontem realmente mexeu com a sua cabeça. — imediatamente me virei em direção a entrada e observei de soslaio um garoto de cabelos pretos recostado contra a parede, rindo a plenos pulmões com uma única alça da mochila pendendo sobre um dos ombros.

Desviei o olhar sem realmente olhar seu rosto, talvez tomada pelo constrangimento, e me virei em direção ao prédio. Sentia a necessidade desesperadora de me esconder de todos aqueles olhares de troça que me cercavam e, em especial, da visão perturbadora daquele garoto que inexplicavelmente conseguia agir de forma ainda mais estranha do que eu.

Realmente era tão difícil assim ter um único dia de paz?!

Entrei na escola, me esforçando para combater a sensação de familiaridade com o ambiente ao meu redor ou da estranheza que sentia. Não tinha idéia de qual era o meu armário e a opção mais segura parecia ser procurar pela biblioteca em busca de um livro para preencher o ócio.

Era estranho pensar na hipótese da existência de uma história fictional que fizesse sentido dentro daquele sonho estranho criado pela minha mente – talvez nem mesmo fosse possível. Não contive o entusiasmo, não quando era tentadora demais a idéia de botar a teoria em prática.

— Ambre? — senti uma mão pequena puxar meu braço de leve e a preocupação genuína naquela voz me trouxe como um raio de volta a realidade — O que houve com você? Por que não atendeu nenhuma das minhas ligações?

Ver aquela a inquietação evidente em seu timbre me encheu de culpa, embora nem mesmo entendesse o porquê. Sequer havia conseguido desbloquear o único celular que havia encontrado durante a manhã, menos ainda recusado alguma ligação.

A garota entrelaçou seu braço ao meu e pude notar que ela era ligeiramente mais baixa, com olhos escuros amendoados e cabelos pretos perfeitamente lisos – ambos provavelmente de ascendência asiática – que tornavam difícil a tarefa árdua de me impedir de a achar fofa.

— Você ficou ainda mais linda! — ela disse com um leve sorriso apologético, quase angustiado, mas que fez meu rosto corar com a surpresa. Não estava esperando uma recepção tão calorosa logo após o que havia acabado de presenciar, mas ainda assim me senti abraçada por aquela demonstração crua de afeto.

Não pude deixar de notar que era nítida a percepção de que meu corte cabelo era um assunto delicado, embora tivesse uma vaga memória do incidente. Sabia que aquilo havia acontecido recentemente, possivelmente no dia anterior, e de forma especialmente traumática para de dizer o mínimo.

— Não ficou tão ruim assim, mas ainda acho que você ficava melhor com o cabelo longo... — uma garota de cabelos castanhos-claro, ordenadamente presos em um rabo de cavalo alto, disse com um sorriso discreto enquanto seu olhar afiado percorria meu rosto com um toque de divertimento.

Talvez minha expressão tenha sido muito dura, mas era simplesmente impossível conter o meu mais absoluto descontentamento com o comentário. Não que eu já houvesse me esquecido, mas aquele era apenas um pequeno lembrete da existência de uma das milhares de outras coisas que tornavam tão desgastante a experiência infernal de concluir o Ensino Médio – talvez a culpa nem mesmo fosse do colégio a si, a adolescência era um período conhecido por tornar praticamente todo mundo em alguém completamente insuportável.

A garota de cabelos negros franziu o cenho por um instante e apertou meu braço com mais força, em um aviso silencioso para que ela não continuasse, e usei sua reação como uma deixa para sair discretamente.

— Eu vejo vocês na aula, preciso resolver algo antes do primeiro horário. — menti com um sorriso amigável, em busca de uma desculpa para sair dali. Sequer dei tempo que para que tentassem me impedir, apenas me apressei em direção ao fim do corredor como se estivesse ocupada ou distraída.

Ao fim da galeria havia uma escadaria, alguns armários e três portas que não sabia para onde levavam. Me coloquei na ponta dos pés e espiei através da divisória transparente de acrílico no topo de uma delas, em uma tentativa de ver o que teria lá dentro. Quase soltei um suspiro de alívio quando vi uma série de mesas e prateleiras enfileiradas do outro lado.

Não que estivesse reclamando, mas a última coisa que esperava era encontrar a biblioteca tão facilmente. Meus lábios naturalmente se curvaram em um sorriso discreto, talvez a sorte finalmente estivesse começando a sorrir para o meu lado, mas, sorriso esse que rapidamente morreu ao levar uma das mãos a maçaneta e me dar conta de que estava trancada.

Aquela altura já nem mesmo sabia porquê ainda tentava, nada nunca acontecia de acordo com o planejado.

Ambre! — já pela terceira vez naquele dia alguém chamou por aquele nome estranho, desta vez, uma voz masculina enfurecida. Uma onda de pânico atravessou meu corpo e senti meu estômago dar um giro completo, e puxei a primeira porta destrancada que vi diante de mim.

Não tinha certeza do que estava com medo, daquela voz que parecia ter atingido o limite da razão, ou da perspectiva exaustiva de ter de engajar em mais uma conversa confusa com pessoas que nem mesmo me lembrava do nome mas que pareciam conhecidos de longa data.

Fechei os olhos e me sentei contra a porta prendendo a respiração, a espera de que esse pequeno ato pudesse impedir que outras pessoas entrassem, por mais bobo que fosse... Tudo aquilo era simplesmente tão cansativo. Odiava a sensação de ignorância ao ver o quão familiar era tudo a minha volta, absolutamente incapaz de me recordar de sua origem.

Abri os olhos com um suspiro enquanto tentava encontrar algum conforto no ato de observar os arredores do lugar. Não havia me dado conta antes, mas estava sentada no topo de uma escadaria estreita, cercada por paredes dos dois lados, que dava acesso a um porão escuro. Encostei a cabeça contra a parede, o lugar seria perfeito, se não fosse pelo cheiro pungente de nicotina espalhado pelo ar.

Não tinha era particularmente muito versada no campo da saúde, mas tinha quase certeza de que um andar subterrâneo sem ventilação ou saídas de ar era literalmente o pior lugar possível se acender um cigarro.

Tossi com força me sentindo sufocada pela fumaça, era praticamente como estar parada logo em frente ao escapamento de um caminhão. Para a minha sorte, ou não, o som pareceu atrair a atenção da exata fonte do problema em questão.

— Lynn? Você esqueceu alguma coisa?

— Me desculpe, eu não sabia que já tinha alguém aqui. — disse ao me levantar e me apressar em direção a saída. Não tinha energia para lidar com ninguém no momento, e menos ainda vontade de continuar ali e sufocar até a morte. Apenas gostaria de alguns minutos de silêncio para organizar meus pensamentos, de preferência em um ambiente com ar puro, mas, aparentemente, até mesmo aquilo era pedir demais.

Estava prestes a sair, mas meu corpo congelou com a visão de um garoto de cabelos ruivos e olhos cinzentos, com seu rosto atraente distorcido em uma careta atroz de desgosto, parado de pé ao fim da escada com os braço cruzados. Era impossível que houvesse me esquecido daquele rosto, o rosto que praticamente havia idolatrado durante toda a minha adolescência e que agora olhava diretamente em meus olhos com desprezo.

— Castiel?!

— Eu já te disse para não vir aqui. — era inegável o tom agressivo daquela constatação. Tentei rir como se para aliviar o peso do absurdo, mas o ar parecia preso em meus pulmões.

Havia enlouquecido, tinha certeza. Na realidade, até preferia que fosse esse fosse o caso.

Senti minhas pernas falharem enquanto todas as pequenas peculiaridades que havia notado naquele sonho se uniam em um grande quebra-cabeça dentro da minha mente. Eu me lembrava daquele jogo, tão bem que chegava a ser ridículo que não houvesse me dado conta de onde estava antes.

Amor Doce.

Já não me sentia surpresa com a hostilidade que havia presenciado até então, muito pelo contrário, estava quase feliz de finalmente entender onde estava, se não fosse pelo papel miserável ao qual havia sido submetida.

Meus cabelos eram loiros e meus olhos turquesa... Não é?!

Aos poucos, a visão dos cabelos ruivos de Castiel era substituída por um borrão branco que engolia todo o ambiente ao meu redor. Talvez tudo aquilo ainda fosse um sonho – ou melhor, um pesadelo – do qual estava prestes a acordar, tentei me convencer a crer.

Toda aquele desprezo e ressentimento...

De todos os personagens possíveis, realmente tinha de ser.... a Ambre?!