I Became the Villainess of my Favorite Otome Game!
3 Capítulo III – Uma Estranha Familiaridade
Mal conseguia ver algo através do grosso véu de lágrimas que cobria meus olhos, mas ainda sentia a dor dos grãos areia arranhando meus joelhos enquanto segurava uma boneca estragada em minhas mãos, remoendo toda a raiva que sentia.
— Eu te odeio! — tentei gritar, mas o som que saiu de meus lábios mais se parecia com um guinchado cortado ao meio por um soluço que se misturava ao choro. O sorriso convencido do garotinho diante de mim falhou pelo o que pareceu apenas um breve instante em que ele abaixou os olhos, chutando silenciosamente para o lado um pouco da areia sob seus pés.
— Você realmente faz uma cara horrível quando chora... — o garotinho loiro apenas deu de ombros e se afastou, incomodado, como se simplesmente houvesse perdido a última migalha de interesse que tinha em mim enquanto algo como culpa começava a pesar sobre seus ombros.
O que apenas adicionou ainda mais combustível a minha raiva.
— Nathaniel! — gritei erguendo a boneca em minhas e usando toda a força que tinha para atirá-la em direção ao garoto. A cabeça amassada de plástico voou em um arco desajeitado em direção a seu alvo, caindo sobre o chão a alguns centímetros do garotinho que apenas estalou a língua no céu da boca e a chutou para mais longe ainda antes de ir embora.
Tive de morder minha língua para conter um grito de raiva após errar o ataque antes de me sentar novamente sobre o chão e abraçar minhas pernas contra o peito, tentando esconder meu rosto inchado de lágrimas contra os joelhos avermelhados cheios de areia.
Nunca havia sido capaz de compreender que tipo de entretenimento Nathaniel via em me importunar até que chorasse e saísse correndo para os braços de algum de nossos pais sempre que se sentia frustrado. Havia demorado anos até que me desse conta do que fazia aquilo doer tanto.
Chorava não apenas pelo brinquedo, mas não também pela realização dolorosa do ressentimento profundo expresso por meio daquele ato, mesmo que na época ainda não o compreendesse.
Mas sem sombra de dúvidas, o que doía ainda mais era não ter ideia do que havia feito para merecer aquilo.
— Ei, você. — me surpreendi ao ouvir alguém próximo a mim andando sobre a areia, fazendo com que levantasse minha cabeça em um sobressalto ao sentir um súbito cutucão em meu ombro esquerdo — Olha aqui.
Pouco ou nada pude distinguir através dos olhos inchados além do que parecia ser uma silhueta da minha altura de cabelos pretos.
— Se a cabeça soltar de novo é só encaixar de volta no lugar...
A cabeça da boneca se encaixou de volta ao corpo com um estalo, e o som me surpreendeu o suficiente para que parasse de chorar e olhasse para o que o garoto havia feito. Pisquei os olhos algumas vezes enquanto tentava enxergar através das lágrimas, silenciosamente processando meu estado anterior de choque ao mesmo tempo em que buscava compreender o que havia acontecido.

O garotinho me devolveu a boneca com o que julguei ser um sorriso discreto através do denso véu de lágrimas que envolvia meus olhos. Mal fui capaz de reconhecer seu rosto, mas algo naquele pequeno gesto fez com que meus soluços morressem e que os arranhões em meus joelhos deixassem de doer por um momento...
◦ • ◆ • ◦
— Ambre...
Mais uma vez aquele maldito nome... Mas estranhamente, ele já não me incomodava.
Abri os olhos com certa dificuldade em razão do desconforto com a luminosidade do ambiente. Não sabia ao certo o que esperava ver, ou se realmente queria ver algo, mas conforme minha consciência aos poucos voltava a mim, ficava mais e mais claro que a única certeza que tinha era que precisava acordar daquela memória.
Tudo ao redor parecia girar em torno de mim, como se estivesse no olho de um furacão, de forma que não pude distinguir muito mais do que um emaranhado de cabelos loiro-claros diante de mim.
— Ambre...!
Não que isso importasse. Apenas o som daquela voz já me era familiar o suficiente.
— Nathaniel! — sem aviso prévio, me precipitei em direção a seus braços e o abracei com força apesar da fraqueza ainda presente em meu corpo; como se reencontrasse pela primeira vez em anos um sentimento do qual havia me esquecido.
Minha cabeça ainda dava voltas enquanto breves vislumbres das memórias caóticas de Ambre se misturavam a meus pensamentos – ou talvez minhas próprias memórias. Por um momento houve confusão e então medo, até que subitamente senti como se parte do elo que me prendia a realidade houvesse sido partido e nada mais fizesse sentido em minha mente.
Minhas mãos ainda tremiam quando inconscientemente se agarraram a algo, cravando as unhas no tecido amassado entre meus dedos em um esforço desesperado de encontrar algo que pudesse responder à esses questionamentos sem enlouquecer no processo.
— Ambre...? Ambre! — Nathaniel me chamou, com um discreto toque de preocupação em sua voz que normalmente teria passado despercebido em seu tom, ao sacudir meus ombros levemente, fazendo com que me desse conta de meus dedos estavam cravados em seu braço.
— Eu... Sinto muito. — tentei me desculpar em um primeiro momento, mas uma pontada de dor na lateral da minha cabeça me calou.
Novamente tentei me levantar, tão rápido que por instante pensei que desmaiaria de novo, mas foi então, dor, dor física, que me atingiu; dor que não deveria existir em um sonho – dor que era real.
O bater frenético do meu coração parecia ressoar em meus ouvidos, alto o suficiente para que não ouvisse mais nada.
Real... Aquilo era real.
Não havia me dado conta, sequer fui capaz de me assustar ao sentir algo úmido pingar em meu colo. Completamente alheia a meus arredores, como um observador flutuando além do meu próprio corpo, apenas consegui encarar fixamente a mancha vermelha em minhas roupas conforme um medo irracional aos poucos silenciava meus pensamentos tumultuosos...
Nada daquilo fazia sentido...
Apenas continuei encarando a mancha escura que crescia conforme mais e mais gotas daquele líquido pegajoso caiam em câmera lenta bem diante dos meus olhos. Absolutamente imóvel, como se estivesse diante de um fenômeno sobrenatural inexplicável o qual a simples razão não poderia compreender.
Tentei levar uma das mãos ao rosto, ainda sem entender o que estava acontecendo, mas foi terror, genuíno terror, que dominou meus sentidos ao tocar com as pontas dos dedos trêmulas algo úmido sobre meus lábios. Apenas sua textura plasmática pode lançar um arrepio através de minha espinha, contraindo todos os músculos do meu corpo.
Queria respirar, queria desesperadamente, mas o cheiro de algo ferroso como a terra parecia impregnado aos meus pulmões.
— Seu nariz está sangrando... Você bateu a cabeça. — sangue. Foi como se sentisse meu estômago dar um giro completo quando por fim me dei conta do que era aquela coisa vermelha encrustada aos meus dedos. Até então, nunca havia me considerado alguém facilmente impressionável, mas foi como se houvesse sido, pela primeira vez na vida, introduzida a um novo tipo de fobia.
Me esforcei além da minha própria compreensão para racionalizar a situação à minha volta sem enlouquecer durante o processo – esforço que facilmente teria me custado a sanidade em circunstâncias normais, mas que pareceu suportar o golpe com o restante de suas forças.
A última coisa da qual me lembrava era de ter caído no sono; algo tão trivial que normalmente nem sequer seria digno de nota, mas que inexplicavelmente havia me levado a uma realidade completamente diferente ao abrir os olhos.
Sabia que não estava sonhando e apenas a consciência disso já o tornava um fato em si mesmo. Ou ainda pior, talvez estivesse alucinando? Apesar de me parecer improvável, se realmente houvesse perdido a razão, eu provavelmente seria a última pessoa a desconfiar daquilo.
Talvez se dormisse de novo tudo voltaria a seu devido lugar e então acordaria sem que me lembrasse de nada... Mas apesar das tentativas de racionalização, no fundo, eu sabia que mais do que algo a ser considerado, aquela era apenas uma possibilidade agradável a qual quis me apegar apesar de todas as suas possíveis contradições.
Mesmo que em alguns momentos odiasse as longas noites de estudo em claro e tivesse pesadelos recorrentes com o som infernal para erro crítico de síntese ao rodar um código novo de míseras 5 linhas... Aquela ainda era minha vida e a única realidade que eu conhecia.
— Ambre! — apesar de estar ao meu lado, senti o peso de um par de mãos sobre meus ombros ao ter meu corpo agitado violentamente e apenas então fui atingida pela falta de ar ao ver seu rosto – e a preocupação evidente no semblante ansioso de Nathaniel certamente era o última coisa que eu esperava.
Não havia percebido, mas como poderia? Estava perturbada demais até mesmo para me lembrar de respirar.
O toque trêmulo de seus dedos pareceu me lembrar daquilo e instintivamente senti meus pulmões inspirarem com força, tragando uma lufada de ar com pressão acumulada o suficiente para que sentisse uma pontada de dor em meu peito.
Era horrível...
Choraria se tivesse fôlego para tanto, mas meus pulmões haviam me abandonado.
— Fique parada. — com a mão livre ele pegou um lenço levemente amarrotado do bolso e limpou o sangue que já se acumulava em meu rosto suavemente, trabalhando com a mesma delicadeza com que se cuidaria de uma criança — Se não estiver se sentindo bem, você pode deitar mais um pouco.
Fui pega de surpresa pela gentileza em sua voz e com o cuidado com que ele pousou minha cabeça dolorida em uma blusa de frio dobrada sobre o sofá para que não me sentisse desconfortável.
Fechei os olhos e inspirei, desta vez com mais calma, enquanto uma sensação de conforto agradável induzida por sua voz tranquila me envolvia. Queria acreditar que nada daquilo, nem mesmo aquela paz, eram reais, mas a fisgada latejante de dor na lateral da minha cabeça parecia rir silenciosamente do meu estado atônito de confusão.
— Me desculpe... Eu realmente não queria ter te assustado mais cedo. — Nathaniel disse lentamente e meus pensamentos imediatamente se voltaram para a memória sensorial de uma voz alterada chamando por aquele nome, alto o suficiente para que meu corpo entrasse em estado de pânico — Eu não devia ter gritado com você...
— O que houve exatamente?
— Eu não sei, você apenas desmaiou e Castiel te trouxe até a sala do grêmio. — Nathaniel apenas suspirou, ansiosamente deslizando os próprios dedos pelas mechas louras que caiam sobre o franzir angustiado em sua testa — Ambre, eu realmente espero que você não tenha parado de comer de manhã de novo...
— De novo? — repeti as palavras logo após ele em tom de descrença antes de negar com um leve balançar de cabeça — Não, não foi esse o caso. Já estou me sentindo melhor.
Nathaniel pareceu descrente na resposta e por um momento tive a impressão de que ele estava prestes a me questionar, mas então seus lábios se fecharam em uma fina linha e ele balançou a cabeça contrariamente antes de prosseguir com resignação — Eu liguei para Adelaide avisando que você não estava se sentindo nem. Ela disse que viria te buscar assim que terminasse o ensaio.
— Adelaide? — Mãe?! A realização me atingiu de sobressalto, junto de uma súbita ansiedade que eu não sabia ao certo identificar a causa. Eu conhecia esse sentimento embora não soubesse explicar o porquê – era medo — Você não deveria...
— Eu fiz o que deveria fazer, Ambre. — Nathaniel insistiu, sua voz endurecida pelo ressentimento ainda latente que a menção daquele nome carregava — Gostaria de te acompanhar até a entrada, mas espero que entenda meus motivos.
Instintivamente, abri a boca para responder, mas nenhum som ousou se precipitar por entre meus lábios e, por fim, apenas abaixei a cabeça e concordei silenciosamente com um aceno angustiado ao me levantar. Nathaniel então se virou sem mais uma palavra, desviando sua atenção para uma pasta qualquer, abrindo-a despretensiosamente e escaneando seu conteúdo. Era um gesto ao qual faltava naturalidade, forçado, quase penoso e eu imediatamente soube que aquele era o momento de ir embora.
Senti uma fisgada de arrependimento ao sair da sala do grêmio e me ver imediatamente diante da silhueta encurvada de um garoto de cabelos vermelhos recostado contra a parede, correndo os dedos distraidamente sobre a tela do celular enquanto esperava logo ao lado da porta da sala dos professores.
Era natural que me sentisse culpada, embora soubesse racionalmente que não poderia ter evitado aquela queda se considerado o estado desesperante de mais absoluto choque que me levou a ela. Pelo menos agradeceria
— Castiel... — chamei seu nome de forma suave, mas antes que pudesse dizer algo fui atropelada por uma repreensão que sequer era merecida.
— Se esse é o seu novo método para tentar chamar atenção é melhor você não voltar ao porão. Do contrário, não espere que eu te pegue se cair uma segunda vez. — ele disse ao dar de ombros de forma grosseira, me fazendo piscar silenciosamente por alguns instantes. Em circunstâncias normais, talvez apenas o tivesse ignorado e seguido em frente se não fosse pelo olhar prepotente de desprezo que varreu minha figura de cima abaixo, atirando janela afora a vontade inocente que eu tinha de o agradecer.
— Não que você tenha feito muito coisa, para começo de conversa. — cuspi aquelas palavras antes que pudesse me arrepender delas. Sentia como se algo dentro de mim queimasse mesmo que não soubesse o que. Simplesmente não conseguia entender o porquê de todos agirem daquela forma, não havia uma única pessoa descente naquela escola.
Estava irritada, chateada e talvez até cega por um breve surto de competitividade, de forma que quis devolver seu comentário na mesma moeda, mas com uma dose extra de antipatia. Afinal, me parecia bem mais crível a hipótese de que Castiel apenas havia me pego de forma reflexiva do que movido por uma preocupação genuína com a integridade física alheia, com a qual ele nitidamente não parecia se importar.
Castiel pareceu genuinamente surpreso por um breve instante, piscando os olhos rapidamente, como se jamais houvesse imaginado que um comentário tão gentil quanto o seu pudesse provocar esse tipo de reação em alguém. Castiel apenas ergueu uma sobrancelha ao colocar uma mão na cintura, lançando a mim um meio-sorriso irônico com um toque de escárnio.
— Uau, é assim que você agradece alguém que te salvou de uma queda? — sua reação apenas serviu para alimentar meu momentâneo surto de ódio. Se eu me arrependia de algo, era de não ter o levado comigo escada abaixo quanto a oportunidade se fez presente.
— Um péssimo trabalho pelo o que eu pude constatar. — não poderia, tanto que não quis, me abster de uma remarcação sarcástica ao apontar para o tufo de algodão que estancava o sangramento em meu nariz. Me parecia justo dizer que sequer de uma queda ele havia me salvado.
— Sabia que ia me arrepender de ter te ajudado, mas eu não esperava que isso fosse acontecer tão cedo. — apenas houve silêncio por um breve instante em que ergui uma sombrancelha de volta para ele com o cenho franzido, contemplando a tentadora possibilidade de se fazer uso da boa e velha força bruta para o fazer calar a boca.
Tinha quase certeza de que aquilo era consequência de todos os anos que havia envelhecido desde aquela fase, ou do fato de que estava no corpo de Ambre e consequentemente em uma posição especialmente indesejável somada a uma dor latejante na lateral da cabeça. Em ambos os casos, era justo dizer que apenas fazia questão de retribuir sua sutil demonstração de gentileza – por mais infantil que isso fosse.
— Não espere que eu te agradeça por isso. — talvez no final das contas apenas estivesse procurando uma desculpa para não ter de admitir que era apenas uma pessoa incrivelmente rancorosa, mas não que isso realmente importasse.
Teria continuado, mas senti alguém colocar uma mão hesitante em meu ombro, como um conselho silencioso para que não dissesse algo do qual poderia me arrepender depois. Ao me virar, vi o rosto surpreso de Nathaniel, ainda meio tenso pela conversa que havíamos acabado de ter, mas inegavelmente atordoado.
Se bem me recordava do enredo original do jogo, já havia um longo histórico de desavenças entre eles, de forma que não era difícil compreender o esforço sobrehumano de Nathaniel ao esconder a sútil satisfação mórbida que brilhava por detrás de seus olhos.
— Você é realmente insuportável! — Castiel se virou enfurecido, marchando em direção a escadaria no fim do corredor com um semblante perturbado. Apenas então Nathaniel retirou a mão de meu ombro e me olhou como se fizesse um questionamento silencioso implícito, mas eu apenas desviei o olhar e ele felizmente acatou o gesto.
— Adelaide me pediu para te avisar que ela teve um imprevisto no estúdio. — ele anunciou e algo como alívio imediatamente tomou meu peito embora soubesse que deveria me sentir chateada — Como ela não pode vir eu te levo até em casa... Apenas me dê um momento para arrumar a sala...
— Não! — eu o interrompi apressadamente, não queria ser apenas mais um incômodo para além de todos os problemas que já havia causado em um único dia. Por outro lado, sabia que Nathaniel dificilmente aceitaria ser contrariado mesmo que ele tivesse outras responsabilidades para atender, então optei por uma saída diplomática mesmo que desajeitada — Eu posso esperar por você na biblioteca até o fim da aula e então voltamos juntos.
— Ambre... — ele apenas chamou meu nome de forma quase repreensiva, claramente descontente com minha sugestão, mas também preocupado.
— Por favor...! — insisti aflitamente e após um longo momento encarando um ao outro com incerteza, ele recuou. Tive de conter uma pequena risada, havia algo de estranhamente familiar naquele dinâmica, como se ambos nós já estivéssemos acostumados em contrariar um ao outro e Nathaniel sempre cedesse no final.
— Tente não causar mais nenhum problema se possível. — Nathaniel avisou ironicamente antes de retornar para a sala do grêmio com um ar de derrota.
Rapidamente pude notar que apesar da atitude distante e da implicância discreta, era nítido que ele se importava e logo senti um breve sorriso surgir em meu rosto antes de se desfazer em um instante. Nunca havia tido irmãos antes e logo não pude deixar de me perguntar amargamente se é assim que é ter alguém que, apesar de todos os pesares, realmente se importa com você.
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